O campo da saúde mental é também um campo de batalha dentro dos direitos humanos,
no qual a memória faz-se uma arma poderosa e necessária. Ao travar tal batalha, nos
deparamos com o jogo de forças e saberes desproporcionais, que lutam para se estabelecer
dentro de um patamar de verdade histórica. O que costumamos denominar por verdade
histórica, nada mais é do que a expressão do domínio e a imposição da história pelos
vencedores.
Todos os que até hoje venceram participam do cortejo triunfal, em que os dominadores de hoje espezinham os corpos dos que estão prostrados no chão. [...] Os despojos são carregados no cortejo [...] Estes despojos são os que chamamos bens culturais. (BENJAMIN, 1987a, p. 255).
Benjamin chama atenção para como o processo cultural e de produção histórica não se
desvincula da barbárie. Nessa concepção, à história dos vencidos é legado o esquecimento,
quando não, o assujeitamento. É justamente nesse contexto que, ao investigar o passado,
terminamos por reproduzir a história dos vencedores, pois é dela que herdamos as ferramentas
com as quais ela será reafirmada. Vale salientar que o termo “vencedores”, não se refere aqui às guerras comuns, travadas na história, mas sim às “guerras de classe”, tal qual aponta Löwy
(2005), em seu estudo sobre as teses sobre história, de Walter Benjamin.
Dessa forma, atentar para as capturas dentro do processo de conhecimento da história
é um elemento importantíssimo para evitar a mera reprodução de um saber já instituído e
poder se aproximar de outras histórias, versões, saberes, fazendo uma reflexão crítica sobre
Pensar criticamente o nosso presente e tentar mudá-lo é, portanto, um dos efeitos de se conhecer essa história dos “vencidos”, essa história que, por vezes, ainda nos vem sendo negada; essa história em que muitos de nós fomos protagonistas e que está marcada a ferro e fogo em nossos corações e em nossas mentes.
Nesse argumento descansa a crítica de Benjamin ao historicismo servil à toda forma
de poder, de forma que ele propõe justamente a recusa de se juntar a tal fúnebre cortejo
vencedor, que continua sua marcha ainda hoje. Porém, há algo que sobrevive, que resiste a esse processo de obliteração e assujeitamento do saber do mais “fraco” pelo mais “forte”.
Podemos entender o que se denomina de saberes sujeitados, e seus termos semelhantes,
tanto por registros de conhecimentos históricos, soterrados, absorvidos em entendimentos
funcionais e sistematizados em um saber hierarquizado, quanto por conhecimentos que não
são qualificados como científicos, tidos como insuficientemente formulados. A sobrevivência
de saberes sujeitados mostra-se como ponto crucial de resistência à dominância cultural do processo “civilizatório”, de forma que esses saberes se sustentam na tradição e na memória
dos sobreviventes das batalhas, constantemente ameaçadas e passada, a duras penas, para as
novas gerações.
[...] nesse saber da erudição como nesses saberes desqualificados, nessas duas formas de saberes, sujeitados ou sepultados, de que se tratava? Tratava-se do saber histórico das lutas. No domínio especializado da erudição tanto como no saber desqualificado das pessoas jazia a memória dos combates, aquela, precisamente, que até então tinha sido mantida sob tutela. (FOUCAULT, 2005, p. 13).
Pela memória é possível a insurreição desses saberes negados, tutelados, através dos
quais se pode fazer uma crítica ao saber estabelecido. Esses não deixam de ser saberes
históricos, pois carregam em si as marcas das batalhas, as cicatrizes da sujeição, mostram-se
Como possibilidade para o resgate desses saberes, Foucault (2005), entendendo que as
marcas dos enfrentamentos e das lutas são permitidas somente através dos conteúdos
históricos, chama atenção para como a genealogia delineou tanto o processo de redescoberta
das lutas e a memória dos combates, como a possibilidade de conexão desses saberes
populares com o erudito, através da negação tirânica dos discursos englobadores. Dito de outra
forma, a genealogia pode ser entendida na junção dos saberes cultos e dos não científicos, de
forma que se torna possível a composição de um outro tipo de saber histórico das batalhas
travadas, assim como a possibilidade de utilização tática desse saber.
