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No trabalho de campo, deparei-me com dificuldades metodológicas para empreender este estudo, pelo fato de a violência doméstica implicar em constrangimentos de toda ordem: as famílias são notificadas e intimadas judicialmente a comparecerem em meio a intensos sentimentos de impotência, temor e culpabilização.

A acolhida e o holding oferecidos nesses casos, foram cruciais para amenizar as dores, os ódios e as persecutoriedades, que marcam a entrada dos pacientes no sistema de atendimento. Tornou-se imperioso converter o caráter compulsório da vinda desses pacientes à instituição, em livre arbítrio e precipitar uma demanda autêntica de ajuda, para que a perspectiva terapêutica fosse assegurada e implementada. Para tanto, estabeleci como fundamental uma recepção não- crítica, um clima de cooperação e de compreensão, cônscia das questões narcísicas atuantes sob efeito da perda dos ideais e ativação de desejos de morte, do fracasso das identificações poderosas, dos investimentos e desinvestimentos em jogo.

Na consecução da pesquisa, houve fatores a serem contornados, tais como a obtenção do consentimento do(s) pai(s) abusador(es), o assentimento dos pacientes que sempre temem a não- confidencialidade, o temor à estigmatização e às conseqüências negativas das intervenções, tais como punição condenatória, degredo dos pais e institucionalização deles próprios.

Ressalto que o Projeto de Pesquisa foi devidamente encaminhado ao Comitê de Ética em Pesquisa da PUC-SP, em conformidade com a Resolução n. 196/96, tendo sido aprovado após

averiguação de atendimento aos princípios éticos, principalmente no tocante à autonomia e beneficência dos indivíduos-alvo da pesquisa e à proteção quanto ao anonimato dos envolvidos.

Uma certa dificuldade perseguiu-me, confesso, ao divulgar certas situações constrangedoras experimentadas na dinâmica das famílias e dos atendimentos, até mesmo pela gravidade das situações que encontrei. Cuidei para que o sigilo fosse assegurado e para que alguns casos para os quais não obtivemos a autorização, fossem excluídos deste relatório, embora conviessem à discussão que eu vinha empreendendo. Freud expressou suas posições quanto ao sigilo médico, de um modo que muito me auxiliou no tocante a esee aspecto:

“Na minha opinião, o médico assume deveres não só em relação ao paciente individual mas também em relação à ciência; e seus deveres para com a ciência significam, em última análise, nada mais que seus deveres para com os inúmeros outros pacientes que sofrem ou sofrerão do mesmo mal.” 95

b) Outro fator que constatei, dizia respeito à complexização da rede de atendimento que é inter-institucional. As ações entre as diferentes instâncias e as definições das incumbências técnicas, não estão ainda devidamente articuladas e integradas, como seria desejável. Essas intervenções variadas nos distintos níveis da rede revelam consideráveis discrepâncias entre as ações da instituição judiciária, e as entidades formadoras e assistenciais. Sendo assim deparei-me por vezes, com determinações judiciais equivocadas com vistas a retardar ou antecipar o retorno da criança ao lar, sem prepará-la mínimamente para isso.

Os pacientes e seus familiares são abordados numa multiplicidade de intervenções muitas vezes díspares, o que produz, além das dificuldades de comunicação inter-instâncias, uma repetição de relatos e interrogatórios acerca da vitimização. Tal perspectiva leva o paciente à desconfiança e exaustão, além de acarretar a manipulação dos dados.

c) No atendimento às vítimas, deparei-me com o quanto a vida familiar estava condicionada a instâncias de poder igualmente repressivos e opressivos, como setores escolares, ou religiosos, operando no controle das famílias. Freqüentemente os membros se encontravam enredados em mandatos proibitivos e tabus, que deveriam ser superados para que a família pudesse aderir ao tratamento. É o caso de adesões ao tratamento que estavam condicionadas à aprovação explícita do diretor da escola, do treinador da criança, do pastor, do bispo ou do reverendo paroquial. É fato também que muitos progenitores se pautam na relação doutrinária com os filhos, pelos ditames de uma seita ou igreja que protagoniza a violência, ao considerar que a conduta da criança ‘não é coisa de Deus’ e que portanto deve ser banida, excomungada e perseguida, especialmente no âmbito doméstico.

