É significativo que a imagem que Rama tinha de si coincidia ou estava sempre às voltas com a adolescência enquanto um signo de liberdade e torpeza. Nesse sentido, poderíamos dizer que a adolescência era a sua escolha íntima de identidade: “Ser libre, la gran ambición, pero estoy demasiado acostumbrado a refrenar mis impulsos.”. 489
Quando refletia sobre o excesso de trabalho junto à editorial da Biblioteca Ayacucho, esboçava a grande preocupação que sentia com a perda de sua capacidade de trabalho, o que ele creditava ao avançado da idade. Não obstante, Rama ambicionasse fazer ainda mais e percebesse com espanto que a sua vontade mantinha-se conservada “absurdamente”. Por certo, tratava-se de uma vontade própria de um adolescente, sempre disposto a aprender (e a se rebelar) e preocupado com a aquisição de conhecimentos válidos.
O que dizia o espelho, o que as fotos revelavam e o que os amigos observavam lhe revelava como tudo se transformara inexoravelmente. Em que pese a veracidade desses dados, Rama acentuava com convicção que: “nada ha cambiado, sustancialmente,
485
RAMA, Á., Op. cit., 2001, p. 108. 486
NIETZSCHE, F., Op. cit., 2008, p. 92. 487 RAMA, Á., Ibid. p. 111. 488 NIETZSCHE, F., Ibid., p. 42. 489 RAMA, Á., Ibid.,, p. 108.
en el interior, para sorpresa y congoja mía. Como un alma adolescente en un atuendo de „senior‟.”.490
Por trás da permanência ou da constância dessa “disposição de espírito”, Rama enxergava um problema de ordem emocional. Aliás, o “problema” não era exclusivo de Rama, ele o compartilhava com a sua companheira: “Y lo mismo descubro en Marta aunque ella mantiene esa gracia juvenil permanente que resulta asombro de todos.”.491
Ora, em que pese à insatisfação de Rama, não há como deixar de sublinhar o quanto essa jovialidade significava um bálsamo para as feridas do casal.
Em algumas anotações do Diario, Rama se mostra um “desmistificador no interior do grupo que ao mesmo tempo ele exprime e ataca.”.492
Se isso for verdade, significa que, mesmo no Diario, Rama não deixou de se colocar e de proceder como um intelectual, ou seja, como alguém que fez da verdade o seu partido, isto é, alguém que intencionava dizer a verdade. De acordo com Barthes,
(...) o intelectual é totalmente definido por um estatuto contraditório; não há dúvida de que ele seja delegado por seu grupo (neste caso a sociedade mundana) para uma tarefa precisa, mas essa tarefa é contestatória; noutros termos, a sociedade encarrega um homem, um retor, de se voltar contra ela e de contestá-la. 493
Há um comentário de leitura no Diario muito significativa que é, ao mesmo tempo, um convite para o aprofundamento do que venho discutindo:
Vendrán otras explicaciones. Pero esta mirada panorámica de Braudel en Le temps du monde que estoy leyendo, me es estrictamente afín: los grandes espacios y tiempos manejados amorosamente y dentro de ellos los datos concretos que iluminan, hacen vivo, el movimiento de los hombres, a pesar de que a éstos los impulsen fuerzas superiores e incontrolables. He aceptado ser la hoja en la tormenta a pesar de rechazar el desorden que la mueve, en la medida en que pueda comprender las fuerzas que actúan y que pueda enamorarme del color, los movimientos, la gracia particular de esas hojas. 494
A conclusão dessa mesma anotação não poderia ser mais decisiva ao recair sobre uma determinada visão do desenvolvimento capitalista:
490
RAMA, Á., Op. cit., 2001, p. 124. 491
Id., Ibid., p. 124. 492
BARTHES, Roland. O grau zero da escritura. Tradução de Mario Laranjeira. São Paulo: Martins Fontes, 2000, p. 100.
