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3 L’ EFFET DE L ’ INTERVENTION

3.3 L’effet sur la dépendance à Internet

A Comissão Econômica para a América Latina, órgão ligado à Organização das Nações Unidas (ONU) e criado em 1948, torna-se, nas palavras de Celso Furtado (1997, p. 187) – um dos primeiros cepalinos, diga-se de passagem – “a verdadeira escola de pensamento”. Já Guerreiro Ramos (1995, p. 201), quando perguntado sobre a influência da CEPAL nas proposições isebianas, responde: “Claro, a CEPAL era a mais importante” e então afirma que o ISEB tentava transplantar as formulações cepalinas para a realidade brasileira.

No período pós-guerra, a ONU organiza Comissões em todas as partes do mundo, no entanto, a da América Latina, localizada no Chile, destaca-se, pois além de reunir economistas do mais alto calibre, produz conhecimento novo, com teorias e pressupostos inovadores acerca da relação centro-periferia – análoga à mundialização. Abre-se a possibilidade de produzir conhecimento da periferia em vez da transposição de sistemas teóricos ou premissas do centro. Desde logo é importante salientar que as formulações cepalinas são tributárias da Ciência Econômica, portanto pontuarei as ideias básicas daquela produção.

O ponto de partida da CEPAL é estudar o subdesenvolvimento ancorado pelo conceito de sistema centro-periferia, trazido pelo economista argentino Raul Prebisch14 que, desde 1939, estudava aspectos da economia argentina e empreendeu a tarefa de compará-la com outras nações periféricas para então chegar a uma síntese, a uma ideia comum das características desse tipo particular de economia. Prebisch (1949) parte do princípio de que o capitalismo enfrenta ciclos, flutuações. No período da Grande Depressão, que se inicia em 1929, por exemplo, observa que a crise enfrentada pela Argentina, por conta da diminuição brusca das exportações, é reflexo da economia do Centro, tanto da Grã-Bretanha quanto dos Estados Unidos. Dessa forma, o autor percebe que no sistema de comércio mundial há dois polos antagônicos, o centro e a periferia. Esses termos não revelam apenas o aspecto histórico ou geográfico, sendo o centro conformado pelos países de capitalismo originário, e a periferia

14 Segundo Bielschowski (2009), em palestra conferida à SBS, Prebisch era um economista

conformada pelos países de capitalismo atrasado. O autor revela também estruturas e funções que cada polo apresenta na economia mundial. Isso quer dizer que quando Raul Prebisch publica, logo quando chega à CEPAL, em 1949, a obra Desenvolvimento da América Latina e seus principais problemas traz sua experiência como estudioso e depois tecnocrata, já que foi um dos criadores do Banco Central argentino, de onde trouxe concepções acerca do sistema mundo e da diferenciação entre os países exportadores e os industrializados:

Mas a verdade verdadeira é que a CEPAL foi possível por causa da presença de Prebisch. Os órgãos das Nações Unidas em nenhuma parte tiveram tanta importância. Só existe uma escola de pensamento no Terceiro Mundo independente, que é a CEPAL. Então havia essa combinação de um grupo de latino- americanos e Prebisch que tinha desenvolvido essa concepção de economia como um fenômeno internacional. É preciso pensar os problemas internacionais primeiro. Então Prebisch percebeu a diferença de comportamento entre o ciclo de países exportadores de matérias-primas e dos países industrializados. Daí ele criou o sistema centro-periferia que foi o grande salto (FURTADO, 1997, p.188).

Segundo Prebisch, as economias periféricas apresentavam baixa diversidade produtiva e baixa especialização – concentrando a totalidade de sua produtividade no campo – em relação às economias centrais, e por outro lado, dispunham de imensa quantidade de mão de obra, em sua maioria com rendimentos próximos à subsistência, que por isso estava pouco capacitada para diversificação produtiva. Ademais, essas economias encontravam uma estrutura institucional desfavorável à acumulação de capital.

O fato é que o progresso técnico dos países centrais, tributários, sobretudo da Segunda Revolução Industrial, conhecida também como Revolução Técnico-Científica, gerou uma alavancagem econômica pelo substancial aumento da produtividade. A automação industrial permitiu um ganho de escala na produção de manufaturados e uma pressão para escoá-los nos demais mercados mundiais, como as periferias. Entretanto, a periferia atrasada do ponto de vista técnico, caracterizava-se pela produção agroexportadora, de produtos primários, o que, segundo os primeiros trabalhos

da CEPAL, acarretou na “deterioração dos termos de intercâmbio” (1981, p. 22).

É preciso salientar que a CEPAL passa por várias fases ao longo dos decênios, no entanto, segundo Bielschowski (2009), podemos marcar seu nascimento na publicação do “Manifesto dos Periféricos” escrito por Prebisch, na ocasião como secretário-executivo da CEPAL, no ano de 1949.