Nesse caso, há na genealogia, proposta por Foucault, um atravessamento desses
saberes sujeitados, locais, dispostos contra uma organização teórica positivista, unitária. Tal
posicionamento conflui com a crítica que Deleuze e Guattari (2011) fazem à lógica binária, o
saber unitário, arbóreo, hierarquizado, segundo os quais é necessário se fazer o múltiplo, de
forma rizomática. O pensamento rizomático é posto por eles como uma antigenealogia, um
sistema acentrado que não começa, nem conclui, mas se desloca pelo meio das coisas, ou seja,
se interessa pelos processos e não sua gênese ou fim, como um mapa sempre em construção,
feito por quem desbrava um território.
Curiosamente e não por acaso, a ideia de antigenealogia aqui em Deleuze e Guattari (1995) aproxima-se da ideia de genealogia em Foucault (1996), no sentido de não buscar as origens ou datas dos fatos, mas a singularidade dos acontecimentos nos pontos onde há ruptura e produção de diferença nos modos de ver e dizer, ou seja, nos modos de subjetivação em certo tempo histórico. (AMORIM et al, 2015, p. 664).
Essa afluência de diferentes saberes, os “menores” e os científicos, sem um ponto
central que hierarquiza e normatiza suas relações, promove a ruptura de toda uma forma de se
entender o conhecimento, agora não mais dentro de um sistema de valores arbitrários, mas nas
Nesse exercício da genealogia, como aponta Foucault (2015), o genealogista aprende
que, nas coisas, não há uma essência, muito menos razão; que a tal dedicação dos cientistas à
verdade e ao rigor dos métodos científicos, vem de suas paixões, do seu ódio e das discussões
em suprimir o afeto; e de que a liberdade não passa de uma invenção das classes dominantes.
Esse exercício requer do genealogista o entendimento das relações de dominação presentes na
construção do saber.
[...] classes dominam classes e é assim que nasce a idéia de liberdade; homens se apoderam de coisas das quais eles têm necessidade para viver, eles lhes impõem uma duração que elas não têm, ou eles as assimilam pela força − e é o nascimento da lógica. Nem a relação de dominação é mais uma "relação", nem o lugar onde ela se exerce é um lugar. E é por isto precisamente que em cada momento da história a dominação se fixa em um ritual; ela impõe obrigações e direitos; ela constitui cuidadosos procedimentos. (FOUCAULT, 2015, p. 68).
Faz-se importante chamar atenção para as relações de dominação, entendendo que
estas não se fazem por uma progressão dos combates, de forma que se estabeleça uma norma
que possa substituir para sempre as guerras. O que ocorre é justamente a acomodação das
violências dentro das normas e leis, de forma que é a regra que permite se prosseguir de
dominação em dominação. Dito de outro modo, Foucault (20015) chama atenção para o jogo
da história, como sendo o domínio de suas regras, de forma a pervertê-las, voltá-las contra
quem as tenha prescrito, ou seja, subjugar o dominador com suas próprias regras.
Essa forma de organização retoma toda uma estrutura hierárquica, criticada pela
antigenealogia de Deleuze e Guattari, que sustenta o historicismo servil, apontado por
Benjamin. Essa estrutura, advinda dos processos de dominação, cria a ilusão de uma
constância na história que poderia explicar os homens e as coisas, a partir sempre de uma
única referência, de forma a encerrar-se em si mesma, em uma totalidade que não compreende
Dessa forma, a perspectiva de uma “história efetiva” que abordo aqui, apoiada em
Foucault e nos demais autores supracitados, toma como ideia principal a de não se apoiar em
qualquer constância, mas na destruição desta, na introdução da descontinuidade do próprio ser e de que “o saber não é feito para compreender, ele é feito para cortar” (FOUCAULT, 2015,
p. 73), para fissurar e retalhar a sensação de consolo, de alívio que a natureza e a vida (tomadas
na perspectiva de uma constância) trazem consigo.
Partindo desse pensamento, a história é uma ferramenta ímpar no resgate da discussão
dentro do campo dos direitos humanos, na tentativa de revelar as feridas, as cicatrizes, que
estavam cobertas pelas mangas de uma história que as negava, as sujeitava. Trazendo as
discussões sobre memória para o campo dos direitos humanos, nos ocupamos também com os
sujeitos dessas histórias, não mais somente do ponto de vista abstrato, conceitual, mas da
concretude de suas existências e das marcas, também concretas, de seus silenciamentos.
Ao abordarmos os processos de dominações, as relações de enfrentamento entre os
saberes, as lutas de classes e os registros desses confrontos, encontramos uma forma de
estruturação histórica que privilegia, de forma arbitrária, formas e saberes que serão tomados
como referência para explicar a realidade, como um todo.
