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2.2. L214.com, point de convergence du parcours de l’engagement

2.2.3. L’incarnation du militantisme sur L214.com

Entrevista concedida em 15/06/2012 na colocação Taquari, Resex Chico Mendes, Município de Xapuri/AC. Idade: 36 anos.

Eu sou Joao Batista Ferreira da Silva. Eu quase nasci e me criei aqui nessa colocação. Digo quase, porque quando eu era bem pequeno fui para uma outra colocação ali para o beiço do Igarapé Espalha (os seringueiros utilizam a expressão beiço quando querem dizer que algo fica perto, na beirada, no beiço). Depois voltamos para cá de novo. Eu era bem pequeno ainda. Mas quando eu me entendi de gente meu pai já cortava seringa e eu continuei com a mesma tradição que ele fazia. Cortar seringa, e também quebrar castanha. Então as coisas foram se desenvolvendo.

Depois arrumei família e construi esse meu lugarzinho aqui. Tenho uma família bem grande, um bocado de filho. E as coisas melhoraram muito em vista do antigamente. O acesso ao ramal melhorou. Não é muito bom, mas trafega de inverno a verão. Em seguida teve a luz no campo (programa do Governo Federal que levou energia para a floresta) que tira várias necessidades da gente. Depois da luz a gente passou a beber água gelada, lavar a roupa numa máquina, ver uma novela, uma notícia, um jornal na televisão.

A criação da fábrica de camisinhas em Xapuri junto com o incentivo do governo melhorou demais a vida da gente (quando falou de incentivo, referia-se a um subsídio pago pelo Governo Estadual pela produção de borracha). A saúde, a educação também melhorou. A gente não tem um ramal de boa qualidade, mas de 40 em 40 dias o pessoal da saúde vem fazer uma visita aqui. Aqui e acolá temos um atendimento de saúde. O pessoal da educação também faz palestras com pais de alunos, dizendo como deve ser e como é que não é. Eu não sou muito antigo, muito velho assim, mas com a experiência que tenho posso dizer que melhorou muito as coisas aqui.

Aqui na colocação todos os anos eu corto seringa. Mas quem trabalha com roçado só vai cortar seringa quando termina todo o serviço da lavoura branca né, quando termina de colher o arroz, plantar o feijão. Depois disso nós começa a cortar seringa. Nessa época eu começo (referia-se a junho). Todo dia levanto cedo, dou comida aos bichos e vou para o roçado, ou vou cortar seringa. Na castanha também é o mesmo processo também. A gente aqui é, vamos dizer assim: extrativista. Aqui é borracha, castanha. Mas vendemos animais também, um porco, uma galinha, é assim. (Silenciou)

O divertimento aqui é muito difícil. Só quando tem uma festa na comunidade. Dia de domingo é uma bola na comunidade (jogo de futebol). Tem umas festas, mas é difícil.

E a igreja, o senhor frequenta?

Eu sou católico e frequento na comunidade a igreja de quinze em quinze dias. Muitas vezes o padre de Xapuri vem, aí tem missa. Nós frequenta de quinze e quinze dias com as pessoas que são responsáveis pela igreja aqui na comunidade (quando se refere a comunidade, quer dizer, um conjunto de colocações próximas. Geralmente tem uma colocação sede onde fica a escola, às vezes um posto de saúde, um campo de futebol e um local para encontro religiosos).

Perguntado sobre o que espera do futuro, respondeu?

Eu espero que a coisa melhore por aqui. As coisas não estão cem por cento. Por isso espero que melhore. Veja, tem energia, mas ela não é cem por cento. No inverno a luz fica mais apagada do que acessa. O ramal também quero que melhore. E assim outras coisas que a gente tem no dia a dia, mas não tão cem por cento não. A saúde quero que melhore.

A questão da saúde aqui, se não for muito grave como uma febrezinha, a pessoa sai de moto para a cidade. Todo mundo tem seu transporte. Quando é grave a ambulância vem buscar, ou mesmo o carro da polícia. A doença que está mais frequente aqui é a leishmaniose. Está muito frequente essa doença aqui. Se você for ali na escola, na comunidade, verá que quase todo mundo tem essa doença. Meus meninos já pegaram. Mais de uma vez. Várias vezes.

Tem bastante aluno que estuda de manhã, e de meio dia para a tarde, eles descem para Xapuri para tomar o remédio que se chama ducatina, direto. Acho que agora tem uns três que estão tomando o remédio. E quando toma não pode beber água. Tem bem uns quatro que descem para Xapuri na parte da tarde para tomar o remédio contra a leishmaniose. É bastante aluno nessa situação. Outras doenças são a febre e a gripe. Também uma dorzinha no corpo. (silenciou)

Perguntado sobre seus rendimentos, respondeu:

Aqui tiro minha renda da borracha e da castanha. A coleta do leite (látex) dura uns três meses, começa em maio e termina em julho, só no verão. Já a castanha também é pouco tempo, uns três meses no inverno, aquela safrazinha. Aí a gente vai vivendo de um porco, de uma galinha, uma diária (trabalhar para outras pessoas, vender a força de trabalho para outros com pagamento por dia trabalhado). Quem tem boi vai vendendo um bezerro para sobreviver. Hoje eu não tenho mais, porque vendi todos.

