Chapitre II : L’extension des limites, un support de l’intégration visuelle ?
II. Caractéristiques du phénomène d’extension des limites
3. L’effet BE est un effet robuste mais néanmoins modulable
Como se pôde ver, o que foi apresentado na seção anterior não é novidade, pois todos os aspectos pinçados sobre a interdependência entre gramática e discurso já são conhecidos (embora alguns sejam velados) nos modelos de orientação funcionalista.
Com base nisto, sem ter a intenção de fechar a questão ou apresentar uma proposta inédita de modelo de gramática (pois seria objeto de uma outra tese), apresento uma proposta de “rearranjo” na relação entre gramática e discurso, com base nos estudos já existentes, apenas para dar abrigo ao objeto desta pesquisa.
O que ora proponho é que haja uma integração dessas visões na busca de uma maior coerência daquilo que, como diz a voz popular da experiência: “está diante de nós e não queremos ver”. Sei que não é fácil tirar a venda. Há toda uma tradição que permanece, e, a cada passo que se avança com novos estudos, geralmente se dá primazia ao novo, mas sempre procurando uma coerência com o passado – por sinal, um apego tão grande que, desde a era clássica, há apenas 10 (dez) classes de palavras, que acompanham a evolução da linguagem, mesmo havendo novas descobertas, novos objetos, enfim, novas experiências de um mundo tão diferente daquele.
Sem detalhar muito, os estudos lingüísticos começaram com o estudo das “partes” do “discurso” e daí principiou também sua divisão na busca da análise de suas categorias. De modo bastante conciso, sua trajetória segue: primeiramente, o estudo das palavras, que são objeto de estudo do léxico, cujo lugar na gramática tem levado a Lingüística Moderna a diversas tentativas de precisá-lo. Das palavras vem o estudo da flexão, portanto morfológico, e o estudo delas nas frases – a sintaxe. Depois, começam as preocupações em correlacionar os estudos, consoante a percepção da falta de autonomia dos objetos em seus níveis, que precisam para dar conta dos fenômenos lingüísticos à relação; por exemplo, morfologia e sintaxe = morfossintaxe; fonologia e gramática = morfofonêmica; gramática e léxico = léxico- gramatical; gramática e semântica = sintático-semântico; e, mais recentemente, a relação
gramática e pragmática, que ora trago ao questionamento; retornando, portanto, mutatis
mutandis, ao estudo do “discurso”, agora em sua relação com a “gramática”.
Segundo Neves (2004, p. 24-5), “incorporar a pragmática na gramática equivale a admitir determinações discursivas na sintaxe. E não é difícil encontrar [como se viu] nas obras de orientação funcionalista a assunção de que existe uma via de duas mãos a ligar discurso e gramática.”
Nessa perspectiva de mão dupla, Furtado da Cunha et alii (2003, p.50) afirmam que, “por um lado, o discurso é tomado como ponto de partida para a gramática; por outro, é também seu ponto de chegada”. Então, busco, nesses autores, o que se pode entender pelo termo discurso. Para eles, este termo está relacionado às estratégias criativas utilizadas pelo falante para organizar funcionalmente seu texto [no meu entender, a gramática em uso] para um determinado ouvinte em uma determinada situação comunicativa. Essa visão faz coro com Hopper (1987), para quem a gramática é moldada no discurso pela experiência passada dos falantes individuais e por sua avaliação do contexto presente; nesse contexto, incluem-se também os interlocutores, cujas experiências e avaliações podem diferenciar-se completamente. Dessa maneira, o discurso pode ser entendido como a organização em andamento de itens e construções lingüísticas em uso.
É também nessa perspectiva que Bybee & Hopper (2001, p. 07) entendem gramática como o “agregado maleável e internalizado das formações vindas da língua em uso” – do discurso, das experiências acumuladas, por meio da interação lingüística, durante a vida.
Então, diante dessa concepção de gramática e discurso e das várias concepções que apresentei, uma proposta alternativa coerente de integração entre elas necessitaria rever a noção de língua. Para tanto, recorro ao princípio da iconicidade que, originalmente, prevê a correlação natural da língua de uma “forma” para uma “função”, e vice-versa (Bollinger, 1977), pois, baseado nessa relação, ainda que radical, acredito que, quando se fala em
gramática e discurso, está-se falando da estrutura e funcionamento da língua, que são duas faces de uma mesma moeda33:
Figura 1 – Estrutura e funcionamento da língua
33 Mutatis mutantis, utilizo a “idéia” da figura com que Saussure representou o signo lingüístico (CLG, p.80)
Discurso Gramática
Com essa noção, creio que se dissiparia a maioria das confusões e incoerências teórico-metodológicas, que geralmente há, ao se intentar segmentar a língua em dois níveis, ou seja, estabelecer fronteiras naquilo que é unidade:
LÍNGUA = DISCURSO (função) GRAMÁTICA (forma)
Nesse rearranjo, há o discurso como a macrofunção da língua, que é concretizada por meio da gramática. Em outras palavras, a língua é usada para satisfazer necessidades comunicativas, e suas estruturas devem ser explicadas com base no uso real a que elas se prestam. Nesse sentido, a língua é tida como uma estrutura maleável, emergente, posto que está sujeita às pressões do uso, ou seja, a codificação lingüística é resultante do uso (ou seja, do discurso).