493
BARTHES, R., Op. cit., 2000, p. 101. 494
Los dioses terribles y vengativos de antaño es lo que hoy llamamos el capitalismo; tanto Braudel, como en Wallerstein, es su acción a escala internacional, su magnificencia y la suma de dolor de que se ha alimentado, lo que le confiere ese aire de imperturbable divinidad vengativa. 495
Creio que Rama concebia os homens (e a si) como reflexos dessa conformação na qual prevalecem a destruição e um comportamento dominante: a vingança. A ponte a ser estabelecida aqui nos liga a uma leitura especialmente significativa para Rama: O
Conde de Monte-Cristo, de Alexandre Dumas. Como argumenta Antonio Cándido:
Assim como a vingança grupal dissolve o vingador nas malhas do interesse coletivo (seja ele a honra dos reis gregos, na Ilíada, ou a tranqüilidade dos proprietários lusitanos, no falso Juramento do Árabe, de Gonçalves Crespo), a vingança pessoal destaca-o, marca o seu relevo próprio e o sobressai aos demais. O homem que vinga a si mesmo abertamente acredita poderosamente em si mesmo, e considera as violações de outrem à sua própria integridade como outros tantos atentados ao equilíbrio do universo. Uma autovisão parecida com a do grande industrial, que justifica o desencadear de uma guerra se for útil ao movimento dos seus negócios. 496
Quando Rama começava a desfazer os laços que o uniam a Venezuela, alguns apelos para dissuadi-lo ainda se faziam presentes. Um deles o fará retomar o já mencionado episódio com Rafael Di Prisco. Anotando desde Washington, em lunes 24, ele informa sobre uma nova conversa com Di Prisco:
Tuve, por lo tanto, que contarle de viva voz mi carta en la que le anunciaba que no volvería en setiembre porque habíamos aceptado el compromiso con Princeton para el semestre de otoño. Dijo que le afectaba y lo creo porque necesitaba de mí – sospecho – para instalar su proyectado Master antes de pasar a dirigirlo al abandonar su cargo de decano. Lo solucionará: sólo soy una pieza de transmisión en su proyecto. Pero yo sentí una suerte de alivio y de liberación con este anuncio que le hice: estoy saliendo. 497
Creio que a coisa mais importante a ser destacada nessa passagem seja a mudança de postura de Rama, que não se aceitava mais ser apenas uma peça de transmissão. Assim, depreciava uma função que eventualmente estaria sob seu cargo. Fez questão de dizer para si mesmo que as coisas iriam acontecer inevitavelmente, com ou
495
RAMA, Á., Op. cit., 2001, p. 125. 496
CÂNDIDO, Anttonio. Tese e antítese. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1964, p. 13. 497
sem a sua participação. Entretanto, mais do que uma simples resposta, o acontecimento ganhou um sabor de desforra.
Em alguns momentos, Rama aparece como aquele homem que perdeu a sua sombra e somente consegue ver-se verdadeiramente em face às suas perdas sucessivas. Sob esse aspecto, o exemplo mais impressionante se encontra nos primeiros meses do
Diario, em que anotara:
Una gran foto mía, ilustra un reportaje en El Nacional (Papel Literario); la miro como a un estraño poco atractivo. Cuando algunas amigas hacen referencias elogiosas a la foto, o se acuando se me hace evidente (con la dificuldad de siempre) que mi percepción desvalorativa no es enteramente justa, me invade la verguenza y la consternación. Es casi peor que el vivir en el convencimiento constante de que este rostro es el de un viejo arrasado por la edad, la cual lo ha tornado ridículo y grotesco como el de un payaso de mal circo. La calvicie, los ojos sin pestañas casi, los dientes sostenidos apenas por sus prótesis, la flojera de la carne en el cuello, cómo empiezan las bolsas bajo los ojos, tan marcados los dias de fatiga, la mirada blanca, alucinada e inquisitiva, este bigode enrulado que no sé llevar, ni cortar, ni cuidar, el movimiento erguido del cuerpo como hendiendo los aires con una cabeza pronta a volar. Así soy, Dios, así soy, es inútil luchar contra el huracán con que se mueve el tiempo. Las fotos son engaños, las miradas ajenas también: sólo es verdad esta constancia.
498
Rama elaborava aí uma intensa crítica ao simulacro; rejeitando tanto um estado de horror em relação ao simulacro como evitando qualquer tipo de dissimulação. Poder- se-ia dizer que, nesses casos, se trata da imediata dor metafísica perante a precariedade da existência. Faz sentido pensar assim, mas, contudo, a sentença final culmina com uma postura controversa: Rama parece se distanciar daquilo que, no conjunto, se configurava como uma impressão repugnante de si mesmo, calcada numa franqueza sem concessões. O que aparece em questão é a aceitação ou a recusa da fugacidade do tempo. Mas, nem tudo se resume a um rosto que não mais se reconhece. Rama respondeu à imagem como se sentisse vítima do tempo; como se testemunhasse uma vingança do tempo contra quem sempre procurou detê-lo, rompendo com a ordem natural das coisas. A fotografia, nesse sentido, é inatual e representa um fragor; são as ruínas internas desabando logo após tremerem diante de tantas apreciações destoantes de si, inclusive aquela que faz de si próprio.
498
Retomo novamente a relação de Rama com Traba. Quando soube que ela precisava fazer uma cirurgia com urgência, num tom de súplica, ele disse:
Por qué ella? me digo estúpidamente, pensando que yo estoy más hecho espiritualmente a las mutilaciones. Cómo vivirá así? Pienso, como agarrado a la esperanza, que tendrá curación o muy largos años con cuidados. Es un hundimiento: todo estaba hecho para otra cosa, para que yo fuera primero, y siempre la pensé viejecita, como su madre, con sus hijos y nietos aleteando alrededor de ella. 499
Frente a tamanho desassossego, não existe nem mais a possibilidade de um recolhimento através da escrita, resta somente abandonar-se no tempo e entregar-se ao sono que a razão, afinal, não consegue conter.