Considerações Finais
“ (... ) eu coment ava agora pouco aqui com o Mário, a respeit o de uma especif icação de f echaduras, que nenhuma empresa brasileira passava, ent ão, a La Font e na época que era a t op e ainda é, não at endia as especif icações da CECAP, e o Bauer desenvolver uma maquininha que cont rolava, acionava as f echaduras dos t rincos, e a especif icação exigia que as f echaduras resist issem a 100.000 acionament os, nenhuma ult rapassava 45.000/ 47.000 acionament os, inclusive a La Font e, e nessa ocasião, abriu-se o mecanismo e verif icou-se que t inham alguns element os, especialment e um que acionava a lingüet a, que era em “ desamaqui” , ent ão a propost a f oi f undir no lugar do “ desamaqui” em bronze e aí f oi pra 140.000 acionament os, e a La Font e passou a incorporar na linha dela a inovação, que f oi um avanço t ecnológico dit ado pela obra. Ent ão vej a que est ava na f rent e.”1
Est e pequeno t recho da ent revist a do engenheiro Fernando Gonçalves f oi escolhido, pois é revelador dos ideais dos prof issionais modernos, arquit et os ou engenheiros e do papel deles para o desenvolviment o indust rial do país. O obj et o, a f echadura, poderia ser out ro mais expressivo na obra (f ormas met álicas da t erceira et apa, ut ilizadas nas f undações, os caixilhos desenvolvidos t ambém para a t erceira et apa), mas a f echadura e sua f unção possuem um simbolismo emblemát ico de abert ura, não apenas das port as das unidades habit acionais, mas f igurado das “ port as” do pensament o, para auxiliar a esclarecer os t ermos do debat e naquele período e a sua import ância at ual.
O t recho da ent revist a revela, t alvez o óbvio, que há um lugar e um papel do t rabalho prof issional, digamos t écnico-cient íf ico, no desenvolviment o da t ecnologia da const rução, nos t ermos apresent ados na
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Int rodução do t rabalho. E mais, que esse t rabalho é passível de ser bem sucedido, no caso, as f echaduras f oram alt eradas e a indúst ria incorporou a inovação.
Esse episódio é esclarecedor da post ura de Art igas, aut or do proj et o do Conj unt o Habit acional Zezinho Magalhães Prado, ou sej a, o papel dos arquit et os (e dos engenheiros, ainda que Art igas não f ormulasse nest es t ermos) seria o de auxiliar o desenvolviment o nacional no campo específ ico de t rabalho, o da const rução civil. Assim, no discurso Aos Formandos da FAUUSP, de 1955, j á def inia:
“ (... ) o carát er inovador de nossa arquit et ura não pode ser apreciado isoladament e, nos limit es do f at o arquit et ônico. É o result ado de t odos os esf orços f eit os no sent ido do avanço no domínio da t écnica e da ciência.” 2
O t recho t ambém revela que para as inovações propost as pelos prof issionais serem implant adas, elas necessit am de viabilidade econômica. Assim, a empresa, aparent ement e sem t er t ido gast o no desenvolviment o de seu produt o, at endeu a especif icação porque int roduziu a inovação na produção do produt o para o mercado em geral. Novament e parece óbvio, mas ela o f ez porque era economicament e e comercialment e viável.
A pergunt a é, porque diant e de t ant as inovações propost as que caminhavam no sent ido da indust rialização da const rução, porque apenas algumas f oram int roduzidas, e, mesmo assim, part e delas na t erceira f ase?
Se t omarmos como ref erência a quest ão cent ral, os element os pré- f abricados de concret o que t iveram de ser subst it uídos por alvenaria t radicional, as int erpret ações dos f at os é reveladora.