Concordo com Possenti (1999, p.157) quando afirma que “o discurso não é uma camada” (embora seja uma afirmação na perspectiva da Análise do Discurso, mas, sem sectarismos, uma vez que é também um campo de estudo da lingüística), deve-se entender que o discurso ou as construções ou elementos ditos “discursivos” não deveriam ser entendidos como mais um nível lingüístico.
Marcelo Dascal (apud POSSENTI, 1999, p.157), por exemplo, chamou de “cebolar” a concepção segundo a qual as línguas são organizadas em camadas (sintaxe, semântica, pragmática/discurso), com a finalidade de explicar algumas características da construção das seqüências e sua interpretação. Segundo Possenti (1999), uma das suposições reside na interpretação de que “as camadas mais internas, além de terem prioridade, têm óbvia garantia proporcionada pelas regras da gramática”, isto é, haveria interpretações impostas ou limitadas pela gramática (principalmente, por seu núcleo duro). Então, o procedimento seria:
quando a sintaxe é suficiente para garantir a interpretação, fica-se na sintaxe. Apenas se a sintaxe falha é que se passa para a camada semântica. E o procedimento se repete: se a semântica não dá conta de uma interpretação, então, e só então, passa-se para a camada pragmático-discursiva. (POSSENTI, 1999 p.158)
A interpretação pragmático-discursiva se daria apenas caso se exigisse o apelo a fatores não- lingüísticos.
Sou contrário a essa concepção de discurso, que é bem corrente, ou seja, a de que o discurso recobre aquilo de que os fatores ditos “lingüísticos” não dão conta.
Acredito que esse rearranjo proposto não invada a seara de nenhum campo de estudo da linguagem, apenas defende uma inte(i)ração entre gramática e discurso e, nessa
cumplicidade, por extensão, defende não só a não-autonomia dos níveis (fonológico, morfológico, lexical, sintático, semântico e pragmático), apesar de cada um ter seu âmbito na gramática, como também a noção de continuum entre eles, atendendo ao desenvolvimento dos fenômenos lingüísticos consoante as necessidades comunicativas de seus usuários.
Uma proposta alternativa para representar a integração dos componentes gramaticais pode ser vista na Figura 2, que segue, pois, conforme a noção proposta de estrutura e
funcionamento da língua, trata-se de uma tentativa de dar conta, ou mesmo superar obscuridades teóricas, por exemplo, da gramaticalização como um processo cíclico; da (uni)direcionalidade; do estágio inicial da gramaticalização de qualquer que seja o nível; das várias propostas de trajetórias; do continuum; dentre outras.
Figura 2 – Componentes Integrados da Gramática
Com a proposta dos componentes integrados da gramática, o “gramatical” deixa de ser o que é estritamente “estrutural”, numa visão tradicional, para favorecer as condições de codificação da estrutura em questão a serviço da necessidade do usuário para produzir o efeito pretendido em sua situação comunicativa. E, sendo assim, a gramática é entendida como um fenômeno emergente e fortemente suscetível a processos de mudança, ou seja, à
Entendo a gramaticalização num sentido lato, que dá conta de todos os processos de mudança, como: lexicalização, pragmatização, fonologização, semantização, morfologização e sintatização. No sentido estreito, a gramaticalização¨, propriamente dita, é um processo
unidirecional de mudança pelo qual itens e construções lexicais são usados em certos contextos lingüísticos para servir pragmaticamente a funções gramaticais morfossintáticas, ou itens gramaticais desenvolvem novas funções. Mutatis mutandis, essa concepção baseia-se na definição de Traugott (2001). A novidade seria admitir que só há gramaticalização propriamente dita, quando o processo seguir a tendência que lhe é peculiar, desde os estudos de Meillet (1912), ou seja, conforme o princípio da unidirecionalidade. Esse princípio é comprovado por um enorme número de casos (cf. HASPELMATH, 1992; 2000, P.249; HEINE & KUTEVA, 2002), se comparado aos pouquíssimos casos contraditórios (cf. JOSEPH & JANDA, 1988; CAMPBEL, 1991; RAMAT, 1992, e especialmente, NEYMEYER, 1998). Sobre isso, discorro mais adiante no capítulo V.
Além disso, muitas questões polêmicas deixariam de existir como, por exemplo, a confusão entre “discurso” e “texto”, em que esse último seria a concretização, a materialização, a realização do discurso; ou o caso das unidades lingüísticas que se desenvolvem e, na migração de um nível a outro, ficam no continuum, podendo formar novas “classes” gramaticais, como, por exemplo, os “marcadores”.
Na literatura brasileira, já se encontra os “marcadores conversacionais”, em Marcuschi (1989, p.62), considerados como “classe de palavras ou expressões altamente estereotipadas”. Com essa concepção, não haveria mais dois processos de mudança em dois níveis – gramaticalização (gramática) e discursivização (discurso), como defendem Martelelotta et al. (1996), mas sim a inclusão do componente discursivo no gramatical, e haveria, portanto, somente a gramaticalização. Sobre esse processo de mudança, discuto no capítulo seguinte.