95 S. Freud (1905 [1901] ) “ Fragmento da Análise de um Caso de Histeria”. In: ESB Obras Completas de S. Freud. Vol. VII, p. 6.

CAPÍTULO VI

A JORNADA PSICANALÍTICA COM CRIANÇAS VITIMIZADAS E SEUS FAMILIARES

“...poderíamos dizer que a psicanálise é uma extensa, muito extensa, coleta de histórias.” D. Winnicott (1961)

As Consultas Terapêuticas, as Análises Segundo a Demanda e os Estudos de Caso, constituirão meu principal objeto de estudo, e discussão neste capítulo. Winnicott advogou, desde o princípio, a eficácia e profundidade desta metodologia, especialmente em circunstâncias de grave perturbação psiquiátrica. Pela via das consultas realizadas por este analista, até mesmo pacientes de índole psicótica, conseguiram ser ajudados, sobretudo com o apoio e cuidados fornecidos pela família, fundamentais no que se refere à recuperação dos traumas. Faz sentido pensar tal prática, na qual o aspecto primordial da terapia venha a ser empreendido no ambiente doméstico, pois, a noção de trauma para Winnicott, está articulada a uma falha relativa à desadaptação e à não-sustentação ambientais, portanto à família cabe o papel principal na retomada do desenvolvimento do filho.

A prática das consultas terapêuticas, intensamente utilizada por Winnicott, na maturidade dos anos 60, levou-o a contraindicá-las em circunstâncias nas quais a criança se encontrasse mergulhada em uma situação familiar ou social anormais, e a minimizar o alcance terapêutico destas, caso o fator da doença se encontrasse no ambiente e não na criança. Penso ser muitas vezes difícil precisar se os agentes desagregadores se limitam à criança ou à família, tal a trama identificatória e o comprometimento que se instalam em ambos os pólos do conflito. 96 Para ele, dever-se-ia supor um ambiente previsível mediano, para que algum benefício viesse a ser alcançado pela criança e seus pais. Winnicott contava com um ambiente doméstico favorável para que a criança, em pleno direito de expressar sua doença, obtivesse os cuidados necessários e abandonasse a esfera de reação ao trauma, abrindo mão das organizações defensivas, e colocando as vivências impeditivas sob a ingerência do ego, ao invés de submergir a elas.97

96 Ler “O Conceito de Trauma em Relação ao Desenvolvimento do Indivíduo dentro da Família” (1965). In:

Explorações.., op. cit.

97 Tanto a metodologia das Consultas Terapêuticas, quanto das Análises por Demanda , pressupõem um bom ambiente suportivo que promova a retomada do processo maturacional estancado. O caso da menina Piggle é exemplar em termos de como os pais facilitadores, contam com o holding propiciado pelo analista. Eles foram

Contrariando esta recomendação, almejei ousadamente utilizá-la em circunstâncias familiares adversas, inspirada na propositura renovadora que o pensamento de Winnicott incita. Por certo ele não estava só, quando engrossou a fileira de analistas que não esmoreceram nem se acomodaram, prosseguindo na direção dos impasses colocados pela clínica. Apesar de estar pesquisando intrusões traumáticas promovidas numa relação familiar violenta, considerei que o contexto terapêutico fornecido nas consultas, associado a uma rede de intervenções institucionais protetivas, que incluíssem o atendimento familiar e a busca de um membro suportivo não- abusivo, poderia capacitar a criança a continuar se beneficiando das mudanças promovidas a partir dos atendimentos.

Os atendimentos incluídos nesta proposta visavam constituir um acontecimento

transformador que faria parte de uma extensa trama assistencial. Após um longo percurso institucional, adotei a perspectiva de enquadres analíticos diferenciados e alargados, nos quais o analista trabalhava, em operação conjunta com os profissionais de referência do caso. Contudo ele se encarregava do cuidado ambiental, modulando as condições para que a criança afetada recuperasse os processos obstruídos. Na instituição em que atuei, havia uma diversidade de modalidades terapêuticas grupais, as quais pude combinar com os atendimentos terapêuticos em algumas circunstâncias. Essas modalidades eram voltadas para pais, crianças e adolescentes, abrangendo áreas da Pedagogia, Serviço Social, Terapia Ocupacional, Terapia Familiar, Visitas Domiciliares Terapêuticas, além do ambulatório de Psicologia. Trata- se de intervenções que se realizam, tanto em suas especificidades, quanto na conjunção de áreas distintas. Ao reconhecer a importância da abordagem interdisciplinar na contenção da situação conflitiva, eu pensava ainda com Winnicott (1971), que situou a consulta “numa vasta área de trabalho social”.

