• Aucun résultat trouvé

3.2 Validation de la simulation à 2.5 km de résolution (BL2.5)

3.2.1 L’environnement à méso-échelle

Geralda Medeiros Nóbrega1

RESUMO: Este trabalho é uma experiência feita a partir da poética de Antônio

Joaquim Pereira da Silva, conhecido por Pereira da Silva, para apresentar conclusões dos resultados a que se chegou em relação ao poeta paraibano, da cidade de Araruna. O poeta desenvolveu uma poesia estoica, com linguagem isenta de recursos especulativos, cuja emoção não se expande, involuindo para seu estágio primitivo.

PALAVRAS-CHAVE: Pereira da Silva; Poesia estoica; Poética paraibana;

Solidão.

ABSTRACT: This paper constitutes an attempt to analyze Antônio Joaquim

Pereira da Silva’s poetics. We have come to understand that the poet from Araruna, Paraíba, mostly known as Pereira da Silva, developed a stoical poetry, making use of a language that lacked speculative resources, and whose emotion did not expand, regressing to its primitive stage.

KEYWORDS: Pereira da Silva; Stoical poetry; Poetics of Paraíba; Solitude.

1 Programa de Pós-Graduação em Literatura e Interculturalidade, Universidade Estadual da Paraíba – PPGLI/UEPB.

Antônio Joaquim Pereira da Silva é um poeta paraibano da cidade de Araruna. Nasceu em novembro de 1876 e faleceu no Rio de Janeiro, em 1944, quatro anos após ter sido publicado seu último livro, Alta Noite (1940).

A sua primeira obra, Vae Soli!, foi publicada em 1903. É uma obra esgotada e dificilmente encontrável. Dela conheço apenas o poema “Sol”, apresentado por Humberto Fonseca Lucena, no livro Documento (1993). O poeta foi subsidiado por críticos que o conheciam e suponho que muitos eram amigos dele. A crítica desenvolvida por eles constituia-se de impressões pessoais e subjetivas, o que permitiu ao poeta viver seus momentos de glória. Hoje, arrefecido o estusiamo daquela época, o poeta, quase desconhecido, conta com referências esparsas em alguns compêndios de Literatura Brasileira ou em trabalhos desenvolvidos em alguns universidades como a Universidade Federal da Paraíba, em que ele está sendo estudado numa tese de doutoramento e num trabalho de pós-doutoramento sob a orientação e supervisão da professora Socorro de Fátima Pacífico Barbosa, respectivamente. A Academia deve isto ao poeta Pereira da Silva, como um marco de preservação da cultura literária que justifica a manutenção da memória poética do autor.

Opto, pois, por utilizar um pouco de biografismo para situar o poeta num tempo e espaço condizentes com a sua vivência, pois reconheço que pode ser eficaz a articulação entre vida e poesia. Para comprovar isto, pretendo analisar alguns poemas, esperando que a análise apresente aspectos importantes de uma poética que disseca a atuação da persona para além de sua visão de mundo, que se apresenta frágil e indecisa, gerando aspectos inseguros.

O pensamento do poeta paira aquém de sua atualidade, não se deixando imbuir do momento vivido, ou mesmo do futuro que não o motiva, por isto o eu poético

segue à deriva. Dou razão, pois, a Bachelard (2007, p. 104), quando afirma: “Em suma, tudo quanto nos aparta da causa e da recompensa, tudo quanto nega a história íntima e o próprio desejo, tudo quanto desvaloriza ao mesmo tempo o passado e o futuro, encontra-se no instante poético”.

Eis por que os acontecimentos histórico-culturais (a primeira grande guerra, a dituradura de Vargas, o desenvolvimento das vanguardas) não o motivaram, como ilustro com uma estrofe do último poema “Coragem”, de Alta noite (1940), em que as ideias da persona ficam diluídas:

Coragem para ouvir de ouvido atento As verdades fatais

E os soluços do próprio pensamento

Já sem crença nenhuma em seus ideais (p. 114).

Entre os vários poetas simbolistas citados por Bosi (1997), em que Pereira da Silva está incluso, o estudioso afirma que eles imitaram Cruz e Sousa no modo de conceber as relações entre corpo e alma, quer na tendência pseudomística ou na estetizante, como está em duas estrofes do poema “Alta noite”, que dá também nome à ultima obra publicada (citada acima).

Deus! Ó Deus! Eu me deixo horas inteiras Comigo a meditar.

