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L’erreur d’affectation

Chapitre 9. Arithmétique de la calculatrice

1. Nombres machine et … nombres réels

1.4 L’erreur d’affectation

Na perspetiva de Manning (2001), o processo de seleção noticiosa, abordado no ponto anterior, está intimamente relacionado com um elemento crucial no processo de produção das notícias: as fontes de informação. Isto porque as fontes, particularmente as fontes organizadas sobre as quais refletimos nos pontos 7 e 8 do presente capítulo, sabem que para conseguirem transformar um determinado assunto ou acontecimento numa notícia e para ampliarem a sua capacidade de influência no seio da agenda mediática terão de conhecer a fundo os critérios de noticiabilidade que guiam os jornalistas durante o processo de seleção da informação, bem como os próprios ritmos das organizações em que estes se inserem. Quais as fontes que sustentam o campo jornalístico português? Terão elas uma influência real sobre o trabalho produzido pelos protagonistas da esfera mediática entrevistados?

Na opinião de Luís Castro, José Couto Soares, Simone Duarte, Ana Lourenço, João Vaz, Nuno Marques, Lucinda Canelas, Alexandra André e Bruno Braz, os outros meios de comunicação social assumem um papel crucial enquanto fonte no processo de construção noticiosa. Entre estes meios de comunicação, Simone Duarte lança um especial enfoque sobre a imprensa escrita internacional, a qual considera ser uma fonte essencial na elaboração do noticiário do Público. No caso dos jornalistas dos operadores da televisão generalista portuguesa, Ana Lourenço realça a importância assumida pelas televisões internacionais como fonte primordial da informação produzida pela SIC, enquanto Bruno Braz menciona o papel desempenhado pelas revistas internacionais, pela TSF e pelos jornais Público e Expresso na produção noticiosa deste canal. Alexandra

André, por seu turno, considera a imprensa escrita nacional uma fonte primordial no seu trabalho diário.

“Nós, em economia, recorremos às agências de notícia, quer a Lusa, quer internacionais; recorremos às nossas fontes, como, por exemplo, a parte das assessorias ou algumas pessoas que intervêm em determinados processos que nós estamos a acompanhar nas várias áreas económicas. Há os jornais também, lá está o tal complemento.”

Alexandra André, RTP

Para além dos outros órgãos de comunicação social, as fontes próprias são mencionadas por uma fatia importante dos profissionais entrevistados: José Leite Pereira, Nuno Pacheco, Alexandra André, Diana Ramos, Alcides Vieira, João Vaz, José Alberto Carvalho e José Couto Soares. De acordo com João Vaz, tais fontes tendem a ser preteridas por outras pelo facto de serem mais circunscritas. Na mesma linha, José Alberto Carvalho considera que as fontes próprias têm vindo a perder expressão, embora aponte outro motivo para que tal aconteça: o facto de vivermos num panorama comunicacional pautado por um funcionamento em rede promove uma maior dispersão destas fontes, as quais têm hoje outras formas de fazerem chegar as informações de que dispõem ao conhecimento público. Para José Couto Soares, as fontes próprias e individuais de cada jornalista desempenham um papel fundamental no processo de recolha de elementos que poderão revelar-se vitais na construção da notícia, uma vez que se tratam de informantes privilegiados que trabalham ou que estão próximos de organismos tão diversos como as empresas, os partidos políticos, a polícia, as autarquias ou mesmo o Governo.

A par das fontes próprias, as agências noticiosas ocupam um lugar de destaque nas respostas dos profissionais entrevistados, sendo referidas por João Vaz, Lucinda Canelas, José Couto Soares, Alexandra André, Paulo Santos, Simone Duarte, Bruno Braz, Nuno Pacheco e Nuno Marques. Na distinção entre a Lusa e as agências internacionais, Bruno Braz prefere destacar a primeira como fonte primordial de informação, enquanto Simone Duarte e Nuno Pacheco realçam o papel que as agências internacionais assumem no processo de construção noticiosa no Público. No entanto, de acordo com o diretor-adjunto do Público, os profissionais deste jornal não se limitam a publicar os telexes que chegam das agências internacionais, procurando sempre acrescentar algum elemento novo que advenha do seu trabalho de pesquisa.

“Imaginemos: a Reuters fez um trabalho simpático, bom, bem feito sobre uma determinada coisa. Nós pomos Reuters em baixo, não nos choca nada; ou Lusa ou o que quer que seja. Mas procuramos sempre acrescentar alguma mais-valia nossa.”