2
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Para Fábio Pent eado, como vist o, mas é import ant e ret omar, o Conj unt o:
“ (... ) f oi pensado pré-moldado int eiro, mas t ambém por uma f ant asia ou poesia, f oi f eit o o proj et o, calculado t odo para pré-moldado, cust ou uma f ort una o cont rat o do proj et o de est rut ura pré-moldada. É mesma coisa, primeiro, não f azia part e e ainda hoj e não f az part e da cult ura, na época que a gent e const ruiu. Segundo, se você f az uma usina e f az aquela obra CECAP, aí j oga f ora a usina, porque não t eria out ra pra f azer, o cust o disso era t ão grande que não f oi, a única coisa pré- moldada lá f oram f eit as as escadas e alguns component es. ”3
Já para Gisela Viscont i:
“ O proj et o f oi desenvolvido para 10.560 unidades habit acionais. Tendo em vist a o número de habit ações, dist ribuídas em edif ícios t odos iguais, a est rut ura f oi calculada em concret o pré-moldado, o que represent aria uma economia signif icat iva no consumo t ot al de concret o e t ambém uma redução no prazo de execução da obra. Ent ret ant o, quando da apresent ação do proj et o ao Banco Nacional da Habit ação – BNH, para liberação de f inanciament o, f oi aprovada a const rução de soment e 480 unidades na primeira et apa. Est a decisão inviabilizou a execução da est rut ura de concret o pré-moldado, t endo sido recalculada a est rut ura para const rução por processo convencional.”4
3
Texto de Fábio Penteado (200?) – anxo 6.
4
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Ou sej a, a duas visões, a de Pent eado, que sem explicit ar exat ament e, mas agregando o problema do f luxo de demanda, coloca a quest ão em t ermos de f ant asia. E a de Viscont i, para quem o problema seria o BNH, que com a sua polít ica populist a de emprego, inibia o desenvolviment o da indúst ria da const rução.
Acredit amos que os dois ent endiment os est ão corret os, ent ret ant o, não são suf icient es para a compreensão da quest ão. Evident ement e, sem querer resolver a quest ão de f orma def init iva, diríamos que na const rução civil brasileira, o sist ema const rut ivo é mist o, caract erizado por um processo t radicional racionalizado, pois expressa e incorpora os mecanismos sociais que art iculam element os modernos (indust riais) e arcaicos (t radicionais). Esses element os vão de mat eriais, equipament os, produt os, t écnica const rut iva, qualif icação da mão-de-obra, relações de t rabalho, remuneração da mão de obra, et c. Tal sist ema é est ranhament e inovador e conservador ao mesmo t empo, mas é muit o arraigado nos result ados que se most ram lucrat ivos e com pouco risco econômico, j ust ament e, porque os element os arcaicos do sist ema, que podem ser represent ados pela mão-de-obra, pela t écnica const rut iva, enf im, por qualquer dos seus component es, são vist os como, e de f at o devem ser, garant ia de lucrat ividade.
Há cert ament e uma explicação mais abrangent e para est a condição, e ela f oi f ornecida por Francisco de Oliveira, para quem o capit alismo no Brasil se desenvolveu, e ainda se desenvolve, associando os element os arcaicos e modernos (OLIVEIRA, 1988)5. Ist o é f undament al, pois a solução dest a condição ext rapola o quadro prof issional e mesmo da const rução civil. Mas t ambém e, sobret udo, por ser um processo em desenvolviment o, t al condição propicia que novas “ port as” sej am abert as e, para t ant o, os arquit et os e os engenheiros, devem pesquisar novas “ f echaduras” , com o risco de não serem viáveis, mas com a possibilidade de serem incorporadas e, independent e, da
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lucrat ividade privada da empresa, podem redundar em ganhos sociais, como o conj unt o permit iu para os seus moradores e mesmo para a sociedade.
Cabe, por f im, algumas considerações sobre o Conj unt o do pont o de vist a de equipament o urbano e social. Ele hoj e se dest aca posit ivament e na paisagem, apesar de sua regularidade f ormal. As unidades visit adas encont ram-se em bom est ado de conservação. O seu sucesso, em t ermos de qualidade const rut iva e de habit abilidade, t ornou a venda de suas unidades at raent es e boa part e da população inicial não se encont ra mais lá. As f reguesias assumiram, de f at o, o st at us de condomínio, e na lógica urbana at ual t odos f oram cercados, impedindo o livre acesso e gerando áreas residuais ent re eles, que não se est rut uram como locais de convívio.
Uma quest ão sempre cit ada é a dos pilot is. Na arquit et ura moderna, a idéia clássica é a de possibilit ar o livre t rânsit o ao rés do chão, propiciando convívio e lazer. Na prát ica, nesse e em out ros conj unt os, o espaço f oi t ransf ormado em garagem. Há duas f ormas de ver a quest ão. A primeira é que indica o declínio da sociabilidade e o aument o do individualismo, a segunda, que não desconsidera a primeira, busca incorporar a “ quest ão garagem nos proj et os” , como um it em a ser resolvido. Para Pent eado, havia poucas vagas previst as de est acionament o, porque o aut omóvel est ava f ora dos it ens de proj et o, “ quem iria imaginar que o operário lá ia t er aut omóvel.”6 Com o aument o da possibilidade de aquisição desse bem os moradores resolveram a sit uação de f orma imediat a.
