1.3 Repenser la signification lexicale
2.1.1 L’hypoth`ese de compositionnalit´e du langage naturel
Em seu estudo sobre o discurso comunista endereçado aos cristãos, Courtine (2009) assinala que o tema da contradição atravessa em diferentes níveis e de maneira recorrente a sua pesquisa. Para além de um tema, a contradição aparece em seu trabalho como princípio que o orienta. Isso já pode ser percebido na escolha dos enunciados que compõe a epígrafe do seu texto: o primeiro de Foucault, o qual fala da contradição como princípio da historicidade do discurso; o segundo de Kundera, que fala da luta da memória contra o esquecimento como luta do homem contra o poder. Esses dois enunciados já indicam a direção em que apresentará alguns problemas teóricos e metodológicos em Análise do discurso. Mas além de tema e de princípio, a contradição também aparece como objeto de análise, pois o objeto de seu estudo consiste justamente na contradição desigual entre formações discursivas antagonistas. Esses três níveis, princípio, tema e objeto de análise em que a contradição se presentifica no trabalho de Courtine não tomam de forma alguma um caráter espontâneo, pelo contrário, consistem em seu objetivo de explicitar qual sentido da intervenção do marxismo, num momento em que se anunciava sua morte, no processo de produção dos conhecimentos científicos no domínio da Análise do discurso. Ao criticar duas tendências de trabalho nessa disciplina em sua época, uma que realizava a descrição sociologista da diferenciação linguística dos grupos sociais e outra que se reduzia a um projeto voluntarista de uma teoria do discurso, Courtine assinala:
Se Análise do discurso está ligada a objetos atravessados pela luta de classes, se, em Análise do discurso político, todo discurso concreto remete a uma posição determinada na luta ideológica de classes, então é bem possível que o sentido primeiro de uma intervenção do materialismo histórico nesse campo teórico-prático seja o de lhe devolver os princípios, esquecidos de maneira diferente pelo sociologismo ou pelo teoricismo, da primazia da contradição sobre os contrários, bem como do caráter desigual da contradição (id., p. 35).
Essa afirmação nos parece muito importante por alguns motivos. Pelo sintagma luta ideológica de classes, Courtine ao mesmo tempo especifica o objeto (pressupondo-se aí o discurso como materialidade da ideologia), isto é, discursos; e indefine a locução de classes, de modo que abre a possibilidade para sua
caracterização ad hoc, que por sua vez define o tipo de luta. Ou seja, as classes não são dadas como a priori da luta e a luta, por sua vez, é caracterizada conforme o tipo de relação social contraditória em questão. Nesse sentido, não se trata de operar pela reversão de metonímias, da parte para todo ou do conteúdo para o continente, mas de reconhecer que esse tipo de caraterização não serve para a definição8. Se Courtine ressalta a primazia da contradição, no que diz respeito ao seu caráter desigual o autor apresenta, contudo, uma definição dada por Althusser que não condiz com seu trabalho.
Ora, se posso avançar no que sustentei nos primeiros ensaios, mas na mesma linha, diria que a contradição, como a encontramos em O Capital, apresenta a particularidade surpreendente de ser desigual, de colocar à prova contrários que não são obtidos afetando o outro do signo oposto ao primeiro, porque são tomados em uma relação de desigualdade que reproduz continuamente suas condições de existência em consequência dessa própria contradição... A classe capitalista e a operária não têm a mesma história, o mesmo mundo, os mesmos meios, a mesma luta de classe e, entretanto, confrontam- se e é sem dúvida uma contradição, na medida em que a relação de seu confronto reproduz as condições de seu confronto... (ALTHUSSER, apud COURTINE, 2009, p. 35).
Tal enunciado consiste numa asseveração que parece ser usada por Courtine apenas como palavra de autoridade, sem levar em conta que o próprio Pêcheux já havia demonstrado a indissociabilidade entre reprodução e transformação ideológica. Além disso, tomar a contradição como reprodução estrutural está na mesma ordem do pensamento analógico de Tsetung quando compreende a identificação dos contrários pela distinção, pela alternância de dominação e pela transformação do um apenas no seu oposto. Todavia, não é isso que faz o próprio Courtine quando aborda a contradição em diferentes níveis ao compreender o contato entre o ideológico e o linguístico na ordem do discursivo.
