BIBLIOGRAFIA I INDEXS D'ANNEXOS I REPRESENTACIONS
3. L’elaboració dels instruments de recerca
Nas sociedades do século XXI, a literatura mantém seu papel de arte entre as principais formas de cultura e de entretenimento, sobretudo por sua relação por vezes atravessada por seu uso no registro de livros relacionados a níveis mais consagrados ou valorizados do saber. No entanto, a literatura como um produto cultural de comercialização em grande escala é uma outra faceta assumida por esta tecnologia no contexto contemporâneo.
Em um recorte consideravelmente mais restrito em comparação com a abordagem realizada neste estudo a respeito dos suportes para o texto literário, a questão do livro impresso e da literatura promovida na internet salta aos olhos como os principais temas dos diálogos realizados com a temática do suporte do texto literário. Isso ocorre tanto pela proximidade temporal de ambos os casos com a contemporaneidade, período no qual se inserem os objetos de estudo a serem analisados, quanto por estarem tanto o livro impresso, quanto o texto na internet, revestidos por uma lógica de mercado que as utiliza como tecnologia.
Confome discutido, o advento da imprensa colaborou enormemente para a viabilização de um projeto de disseminação da literatura impressa, pois as técnicas de montagem e reprodução do livro ganharam novas facilidades nos processos de reprodução acelerada do material escrito (ECO, 2011). Quando se pensa a respeito da indústria cultural, conceito de Horkheimer e Adorno (2011), apresenta-se a ideia
de que a arte é constantemente subvertida aos interesses do mercado, por meio de sua comercialização e reprodução em série.
As perspectivas a partir dessas mudanças podem ser positivas ou negativas, a depender das partes interessadas nessas relações. As formas de arte como tecnologias, tal como a literatura, por vezes são submetidas aos interesses de mercado que as posicionam como produtos feitos com o objetivo de se obter lucro, de modo que os produtos artísticos acabam sendo regidos e moldados aos gostos e necessidades de determinada camada do público consumidor, a qual o mercado consulta com frequência (HORKHEIMER; ADORNO, 2011).
Nas relações estabelecidas entre tecnologia, indústria cultural e mídia, existe a possibilidade de ocorrer o controle da tecnologia de forma quase hegemônica por grupos que concentram o poder dos aparelhos de comunicação e de produção de bens artístico-culturais. Com a constante apropriação de tecnologias do campo da arte por conta da necessidade de se atender as demandas por produtos novos ao público consumidor, o domínio das tecnologias relacionadas aos campos artísticos e de produção cultural são de extrema importância para a viabilização do lucro.
Certamente, a disseminação de um produto cultural potencial em um contexto de estabelecimento de uma economia do comércio artístico serviu para transformar também o livro em mercadoria. Assim, a literatura como uma tecnologia e um elemento de disputa entre aqueles que a produzem e aqueles que têm a pretensão de comercializá-la – sobretudo em grande escala – estabelece um campo de disputas.
Segundo Lipovetsky e Serroy (2015), o capitalismo artista é um período da história no qual a hiperestetização e a comercialização da arte assumem novos paradigmas. Nos capítulos seguintes, a influência desse momento histórico será explorada frente aos impactos causados pela abordagem mercadológica da arte característica do século XXI.
Por enquanto, diz-se que a existência desse contexto possui grande influência no estabelecimento de um cenário de disputas, no qual as editoras, que concentram o poder de comercialização de obras literárias em grande escala, e os autores, que precisam submeter seus trabalhos escritos a esses núcleos de poder na indústria do entretenimento, apresentam alguns conflitos e discordâncias.
Assim, a literatura, como outros produtos culturais e artísticos, assume um novo ritmo de comercialização, de modo que alguns artistas tendem a tornar a sua
arte menos comercial ao negar os sistemas da indústria do entretenimento, enquanto outros se inserem nele e preferem comercializar sua arte em grande escala, de modo a colaborar com os interesses de um enorme e poderoso mercado artístico que se amplia no século XXI.
A literatura, atravessada pelas influências do mercado do entretenimento do qual o livro já é parte, encontra na internet um cenário tanto de possibilidade de desprendimento das práticas de produção literária para o mercado, quanto a possibilidade de um impulsionamento de carreira artística para se atingir visibilidade suficiente para adentrar a indústria do entretenimento. No cibersespaço, o escritor tem, seja qual for a sua motivação, a possibilidade de publicar seus trabalhos de modo gratuito, desconsiderando os gastos envolvidos com a conexão à rede em si.
É pelo imediatismo das relações mediadas na esfera digital e pela alta velocidade da internet como mídia, como afirma Poe (2011), que a produção literária pode se desenvolver. Considerando a necessidade da presença de um público leitor para a efetividade da publicação e divulgação do texto literário, o ciberespaço permite a leitura, o comentário e o engajamento de outros indivíduos em torno de uma obra literária.