Então a renda é da borracha, da castanha, da venda de um porco, uma galinha, e também da diária, porque eu trabalho de diarista por fora (vende sua força de trabalho para outros, fora de sua colocação). No roçado é só mesmo para o consumo. O que a gente faz no roçado é só mermo para o nosso consumo (no roçado costuma plantar arroz, feijão, macaxeira e fruteiras, como mamão e banana). Algumas vezes o que sobra a gente vende. Um feijão, por exemplo, agora está na safra. Quando a safra é boa tiro uns dois camburões de feijão para passar o ano e, se sobrar, eu vendo. As galinhas eu vendo um mês e outro não, quando estou necessitado eu vendo cinco, dez. O porco eu vendo um, dois. O tempo vai passando e a gente vive conforme o tempo.

Eu tenho oito filhos, o mais velho tem dezenove e o mais novo tem cinco anos. O último é o caçula. Todos estão quase criados. Todos estão estudando. Tudinho, tudinho, tudinho. Todos vão para a escola, só fica eu e a mulher. O mais novo não vai para a escola, mas a professora passa aqui ensinando. Passa dois dias por semana. Eu queria que todos ficassem aqui encostados da gente, mas nem tudo é como a gente quer. Minha filha, que já vai fazer 19 anos, está terminando o segundo grau. Já está lecionando aqui no Alfa 100 (programa de educação do Governo do Acre). Está estudando para a prova do ENEM. Ela se escreveu para a prova do ENEM. O outro que tem 18 anos também já disse que quer sair para estudar fora, só vive falando que quer estudar fora. É assim, eles vão crescendo e querem sair, a pessoa vai ficando de maior (mais de 18 anos) e vai querendo sair, procurar seu rumo. Alguns querem ir para a cidade. Se fosse por mim ficariam aqui. Mas cada qual deverá procurar seu rumo.

Já eu gosto de morar aqui. Gosto mermo. De jeito nenhum quero ir para a cidade. Isso aqui era do meu avô. Meu pai comprou do meu avô. Aqui são cinco moradores nessa colocação. Tudo reunido aqui. Ninguém pensa em sair daqui, nunca eu vou sair daqui. É bom demais. Pertinho da rua. A gente tem uma motinha e vai de manhã para a rua, e quando é meio dia já está em casa. Tudo que tem na rua a gente tem aqui. Uma energia, um divertimento. As coisas que não tem aqui a gente vai lá na rua, e com duas horas já está em casa. Aqui eu vivo tranquilo. Porque vou sair do meu canto? Por que vou trocar pela cidade, se aqui eu vivo tranquilo.

Quando vou à cidade, depois da safra de castanha, eu faço uma feira maiorzinha. Com ela dá para aguentar até o meio do ano. Quando acaba a feira, aí já é a safra da seringa. Nos intervalos compro só o que é necessário: café, sabão, a água sanitária, os temperos. O resto tudo é daqui. Às vezes a gente trás um peixe, que aqui não tem, nem igarapé tem aqui.

Carne a gente consume mais a de porco e galinha. Mas mato a paca e a cutia na mata. Nessa época tá muito bom. Mas só no verão eu espero (caça), pois no inverno é difícil, fica tudo cheio de água. No verão é a época das comidas, as imbiribas estão todas arriando (imbiribas, ou comidas, são árvores cujas sementes os animais se alimentam. Quando as sementes começam a cair no verão, atraem animais).

A gente vai cedo esperar o animal e antes das nove horas já estamos de volta. E o senhor já viu alguma coisaesquisita na mata?

Assombração e nunca vi na mata. Às vezes fico duvidoso, pois as pessoas dizem que é real. Os mais antigos contava histórias, dizem que existe, aí o caba fica assim meio duvidoso. Mas eu nunca vi nada não. Só onça. Eu mesmo já matei uma. Tem muita onça por aqui, mas assombração eu nunca vi não. Fora disso (onça) nunca via nada não.

Solicitado para descrever o lugar, respondeu:

Aqui na colocação tem bastante nascente de água, mas açude nós não tem. Somos cinco moradores aqui, todos irmãos. Cada qual tem sua parte, cada qual tem suas castanheiras e suas estradas de seringa. Eu tenho três estradas de seringa, e as castanheiras que ficam em volta das minhas estradas eu posso coletar. Meu irmão tem ali para cima suas estradas e, da mesma forma, as castanhas que estão em volta das estradas dele ele coleta para quebrar e vender. A gente tem um acordo de nenhum mexer nas estradas e nas castanheiras um do outro. Mas quando é necessário, nós colabora um com o outro.