O atendimento pressupôs em alguns casos, sessões conjuntas entre pais, filhos e irmãos, visando otimizar os aspectos vivenciais favorecedores da relação. No caso de impedimento e inalcance do progenitor violento, busquei contatos com os parentes de perfil protetivo no meio circundante, predispostos ao apoio e monitoramento da criança. É mister encontrar pessoas do convívio da criança com disponibilidade para serem encontrados e usados98, ainda que esses

objetos-continentes estejam no ambiente extra-lar.

Utilizando o Placement como vértice norteador, vivenciei algumas situações com pacientes que, mesmo na ausência absoluta de membros familiares suportivos, se sentiram beneficiados com a inserção de famílias substitutivas no circuito de recuperação e atendimento usados pela criança como objetos engajados, que assumiram responsabilidade total pela retomada do processo de amadurecimento da filha.

98 Adiante, discorro sobre a noção de uso do objeto. No momento há que se ressaltar o fator criativo que a experiência de uso comporta.

das vítimas. Acompanhei o processo de capacitação dessas famílias, especialmente no que referiu aos padrões saudáveis de convivência com a família biológica originária. Fez-se necessário buscar o consentimento sereno dos progenitores para tal iniciativa, afastando o risco de competições, das temíveis ameaças de roubo e de abandono, da atuação das fantasias de adoção, compreensivelmente ativadas, nesta perspectiva de trabalho. A inclusão desse ‘entorno’ da família de perfil abusivo, possibilitou a reorganização externa e também propiciou a integração do si-mesmo da criança, abrindo caminho para a reconstrução do seu potencial para criar, viver e sonhar, condições que germinaram a partir do cuidado ambiental suportivo e empático.

Empreendo aqui uma discussão que julgo relevante quanto à participação dos pais e familiares disponíveis. Eles comparecem às consultas não como meros fornecedores de impressões e informes. O atendimento familiar se constitui num disparador dos recursos saudáveis do ambiente, que se aproxima o mais possível, em termos qualitativos, do que seria um lar bom comum. Refiro-me ao que seria um ambiente adaptado e propício para lidar com a criança doente em condições de recuperação.

Winnicott mantinha, para com os familiares, uma relação de consideração e de inclusão necessárias no circuito da cura, capacitando os pais disponíveis a cuidarem eles mesmos do filho adoecido emocionalmente:

“A família realiza a cura de uma criança como esta no curso de semanas e meses subseqüentes,

embora sem a consulta terapêutica não fossem capazes de fazê-lo, pois do contrário, ainda que disponíveis, seriam de pouca utilidade.” 99

Trabalhei intensamente esta perspectiva da família como co-partícipe do processo de retomada do desenvolvimento, com a equipe, comprometendo os pais no processo, buscando mobilizar as partes saudáveis nos seus investimentos junto aos filhos. A adesão às intervenções terapêuticas era um fator que tinha grande efeito na recuperação da criança, que, ao receber o cuidado ansiado, o reconhecia em júbilo. Isso nos demonstrou o pequenino Olavo, que foi encaminhado ao serviço, pois em seus poucos meses de vida conhecia mais os ambulatórios e hospitais do que a alegria proporcionada por um bom passeio de colo, em uma praça ensolarada. Internado repetidas vezes, em circunstâncias nas quais apresentava ferimentos, graves lesões e

queimaduras, de origem inexplicada.100 Os pais viviam enodados em permanente

99 (grifo meu) D. Winnicott, Consultas Terapêuticas... op. cit., p. 206.

