LE DROIT À L’ÉDUCATION
10. L’EPT est utile
Na vivência neste estudo - que envolve a temática da felicidade - e perante nossa busca por dados, diálogos com os pesquisadores que emergiram como parte desta investigação (não apenas com os autores das dissertações e teses, como também com seus orientadores), obtivemos um material rico, repleto de informações, o qual foi gerado de modo inusitado e nos foi muito apropriado.
Mediadas pela tecnologia, nos relacionamos e interagimos com diferentes pesquisadores que conosco, de diferentes modos, colaboraram neste estudo, inclusive com os ditos e os não-ditos. De certo que nosso encontro decorreu de nossa busca em compreendermos as vivências dos pesquisadores em seus estudos sobre felicidade, porém, quando à eles nos dirigimos - daqueles que efetivamente conseguimos o contato - estes nos receberam, o que nos causou grande alegria.
Dos 54 contatos bem-sucedidos, tivemos a negativa de duas pessoas. Ainda que os questionários tenham sido efetivamente respondidos por 39, ficamos satisfeitas ao expor que àqueles que não responderam, há algumas exceções, foram atenciosos, cuidadosos, justificando sua não participação. Alguns deles permanecem mantendo contato conosco, nos levando a valorizar esta etapa que para nós, foi e tem nos sido tão cara e prazerosa.
Ao interagirmos, visando contribuir para o avanço do conhecimento sobre felicidade em nosso país, nos deparamos com pessoas preocupadas com a humanização na pesquisa. Seria ela, própria do estudioso da felicidade? A narrativa escrita por um dos pesquisadores, logo após receber nossa mensagem de agradecimento por ter respondido ao questionário, nos revela uma prática comprometida:
“Tenha um bom dia também e um bom final de semana. E quando lhe solicitarem, nunca deixe de ajudar um pesquisador. Só quem faz pesquisa sabe o quanto é difícil, demorado e complexo achar pessoas dispostas a responder. Por mais que te tome um tempo precioso (todo mundo sempre tem muitas coisas a fazer), não deixe de ajudar. A pesquisa não pode morrer”. (P16)
“Acabei de finalizar o questionário em sua pesquisa sobre felicidade. Achei bastante interessante e gostaria de agradecer pelo convite para participar do estudo. Desejo-lhe sucesso nesta jornada. Tenho recebido muitas reclamações de colegas que não conseguem obter retorno de respostas em formulários eletrônicos. Espero que você consiga!” (P09)
Sua preocupação, seu zelo e cuidado ao nos responder e também nos alertar, nos remete à necessidade de aproximações, deste ser que é o pesquisador. A despeito disto, mencionamos Paulo Freire (1982) quando nos relata que: “O diálogo é o encontro amoroso dos homens que, mediatizados pelo mundo, o ‘pronunciam’, isto é, o transformam, e, transformando-o, o humanizam para a humanização de todos.” (FREIRE, 1992, p. 43) Ainda que sejam tão polissêmicos quanto a felicidade, nos importam.
Ao sermos acolhidas - neste encontro humanizado e amoroso – estes pesquisadores nos oportunizaram a possibilidade de dialogarem conosco, favorecendo um espaço propício para o avanço do conhecimento sobre felicidade, em um movimento em que afetamos e somos afetadas por estas pessoas.
Ao consideramos que afeto nos leva à ação, bem como a potência da mente sobre ele, nas palavras de Spinoza42 (2009, p.98), faz sentido então considerar o que
nos afirma na proposição 14, da parte III da obra Ética que “Se o corpo humano foi simultaneamente afetado, uma vez, por dois corpos, sempre que, mais tarde, a mente imaginar um deles, em seguida se recordará também do outro” (p.109), outrossim podemos supor que estamos todos interconectados em um âmbito em que podemos tanto nos compor, quanto nos desarranjarmos.