Nuno Pacheco, Público

Na esteira de Bruno Braz, Nuno Marques salienta a importância da agência Lusa como fonte de informação, considerando-a como uma forma de colmatar a escassez de recursos que as redações enfrentam, quer em termos humanos quer em termos de disponibilidade para implementar um jornalismo de investigação, que não esteja tão dependente do trabalho produzido pelas agências noticiosas.

José Alberto Carvalho, Luís Castro, Simone Duarte, Ana Lourenço, Nuno Marques, Diana Ramos e Bruno Braz enfatizam o papel que a Internet tem vindo a assumir enquanto fonte de informação, o que vai ao encontro dos pontos de vista defendidos por Gomes (2009) e Bastos (2000). De acordo com o primeiro autor, as novas tecnologias em geral e a Internet em particular fornecem ao jornalismo uma diversidade de informações e de ferramentas que assumem uma enorme utilidade no quotidiano do trabalho jornalístico, sobretudo pelo incremento exponencial da velocidade informativa à escala global potenciada pela Internet. Na mesma esteira, Bastos (2000) defende que o online exerce dois tipos de efeitos no campo jornalístico e na prática da profissão jornalística: por um lado, uma alteração profunda na forma como os profissionais dos meios de comunicação social tradicionais passaram a pesquisar e a recolher informações, bem como a contactar fontes de informação; por outro lado, um crescimento do jornalismo digital, com a expansão de uma produção noticiosa exclusivamente direcionada para as edições online dos órgãos de comunicação.

Estas últimas são destacadas por Simone Duarte e Nuno Marques como sendo essenciais no processo de elaboração da informação, quer se tratem de sites dos meios de comunicação nacionais, quer dos órgãos internacionais, ao passo que Ana Lourenço realça os sites das televisões internacionais como um elemento central na procura de informações no seu trabalho diário. Na opinião de José Alberto Carvalho, o peso que a Internet tem no quotidiano das redações é um dos reflexos – e também uma das consequências – das alterações profundas que o processo de comunicação sofreu nos últimos tempos, muito devido à velocidade na implementação de inovações tecnológicas, o que teve impactos no próprio conceito tradicional de fonte e no funcionamento das redações, embora considere que as empresas ainda não se conseguiram adaptar a esta nova realidade.

As fontes institucionais/oficiais emergem como a quinta fonte mais referida pelos diretores, editores e jornalistas entrevistados, sendo destacada por Alcides Vieira, José Leite Pereira, Diana Ramos, Romana Borja-Santos, José Alberto Carvalho, José Gomes Ferreira e Inês Schreck. Na opinião de José Gomes Ferreira, este tipo de fontes é particularmente crucial no caso das notícias sobre política e economia, quer quando decorrem conferências de imprensa, quer no trabalho que está diretamente dependente da agenda dos profissionais ou dos organismos ligados a estas áreas. Inês Schreck, por seu turno, alicerçando-se na sua experiência enquanto jornalista da secção Local do JN, realça o papel desempenhado por organismos como os bombeiros, a polícia, a Proteção Civil e as câmaras municipais e juntas de freguesia, no processo de recolha de informação.

Neste ponto, importa aludir brevemente à opinião de Rebelo (2002) a propósito das fontes institucionais. Do ponto de vista deste autor, a primazia da informação proposta por este tipo de fontes abre as portas àquilo que designa de “contaminação” do conteúdo dos media, sendo que o interesse que os jornalistas consignam nestas fontes é proporcional ao respeito existente por estas e à credibilidade das informações que fornecem. Neste quadro, Rebelo considera que “a instância-fonte ‘escolhe’ os jornalistas com os quais vai trabalhar” (Rebelo, 2002: 30), o que vai de encontro à ideia defendida por Luís Castro e por José Rodrigues dos Santos, no ponto 2 do presente capítulo, a propósito do facto de as fontes privilegiarem a imprensa escrita em detrimento da televisão quando têm uma informação exclusiva para fornecer.

Uma outra fonte mencionada pelos profissionais entrevistados são os cidadãos. De acordo com Luís Castro, José Gomes Ferreira, Lucinda Canelas, Alcides Vieira, Inês Schreck e Romana Borja-Santos, estes são uma fonte de informação privilegiada, na medida em que, por norma, têm uma relação próxima com o assunto noticiado ou um conhecimento aprofundado sobre um determinado tema, fornecendo dados importantes que de outra forma não chegariam ao conhecimento dos jornalistas. Entre estes, Romana Borja-Santos salienta o cidadão comum (leitores, telespectadores e ouvintes) e os académicos como fontes primordiais.