100 Este atendimento necessitou de estreita articulação com os técnicos peritos da Vara da Infância e da Juventude de S. J. Campos e foi acompanhado por mim como supervisora e atendido pela psicóloga Camila Vieira, integrante do Programa de Atendimento a Crianças, Jovens e Familiares Vítimas de Violência Doméstica que desenvolvi no Programa Aquarela.

desentendimentos e versões contraditórias sobre os acometimentos que envolviam o bebê. O menino que era filho único de pais jovens, diferenciados econômica e socialmente em relação à média das famílias inscritas, teve de ser afastado do convívio parental, conforme decisão judicial, após graves ocorrências que apontavam para a vitimização. Os atendimentos com a criança foram iniciados, incluindo-se os avós maternos e paternos. Chamou-nos a atenção que a primeira ele palavra que o bebê proferiu diante da analista, e que passou a repetir sorrindo, foi o significativo ‘acabou’. De fato, a partir da devida providência de socorrê-lo, embora um tanto tardio pois ele apresentava seqüelas neurológicas, atraso na marcha e na linguagem, encerrava-se o seu martírio. Ele, até então, seguia como objeto narcísico de cuidadores que o objetificavam, transformando-o em alvo de disputas, descuidos e desproteção; era receptáculo das mais desastrosas manipulações parentais.

A palavra do bebê apontava que se findara a saga de maus-tratos, dando-se início a uma longa e complexa jornada que incluía os familiares cuidadores substitutos, os próprios pais biológicos e ele próprio.

A intervenção judicial trazia um limite e uma ordenação na orgia e falta de alteridade que reinava na relação pais/filho. A criança passaria a ser acompanhada pelos pais somente por meio de fitas gravadas, interdição que forçou os pais na direção dos lutos e pesares pelos danos causados; experimentaram saudades, insegurança, arrependimentos, embora fosse muito difícil para eles se colocarem no lugar do filho. O que denomino orgia das relações nas famílias

violentas refere-se ao padrão que constatei de indiscriminação de lugares dos membros da família, ao borramento da situação de triangulação, à impossibilidade de vivenciar lutos, renúncias, e de colocar-se no lugar do outro. O pai de Olavo atacava o lugar materno, inclusive impedindo o aleitamento natural e impondo ao bebê, precocemente, a alimentação artificial que ele próprio podia preparar. A mãe colocava-se como filha adoecida pela maternidade, extremamente frágil, doentia e regredida narcisicamente. Ela reinvindicava ser cuidada, encontrando-se impossibilitada de devoção e de empatia com o primitivo do filho. Os progenitores despreparados para a função, tomados por aspectos pré-edipianos, competiam ferrenhamente como irmãos rivais pela posse do bebê. Entretanto nas consultas eles se solidarizavam, aliavam-se ocultando os motivos das graves lesões constatadas na criança. O primitivismo da condição era tal, que encontrávamos uma resposta em bloco da família, como se fosse um fenômeno mono-psíquico, sustentando o silêncio. Observei também a vigência de um pacto familiar de recusa da diferença e da verdade.

Os pais ambivalentes e imaturos, transgrediam e ocultavam-se dos familiares temendo castigo, como se houvessem cometido uma travessura com o “bebê-brinquedo” que tinham em

mãos. A criança, vivida como objeto-estranho, restava órfã e dilacerada pelo não- reconhecimento de sua condição humana.

O trabalho com os pais e também com os avós, tornados responsáveis pela criança, permitiu que todos, com muitas dificuldades, percebessem a violência e a paixão, como fomentadoras da trama relacional. Foi possível iniciar uma separação, que, inclusive, ocorreu com a vinda em separado dos progenitores e também dos avós, para elucidar os encobertamentos, as alianças, as dissimulações, os ataques e as fugas. O caminho de desvelamento da violência destes foi tortuoso, com manifestações de suspeitas, acusações disseminadas, tentativas de aliciamento à analista. Muitas sessões consistiam em episódios torturantes de apelos narcísicos e manobras de sedução e ataque, antes voltados ao bebê em sua corporeidade e espaços internos. Os sobressaltos, ameaças, raivas e inseguranças passaram a ser vivenciados agudamente pela equipe, especialmente pela analista. Os pais foram trabalhados intensivamente para que as visitas monitoradas viessem a ser autorizadas posteriormente. Era necessário restaurar o vínculo pais-filho, com base em esquemas de proteção.