Vale a pena então, destacarmos o que Spinoza (1983) nos comunica sobre a potência infinita do universo e nossa relação com ele - todos nós - seres que habitam
42 Baruch de Espinosa ou Spinoza foi um filósofo do século XVI, que segundo Maitê Larrauri (2009), em “A Felicidade segundo Spinoza” sofreu intolerância já em sua juventude e, com 24 anos foi expulso da Sinagoga de Amsterdã, sendo condenado por seus pares e quase assassinado. Em sua capacidade de transformação, entendemos que essas experiências lhe forem úteis, tal como nos descreve Larrauri (2009). Segundo ela, lhe serviram de inspiração para analisar as causas das paixões humanas, não no sentido de condenar, mas sim para conhecer. Foi isso o que Spinoza fez ao longo de sua vida e, embora tenha sido atacado em diferentes momentos, se dedicou a compreender o que induzia as pessoas a levarem uma vida infeliz. Ao final, Larrauri (2009) expõe a proposta de Spinoza, “chega-se à felicidade pelo caminho da alegria transbordante e da ação: aumentar sem limite o bom humor, gozar de conhecimento de si e dos outros, praticar generosidade para transformar os encontros tristes, agir na eternidade do júbilo. Por isso ele afirma que a felicidade não é uma recompensa da virtude, mas é a própria virtude.” (p.92).
e são uma extensão deste planeta, em um movimento que desconhecemos, mas nos conecta (caso a razão não se sobreponha), uns aos outros:
“Podemos e devemos conceber todos os corpos da Natureza do mesmo modo que fizemos com o sangue: com efeito, todos os corpos estão circundados por outros corpos e se determinam reciprocamente para existir e operar em relações determinadas, mantendo sempre constante em todos os corpos (isto é, no universo inteiro) a mesma relação de movimento e repouso. Decorre daí que todo corpo, enquanto existe modificado de uma certa maneira, deve ser considerado como uma parte do universo que concorda com seu todo e se vincula com o resto. E como a natureza do universo não é limitada como a natureza do sangue, mas é absolutamente infinita, suas partes são dirigidas de infinitas maneiras e estão submetidas, por esta potência infinita, a infinitas variações”. (SPINOZA, 1983 p. 383).
Leiamos aqui que, corpos não são inferiores à mente, nem mentes são inferiores aos corpos, mas juntos se complementam. O mesmo cabe à razão e à emoção: uma não é sem a outra. O que nos parece faltar é a necessidade de compreendermos isto: de que, juntos e jamais separados, devemos aprender de modo constante, em um esforço contínuo, a lidar com nossas ambivalências. Na medida em que estamos conscientes disto, evidenciamos Spinoza (2009) ao tratar sobre a alegria e a tristeza: “essa ideia está unida ao afeto da mesma maneira que a mente está unida ao corpo” (p.163)
Neste processo de interação e entrelaçamentos, colocamos em relevo alguns de nossos diálogos e afetos. Ante um processo humanizador do fazer científico e, a partir do ser pesquisador - de um que trata sobre felicidade - julgamos ser algo necessário. Implica nisto, nossa honestidade ao colocarmos em relevo não apenas os sabores, mas também os dissabores do processo, assim como alegrias e tristezas. Ousamos destacar que as alegrias se sobrepõem às tristezas.
Reconhecemos que tratar dos sabores é o que desejamos, nos alegra. Contudo, diante da incumbência de não negarmos os dissabores, destes não nos esquivaremos e, por eles começamos. Fortuitamente, ou não, são poucos. À exemplo, mencionamos um dos pesquisadores, inicialmente identificado. Nos encantou identificarmos suas produções acadêmicas e não acadêmicas, assim como outras formas de comunicação midiática, expressando de modo apaixonado suas conclusões sobre a felicidade. Foi um dos primeiros pesquisadores brasileiros a quem recorremos,
antes mesmo de concebermos a ideia de que poderia fazer parte deste estudo de modo direto.
Frente ao nosso contato, suas respostas foram mínimas, de um modo geral, espaçadas, um tanto quanto evasivas e desinteressadas. Depois de alguns meses, nos respondeu à um primeiro contato:
Somente agora vi sua msg [...] Me desculpe mesmo!!! Vc já deve até ter defendido sua dissertação, de tanto tempo que faz!!! Bem, em todo caso, se ainda precisar terei o maior prazer em conversarmos.(F1)
Confessamos que seu retorno nos alegrou, ainda que tardio. Mas esta alternância de sentimentos se manteve (alegrias e tristezas neste contato), gerando novamente dissabores. Perante nossa resposta, meses depois nos responde (com palavras que por questões éticas optamos em suprir), nos desencorajando frente ao nosso estudo. De certo que prosseguimos!