A história que, de um modo geral, nos tem sido imposta seleciona e ordena os fatos segundo alguns critérios e interesses, construindo, com isso, zonas de sombras, silêncios, esquecimentos, repressões e negações. (COIMBRA, 2001, p. 11).
Essas zonas de sombra nada mais são que as formas pelas quais as rupturas são
negadas, as fissuras são rebocadas, mas que não conseguem abafar certo ruído, a tentativa de
produção de outra história, a partir de formas de resistência cotidianas.
Vale ressaltar que, como aponta Foucault (1995), implica a toda relação de poder uma
relações de poder desproporcionais, esse poder só pode ser exercido se ainda restar ao outro a
forma de resistência derradeira, matar a si ou ao outro, ou seja, há sempre uma possibilidade
de resistência nas relações de poder.
Se tomarmos como exemplo um determinado contexto histórico brasileiro, podemos
encontrar diversos grupos que fazem exercício de resistência e de produção de história,
trazendo à baila acontecimentos ocorridos nos anos de ditadura, que envolveram mortes,
torturas, perseguições, desaparecimentos, violências, dentre outros, que foram ocultados,
emudecidos, negados de forma categórica.
Assim, a tortura – que, ao longo de todo século XX, foi cotidianamente utilizada contra os “desclassificados” e “perigosos” sociais – continua sendo, hoje, prática comum em delegacias policiais, presídios, hospícios e muitos outros estabelecimentos que tratam dos chamados “infratores” e “delinqüentes”-mirins. (COIMBRA, 2001, p. 13).
É justamente esse silenciamento das histórias dos vencidos que permite a atualização
de práticas abjetas, que se repetem em novos avatares e seguem sendo silenciadas e interpretadas à luz dos “fatos históricos”, que às negam e minam a possibilidade de uma
reflexão crítica de sua atualidade. Essa falta de reflexão permite, como aponta Vasconcelos
(2016), que hoje setores mais autoritários da direita brasileira, saudosos da ditadura militar,
que se mantiveram calados até 2013, saíssem das sombras e clamassem declaradamente a
volta dos militares ao poder e, até mesmo exaltassem a memória dos torturadores denunciados
e condenados pela Comissão Nacional da Verdade, criada pela Lei nº 12.528, de 18 de
novembro de 2011, que foi responsável pela apuração de graves violações de direitos humanos
ocorridas entre 18 de setembro de 1946 e 5 de outubro de 1988.
Nesse aspecto, a dificuldade de pensar criticamente sobre as violências vem de uma
produção subjetiva que nega, que desqualifica os vencidos (sujeitos reais, de carne e osso),
Dentro da possibilidade de reflexão crítica à história, cabe aqui chamar atenção para
uma forma possível do exercício de tal reflexão, através do emprego da narrativa. Mais do que
mero processo de repasse de informação, a narrativa goza de uma riqueza que não se furta ao
outro. A narrativa é relacional, pois “o narrador retira da experiência o que ele conta: sua
própria experiência ou a relatada pelos outros. E incorpora as coisas narradas à experiência de seus ouvintes” (BENJAMIN, 1987a, p. 201). A narrativa não se põe neutra, mas sempre por
conexão com outra narrativa, de forma que ao ouvinte cabe sua própria interpretação. Ou seja,
permite uma conexão com suas experiências e narrativas próprias, o que amplia a experiência
da narrativa para além de uma mera informação sobre determinado acontecimento.
Podemos perceber o grande potencial de reparação que a narrativa traz consigo e como
seu uso pode se estabelecer como forma de resistência às formas de saber/poder totalizantes.
A atividade narrativa permite ao sujeito a restituição de sua verdade histórica, o que dá acesso a ressignificações, ou seja, a autoria da própria história. A narrativa solda, assim, as relações entre vida e política, pois a vida na pólis é sempre mediada pela palavra. A memória da ação pode tornar-se ela própria ação; sendo a Pólis o lugar do inter-esse, do entre-dois. (ONOCKO-CAMPOS, 2011, p. 1274).
Dessa forma, narrar, pode transformar palavra em ato, o testemunho em registro
histórico, tirando a fala, a partir da publicização daquilo que é narrado, da esfera da
clandestinidade, das sombras.
Porém, a narrativa das histórias negadas não se dá de forma passiva. Sua enunciação
é sempre uma forma de afirmação de poder e do saber de sujeitos e grupos mantidos em
silêncio. Há um esforço para se enunciar, para dizer a verdade de si. Há uma coragem também