Os entrelaçamentos entre o uso da tecnologia escrita, o surgimento do modo de leitura códex e a reprodutibilidade do livro impresso, representam o surgimento de uma tradição de leitura e propagação da literatura. Com a popularização da imprensa, iniciada por Gutenberg para reprodução de texto escritos de forma consideravelmente mais rápida em comparação com os métodos empregados até então (ECO, 2011), a tecnologia de reprodução auxiliou no impulsionamento do livro impresso como modelo prestigiado e prático de disseminação do texto literário.
Os cruzamentos dessas tecnologias resultam na situação em que a literatura hoje se encontra diante de um cenário de grande comercialização do texto literário e também da constituição de circuitos independentes de produção que buscam fugir da influência do mercado na produção artística. Desse modo, a literatura é uma tecnologia hoje voltada tanto aos interesses do mercado editorial, quanto às interações e publicações realizadas de modo independente, tais como as que ocorrem na internet. É, pois, nesse cenário que a disputa pelo controle da literatura como arte e tecnologia se desenvolve.
Assim, a literatura se estabelece como um produto sobre o qual há constantes disputas de poder. O surgimento de um meio digital, que permite o acesso a obras
literárias de modo gratuito ou por um menor custo acaba por entrar em conflito em alguns aspectos com os desejos de um mercado de comercialização da obra que busca controle das transações financeiras realizadas a partir do livro como produto.
É importante destacar, no entanto, que as disputas entre mercado e produtores indepedentes de literatura aqui apresentadas não estão restritas aos suportes. Enquanto hoje o mercado editorial atua com a produção de livros impressos e e-books, os autores independentes, em sua maioria, compartilham suas obras literárias hoje no espaço online, ainda que a tradição de disseminação da literatura independente das editoras ainda seja mantida, em menor escala, também no meio impresso. Ainda que a questão do suporte na literatura seja essencial e não deva ser descartada, é a questão da disputa de poder da literatura entre dois núcleos distintos que foi estabelecido como foco das discussões deste estudo.
Desse modo, a literatura nas sociedades modernas é frequentemente um instrumento de poder, ou seja, uma tecnologia que pode ser utilizada para vários fins e que é alvo constante de disputas pelo fato de concentrar certo poder de comercialização e possibilidade de lucratividade.
4 O ARTISTA E O MERCADO EM UMA CULTURA DAS MÍDIAS
A literatura na modernidade está, em partes, condicionada a um sistema econômico que a enxerga a partir do viés do produto cultural de comercialização em grande escala. Nesse sistema, o artista e sua obra são submetidos a ideias de transformação de suas imagens para um consumo não somente material, mas também visual e simbólico da obra e da imagem do autor como um todo por parte dos públicos consumidores (LIPOVETSKY; SERROY, 2015).
O momento social e econômico atual é descrito por Lipovetsky e Serroy (2015) como a era do capitalismo artista. Trata-se de um período no qual o consumo se associa também a ideais estéticos, nos quais se enquadram tanto a questão visual, quando a ideia de espetáculo (LIPOVESTKY, SERROY, 2015). Essa expressão complementa a ideia de que a estética e o mercado aparentam estar em um período de acentuada convergência, na qual o capital artístico está sendo direcionado em favor de uma indústria lucrativa do entretenimento.
Lipovetsky e Serroy (2015, p. 34), ao explorarem essas relações entre mercado e arte, apresentam o capitalismo artista como: “[...] o sistema em que são desestabilizadas as antigas hierarquias artísticas e culturais, ao mesmo tempo que as esferas artísticas, econômicas e financeiras se interpenetram”. É nesse contexto que a literatura como tecnologia é apropriada e utilizada como elemento de ampliação do mercado editorial e de obtenção de lucro.
A transformação da literatura e da obra literária no que hoje as representa em sua inserção no mercado das artes consistiu em um processo de inúmeras mudaças fomentadas pela alteração dos modos de vida e de interação dos indivíduos com o mundo, aprofundadas na modernidade. Com a alteração dos paradigmas no período moderno, o consumo e a produção de arte, assim como o artista, passaram a se manifestar de modos distintos e também a apresentar outros propósitos de permanência na esfera artística.
A posição do artista frente à arte sofreu alterações com o passar dos anos, muitas delas condicionadas aos modos pelos quais a arte era vista, compreendida e concebida em cada período. Compreender as motivações do artista, tais como os elementos que o cercam e que influenciam o seu processo de trabalho e criação, é importante para que este estudo possa, posteriormente, analisar as relações que atravessam a produção literária, tanto na internet, quanto no meio impresso.
A questão do artista na modernidade, portanto, não escapa aos estudos que visam compreender a posição do indivíduo que produz literatura diante das mudanças promovidas na arte da modernidade. Para que os caminhos do artista na modernidade possam ser delineados, foram separados dois principais momentos a serem apresentados na trajetória do trabalho e da posição social do artista nesse período: primeiramente, os momentos iniciais da modernidade, correspondentes ao século XIX, e em seguida, os séculos XX e XXI, que correspondem à atualidade.