Também houveram aqueles que em uma primeira resposta nos animaram, nos intrigaram, mas depois, em seu silêncio, provocam entristecimento. Por exemplo:
Tô dentro. Pode contar comigo. (F13)
“[...] você é aluna da graduação, do mestrado ou doutorado? Em que curso? Esta pesquisa tem em vista, exatamente, o quê?” (F12)
Nunca mais nos responderam, mesmo com alguma insistência. No silêncio permaneceram, em seus ditos e não-ditos. A ausência de respostas, nos direcionou à refletirmos sobre o que está aquém das palavras, sobre aquilo que aparece na ausência das respostas, na interrupção das narrativas. No esforço de não julgarmos e mantermos o respeito, tão primordial nas relações humanas, aceitamos sua decisão, compartilhamos e lidamos com esta perda. Prosseguimos, mas sem desistirmos, permanecemos na esperança diante do desconhecido.
Assim, por alegria compreenderei, daqui por diante, uma paixão pela qual a mente passa a uma perfeição maior. Por tristeza, em troca, compreenderei uma paixão pela qual a mente passa a uma perfeição menor. Além disso, chamo o afeto da alegria, quando está referido simultaneamente à mente e ao corpo, de excitação ou contentamento; o da tristeza, em troca, chamo de dor ou melancolia. (SPINOZA, 2009, P.107)
Ao entendemos ter sido um fenômeno do cotidiano que ocorreu sem intencionalidade, os diálogos passaram a nos fornecer um suporte importante perante o tratamento dos dados, nos auxiliando a sustentar esta investigação científica. Isto se deu porque consideramos nossas interações no processo, assim como os aspectos da vida real que foram trazidos à tona pelos pesquisadores, de modo espontâneo e com uma linguagem que inferimos ter sido autêntica.
Esse processo desempenhou um papel representativo perante os resultados obtidos, pois viabilizou nossa compreensão quanto aos caminhos e descaminhos em seus estudos sobre felicidade, bem como nossos encontros e desencontros, em um movimento que está aquém de suas respostas aos questionários. Além disso, consideramos que neste estudo, estes pesquisadores deixaram de ser passivos para tornarem-se sujeitos ativos e participantes. Em nossa compreensão, foi uma prática social que deu vida a este estudo e isto precisamos reconhecer.
A modo de exemplo, mencionamos que, na medida em que fomos avançando os contatos, tivemos a necessidade de rever o conteúdo das respostas inicialmente formuladas, em função de um contato singular feito com cada pesquisador. Este exame aconteceu, tanto nos e-mails quanto em alguns elementos da carta-convite. As revisões ocorreram em decorrência de dúvidas, comentários e sugestões, apresentadas pelos próprios pesquisadores durante nossos diálogos.
Mediante seus questionamentos, outra necessidade se deu: realizarmos a leitura dinâmica dos resumos de todos os trabalhos e não apenas dos títulos. Tal aspecto, embora tenha demandado um tempo que não tínhamos previsto, facilitou as conversas que paulatinamente foram se desenrolando.
Além dos pesquisadores, na busca por contatos, estabelecemos diálogos com seus orientadores. A figura 24 ilustra nosso primeiro diálogo estabelecido com uma professora orientadora. Esclarecemos que os orientadores foram contatados quando não conseguíamos identificar outras formas para acessar diretamente o pesquisador. Por questões éticas suprimos nomes e título do trabalho da narrativa que segue.
Figura 24 – Diálogo com Orientadora
Fonte: Autoria Própria
Durante o contato com esta professora, sua orientanda – que defendeu a tese sobre felicidade - nos respondeu em “17 de agosto de 2017 as 13:12”. Novos diálogos foram estabelecidos e mantivemos contato até 23 de agosto de 2017, as 13:01, quando agradecemos por sua participação nesta pesquisa.