Enf im, há “ port as” ou problemas mais nobres do que out ros, mas eles sempre exist irão e sempre solicit arão soluções.
6
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I
ANEXOS
Est ão em anexo os seguint es document os list ados abaixo:
DESCRIÇÃO PÁGINA
ANEXO 1 - Ent revist a Fábio Pent eado II
ANEXO 2 - Ent revist a Giselda Viscont i XXV ANEXO 3 - Ent revist a Geraldo Vespasiano Punt oni XXIX ANEXO 4 - Ent revist a Fernando Gonçalves XXXIV
ANEXO 5 - Ent revist a Mário Savioli XLVII
ANEXO 6 - Text o Fábio Pent eado/ Giselda Viscont i LIII
ANEXO 7 - Document ação Fot ográf ica LVIII
II
ANEXO 1
Ent revist a com o arquit et o Fábio Pent eado, realizada dia 09/ 03/ 2007, no escrit ório do arquit et o, com início às 10h30 da manhã. Ent revist a realizada por mim, cont ando apenas com a presença de nós dois.
Fábio: Isso aqui é o que nunca vai aparecer na hist ória, que é o começo...CECAP, caixa para o povo, isso t eria sido criado, não sei o nome, não sei a época, mas quando o Zezinho Magalhães Prado ent rou e assumiu essa chamada CECAP, ela t inha f eit o doze ou quat orze, umas dez casas, por aí. Ent ão eu f iz esse t ext o, pra alguma coisa que não me lembro, mas muit o claro que isso aqui é verdade, na minha opinião. . . “em 66, no moment o da posse do gover nador de São Paul o Abr eu Sodr é, do j eit o que a t r adicional f est a de dist r i buição de car gos públ icos, ent r e os agr egados pol ít icos e af ins, quando o novo Gover nador, nomeado pel o Gover no Mil it ar se deu cont a que havia esquecido ent r e os benef iciados seu vel ho amigo, Zezinho Magal hães Pr ado, ex-pr ef eit o e ex-pr esi dent e do Cl ube de Fut ebol XV de Jaú”.1 A CECAP era uma coisa inexist ent e, quando o Abreu Sodré f oi nomeado governador, f ez a f est a pros amigos e esqueceu do Zezinho, ent ão ele pergunt ou, o que que sobrou aí? Tinha a CECAP, essa f oi à hist ória. Eu sei que f oi assim, mas nunca ninguém vai dizer que f oi assim, eu que digo. O Zezinho era um homem muit o int eressant e, o que que ele f ez, ele se apropriou para a CECAP de um t erreno muit o grande, que t inha uma hist ória complicada, que t ava na mão da Caixa Econômica Est adual em Guarulhos, esse t erreno t inha passado pelas mãos do Josias Paes de Barros, era est rada de f erro Sorocabana, era propriet ário. Como o t erreno t ambém não valia nada, ele t ava cheio d’ água, deram o t erreno para o Zezinho. O Zezinho t inha um irmão, que eu não me lembro o nome agora, que era um arquit et o, ou est udant e de arquit et ura, que orient ou o Zezinho com um grupo de amigos, sendo que est e irmão dele t inha
III part icipado de ações polít icas do part ido comunist a, e que o Zezinho acabou f inalment e mont ando um proj et o quase que f ant ást ico, ent re a época ant erior a CECAP, e o que acont eceu depois da CECAP em t ermos de habit ação popular, é quase um ret rat o do Brasil como um t odo. Na minha opinião, é como se t ivesse mudado a escala de se ver o Brasil. De 1/ 100, passou a 1/ 10. O Brasil não exist ia... as capacidades do país não eram ent endidas, nem conhecidas, nem reconhecidas. Depois um Conj unt o Habit acional de 2.000 unidades era algo que ninguém imaginava ser possível, como se f osse loucura, t ant o é que eu mesmo quando f ui levar o proj et o para apresent ar no BNH a diret oria se recusou a vê-lo, por achar que aquilo era f ant asia. E o Zezinho cont inuou com o Art igas, out ra ousadia muit o grande. O Art igas t inha...ele t ava pendurado ainda em um processo da j ust iça milit ar, mas era muit o