Noite. Todos repousam das canseiras Da existência vulgar.

Repousam todos? Não. Há muita gente Que o sono não domina:

O Poeta que tem n’alma a luz divina,

Mas não logra dizer jamais tudo o que sente (p. 6).

Da obra Vae Soli! analiso o único poema de que disponho, “Sol”, em que detecto características representativas do simbolismo, como deixarei discriminado, a partir do próprio título “Sol”, que aponta para a amplidão, claridade e correspondências em nível de abstração. Há, no poema, presença de elementos

da Natureza que apontam para dados equivalentes aos elementos do sagrado, com resquícios de um intertexto bíblico, como “mundo feito de sóis”, “trigais de Ruth”, assim como “beijos de Eva”, “asas de mariposas”.

A primeira estrofe do poema “Sol”, apresenta um tempo objetivo, o que é apresentado por Bachelard (2007, p. 51): “[...] o tempo máximo, é aquele que contém todos os instantes. Ele é feito do conjunto denso dos atos do Criador” e eu acrescentaria, é um tempo absoluto:

Eu sol, eu feito Sol! E de manhã, bem cedo, Teria essa apoteose eterna do Universo. Surgiria cantando e até mesmo o rochedo Vibraria na luz vibrante do meu Verso E outros mundos então surgiriam da Treva. — Mundos feitos dos tons essenciais das coisas. E com beijos de amor feitos dos beijos de Eva E volúpias sutis de asas de mariposas.

Mundos que eu nunca vi, mas que há de certo nesses Altos onde o esplendor do sol tudo percute,

Mundo feito de sóis, de cristais e de messes

Loiras, loiras, talvez, mais que os trigais de Ruth (s/ p.).

As reiterações, as aliterações, as rimas internas estabelecem o poder de sugestões, efeitos musicais e rítmicos, o que se deve ao seu livro de estreia. E ainda insinua um tom de vaguidade, suporte para os símbolos que se instalam como recorrência ao incognoscível, abrindo-se um leque de semioses que tornam os símbolos signos, cujo significado desenvolve uma amplitude inigualável, o que é comum na poiesis de Pereira da Silva.

Desvelando o poeta

A obra de Pereira da Silva transitou pelas Editoras de 1903 até 1940. O poeta não parece ser feliz. Solidão, desolação, tristeza e a consciência da falta de sinceridade das pessoas atuavam como um filtro em sua poética. A sua poesia reflete suas angústias, como em “Paranese”,

da obra Alta Noite (1940):

Estava só. Na câmara vazia, Naquela noite de melancolia (...)

………..

Foi então que uma voz, como nascida Da própria dor recôndita da Vida, Disse-me tudo: Era mister sofrer (...) –

……….. Era preciso suportar também Os baldões, as injúrias, o desdém, Como as vozes sem forma e sem sentido

Dos que nos louvam sem nos terem lido (p. 25).

Quando publicou seu primeiro livro, morava no Paraná, convivendo com escritores e poetas, o que foi propício a suas aptidões poéticas. Logo após a publicação de Vae Soli! (1903), voltou para o Rio de Janeiro e matriculou- se na Faculdade de Direito. Já formado, foi nomeado promotor público no Paraná e, tendo se exonerado da Promotoria, voltou para o Rio de Janeiro em 1911, quando se voltou diretamente para o jornalismo, trabalhando na “Gazeta de Notícias”, no “Jornal do Comércio” e em “A Noite” (LUCENA, 1993).

Em 1918, publica seu segundo livro Solitudes, que foi bem recebido pela crítica. Mas se alguém se detém na sua poética, capta a amargura, a infelicidade, a humildade e o temperamento tímido e esquivo, o que se reflete também nas obras publicadas posteriormente. Em 1919, publicou Beatitudes, sendo Holocausto publicado em 1921. E, em 1923, publica O pó das sandálias, seguido de Senhora da melancolia (1928), publicado em Paris, pela Imprimerie Lahure e, por fim, vem a lume Alta noite (1940).

Viúvo, casa em segundas núpcias em 1930, como uma tentativa de ser feliz. Eleito membro da Academia Brasileira de Letras em 23 de novembro de 1933, tomou posse em junho de 1934, ocupando a cadeira 18.

vivenciou o nomadismo (indo do Rio de Janeiro para o Paraná várias vezes), viveu a sua diáspora, disperso noutras paragens fora do Nordeste e, sequer, cogitou em voltar para a Paraíba, considerando-se, suponho, como exilado. Os fatos vivenciados por ele contribuíram para o cultivo de poesia repleta de sentimentos negativos, com uma humildade que atingia as raias do pessimismo, da dor e da melancolia.

