A aldeia de que falava Sant'Ana e as habitações de que fala Craveiro Costa não se localizavam exatamente onde encontramos a comunidade de pescadores até mais recentemente, antes de sua remoção e demolição - mesmo porque aquela área só passou a existir por volta de 1940, a partir do assoreamento proveniente da construção do cais do Porto de Maceió; antes, a área não existia como solo seco e a maré adentrava até onde se encontra a Praça Dezoito de Copacabana (Figuras 1 e 2). Por volta da década de 1940, os pescadores se encontravam nas proximidades da Associação Comercial, que se localiza também em Jaraguá, cerca de quinhentos metros do Porto.
Figuras 1 e 2 – Vista da Praça Dezoito de Copacabana
(Fonte: https://culturaeviagem.wordpress.com/2013/03/02/situacoes-inusitadas-ii-a-estatua-da- liberdade-de-maceio/)
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(Fonte: https://culturaeviagem.wordpress.com/2013/03/02/situacoes-inusitadas-ii-a-estatua-da- liberdade-de-maceio/)
Acontece que desde o surgimento de Jaraguá até 2015, os pescadores ocuparam diferentes espaços pelo bairro, se reorganizando e reconfigurando, numa dinâmica marcada pelo “vai e vem das migrações, ora espontâneas, ora forçadas” (PEREIRA, 2015, p. 34). Com o crescimento da cidade e a valorização econômica de Jaraguá, os pescadores, que outrora foram essenciais para o desenvolvimento socioeconômico da capital, passam a ser relegados e a ter seu território espremido e empurrado em detrimento das novas edificações. Até que por volta dos anos 1970, se estabelece, enfim, a ocupação mais recente - localizada ao lado do Porto de Maceió até sua remoção - que no futuro, passa a ser conhecida como Comunidade de Pescadores de Jaraguá, ou Vila dos Pescadores de Jaraguá. É importante marcar a diferença quando falamos em pescadores em Jaraguá e pescadores de Jaraguá, e mais ainda, quando falamos em comunidade de pescadores de Jaraguá.
Trazemos essas diferenciações para falar de algo que não trata simplesmente de formas diferentes de falar da mesma coisa, mas sim de momentos distintos, que dizem respeito, primeiro, a uma ocupação e sua localização em um bairro (Jaraguá), e posteriormente, a uma comunidade, apontando para uma questão identitária quando fala em comunidade de pescadores (não comunidade de outra coisa) e de Jaraguá (não de qualquer outro lugar). Falar 'Comunidade de Pescadores de Jaraguá' ou 'Vila dos Pescadores de Jaraguá' nos aponta para uma relação de identificação e pertencimento com o trabalho (de pescadores) e com o lugar (de Jaraguá), e para uma delimitação territorial que se estabelece a partir dessa identificação e do afeto pelo e com o lugar, e não apenas por uma questão geográfica.
A noção de comunidade sofreu várias transformações ao longo dos anos, sendo influenciada sobremaneira pelos contextos históricos e políticos que a atravessavam. Segundo
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Scarparo e Guareschi (2007) o termo comunidade é polissêmico e tem fornecido amplas e diversificadas possibilidades de problematização para diferentes campos de saber. No campo da Psicologia, o conceito de comunidade passou a figurar como referencial analítico apenas nos anos 1970, com o surgimento da Psicologia Social Comunitária, o que constituiu um aspecto epistemológico importante, uma vez que representou a opção por uma teoria crítica que interpreta o mundo com a intenção de transformá-lo. (SAWAIA, 2008).
Nessa relação com a psicologia, comunidade vem sendo delineada por uma “hipervalorização romântica do passado que reforça uma identificação única e homogênea” (PRADO, 2008, p. 210), trazendo a noção de comunidade sempre a partir dos “limites da dimensão individual e da vontade geral, da liberdade pessoal e da igualdade social” (id.). Para Prado (2008), a utopia que permeou o ideário de comunidade na psicologia deve transformar- se numa utopia menos totalitária e abstrata, buscando seu conteúdo nas mudanças ético- afetivas, apontando para formas de relação que rompam com a dicotomia entre indivíduo e coletividade.
Para Scarparo e Guareschi (2007), restringir a questão das relações comunitárias em dicotomias antagônicas que polarizam conceitos (como por exemplo individualismo e coletividade), possibilita o fortalecimento das lógicas de naturalização que adotam e impõem modelos fechados, impedindo o surgimento dos processos de criação humana. Segundo as autoras, essas dicotomias “traduzem universos fechados, sem possibilidades de problematizações e, consequentemente sem produção de pensamentos e modos de existência.” (p. 103) Concordamos com as autoras, quando dizem que o conceito de comunidade precisa ser pensado a partir dos contextos em que está inserido, tendo em vista os sentidos que produz e, consequentemente, as práticas que abriga. Para elas, poder-se-ia falar na comunidade como um não-lugar, uma utopia, mas também como modo de falar de um lugar no qual pessoas convivem e contam com a alteridade. Nesse sentido, trazemos a noção de comunidade considerando o contexto da Vila dos Pescadores, um contexto que fala de uma convivência a partir de um território, que fala de uma prática em comum relacionada a pesca, e, mais tarde, sobre uma luta em comum pelo território.
Assim, cientes dos apontamentos e críticas a respeito da noção de comunidade e de seus usos, seguiremos utilizando o termo não para definir ou delimitar uma identidade homogênea, centralizada ou totalizante, mas para fazer eco com a definição que uma de nossas narradoras trás de ‘sua’ comunidade, uma definição que não pretende ser universal, mas que fala a partir de um lugar e de uma experiência; do lugar e da experiência de Enaura: “Viver em comunidade é totalmente diferente de quando você mora num bairro, que você
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conhece seu vizinho, mas muito mal você encontra com ele. Em comunidade você vê todo dia, você conversa todo dia, você conhece os pequenos, os mais velhos, a gente tem uma liberdade de mandar pra casa quando via na rua sozinho ou fazendo alguma coisa errada... E sempre foi assim, uma grande família. Sempre foi assim.”
Para Enaura, viver em comunidade é compartilhar um cotidiano em comum, é ter proximidade com as pessoas que habitam o mesmo lugar e que formam uma grande família. Essa compreensão dá conta da comunidade Vila dos Pescadores de Jaraguá e do modo como uma moradora enxergava o lugar que vivia e as relações que ali aconteciam. Não é uma compreensão que se pretende normativa, ou que pretende se ‘aplicar’ a todas as comunidades. É uma compreensão que não era unânime, que encontrava conflitos que demonstravam justamente a heterogeneidade da comunidade. Mas que ainda assim, fala de algo que essas pessoas dividiam em comum. Desse modo, a identidade pesqueira e territorial da qual falávamos há pouco não se refere a uma identidade homogênea, centralizada ou totalizante, mas, como nos diz Prado (2008), se apoia numa ideia de sujeito plural e construtor da diversidade da identidade pessoal.