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O estudo do discurso estético, em sua dimensão intersemiótica, no liame poesia/pintura, propõe-se um corpus que, em sua especificidade, apresenta um recorte interdisciplinar, por abarcar uma base científica que se ancora em pressupostos da semiótica poética, da semiótica da pintura, da semiótica visual, da história e da crítica da arte, da teoria e da crítica literárias, da teoria da enunciação, na perspectiva da Linguística, da dialética e, dentre outros, até de uma ciência da imagem, conforme suscita Santaella (2001) ao postular que:

enquanto a galáxia de Gutenberg [em referência anterior, quando ela [Santaella] alude à propagação da palavra humana que começou a adquirir dimensões galácticas já no século XV de Gutenberg] foi, desde cedo, acompanhada por uma galáxia de pesquisa sobre a natureza e estrutura da mídia palavra, institucionalmente propagada pelos acadêmicos das artes da gramática, retórica e filologia, os estudos da imagem não criaram uma tradição similar, continuando até hoje sem um suporte institucional de pesquisa que lhe seja próprio. Uma ciência da imagem, uma imagologia ou iconologia ainda está por existir. [Acrescenta]: As investigações das imagens se distribuem por várias disciplinas de pesquisa, tais como a história da arte, as teorias antropológicas, sociológicas, psicológicas da arte, a crítica de arte, os estudos das mídias, a semiótica visual, as teorias da cognição. O estudo da imagem é, assim, um empreendimento disciplinar (SANTAELLA, 2001, p. 13).

Mas, o que vem a ser imagem? Segundo Ferreira (1986):

Imagem. [Do lat. imagine.] S. f. 1. Representação gráfica, plástica ou fotográfica de pessoa ou de objeto. 2. Restr. Representação plástica da Divindade, de um santo, etc. (...) [Cf. Ídolo (1) e ícone.] 3. Restr. Estampa, geralmente pequena, que representa,

um assunto ou motivo religioso. 4. Fig. Pessoa muito formosa. 5. Reprodução invertida, de pessoa ou de objeto, numa superfície refletora ou refletidora. (...) 6.Representação dinâmica, cinematográfica ou televisionada, de pessoa, animal, objeto, cena, etc. 7. Representação exata ou analógica de um ser, de uma coisa; cópia: (...) 8. Aquilo que evoca uma determinada coisa, por ter com ela uma semelhança ou relação simbólica; símbolo. 9. Representação mental de um objeto, de uma impressão, etc.; lembrança, recordação: imagens do passado. 10. Produto da imaginação, consciente ou inconsciente; visão. (...) 12. Metáfora: imagem gasta, banal. (FERREIRA, 1986, p. 917).

Na sua expansão, este estudo dará foco analítico ao termo imagem enquanto acepção referente aos itens: 1, 2, no sentido da representação gráfica e representação plástica, ou seja, na dimensão do ícone. Também à acepção do item 7 como representação exata ou analógica de um ser, de uma coisa; cópia: enquanto relação indicial. E, por fim, na acepção do item 8. Aquilo que evoca uma determinada coisa, por ter com ela uma semelhança ou relação simbólica; símbolo.

E a palavra? Este termo, para Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda (1986) assume várias acepções:

Palavra. {do gr. Parabolé, pelo lat. parabola.] S. f. 1. Sua representação gráfica. Fonema ou grupo de fonemas com uma significação; termo, vocábulo, dição: (...). 2. Sua representação gráfica. (...). 3. Manifestação verbal ou escrita; declaração. (...). 4. Alta expressão do pensamento; verbo. 5. Grupo de palavras, frases. (...). 7. Modo de ver; opinião, afirmação, asserto. (...). 8. Alocução, oração, discurso. (...). 9. Doutrina. (...). (FERREIRA, 1986, p. 1249).

Nesse conjunto de acepções do termo palavra este estudo retomará os itens:

1. Sua representação gráfica: “Morte da palavra. /Morte da palavra morte. ” (Murilo Mendes, “Morte Situada na Espanha”, Tempo Espanhol, 1994, p. 619-620).

2. Manifestação verbal ou escrita; declaração: “Quem te dissera a palavra essencial /E te abrira as comarcas do invisível?” (Murilo Mendes, “Santo Inácio de Loiola”, Tempo

Espanhol, 1994, p.593).

3. Alta expressão do pensamento; verbo. “Antes mesmo de nasceres /Já o fogo te formava, /Já o fogo te anunciava: /Serias a vida toda /Trabalhado pelo Verbo, /Atacando o lado oposto. ” (Murilo Mendes, “São Domingos”, Tempo Espanhol, 1994, p. 578).

5. Modo de ver; opinião, afirmação, asserto. (...). 8. Alocução, oração, discurso. “O poeta dos quatro elementos /Por amor de vós /Transformou o conceito em poesia /E abriu as curvas barrocas da palavra.” (Murilo Mendes, “Arco de Gôngora”, Tempo Espanhol, 1994, p. 594). (...).

Para a Semiótica Poética, conforme A. J. Greimas/J. Courtés (1979) o termo palavra assim se expande:

Palavra s. f. Fr. Mot; ingl. Word 1.

Para o semioticista, o termo palavra, é um engodo particularmente ativo da linguística. Não conseguindo defini-las, os linguistas tentaram, inúmeras vezes, expulsá-la de sua terminologia, de suas preocupações: a cada vez, ela soube voltar, com outros disfarces, para recolocar os mesmos problemas.

2.

Na linguística comparada *, nascida dos estudos efetuados sobre as línguas naturais. Por essa razão, era objeto de um dos componentes da gramática *, a morfologia *, que a apreendia como parte dessa ou daquela classe * morfológica (ou parte do discurso), como portadora de marcas categorias gramaticais, como elemento de base das combinações sintáxicas, etc.

3.

As dificuldades só começaram, por assim dizer, no momento em que a linguística foi levada a se encarregar de línguas muito diferentes, não mais do tipo indo- europeu, nas quais a palavra, tomada como unidade, só com muita dificuldade encontrava correspondentes mais ou menos equivalentes: assim, nas línguas ditas “aglutinantes” não existe fronteiras entre palavra e enunciado e são aí encontradas as chamadas “palavras-frases”; ao contrário, nas línguas “isolantes”, a palavra se apresenta como uma raiz. O paradoxo é que, para mostrar que a palavra não é uma unidade linguística pertinente e universal, tais línguas são exatamente definidas como tendo “palavras” de outro tipo. Resulta daí, de qualquer forma, que a palavra, mesmo sendo uma unidade sintagmática, só pode ser apreendida como tal no interior de uma língua ou de um grupo de línguas particulares.

4.

Hoje, alguns linguistas procuram se desembaraçar do conceito de palavra propondo, mais ou menos em seu lugar, uma nova unidade sintagmática, a lexia: esse novo conceito, operatório, parece aceitável, o que não impede que a definição de lexia apresente como condição a possibilidade de sua substituição no interior de uma classe de lexemas* (o que, de novo, nos aproxima da palavra como classe morfológica). (A. J. GREIMAS/J. COURTÉS, 1979, p. 322-323).

A pluralidade de códigos em Tempo Espanhol (1994) suscita a coexistência de signos diferentes – a palavra e a imagem –, que revela a riqueza de um discurso heterossemiótico. Murilo Mendes abre de palavra em palavra, as “comarcas” do verbo para as múltiplas leituras em Tempo Espanhol (1994) que se configura como um universo plurisseriado em Artes: Poesia/Pintura, catalogadas em verso.

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