O poema “Paixão”, do livro Beatitudes (1919, p. 97), constituído de sete estrofes, em forma de quartetos, tem uma técnica bem elaborada: o primeiro verso de cada quarteto é decassílabo heroico, o segundo e o terceiro versos, um hexassílabo, e o quarto verso, um alexandrino. Isto contribui para estabelecer a eurritmia do poema e também para destacar a semiose do texto, distribuída em elãs sequenciados de significações. Também o fato de cada estrofe iniciar com o vocábulo “candura”, seguido de verbo no infinitivo, associa a pureza de intenções da persona, que faz do amor não um encontro, mas uma busca incessante, para justificar a essência do “ser”. A que se deve a passividade do poeta, apesar de se constatar que a solidão a que remete a paixão, torna o amor mais intenso? O efeito dos enjambements, destacando a pressa, acelera o ritmo e suscita a fuga, impedida pela rima interna e pelas reiterações que neutralizam qualquer avanço. Para o eu poético, existe um desvanecimento que justifica o desprendimento em relação à paixão, pois há

Candura de sentir que neste mundo, Que é da carne ou do instinto, Ninguém sente mais fundo

Amor ideal e real do que este amor que eu sinto! [...]

Candura de passar a noite inteira Sozinho, a imaginar,

Que fora um céu meu lar

Se fosses, meu amor, a minha companheira! (p. 97).

a vida em todas as suas fases e amar até mesmo a morte” (FERREIRA, 1988, p. 372). Por isto, no poema, Eros e Thanatos se dão as mãos com forças que se complementam e a morte passa a ser sublimação do individual, pois o poeta sente

Candura de sofrer a sós, calado, Este divino tédio

De um amor sem remédio

E tanto mais feliz quanto desventurado! Candura de pensar que um dia enfim, Embora estando eu morto

O teu olhar absorto

Há de me ler e ver quanto eu te amei assim! (p. 98).

O poeta diviniza o tédio que, associado à desventura, pode levar a um estado patológico a partir da melancolia. Não é ainda o luto, pois não há perda, uma vez que não se pode perder o que nunca se teve, mas pode, pela inoperância do ego, ir ao encontro da morte. E se creditarmos a opinião de Matos (1987, p. 145) para quem “o homem se realiza na medida em que se sacrifica”, a persona atinge a sua realização, não pela renúncia, mas pela aceitação do inalcançável. Logo, sofrimento e dor são marcas identitárias de uma poética que está sempre em busca de alguma coisa inacessível que, se presentificando como linguagem, deixa antever uma semiose enfermiça, acobertando todo o imaginário lírico.

Esta aproximação entre Eros e Thanatos pode ser vista como a entrada do desdobramento, em que as dobras e redobras ora destacam o amor, ora a morte. Deleuze, quando discute as dobras, por vezes introduz Foucault para completar seu ponto de vista. Aqui, vemos o poeta ajustar o seu pensamento a uma memória prospectiva, o que motiva o surgimento de outras dobras e possibilita dizer que “ocupar-se de si [...] é uma forma de vida” (FOUCAULT, 1997, p. 123).

No poema “Eu ficarei comigo”, da obra Alta noite (1940, p. 68), constituído por cinco quartetos, com

os versos ímpares decassílabos e alguns dos pares hexassílabos, embora a persona nem sempre respeite a sequência isométrica. Há enjambements em abundância, o que provoca aceleração na leitura, como se o eu poético não quisesse se deter no sentimento, mas buscasse a fuga. Há todo um processo de religiosidade, que impele o eu lírico a buscar a fé, num envolvimento com o sagrado. A temática de conteúdo subjetivo, com todas as estrofes iniciadas pelo verso “eu ficarei comigo…”, mostra o envolvimento da persona consigo mesma, o que se intensifica pelo uso de rima interna e pelas reiterações. O poeta descarta a isometria e fica forçado a incluir o poema como pertencente a um viés que o insira como simbolista ou até como romântico e usa da liberdade poética para extravasar a sua incapacidade de se libertar da tristeza, na tentativa de se redimir. Agamben (2013) apresenta uma saída, aplicável ao poeta:

Um ser que não é jamais ele mesmo, mas é apenas o existente. Não é jamais existente, mas é o existente, integralmente e sem abrigo. Ele não funda, nem destina nem nadifica o existente: é apenas o seu ser exposto, o seu nimbo, o seu limite. É no meio do ser e o ser é inteiramente abandonado no existente. Sem abrigo e, todavia, salvo – no seu ser irreparável (AGAMBEN, 2013, p. 93).

