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L ES INCERTITUDES

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CHAPITRE II LES MÉTHODES D’ÉVALUATION DES RISQUES

V. L ES INCERTITUDES

No ensaio “Sobre o programa para uma filosofia porvir”16, de 1918, Benjamin propõe à filosofia uma reconfiguração do conceito de experiência que leve em conta as dimensões da temporalidade e da linguagem. Segundo ele, Kant, à luz do Iluminismo, não foi capaz de pensar com amplitude o significado da experiência humana. À filosofia do futuro caberia, portanto, considerar as contribuições do pensamento kantiano, selecionando nele o que se sustentaria e o que precisaria ser reconfigurado. A meta de tal exercício seria a constituição filosófica de uma noção de experiência mais elevada e profunda.

Esse novo conceito de experiência é aprofundado por Benjamin no ensaio “Sobre alguns temas em Baudelaire”, de 1939, no qual relaciona a experiência verdadeira com a dimensão da memória. Para tanto, recorre a autores como Bergson, Freud e Proust. De maneira geral, essa experiência (Erfahrung) profunda e elevada configura-se na dimensão do inconsciente, consistindo no conhecimento obtido através do acúmulo, do prolongamento, do desdobramento temporal das experiências vividas. Nesse sentido, ela se apresenta sempre vinculada às noções de temporalidade, duração e memória. Ao consciente só é possível uma experiência de choque, cujas marcas não se imprimem no inconsciente, não resultando em trauma, e nem em experiência verdadeira.

Em “Experiência e Pobreza”, de 1933, Benjamin conta a parábola do pai que – em seu leito de morte – revela aos filhos a existência de um

16 “Sobre el programa de una filosofia venidera”, Walter Benjamin (1918). Traducción

tesouro enterrado em seu vinhedo. Eles cavam, porém nada encontram. No entanto, com o tempo as terras aradas pela busca produzem mais frutos que quaisquer outras da região. Os filhos compreendem que uma experiência lhes foi transmitida pelo pai moribundo: “a felicidade não está no ouro, mas no trabalho duro”. Ao considerar a essencialidade da tradição na configuração da experiência, Benjamin lança um olhar romântico para o passado (LÖWY, 2005), para uma época em que, através de narrativas e provérbios, os mais velhos transmitiam algo de valor elevado e profundo aos mais jovens. Ele questiona:

Que foi feito de tudo isso? Que moribundos dizem hoje palavras tão duráveis que possam ser transmitidas como um anel, de geração em geração? Que é ajudado, hoje, por um provérbio oportuno? Quem tentará, sequer, lidar com a juventude evocando sua experiência? (BENJAMIN, 2012, p. 123).

Benjamin relaciona a extinção da figura do narrador ao desaparecimento da experiência. A imagem benjaminiana que primeiro ilustra esta constatação é a dos soldados que retornam da guerra de trincheiras vazios de experiências comunicáveis. Parece-lhe duro conceber que uma geração que foi à escola em bondes puxados a cavalo, ou seja, que comungou ainda do tempo da experiência compartilhada através das gerações, que antecede o “monstruoso desenvolvimento da técnica” (op. cit., p. 124), se veja impossibilitada de transmitir algum tipo de sabedoria resultante da vivência da guerra. As consequências da guerra, como aponta Meinerz (2008, p. 32), prolongam-se para além do conflito armado: perduram as mutilações permanentes no corpo, a destruição dos laços familiares, doenças psíquicas, degradação ambiental. Foi, portanto, num cenário de crise que Benjamin diagnosticou a queda na cotação da experiência. A primeira guerra mundial representa, possivelmente, o grande marco de ruptura que possibilitou aos pensadores da época um olhar para um período que, pouco antes, não era considerado tempo do passado. Ainda sobre as ruínas e escombros deixados pela guerra de trincheiras, o nazismo começou a se erguer na Europa, compondo o contexto no qual “Experiência e Pobreza” e “O Narrador” foram escritos. Os horrores das tecnologias de guerra, capazes de destruição em massa, não surpreendem no poder de estraçalhar a experiência. Impressiona, porém, aos leitores de Benjamin, a atualidade de seu pensamento nos tempos aparentemente pacíficos da

contemporaneidade: como observou Agamben, a convivência cotidiana nas grandes cidades potencializa a soberania da vivência sobre a experiência tanto quanto o estado de emergência:

Pois o dia-a-dia do homem contemporâneo não contém quase nada que seja ainda traduzível em experiência: não a leitura do jornal rica em notícias do que lhe diz respeito a uma distância insuperável; [...] não a fila diante dos guichês de uma repartição ou a visita ao país de Cocanha do supermercado nem os eternos momentos de muda promiscuidade com desconhecidos no elevador ou no ônibus. O homem moderno volta para casa à noitinha extenuado por uma mixórdia de eventos – divertidos ou maçantes, banais ou insólitos, agradáveis ou atrozes – entretanto nenhum deles se tornou experiência (AGAMBEN, 2005, p. 22). Além da pressa que o cotidiano e os modos de produção impõem atualmente, Meinerz (2008, p. 15) atribui o desaparecimento da experiência na sociedade moderna à atomização dos indivíduos, que apesar de se conectarem virtualmente, isolam-se em pequenos mundos pessoais e enquadram-se nos espaços funcionais da arquitetura contemporânea. A autora atenta para o fato de que, nas sociedades primitivas, a experiência era rigorosamente comunitária: ritos e mitos tinham importância central e eram transmitidos através das gerações. É justamente essa experiência, cujo valor reside na tradição, que Benjamin diagnostica como que em processo de extinção.

