As organizações religiosas estruturam-se com relações de disputa e tomadas de posição, utilizando linguagem própria do campo religioso, o que as diferencia no espaço social. A hierarquia e a obediência aos “superiores” fazem parte do “jogo” dentro do subcampo marista, condicionado às tomadas de posição e conseqüentemente às relações no campo religioso (DÍEZ, 1995, p. 221-229).
Na Província marista do RS, segundo depoimento de Irmãos entrevistados, a última década foi marcada por diversos conflitos provenientes das decisões dos “superiores” que iniciaram um processo de fundação de obras sociais, contestado por maristas que não tinham a mesma compreensão e defendiam a permanência
dos maristas somente nos colégios. A mudança na atuação dos maristas, indo para as obras sociais, motivou disputas no subcampo, levando muitos Irmãos a se posicionarem, como vemos na resposta deste entrevistado que acena para um enfraquecimento da resistência feita às obras sociais, lembrando que
nos anos 80 e ainda no início dos anos 90 havia muitas discussões sobre a opção pelas obras sociais e comunidades de inserção. Havia uma clara separação entre escolas pagantes, obras sociais e comunidades de inserção. Havia certa resistência por parte de muitos Irmãos não favorecendo a opção pelo social. No ano de 96 quando foi tomada a decisão de abrimos mais obras sociais, esta questão estava mais tranqüila, porém não resolvida. Alguns Irmãos questionaram, mas foi bem mais tranqüilo37.
A resposta aponta para uma situação de disputa, apesar de haver uma contínua preocupação com a linguagem utilizada, na tentativa de não demonstrar “divisão” no subcampo marista, ficando no meio termo, exemplo: “estava mais tranqüilo, porém não resolvido”. Neste contexto evidenciaram-se as relações de disputa e também a opção pessoal de cada irmão, se pelas obras sociais, ou pelos colégios. A posição dos Irmãos que coordenavam a Província foi de abertura de obras sociais, porém a imposição de “idéias” parece não ser bem aceita entre os maristas. Um dos entrevistados, fundador das obras sociais, ainda se preocupa em fundamentar tal decisão e ao ser interrogado, responde buscando em documentos religiosos justificativa para sua tomada de posição:
Como foi o surgimento (idéia) das Obras sociais Maristas no RS?
[...] Como se pode ver, estava muito claro o mandato do Capítulo Geral. Era uma questão de fidelidade: a) às suas origens Maristas, b) às tradições solidárias dos Maristas no Rio Grande do Sul desde a fundação, c) e principalmente por fidelidade ao Evangelho: afinal a Renovação da Vida Religiosa Consagrada é antes de tudo uma volta às fontes e aos constantes apelos do seguimento de Jesus Pobre e amigo dos pobres. E a nossa Província, por questão de fidelidade só tinha que se comprometer com a opção preferencial pelos pobres através de respostas concretas de SOLIDARIEDADE38.
A interferência direta de alguns maristas foi fundamental para que as obras sociais se tornassem realidade, inclusive nos momentos em que os maristas que
37 Entrevistado C. 38 Entrevistado C.
estavam coordenando o processo tiveram que assimilar as críticas que eram feitas por aqueles que não as queriam, talvez por isso que o Irmão Jaime, que estava na missão do Mato Grosso do Sul, foi convidado para coordenar a implantação das obras sociais, uma vez que já havia sido provincial e tinha experiência de trabalho com obras sociais, motivo que lhe dava vantagem na disputa dentro do subcampo marista, uma vez que já havia estado em diversas posições dentro do subcampo. A resposta do Provincial que convidou o Ir. Jaime demonstra o interesse dos principais agentes maristas na concretização do projeto:
[...] Faltava-nos uma pessoa para coordenar o Projeto, eis que tínhamos “boa vontade” mas tínhamos pouca experiência para atuar nesta área. Sabíamos mais sobre Escola e Educação Formal. Então fomos ao encontro do Irmão Jaime Biazus, que atuava no Mato Grosso do Sul e lá participava de Projetos sociais, trabalho com drogados e afins. Depois de muita conversa, Ir. Jaime aceitou o desafio. No ano de 1996 esteve se preparando e organizando alguns pré-projetos e no ano de 1997 foi constituída a Comunidade do CESMAR, no Bairro Rubem Berta. Primeiro foi a residência, a seguir a construção do complexo atualmente existente39.
