David Buckingham (2010), um dos autores já citados nesta pesquisa, com vários estudos sobre mídia-educação, acredita que esta metodologia é um pré-requisito no processo de formação da cidadania ativa. A portuguesa Conceição Lopes, com base em Buckingham, trata dos limites da “educação para a mídia” e a rotula como uma perspectiva aprisionada, reivindicando uma postura coparticipativa que, em sua visão, a mídia-educação é capaz de promover:
A perspectiva mídia educação que se afirma é a co-participativa. A que resulta da identidade formada pela conexão mídia educação que se materializa na cohabitação singular da existência concreta de cidadãos nos seus contextos culturais e sociais. Dissocia-se da perspectiva instrumental, dita aprisionada da educação para a mídia, por ser uma perspectiva essencial que nada de instrumental tem. Essencial à compreensão do mundo, à construção social da realidade local, regional, nacional e mundial e indutora de práticas de aprendizagem e de mudança, que pela experiência
concreta de co-produção de mídia na escola preparam pro-activamente as crianças e jovens a “aprender a aprender” e a “aprender como se aprendeu a aprender”. (LOPES, 2006, p. 141).
Com o slogan “A mídia educativa da cidade”, a MultiRio passou a utilizar a grafia do conceito sem o hífen, por conta do novo acordo ortográfico. Entretanto, estudiosos da área ainda defendem a colocação do hífen. No Rio de Janeiro, a Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) “Planetapontocom” também assumiu o termo. Contudo, autores como Mônica Fantin continuam adotando a grafia mídia-educação (com hífen), alegando ser um termo mais conciso. Conforme relata Fantin, em entrevista, “me parece que o hífen em mídia-educação expressa essa palavra composta que une os elementos dos dois campos mediante uma nova composição, que vai criando neologismos e semânticas novas formadas ao sabor dos usos que fazemos” (TAVARES, 2016).
De toda forma, ao tratar de mídia-educação, em 2015, Marinete D´Angelo81 (diretora de mídia e educação da MultiRio) a definiu como “uma abordagem metodológica que integra os conceitos da educação e da comunicação, instigando à reflexão sobre o momento em que vivemos, revendo o espaço da escola, a função docente e a procura de novas práticas pedagógicas”. D´Angelo menciona três publicações da empresa, chamadas de “A escola entre mídias” (2011), “A escola entre mídias: linguagens e usos” (2012) e “A escola entre mídias: experiências e conquistas” (2013), que exemplificam ações pedagógicas e são verdadeiros manuais de práticas e orientações para o ensino formal. Há, no primeiro volume, um artigo de autoria de Eduardo Monteiro82, “Mídiaeducação e educomunicação: Semelhanças, diferenças e especificidades”, no qual o autor lembra que a midiaeducação, em geral, está mais voltada às práticas escolares e agrega pessoas preocupadas com a educação para, pelos e com os meios, e deriva de tendências como media education. Ao tratar da Educomunicação, Monteiro (2011, p. 50-51) afirma: “emerge como um campo com identidade muito associada aos movimentos de esquerda da América Latina, entre convergência da comunicação e educação popular [com base em Paulo Freire], não está tão centrada na educação escolar”.
81 Marinete foi diretora de mídia-educação da MultiRio até abril de 2017.
82 Eduardo Monteiro é doutor em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da
Universidade de São Paulo (ECA/USP) na linha de pesquisa Comunicação e Educação, sob orientação do professor Dr. Ismar Soares. Atuou por vários anos na OSCIP Planetapontocom, no Rio de Janeiro.
No “VI Encontro Brasileiro de Educomunicação”, ao apresentarmos um trabalho sobre esta pesquisa83, o professor carioca Eduardo Monteiro84 (2015), presente na sala de apresentação, manifestou sua opinião sobre a pesquisa que realizamos:
Eu acho que as diferenças entre midiaeducação e educomunicação precisam ser superadas e vejo este estudo como muito importante, porque, no fundo, já estávamos caindo na questão de disputa territoriais. Temos que desmistificar essa diferença, sem dúvidas, levando em consideração a história de cada paradigma.