A modernidade é um período de profusas mudanças tanto nos cenários de uma Europa em acelerado desenvolvimento, mas também em suas formas de arte e de relação entre artistas e burguesia. De acordo com Berman (1986, p. 15), esse período pode ser apresentado da seguinte forma:
existe um tipo de experiência vital - experiência de tempo e espaço, de si mesmo e dos outros, das possibilidades e perigos da vida - que é compartilhada por homens e mulheres em todo o mundo, hoje. Designarei esse conjunto de experiências como “modernidade”.
Pensar a respeito da modernidade implica pensar, no escopo deste estudo, as questões sociais que atravessam e caracterizam o período. Enquanto conjunto de experiências (BERMAN, 1986), a moderninadade, em um cenário conflituoso no campo do social, pode ser entendida na época de sua concepção do seguinte modo a partir de Berman (1986, p. 15): “[…] é uma unidade paradoxal, uma unidade de desunidade: ela nos despeja a todos num turbilhão de permanente desintegração e mudança, de luta e contradição, de ambigüidade e angústia”.
No contexto do século XIX, no qual as cidades europeias passam por um processo de urbanização, a mudança de postura do artista pode ser retratada por obras como as de Baudelaire (1995), um dos mais ilustres artistas na representação desse período de transição das artes ao qual se refere este capítulo. A vida nas cidades europeias, que aos poucos ganhava outras formas com as intervenções urbanas feitas nos bulevares e sofria a efervescência das multidões, foi retratada por Baudelaire (1995) em diversas obras.
A figura do homem da multidão e do flâneur, ambos mencionados por Baudelaire (1996) são um marco na compreensão do artista e do homem moderno frente ao cenário que emergia na Europa do século XIX. O homem que pertencia à multidão, decorrente do crescimento da população e das aglomerações urbanas, produz sua arte com os olhos focados nela, como um flâneur, que observa toda a
movimentação das grandes cidades da época (BAUDELAIRE, 1996). Também a chegada da modernidade nos cenários urbanos é narrada por Gógol (1992) em Avenida Niévski, em um retrato dos modos de vida da época na Rússia que passavam por um momento de transformação.
O comportamento do artista moderno foi incentivado pela dinâmica da vida urbana europeia e condicionado pelos rompimentos de algumas tradições e protocolos sociais que até então regiam as interações entre indivíduos e a convivência em comunidade. Esses novos modos de pensar surtem efeito nas relações que o artista possui com sua própria arte e o com o público que a consome. As alterações no âmbito social, então, resultaram em mudanças na arte, tanto no que diz respeito à sua comercialização e reprodução, quanto em seus temas e sua produção por artistas que também sentiam as primeiras consequências dessa mudança de paradigma. E é justamente nesse ponto que reside um dos mais importantes fatores a respeito da constituição da obra literária: a relação do artista com sua obra e o impacto que sua associação a outros setores da sociedade traz para as dinâmicas de produção e comercialização da obra literária, em pequena ou grande escala.
Ainda nesse período, as sociedades começam uma caminhada para um modo de pensamento individual, como aponta Kellner (2001, p. 297): “a identidade na modernidade também foi ligada à individualidade, ao desenvolvimento de um eu individual único”. A perda do coletivo em prol de maior liberdade de ação e pensamento para o indivíduo é uma consequência dos primeiros momentos da modernidade que prevalece até hoje nas civilizações ocidentais (COMPAGNON, 2010).
Os reflexos da ascensão de uma burgesia e de um pensamento do indivíduo fragmentado e não mais pertencente a um todo que busca de modo mais enérgico o agir coletivo têm até hoje permanecido visíveis e tangíveis aos olhos de espectadores a respeito dos rumos que as sociedades modernas hoje tomam. De acordo com Compagnon (2010, p. 36): “a subjetividade moderna desenvolveu-se com a ajuda da experiência literária, e o leitor é o modelo de homem livre”.
O que acontece na expansão da modernidade pelo século XX é uma aproximação mais enfática entre valores comerciais e artísticos. Incorporadas em produtos de ampla comercialização e em interseções entre arte e mercado, tal como
ocorre com as obras da Pop Art (COMPAGNON, 1996), as artes estão agora inseridas em uma lógica mercantil do espetáculo (LIPOVETSKY; SERROY, 2015).
Focado nas relações da arte e do artista, este capítulo trará inicialmente uma visão a respeito das mudanças enfrentadas pelo artista neste período. Em seguida, o foco estará estendido às questões concernentes à presença da literatura no cenário moderno da cultura das mídias, com foco na literatura como tecnologia e na obra literária como produto cultural de ampla divulgação.
Para que as discussões sobre o artista na modernidade possam ser efetivas, buscou-se, por meio de uma abordagem contextual do período inicial da modernidade, compreender um pouco do plano de fundo das alterações nas relações entre artistas e sociedade no século XIX. Em seguida, a discussão é direcionada para o contexto contemporâneo da presença do artista no mercado e da disseminação da sua obra a um grande público.