A primeira fase é conhecida como estruturalista e, dessa forma, a linha que orientará os estudos do Centro nos 1950 é a defesa da industrialização na América Latina e críticas ao liberalismo, valorizando o papel do Estado na economia. Ora, se o diagnóstico cepalino demonstra diferenças estruturais entre centro-periferia, as soluções estariam em forjar uma política econômica que induzisse a industrialização de maneira programada, propiciando, dessa forma, equilíbrio entre as partes que compõem o comércio mundial. Contudo, a forte industrialização da América Latina nos 1950 não implica em desenvolvimento social ou em equidade. Ao contrário, a famosa frase “fazer o bolo crescer para depois dividir” comum à época, mostra-se equivocada. Em parte por culpa do Estado que não soube investir o excedente, em parte pela herança colonial dessas nações. Por isso Celso Furtado (1961) inova ao acrescentar a variável histórica na análise estruturalista, aliada à análise da tendência ao subemprego, enfrentado pelos periféricos mesmo após o surto de industrialização.

Destarte, nos anos 1960, a CEPAL entraria em nova fase, mais preocupada com a distribuição de renda e partindo do pressuposto de que o subdesenvolvimento era um sistema de cultura. As formulações saíam então do terreno majoritariamente econômico para um plano histórico-sociológico. Fernando Henrique Cardoso e outros sociólogos como Exchevarria, por exemplo, atuariam no Centro, alinhados às novas preocupações. Essa nova fase receita uma série de reformas para a América Latina, num ambiente conturbado devido à Revolução Cubana15, e produz a proposição síntese de

15Segundo Schwarz, a Revolução Cubana teve um impacto extraordinário na América Latina,

quebrando a redoma localista para a percepcão de um pertencimento ao mundo contemporâneo, a possibilidade de uma utopia ligada à transformação, a possibilidade da ação humana, muito encrustada na figura de Guevara.

que a industrialização não é a panaceia, pois não elimina a dependência em relação aos países centrais.

Já nos 1970, a América Latina encontra-se assolada por golpes de Estado e implantação de ditaduras, fazendo mais uma vez com que a CEPAL mude sua orientação. Nessa fase, as formulações concentram-se na recuperação das democracias como fundamentais ao desenvolvimento e, desse modo, os sociólogos terão um papel de destaque, pois se debruçarão, sobretudo, sobre estruturas de poder16. Disso decorrem trabalhos que

acrescem variáveis internas à dependência entre os polos, o que significou uma ampliação do escopo de análise. Isto é: se nos 1950 a orientação econômica clássica prevalecia nas análises – com a divisão internacional do trabalho; com o sistema de trocas comerciais – a contribuição dos sociólogos estaria, nos anos 1970, em deslindar as tensões internas das nações americanas, levando em consideração seus aspectos históricos, sociais e políticos.

Para resumir, não há dúvidas que as formulações da CEPAL têm seu lugar no Pensamento Social brasileiro, pois contribuíram e influenciaram várias gerações por conta da sua originalidade. Prova disso, é o que diz Luiz Gonzaga Belluzo, nas “Entrevistas” (1997, p. 228): “se não somos, fomos cepalinos”, o que demonstra a influência que esse órgão alcançou. Muitos dos objetivos da CEPAL também se apresentam no ISEB, no CESIT e mais tarde no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), pois se tratava de entender as causas, condições e obstáculos ao desenvolvimento (CARDOSO, 1980).

A partir desse ângulo emergiram publicações que tanto orientaram o desenvolvimento, quanto possibilitaram que cada Nação construísse sua identidade, pelo predomínio de projetos nacionais que, em última análise, permitiram também que cada parte projetasse seu futuro, buscando seu sentido. Decorre disso a busca por atores privilegiados, a ação positivada do Estado e o papel da intelligentzia.

Isso posto, percebe-se que a importância da CEPAL deve-se, entre outros fatos, à possibilidade de um pensamento latino-americano auto-referido,

16 Cf. BIELSCHOWSKY, Ricardo (Org.). 50 anos de Pensamento da CEPAL. São Paulo: Cepal-

genuíno, o que não era pouco. Prebisch e seu grupo já antecipavam a importância do fortalecimento da América Latina com a formação dos blocos econômicos. E pode-se mesmo dizer que o próprio J. F. Kennedy, quando presidente dos Estados Unidos ao aceitar sugestões da CEPAL e criar o Banco Interamericano e Desenvolvimento (BID) – que daria condições para esses países tomarem empréstimos mediante projetos de desenvolvimento – também validou a importância da CEPAL, que por conta disso, acabou por influenciar (e ainda hoje continua influenciado) o debate sobre desenvolvimento.

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