Os Irmãos coordenadores da Província buscavam estabelecer hegemonia no modo de pensar as obras sociais, até porque queriam o envolvimento dos demais Irmãos nas obras. A solução foi posicionar agentes em locais estratégicos, respeitando as características de cada um para que representassem melhor a decisão da coordenação, se mantendo coesos e capazes de agir no espaço social, onde a
[...] a ordem simbólica repousa de fato na imposição sobre o conjunto dos agentes de estruturas estruturantes que devem uma parcela de sua consistência e de sua resistência ao fato de serem, ao menos na aparência, coerentes e sistemáticas, e de se ajustarem às estruturas objetivas do mundo social (BOURDIEU, 2001, p. 214).
Com os agentes posicionados e tendo como agente principal o Ir. Jaime, foi
possível iniciar a primeira obra social após a mudança na legislação da filantropia40.
O investimento financeiro foi muito alto e a comunidade local quase não se envolveu na construção, até porque é um bairro em que a população é “classificada” como vulnerável socialmente. Algo a acrescentar é que tal realidade era pouco conhecida
39 Entrevistado C.
40 Cf. lei 8.212, de 24/07/91. Lei de Organização e do Custeio da Seguridade Social. Lei esta que veio
por estes homens descendentes de “italianos e alemães” que cresceram vendo seus pais e familiares dedicarem parte da vida à Igreja e na construção de benfeitorias a ela destinadas.
A lógica até então adotada era de que a Igreja deveria crescer, para que as famílias pudessem crescer também. As obras sociais maristas invertem esta compreensão, pois são os maristas que fundam obras sociais para que a população vulnerável possa ser atendida. Esta nova realidade, em que os cidadãos nada colaboravam financeiramente com as “obras da Igreja”, gerava críticas dos próprios maristas, como nos lembra um Irmão ao responder a uma questão sobre outros Irmãos que não queriam obras sociais e...
[...] quando alguns ficaram sabendo de alguns aspectos ficaram furiosos, e ainda ficam, e acham que deveríamos voltar às bolsas de estudo... A expansão não está se dando para os mais vulneráveis, por exemplo, os meninos de rua, drogados, enfim os esquecidos, os não vistos... Faltam obras para os mais abandonados, para aqueles que estão fora de tudo, para os mendigos, meninos de rua, enfim para os mais abandonados [...] 41.
A resposta leva-nos a perceber que existe algo a mais que ações voltadas ao social, quando o assunto é discutido pelos próprios Irmãos maristas e ao mesmo tempo demonstra a preocupação do Irmão com os vulneráveis, com aqueles que estão desprovidos da proteção do Estado, porém não há consenso e as disputas no jogo demonstram compreensões diferenciadas, expressas de diversas formas, entre
elas a condenação verbal e escrita das obras sociais por alguns Irmãos42. A
configuração do novo cenário do subcampo marista do Rio Grande do Sul passou pelo campo do poder, envolvendo diretamente os principais agentes maristas nas relações de disputa, que definiram as tomadas de posição.
41 Segunda parte da entrevista, colhida na Ilha dos Marinheiros em Porto Alegre, do Entrevistado A. 42 Bourdieu explicita em sua teoria as experiências opostas dentro dos campos, que em função do
poder simbólico é, em muitos casos, camuflada: “A unidade aparente destes sistemas profundamente diferentes pode ser facilmente preservada, pois os mesmos conceitos e as mesmas práticas tendem a assumir sentidos opostos quando são usados a fim de expressar experiências sociais radicalmente opostas”. (BOURDIEU, 1974, p.54).
1.2.2 Relações, Posições e Tomadas de Posição no Campo Religioso Marista