O poeta atinge o seu limite, sendo incapaz de ultrapassar suas fronteiras. Voltada apenas para si, a persona se insere numa hermenêutica do sujeito, quando pode ser associada “ao cuidado de si”, “à técnica de si”, “à prática e à cultura de si”, consciente do que quer:

Eu ficarei comigo unicamente Comigo e minhas mágoas,

Como um pássaro mudo, olhando as águas, À margem da corrente (p. 64).

O poeta cultiva o que é importante para o Si, a partir do cuidado de si que, segundo Foucault (2004), consiste no fato de alguém ocupar-se consigo, preocupar-se consigo:

Eu ficarei comigo e essa ternura Que eu não posso conter

Sempre que escuto a voz de uma criatura Que não teve um minuto de prazer (p. 64).

Utilizando-se dos moldes da cultura grega, Foucault procura mostrar que “a prática de si se identifica com a própria arte de viver”. Já “a técnica de si”, mesmo a de natureza arcaica, “é uma certa maneira de desligar-se – ausentar-se mas sem sair do lugar – do mundo no qual se está situado” (FOUCAULT, 2004, p. 60). Esta fuga do mundo real é, realmente, constante no nosso poeta.

Dificilmente a persona vai conseguir esquecer, se concordamos com Agostinho (1984), para quem “Essas noções foram confiadas à memória pelo espírito, depois de este havê-las experimentado e sentido, ou foram retiradas pela memória sem que ninguém as tivesse confiado” (AGOSTINHO, 1984, p. 265).

É impossível esquecer o que mina o nosso espírito de resistência, ao que é vivenciado. O que a persona procura esquecer atua como “linhas de fuga” de que fala Deleuze (1995), movimentos de desterritorialização que não têm nada a ver com “significar, mas com agrimensar, cartografar, mesmo que sejam regiões ainda por vir” (DELEUZE, 1995, p. 13). O poeta nos faz refletir. Gosto de perscrutar a solidão deste poeta. Por que ele é sempre tão triste? Penso nos seus poemas como um sistema de rizoma, pois “um rizoma não cessaria de conectar cadeias semióticas, organizações de poder, ocorrências que remetem às artes [...]” (DELEUZE & GUATTARI, 1995, pp. 15-6). Penso na expansão do rizoma e na sua horizontalidade, excogitando tudo pela imaginação, reunindo pensamento e sentimento, ativando princípios de conexão e heterogeneidade, princípio de multiplicidade, princípio de ruptura assignificante e princípio de cartografia e decalcomania. Daí por que o rizoma, em sendo uma relação de inconsciente, surge espontaneamente de modo inesperado no território que

lhe apraz. Como Deleuze e Guattari (1995, p. 37) falam de rizoma, “um rizoma não começa nem conclui, ele se encontra sempre no meio entre as coisas, inter-ser, intermezzo”, podemos dizer: o eu-poético, em Pereira da Silva, consegue anular fim e começo e se inserir num contexto em que os olhos da imaginação veem sempre a mesma coisa, idêntica ou semelhante, num direcionamento particular. E assim posso lembrar que os seus poemas minam horizontalmente o seu pensamento, sempre em busca constante. Ver as coisas pelo meio não é fácil, pois requer uma conexão com o que vem antes e o que vem depois. Assim, concluo estes comentários, reconhecendo que Pereira da Silva nos apresenta uma poiesis rizomática.

No soneto “Envelhecendo”, da obra Beatitudes (1919), em que “velho” é o rizoma que perpassa por todo o conteúdo poético, há a tendência natural de expansão. Na primeira estrofe

Hoje, olhei-me no espelho. Que mudança De desenho e feições a do meu rosto! Que “facies” cavo, magro, decomposto

E diferente do que eu tinha em criança! (p. 15).