Quando minha safra é pequena, como nesse ano, e termino de coletar logo, vou ajudar os irmãos que tiveram uma safra maior. Também ajudo na safra do meu pai que mora alipara baixo. Não só na época da castanha, mas em todos os serviços. Na roça, na limpeza das estradas de seringa. E assim vamos ajudando um ao outro. Como acontecia na época do adjunto (grupo de seringueiros reunidos para auxiliar outros em alguma tarefa. Os seringueiros faziam adjuntos nos seringais para construir uma casa, por exemplo). Antes víamos aqueles adjuntos grandes, quinze homens colaborando para fazer um serviço. Hoje é mais difícil de vê isso. Mas quando temos um serviço meio avultado aqui, nós se junta e ajuda.

As crianças chegam da aula no meio da entrevista e João Batista comenta:

Aqui o divertimento deles (aponta para as crianças chegando) é bola (futebol). Toda tarde. Os meninos (filhos) quando chegam da aula vão brincar de bola até de noite. Mesmo quando escurece eles acendem uma luz e o pau quebra. Isso é todo dia. Ali nessa areia. É direto. E nos domingos eles vão ali para a comunidade, que tem campo e tem bola. Aqui o

divertimento deles é a bola. A noite tem a televisão, eles gostam muito, principalmente dos jogos nos dias de quarta-feira e domingo. Quase tudo são flamenguistas aqui (risos). Mas tem São Paulo e Fluminense. Mas a maioria é flamenguista (risos). Quando não tinha energia eles dormiam cedo, mas agora dá dez horas da noite e ainda estão na televisão.

Com a chegada da luz a gente trocou a lamparina pela energia convencional como a gente chama. Agora a gente pode conservar uma carne mais avultada no freezer, pode puxar uma água com a bomba mergulhão, gelar uma água. Até máquina de lavar tem por aqui. Isso diminuiu muito alguns serviços, poupou muito serviço, principalmente da mulher que tinha que pegar água no igarapé e ficava perdendo tempo.

Com a energia melhorou muito, mas a luz tem os problemas dela no inverno, pois a rede (elétrica) fica na floresta e quando começa a chover cai muita árvore em cima da rede. Aí apaga muito. Quem não tem rede elétrica tem placa solar e uma antena parabolicazinha. Todo mundo aqui tem uma televisão e uma parabólica. Aqui na comunidade do seringal Floresta é todo mundo. Também um motorzinho still para puxar água. Todo mundo toma banho em casa. Você conta as pessoas que não possuem. Antes, a gente tinha que ir até a fonte tomar banho. Aqui a fonte é limpa, muito limpa. Água pura.

Perguntado sobre as dificuldades que enfrenta, respondeu:

Sobre dificuldades, no momento eu nem tenho em mente alguma dificuldade (silêncio). No momento assim é difícil lembrar. Não lembro não.

Todos aqui cortam seringa?

Aqui nosso costume antigo é ser seringueiro. É nossa profissão. Todo mundo que eu conheço aqui corta seringa e coleta castanha, portanto todas são seringueiros. É a nossa profissão. Mas tem pessoas que não gostam de falar quando vem uma pessoa assim como o senhor. Mas eu pelo menos não sou assim. Digo que minha profissão é seringueiro. Não é nenhuma coisa doutro mundo. Pois corto três meses do ano, todos os anos. Quando não era leite (látex), era a borracha. Então, sou seringueiro desde os 12 anos de idade, quando passei a ser dono do meu nariz. Todo ano eu corto seringa. Então não vou trocar uma coisa que eu sou por outra coisa. Eu pelo menos tenho é orgulho de ser seringueiro. Não sei os outros, mas eu tenho orgulho de dizer que sou seringueiro.

Participa de atividades do sindicato?

De sindicato não participo, só da Associação aqui da Comunidade Rio Branco. Participo da Cooperacre do governo, da Cooperativa lá de Xapuri. Participo dos assuntos da AMOREX (Associação dos Moradores da Reserva Extrativista). Participo dos treinamentos

do governo e de algumas reuniões. Alguns assuntos. Vamos dizer assim, quando vem o pessoal do governo a gente participa, dos papos deles, das reuniões.

Conheci Chico Mendes do Sindicato, mas era pequeno naquela época dos empates. Os nossos pais é que eram da linha de frente. Mas vi ele muitas vezes. Meu pai era quem participava dos empates. Eu ficava em casa para cuidar da casa e dos menores. Lembro do Chico Mendes quando ia para a rua com o meu pai. Todas às vezes, meu pai ia lá na rua falava com ele. Lembro desses encontros.