Ele expôs que, quando resolveu ingressar no doutorado na ECA/USP, havia passado anos tentando encontrar no Brasil um estudo que contemplasse “a percepção de que se estava construindo um novo campo de estudos científicos, nós precisamos abrir mão dessas histórias particulares para se chegar a uma coisa mais universal, essa coisa inseparável entre Comunicação e Educação”. Referiu ter encontrado a temática na ECA/USP.
Monteiro revelou que trabalha também na OSCIP Planetapontocom, instituição que já defendeu a bandeira da mídia-educação, mas hoje possui um pensamento dialógico: “só não podemos abrir mão do conceito, mas, hoje, essa OSCIP é associada da Associação Brasileira de Pesquisadores e Profissionais em Educomunicação (ABPEducom)”.
Em 2016, Simone Monteiro de Araújo participou do Global MIL (Media Education and Information Literacy) Week85, especificamente do VII Encontro Brasileiro de
Educomunicação, realizado no campus da ECA/USP, onde apresentou paper sobre os resultados da primeira fase da pesquisa “Projetos de mídia-educação nas escolas da Rede Pública Municipal do Rio de Janeiro e aprendizagem escolar”, parceria da SME e do GRUPEM, do Programa de Pós-Graduação em Educação da PUC-RJ, sob a coordenação da professora Rosália Duarte, financiada pelo Instituto Desiderata. A liderança do movimento de educação midiática do Rio de Janeiro articulou, em 2010, uma proposta de Projeto de Lei encaminhada à Câmara dos Deputados, em Brasília, tendo como tema “Leitura e educação
83 Artigo intitulado “Educomunicação e políticas públicas: estudo comparativo de educação midiática nas
cidades de São Paulo e Rio de Janeiro”. Trabalho apresentado no eixo: Educomunicação na educação midiática e informacional, no VI Encontro de Educomunicação, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, em junho de 2015.
84 Monteiro, em explanações no VI Encontro de Educomunicação sobre os estudos da tese. Na ocasião, revela
ainda que a diretora de Mídia e Educação da MultiRio trabalhava também na OSCIP Planetapontocom (RJ).
85 Entre os dias 3 e 5 de novembro de 2016, a UNESCO realizou o Global MIL (Media Education and
Information Literacy) Week na ECA/USP. O evento trouxe a São Paulo representantes do movimento em torno
da educação midiática e informacional de todo o mundo, com o tema geral: Media and Information Literacy:
new Paradigms for Intercultural Dialogue. Paralelamente, a ABPEducom realizou o VII Encontro Brasileiro de
para as mídias”. O projeto foi assumido pelo Deputado Eduardo Cunha, recebendo a designação de PL 7.450/201086.
Assim como a rede municipal de ensino do Rio de Janeiro, com o maior número de escolas do país, adotou uma política voltada à mídia-educação, em certa medida com a assessoria da MultiRio, a rede de ensino do município de São Paulo também aderiu à educação midiática como política pública, inicialmente com a assessoria do Núcleo de Comunicação e Educação da Universidade de São Paulo (NCE/USP), por meio da perspectiva da Educomunicação, como apresentaremos no próximo capítulo.
86 Em 2010, o Deputado Eduardo Cunha propôs à Câmara dos Deputados (PMDB-RJ) o Projeto de Lei (PL
7.450/2010), nas Comissões de Educação e Cultura e de Constituição e Justiça e de Cidadania. O PL dispõe sobre a inclusão da matéria “Leitura e Educação para as mídias” nas grades curriculares dos ensinos fundamental e médio nas escolas públicas e privadas de ensino do país. Entre as várias estratégias sugeridas no artigo 3.º da PL, destacamos a 5.ª, que trata de um programa nacional de capacitação de professores e da revisão da grade curricular do curso superior de Comunicação Social, prevendo cursos de Licenciatura para os futuros jornalistas, publicitários e relações públicas. Em sua justificativa, há uma citação de Roger Silverstone em “Por que estudar a mídia?”. Cita como exemplo a produtora Duende Pictures, da cidade Nova York (EUA), que faz um trabalho com estudantes escolares oferecendo oficinas e aulas teóricas para a produção de curtas-metragens a serem exibidos nas escolas desses educandos.