A estrofe final expande a sensação de fixidez e estranhamento. A retomada do que está no passado projeta fatos, que congregam os aspectos rizomáticos em torno do espelho:

Que contingência a de ficar-se velho Pressentindo que um dia, à luz do espelho O nosso olhar não nos conhece mais (p. 15).

Esta tentativa de conhecer a obra do poeta de Beatitudes, quando utiliza uma “experimentação”, numa perspectiva rizomática destaca, no “íntimo” dos poemas as mesmas reações, quando se pode dizer que a diferença expõe a similaridade.

melancolia (1928), fala de saudade inconsequente e remete para a memória para concluir que foi feliz. Como diz Santo Agostinho (1984), na memória estão também os sentimentos da alma. Quando fala da felicidade, Agostinho (p. 274) se posiciona: “O que não aconteceria se em sua memória não se conservasse a realidade que esta palavra significa?” O poeta assim se posiciona na última estrofe do soneto:

Quem sabe? … Um senso incógnito me diz Que de outra forma viva e noutro Mundo Pode alguém ser feliz… e eu fui feliz… (p. 44).

A persona não tem certeza de nada e é como se atingisse um clima de vaguidade, de vazio, de espécie de prisão em que sempre se espera a liberdade. Pode alguém ser feliz assim? O poeta reconhece

Anda comigo uma tristeza estranha…

Tristeza? não. Saudade inconsequente (p. 43).

Peres (2003), influenciada por Lacan, lembra que o homem não vive sem o seu sofrimento, para dizer em seguida:

As grandes e aceleradas mudanças transmitem insegu- rança e acentuam o sentimento de desamparo [...]. Na luta para conseguir a sua realização pessoal, o conflito gerado pela própria insuficiência e a culpa pelo não su- cesso se traduzem em um discurso de autorrecriminiza- ção – ponto nuclear de um estado depressivo (PERES, 2003, pp. 23-4).

Penso na memória, no contexto deste poema, associada a uma vida que poderia ter sido e não foi. Como diz Agostinho (1984, p. 257): “Cheguei assim ao campo e aos vastos palácios da memória, onde se encontram os inúmeros tesouros de imagens de todos os gêneros, trazidos pela percepção”, embora se saiba também que o poeta sofre as consequências da própria memória, o que a persona explora o quanto pode. A tristeza ingente, representativa da visão de mundo de Pereira da Silva, captável até em suas fotos, são imagens de insegurança.

O seu modo de ser, gerador de melancolia, o torna um ser sensível, que desenvolve uma visibilidade acentuada. “É que, para vir a completar a percepção, as recordações precisam ser tornadas possíveis pela fisionomia dos dados” (MERLEAU-PONTY, 2011, p. 44), como se detecta na segunda estrofe:

Essa ideia imanente me acompanha De tal maneira o espírito vidente Que já sofro da falta desse ambiente

De clima luminoso e ar de montanha (p. 43).

Unir tristeza e sofrimento, amalgamados pela memória e dizer que foi feliz é uma tentativa de superação do próprio imaginário.

O poema “Razões da dor”, da obra Holocausto (1928), tematiza as razões da dor associadas ao tema da paixão. A experimentação do texto, com base em Foucault (2004), remete para o cuidado de si. Lembra Foucault (2004, p. 301): “o sujeito deve ir em direção a alguma coisa que é ele próprio”:

Mas nutro intimamente uma esperança: Quem sabe se a ventura também cansa, E eu te darei – feliz – a grande prova Que essa paixão foi cada vez mais nova Bem sei que esses desejos não são bons; Mas a Dor tem também suas razões (p. 91).

A persona, se a situar na esteira de Foucault, devo reconhecer que: “a partir do momento em que o cuidado de si é afirmado e em que se tenta efetivamente cuidar de si, ele consistirá, essencialmente, em conhecer-se a si mesmo” (FOUCAULT, 2004, p. 310):

Eu não serei amado. E a todo instante Esta angústia se faz mais angustiante E quando nascem de um profundo amor Não há razões como as da nossa Dor (p. 91).

se pretendesse instalar o tema da verdadeira vida, o que justifica tematizar a dor. E caminhando com Foucault (2011, p. 191), posso dizer:

o cinismo se apresenta essencialmente como uma certa forma de parresia de dizer – a verdade – mas que encon- tra seu instrumento, seu lugar, seu ponto de emergência na própria vida daquele que deve assim manifestar a verdade ou dizer a verdade, sob a forma de uma mani- festação de existência.