E o senhor gosta de morar na floresta?

Eu gosto de morar aqui, não troco o seringal pela cidade. Nem penso em sair daqui. A pessoa que não tem saber, não tem o que fazer na rua, ficará de cara para cima. Já vi muitos se jogarem para esse meio de mundo e sofrerem muito. Mesmo os que possuem saber não consegue emprego. Tem pessoas que estão de cara para cima sem ter o que fazer, aí pega uma vagazinha de professor. Mesmo os que possuem saber estão desempregados. E eu que não tenho saber? Sair do seringal e fazer o quê na rua? A gente vê o sofrimento dos outros na cidade. Eu tenho o primeiro grau incompleto, não consegui fazer tudo, ficou faltando uma matéria de Português, pois arrumei logo família. Só sei assinar meu nome e ler alguma coisa. O negócio então é na mata mermo. Que na mata não precisa saber muito (saber formal, conhecimento formal). Mas algumas vezes faz falta. A gente já se enrola em muitas coisas aqui sem o saber. Imagine na cidade. Enquanto der para ir a gente vai (silenciou).

Essa casa foi o senhor que fez?

Essa casa aqui eu consegui através do Crédito Habitação da reserva Chico Mendes. Eu paguei uma pessoa para construir. Peguei o crédito e paguei. Através do INCRA. Tudo é através do INCRA, tanto faz na reserva que nem fora. Antes eu morava nessa outra casa (mostrou a casa ao lado) que foi construída pela Caixa Econômica Federal, aquele PSH (Programa Social de Habitação). Quando saiu esse crédito eu construi essa casa. O presidente da AMOREX (Associação dos moradores da Reserva Extrativista Chico Mendes em Xapuri) às vezes diz que a gente pode pagar esse crédito, outras vezes que não. A gente que sempre vai lá ouve isso. Até agora não tem nenhuma proposta dizendo que deve pagar, tá nessa confusão.

Aqui o IBAMA e o INCRA é que autorizam tudo. Madeira não pode tirar. Castanheira e Mogno nem pensar. As outras madeiras só para o consumo, só para o serviço da gente. Um curral por exemplo. Para vender nem pensar. Só mesmo para uma construçãozinha. Gado também tem um limite, parece que só são permitidos 30 cabeças, parece. Mas têm

muitos que são teimosos, a Lei vai imprensando, mas eles não estão nem aí. Gado é melhor para fazer dinheiro. Se você tiver cinco sacos de farinha e for lá na rua atrás de pegar o dinheiro ninguém adianta. Mas se o cabra tiver um bezerro os caras já adiantam. Pode ir lá na rua. Se o bezerro tiver nascido ontem, eles pagam o mesmo preço do grande. Aí os cabras baseiam nisso.

Aqui já tive gado só para o leite. Quem cria muito é um dinheiro seguro, pode ir lá na rua que tem comprador. Se fizer cinco sacos de milho ou farinha e levar para a rua tem que deixar guardado lá, pois não vende. Eu faço farinha aqui e levo cinco sacos para Xapuri e só vendo dois. A gente anda naquelas bibocas todas em Xapuri e ninguém compra. Mas o bezerro vende até na barriga da vaca (risos). É mais fácil criar o boi. A vantagem do gado é essa. Por isso muita gente insiste em criar. Uma criação normal, um pasto bem dividido que não vai agredir a floresta. Aí ninguém será contra a pessoa criar um pouquinho. É contra só com aqueles que derrubam a floresta demais. Só planta o capim e não planta nenhum lavoura.

Eu tinha um pouco de gado, mas vendi tudo para plantar seringa. Fiz um financiamento. Plantei seringa e morreu tudo. Aí veio o trator e destocou todo campo. Fui até a cidade solicitar umas máquinas, mas não deu certo. O técnico da SEAPROF (Secretária de Estado de Produção Familiar) tinha saído de férias. Quando voltou a trabalhar não veio mais aqui. Aí o pasto tomou conta de tudo. Não deu mais para comprar o gado de volta. Nem o gado e nem a seringa. Eu tinha treze cabeças e vendi tudo para tocar esse plantio de seringa. Só sobrou um dinheirinho para comprar essa moto.

Fui no banco e desisti de tudo. Disse: risque isso aí. Fui na SEAPROF e desisti de tudo. Tinha que ir duas ou três vezes na SEAPROF em busca de ajuda, e o técnico não vinha. Até para desistir a SEAPROF está dificultando. Fui lá e disseram que será preciso emitir um laudo informando que desisti, assim eles enviariam um técnico aqui para emitir esse laudo. Mas até agora não mandaram. Quero montar uma lavoura branca, mas enquanto não desenrolar desse financiamento não será possível.