Contrapondo procedimentos metodológicos de caracterização homogênea de tipos discursivos em relação a uma formação ideológica específica e procedimentos de individuação e análise contrastiva de conjunto de discursos, Courtine assinala que no primeiro caso um dos elementos da contradição constitutiva de um discurso dado se encontra isolado e pensado como idêntico a ele
8 Vale lembrar que se o próprio Marx pôde dar alguns exemplos, estes também eram
casos particulares. A única definição mais genérica dada por ele foi “numa palavra, opressores e oprimidos” (Marx; Engels, 2007, p. 47).
mesmo; e no segundo caso busca-se uma equivalência entre as diferenças estabelecidas que individuam os discursos e as contradições ideológicas, de modo que a individuação pré-existe à contradição que constitui os contrários. Assim, a partir dessa crítica, Courtine define quatro critérios que compõem o procedimento de uso da categoria da contradição:
1) implica a primazia da relação de contradição sobre a individuação de contrários que a contradição “faz existir” no sentido em que ela os une e, ao mesmo tempo, os divide;
2) sublinha a irredutibilidade de tal relação de contradição a uma perspectiva puramente diferencial ou comparativa: a contradição é uma contradição “desigual”;
3) lembra que a individuação não é de modo algum um “estado inicial” e, sim, ela própria, um processo contraditório: os efeitos das contradições ideológicas de classe são identificados no próprio interior da “unidade” dos conjuntos de discursos cuja individuação é postulada;
4) tem como consequência o fato de que todo conjunto de discurso (discurso comunista, discurso socialista...) deve ser pensado como uma unidade dividida numa heterogeneidade em relação a ele mesmo, cujo traço cabe à AD política identificar. Isso equivaleria, por exemplo, mais que fazer da presença ou da ausência de uma determinada transformação o sinal de um desvio entre eles, a mostrar como o funcionamento discursivo de tal operação linguística permite a um conjunto de discurso, levantando CP determinadas, integrar elementos que provêm de seu exterior heterogêneo (id., p. 65).
Considerando a categoria da contradição o autor redefine o conceito de condições de produção do discurso, incorporando ao conceito, para além da ideia de uma dada situação mais imediata de interlocução, as determinações históricas do discurso como o estado das contradições de classe numa determinada conjuntura. De igual modo, Courtine problematiza teoricamente também o conceito de formação discursiva, que de bloco homogêneo e separada de outras formações discursivas por uma fronteira topográfica, como era concebida até então, passou a ser considerada a partir de sua relação interna com seu exterior discursivo específico, com as formas de alteridade constitutivas de sua existência, reconferindo, portanto, o primado ao interdiscurso. O autor ressalta a necessidade de não mais pensar a formação discursiva como repetição na ordem do mesmo ou do diferente, mas como uma unidade dividida e heterogênea que revela em seu próprio interior as relações de dominação de um estado de contradições ideológicas.
Como importante resultado dessa redefiniçao teórica o autor desenvolve a noção de enunciado dividido, cuja descrição linguística dos efeitos contrastivos, da reformulação, da refutação, da polêmica por denegação ou inversão revela tanto as contradições entre processos discursivos antagônicos quanto as relações de dominação pelas quais o elemento de saber pré-construído de uma formação discursiva dominante é absorvido como próprio no processo discursivo de uma formação discursiva dominada, enfim, a materialização em discurso das formas pelas quais a luta ideológica de classes se manifesta na luta política.
De tal modo, Courtine afirma que seu trabalho decorre em última instância do seguinte postulado teórico-metodológico:
Adotar uma perspectiva especificamente discursiva em análise do discurso é o mesmo que reconhecer no discurso, como objeto, a imbricação de dois reais: o da língua, em sua autonomia relativa, e o da história, apreendido a partir da contradição das forças materiais que nele se afrontam (id. p. 235).
Se Courtine chama a atenção para o fato de que compreender o materialismo histórico como corpo teórico real na Análise do discurso implica considerar a primazia da contradição sobre os contrários e o caráter desigual da contradição, podemos dizer igualmente que empreender a análise de um discurso tendo a obra de Pêcheux como referência, em qualquer que seja a dimensão, implica necessariamente considerar a contradição material como categoria constitutiva dos processos discursivos e considerá-la em seu caráter desigual.