Este caso ilustra a disposição da orientadora em nos ajudar, assim como da pesquisadora em responder. Nos ajudou a tecer considerações concernentes à relação entre ambas ao ponderarmos que a atividade da pesquisa não se dá de modo isolado, tal como nos apontam Leite Filho; Martins (2006). Segundo eles, o processo de construção de conhecimento necessita da interação de qualidade entre orientador- orientando para que o resultado do trabalho seja produtivo. Indo mais além, destacamos que implica na condição destas pessoas, em ser e existir no mundo. No caso apresentado, coincidência, ou não, termos utilizados em suas conversas são muito próximos:
“Da orientadora:
Priscilla, muito prazer! Escrevo com cópia para a [...] para que possam conversar! Um abraço, [...]”.
“Da orientanda:
Boa tarde, Priscilla. Aceito com o maior prazer! Abraço” (P15)
Interessante notar que, quando acessamos o currículo lattes da pesquisadora em questão, verificamos que ela desenvolveu seus estudos de mestrado e doutorado com a mesma orientadora, também notamos que em momento anterior à pós-graduação stricto-sensu, publicaram trabalhos juntas. A perspectiva sobre suas relações antes, durante e depois da defesa de seus trabalhos, nos trouxe valiosas contribuições em nossas inferências sobre suas vivências em seus estudos sobre felicidade, a partir de suas narrativas e diálogos estabelecidos conosco.
Deste modo, nossa intepretação das narrativas dos pesquisadores, não se restringiram aos dados tecidos e concebidos na esteira acadêmica, via questionário. Consideramos também outras interfaces, dentre elas: os dados quanti-qualitativos oriundos de nosso levantamento em outras bases; nossas inter-relações com os pesquisadores a partir dos diálogos mediados pelos recursos tecnológicos e dentre algumas considerações, mencionamos, as influências do orientador perante a produção das dissertações e/ou teses.
Outro apontamento sobre os orientadores, refere-se a questão do tempo e disposição que estes nos ofereceram, quando foram solicitados. Supomos que ao se preocuparem em nos responder, inclusive em “brincar” conosco, (como pode ser
observado na figura 24) tenham empregado este mesmo exercício quanto ao uso do tempo e disposição, com seus orientandos. Algo que impacta consideravelmente na qualidade das relações e consequentemente das produções. Leite Filho; Martins (2006) fazem menção à esta questão ao apontarem estudos que evidenciam aspectos em torno do tempo dos orientadores em suas tarefas de orientação.
Dentre suas averiguações, os autores destacam que em muitos casos, o tempo das orientações têm sido insuficiente. Mencionam que em algumas situações, o encargo dos orientadores frente às suas atribuições, cargas e exigências docentes podem interferir e, em outras, o despreparo em termos de habilidades tanto técnicas quanto comportamentais se fazem presente. Precisamos considerar que também pode ser uma atividade solitária, tal como nos apontam Viana; Veiga (2017; 2010), duas orientadoras de pós-graduação em uma universidade pública brasileira, que revelam que perante as dificuldades enfrentadas no processo de orientação é preciso considerar:
“[...] a natureza subjetiva do ser humano e de sua relação com a realidade e sua história de vida, sua compreensão de mundo, de conhecimento, os diferentes comportamentos influenciados pelos determinantes históricos da realidade social. A possibilidade de êxito da relação e da produção acadêmica exige do orientador e do orientando diálogo, dedicação, organização, disciplina, interesse, satisfação, reforçados pelo compromisso e responsabilidade de ambos, destacando a importância da autoavaliação do orientando e do orientador no processo.” (Viana; Veiga, 2010, p.225)
A relação entre orientador-orientado tende a produzir efeitos nas produções acadêmicas. Tendo como relevo a temática da felicidade - um fenômeno que versa sobre a realidade humana e genuinamente tende a despertar interesse de uma grande parcela de pessoas - nos atentarmos para estas questões com maior cautela, tanto nas narrativas escritas, quanto nos diálogos estabelecidos e outros dados obtidos.