Apesar dos poucos recursos verbais, o essencial é que a própria criança pudesse enunciar o que foi a privação para ela, e quais eram as suas necessidades, para livrar-se das defesas impeditivas. A história de Olavo foi sendo aos poucos suscitada de um modo diferente, e cada um dos envolvidos pôde encontrar uma outra forma de responder àquela história familiar penosa. A manutenção dos benefícios advindos dos encontros terapêuticos será proporcional à saúde do ambiente no sentido de não (re)produzir outras invasões. Figuras parentais sensitivas podem fazer um bom trabalho de holding, colocando em jogo instrumentos favorecedores da retomada do processo maturacional.

Faz-se necessário pensar a noção de cura subjacente a esta metodologia. Entendo que ela está condensada na seguinte consideração de Winnicott: “É possível curarmos nosso paciente e não sabermos nada a respeito daquilo que o faz continuar vivendo.” 101 Ele nos levou a refletir sobre os alicerces de nossa plena existência, pois, caso contrário, estaremos curando sintomas e não as pessoas, cuja ilusão, criatividade e esperança faltantes não as capacita ao viver legítimo.

À questão do que se cura no âmbito desses atendimentos terapêuticas, eu responderia que curar corresponde a cuidar. Eu considerei a princípio que, embora uma reestruturação plena da personalidade pudesse não vir a ser alcançada na brevidade dos atendimentos, esses procedimentos teriam um poder resolutivo no sentido da identificação dos focos traumáticos, amenizando-os ou mesmo dissolvendo-os.

101 Winnicott (1967b) “ A localização da experiência cultural”, in O brincar e a Realidade. Trad. J. Otávio Aguiar Abreu e Vanede Nobre. Rio de Janeiro, Imago, 1975, p. 139.

O uso da potencialidade da situação analítica, com a ampliação de inovações clínicas, foi exemplarmente praticado por M. Khan, que trabalhou com essa perspectiva de cuidado

terapêutico e incitou os analistas a inovarem, afastando as ressalvas de pouca eficácia e superficialidade, que poderiam pairar sobre a modalidade de trabalho focada no atendimento de pacientes em regressão.

“Ouvir com os olhos”, como ele propôs, é um trabalho diferente, árduo, e coloca outra ordem de problemas ao analista, mas não menos importantes. 102

O que fazemos, conforme Winnicott descreveu no artigo A cura (1970), não consiste em aplicar um tratamento, mas em facilitar o crescimento. O que se coloca em causa, é a possibilidade dos pacientes de alcançarem instrumentos que lhes assegurem a plena posse de si mesmos e, na inteireza dos seus recursos psíquicos, viverem a perspectiva vivencial que inclui o embate em termos de conflitos internos e externos manejáveis por uma organização central. O autor reconheceu ainda que, quando o caso é extremamente complexo, as entrevistas podem ser duplicadas ou prolongadas por meses ou até mesmo por anos. 103

A apresentação das consultas clínicas empreendidas por este analista não se refere a uma descrição de casos curados em termos da sintomatologia e da queixa inicial, sendo possível ocorrer um resultado nulo ou mesmo adverso, conforme o analista se mostre inábil para a instalação das condições propícias à regressão terapêutica, o que não é infreqüente. O insucesso, em alguns casos, não abalou o espírito de pesquisa em Winnicott, de cuja pujança ele dá testemunho: “Não desanimo pelo fato de existir um vasto número de casos anti-sociais muito sérios para os quais não posso esperar modificações pelo modo que descrevo nesta série.” 104

Considerei, dentre os atendimentos realizados na instituição, o trabalho com Adailton, Ricardo e Baltazar, descritos no seguimento deste capítulo, os maiores desafios em termos das chances de recuperação, devido às circunstâncias crônicas de abandono familiar, de imersão no tráfico de drogas e ganhos secundários com a prática de furtos. Eu tinha em vista o objetivo de que eles se tornassem casos menos graves, capacitando-os a utilizarem favoravelmente o ambiente adaptativo que eu e a equipe envolvida disponibilizávamos para eles.

O método de trabalho winnicottiano contempla uma preocupação com o fornecimento das condições necessárias para o desbloqueio almejado desde os primeiros encontros:

102 M. Khan, “Ouvir com os olhos: notas clínicas sobre o corpo como sujeito e objeto”, in Psicanálise: Teoria ...

op. cit.

103 No caso Cecil, descrito no livro das consultas, este analista atendeu o menino longitudinalmente: as consultas realizadas datam de quando a criança tinha vinte e um meses, aos dois anos e meio, aos oito anos quando começou a