A agenda é mencionada por Simone Duarte, Luís Castro e José Alberto Carvalho como um elemento central na recolha de informação. De acordo com Luís Castro, às redações dos órgãos de comunicação social chegam diariamente dois tipos de fluxos: os acontecimentos do dia e tudo aquilo que estava previsto na agenda dos vários protagonistas ou organismos com relevância suficiente para serem alvo de atenção

mediática. Para José Alberto Carvalho, esta agenda encontra-se amplamente condicionada no nosso país, o que o leva a considerar que é nela que reside o ponto de partida do comportamento mimético dos meios de comunicação social, na medida em que o próprio processo de agendamento é também ele mimético e os jornalistas acabam por considerar como notícia os mesmos temas e acontecimentos, e por recorrer aos mesmos critérios de noticiabilidade e à mesma linguagem. Na mesma linha, Nuno Marques considera que muitos dos mimetismos entre os órgãos de comunicação social residem na circunscrição das próprias fontes, o que acaba por tornar-se particularmente evidente se atentarmos no facto de os jornalistas tenderem a consultar sempre os mesmos especialistas, os mesmos comentadores e todas as outras fontes que fazem parte do seu círculo de contactos. Na opinião do editor do JN, para este cenário em muito contribui a escassez de recursos humanos nas redações dos meios de comunicação, a qual leva os diretores e os editores de informação a optar por noticiar um determinado acontecimento que pode ter uma relevância menor, mas que não implique um grande dispêndio de recursos, do que outro que obrigue à deslocação de uma equipa de reportagem para uma conferência que dure várias horas, por exemplo, e que poderia permitir um alargamento da rede de contactos e de fontes.

“Nós mantemo-nos muito (…) dentro deste círculo e, portanto, as fontes são muito condicionadas a nós próprios e quem consegue furar, uma agência de comunicação que fura um, depois acaba por quase conseguir furar todos, porque vamos por arrasto. (…) Repare, quase todos os jornais, televisões e rádios vão falar com os mesmos politólogos, (…) com os mesmos médicos de não sei o quê não sei que mais, com os mesmos comentadores de tudo e mais alguma coisa. E isso resulta de nós não termos mais ninguém. Não temos tempo de ir buscar mais alguém.”

Nuno Marques, JN

Esta opinião vai ao encontro do ponto de vista de Conde (2005), que considera que o predomínio das fontes oficiais e a circunscrição das fontes emergem como um dos traços mais marcantes do jornalismo na UE, existindo pouca diversidade nas fontes utilizadas pelos jornalistas, pese embora as múltiplas possibilidades que têm à sua disposição. Na mesma esteira, Rebelo (2002) considera que estamos perante um cenário de centralização das fontes, no seio do qual a figura do jornalista que procura informações exclusivas tende a ser cada vez menos abundante. Na perspetiva do autor, o acesso à informação potenciado pelas novas tecnologias emerge como um dos fatores primordiais neste processo de centralização, o que amplia a importância de os profissionais do campo apostarem sobretudo no tratamento e no aproveitamento da informação que lhes é fornecida diariamente.

Para além de todas estas fontes de informação, os entrevistados aludem ainda à importância das fontes anónimas e informais (Alcides Vieira e José Gomes Ferreira), das agências de comunicação e assessorias (Nuno Marques e Alexandra André), dos agentes desportivos e culturais (José Gomes Ferreira), dos comentadores habituais dos noticiários televisivos (Ana Lourenço) e dos relatórios institucionais (Diana Ramos). Atentando no caso do CM e do Público, Paulo Santos e Nuno Pacheco abordam ainda o papel basilar desempenhado pela investigação própria e pelas fontes primárias, respetivamente. Segundo o primeiro entrevistado, a investigação própria é um dos pilares fundamentais do trabalho desenvolvido pelo CM, sendo nesta que reside a elaboração de 80% das notícias principais dadas pelo jornal. No caso do Público, Nuno Pacheco destaca a importância das fontes primárias. De acordo com o diretor-adjunto deste jornal, existe sempre uma preocupação em consultar as fontes primárias da notícia, quer seja em Portugal quer num outro país, indo para além das informações que chegam através das fontes secundárias. Na mesma linha, Armando Esteves Pereira salienta a importância que as fontes primárias assumem no trabalho jornalístico, não só pela sua proximidade face ao assunto em notícia, como pela sua maior credibilidade, pelo menos no plano teórico, comparativamente com as fontes institucionais, as quais considera que funcionam em ciclo vicioso.

11. Novos media: das alterações operadas no panorama mediático tradicional à

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