Compreender a experiência (Erfahrung) benjaminiana exige posicioná-la em contraponto à vivência (Erlebnis). Enquanto a experiência sustenta-se na rememoração, no vínculo com uma ideia duradoura do tempo, a vivência tem suas raízes fincadas no instante presente; diz respeito às ações práticas da vida cotidiana, reações aos estímulos do exterior que prescindem do retorno imagético ao passado. A memória importa, à vivência, somente enquanto guardadora do aprendizado dos hábitos e conhecimentos necessários para a reação imediata. Numa aproximação com o pensamento de Bergson (1990), a memória importante à vivência benjaminiana seria aquela que o autor denomina de memória-hábito.

Benjamin (1994, pp. 104-105) cita Matéria e Memória, de Bergson , em posição de destaque entre as obras que tinham como objetivo se apropriar da “verdadeira” experiência, em contraponto àquela da vida

normatizada, desnaturada das massas civilizadas. Para ele, é a que mais se aproxima da investigação científica, até porque se orienta a partir da biologia. Em Matéria e Memória, Bergson distingue dois tipos de memória que, segundo ele, são profundamente distintas. Uma delas está fixada no organismo e diz respeito ao hábito adquirido, através da experiência e repetição. É essa memória-hábito que permite decorar um texto ou dirigir um carro, girar a chave na fechadura, reproduzir passos de dança e demais ações cotidianas da vida humana que desempenham a experiência passada, mas, para o autor, não evocam a sua imagem. Chaui (2006) dirá que estes gestos e palavras apreendidos pela memória-hábito são realizados por nós quase sem que pensemos neles – ou mesmo sem que pensemos neles, de maneira automática.

No ensaio “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, de 1936, Benjamin retoma a questão do hábito e da memória consciente para falar das novas formas de experiência possibilitadas pelos modos de percepções coletivas da contemporaneidade. Ele evoca a imagem do indivíduo que se movimenta pelo espaço ao qual já está habituado, pela repetição da ação de perpassá-lo. Tal movimento é da ordem da percepção tátil e a experiência possível se configura pela distração. Para Benjamin, as novas formas de arte devem exigir de seu público justamente isso: a distração – que seria a maneira possível de desativar a proteção que o uso constante da consciência levanta contra o trabalho do inconsciente. Se a pintura, forma de arte presente na experiência dos séculos passados, exigia recolhimento e isolamento do observador diante da obra para incorporar-se à experiência de tal, o cinema e a arquitetura não prescindem da distração. “Quem se recolhe diante de uma obra de arte mergulha dentro dela e nela se dissolve... A massa dispersa, pelo contrário, faz a obra de arte mergulhar em si, envolve-a com o ritmo de suas vagas, absorve-a em seus fluxos” (BENJAMIN, 2012, p. 208).

Observando do ponto de vista da psicanálise, Kehl (2009) faz uma releitura da obra de Benjamin, na qual descreve a vivência como residente fixa da consciência e representante de uma fração muito pobre do trabalho psíquico. Sua oposição à experiência reside essencialmente no fato de que “a consciência, quando excessivamente solicitada, encarrega-se de bloquear a ligação com as marcas mnêmicas – como se pudesse, dessa forma, ater-se ao puro instante presente” (op. cit., p. 131). Essa soberania da vivência sobre a experiência, como resultado de um mundo de estímulos constantes e esquecimento quase que imediato, Kehl afirma resultar num vazio interior, num empobrecimento do espírito. Trata-se, segundo ela, de um tempo morto, em que dias iguais se sucedem,

preenchidos por tarefas repetitivas que exigem contato em proporções cada vez mais insignificantes com o passado.

Sob essa perspectiva, reside a constatação de que a soberania da vivência esvazia a memória. Para que a experiência se configure, Benjamin reivindica a necessidade do tédio: “o pássaro onírico que choca os ovos da experiência” (2012, p. 221). Diferentemente da vivência, que habita a consciência, a experiência não prescinde do pensamento inconsciente, como explica Kehl. Segundo a autora, o tempo não é apenas construção social, mas também “condição ontológica do psiquismo” (2009, p. 111). Deste modo, a pobreza do espírito reside na existência construída apenas na vivência imediata.

Quanto maior é a participação do fator de choque em cada uma das impressões, tanto mais constante deve ser a presença do consciente no interesse em proteger contra os estímulos; quanto maior for o êxito com que ele operar, tanto menos essas impressões serão incorporadas à experiência, e tanto mais corresponderão ao conceito de vivência (BENJAMIN, 1994, p. 111).

A experiência possível nesta existência é a de choque (Chokerlebnis), definida por Freud e citada por Benjamin no ensaio “Sobre alguns temas em Baudelaire”. Por sua demanda constante do consciente, esta forma de relação com o mundo não imprime suas marcas na memória profunda.

A constatação de Benjamin é a de que a incapacidade da vida cotidiana de se traduzir em experiência torna a existência insuportável. Se agora, é no cotidiano que ela se dissolve, nos tempos passados, era justamente nos eventos cotidianos que residia a matéria-prima da experiência intercambiável – principalmente através da figura da autoridade. Essa última perda pode ser percebida no aparente desaparecimento das duas fontes de onde o narrador beberia a história oral: o camponês sedentário, que se encarrega de reconhecer e transmitir as tradições dos antepassados; e o marinheiro comerciante, aquele que tem muito a contar em virtude de suas viagens longínquas (BENJAMIN, 2012). Ambas as figuras fazem uso da memória como aspecto fundamental, sem o qual não teriam imagens do passado para passar adiante. De todas as perdas que o processo de esgotamento da experiência acarreta, porém, Meinerz (2008) aponta a supressão da memória do indivíduo e a perda do sentido da história como uma das maiores. O

interesse em conservar o que foi narrado era o que constituía o vínculo entre ouvinte e narrador.

2.3. O jornal do interior como possível espaço de

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