Nos caminhos da coleção, os negativos nunca foram encontrados. O que se tem como materialidade sobrevivente são as cópias feitas em papel. A ausência dos negativos, a matriz de todas as reproduções, impossibilita precisar qual o equipamento usado. Carlos Lemos (1997) sugeriu um possível uso de câmera caixão com negativo de vidro. As fotos da coleção foram feitas em emulsão de gelatina-prata, reproduzidas em papel, com dimensão de 9 cm x 13 cm, na maioria. Para o IMS trata-se de possíveis provas. As cenas sobrevivem como “cópias” únicas, sendo poucas as repetições realizadas.
Figura 136:
“Homem costurando seu próprio sapato”. Sem indicação de logradouro.
1910 © Vincenzo Pastore/Instituto Moreira Salles.
Equilibrou-se na série a preferência entre o formato horizontal (trinta e quatro imagens) e o vertical (trinta e nove), equilíbrio conferido também pela unicidade temática: o valor as cenas cotidianas e ao trabalho feito nas ruas dá coerência ao conjunto visual criado. O
193
tipo de câmera adotada proporcionava, como apontamos, maior aproximação do fotógrafo com os sujeitos sociais retratados. Aproximação feita de modo sutil, aparentemente respeitosa. Pastore se colocava no mesmo plano do retratado insinuando certas sutilezas, como a do homem que costurava o seu próprio sapato (fig.136).
Essa fotografia inscreve um importante aspecto da coleção. Retoma cenas antes conhecidas por poucos relatos documentados, como o de dona Inez, em seu ato de relembrar as primeiras décadas do século XX, em São Paulo, momento em que o homem retratado por Pastore vivia. Nas lembranças dessa senhora negra, já idosa, vê-se como estar calçado devia lhes dar mais confiança frente a um comportamento social tão arraigado de valorização das aparências.
Dona Inez mostra as estratégias que usava para escapar dos preconceitos enraizados pela mentalidade escravista na paulicéia de início de novo século. Em sua tentativa de se integrar socialmente não enfrentou a hierarquia social existente sem medo ou expectativas. Dona Inez contou que, às vezes, os sapatos “eram nossos, às vezes eram emprestados, às vezes, quando dava também o sapato, eu tirava do guarda-roupa da patroa. Mas como doía os pés! Roupa apertada vá lá, mas sapato é a perdição!” (Bernardo, 1998, p. 47). Ambos os vestígios históricos, orais e visuais, expressam a força desses códigos sociais de distinção, ainda presentes no imaginário nacional.
Esse retrato revela-se como uma afirmação. Era preciso improviso para se integrar ao mundo dos livres. O gesto colocado em cena inscreve um importante elemento no reconhecimento da cidadania. O fotógrafo rastreou subjetividades historicamente construídas, mas num conteúdo imagético criado sob a condição de uma vida livre. O fotógrafo vai se revelando, interessado em sondar aquilo que Wissenbach (1998, p.53) nomeou como a própria “realização de desejos” e ambições de “posse de objetos que lhes haviam sido proibidos quando eram escravos”. Costurar o próprio sapato, importante símbolo de distinção, foi um gesto relevante de afirmação e recusa em andar descalço. Talvez dali, ao rés do chão, o retratado tenha espiado a curiosidade do fotógrafo, dando-lhe pouca confiança. Era preciso ser escorregadio na tessitura social urbana; ser hábil em aprender rapidamente a lidar com poucas posses e paradeiro incerto.
Essas primeiras imagens apresentadas já delineiam o quanto Pastore se aproximou de certas minúcias vistas em relatos históricos voltados para sociabilidades difíceis de alcançar. O registro do breve instante de convívio no comércio e venda de quitutes, doces, frutas e
194
prendas domésticas (fig. 133), evoca os segredos de um aprendizado herdado pelas diferentes gerações, quer saídas da experiência da escravidão, quer da imigração. Da venda ambulante muitas mulheres passariam a tirar o seu sustento. Um trabalho que tinha início na esfera doméstica, depois concluído nas ruas. As possíveis vendeiras foram quase emolduradas pelas folhas e pela guia do calçamento, revelando uma sutil composição, numa imagem que retoma tempos mais antigos, com notável profundidade de campo.
Pastore mais uma vez nos lembra de dona Inez, entrevistada pela pesquisadora Terezinha Bernardo. D. Inez desde os oito anos de idade foi empregada doméstica em uma casa de família. Arrumava, lavava, limpava e cozinhava. Foi depois levada para a casa da avó, seguindo responsável pelas mesmas atividades. Desde menina os mais velhos a colocavam para trabalhar no tanque, na cozinha, por toda a casa. Na vida contínua de trabalho exaustivo, dona Inez passou a trabalhar como marmiteira, saindo também às ruas para vender doces.
Os passos que levaram dona Inez para a venda de doces na rua, depois das jornadas de trabalho em casa, remetem à mesma contingência que envolvia a vivencia de Dona Risoleta, nascida no dia 20 de março de 1900. O pai veio vendido no tempo do cativeiro. Sua mãe nasceu livre. Além de lavar roupa para fora, a mãe fazia farinha de mandioca e de milho para vender, e assim criar os filhos, seguindo uma longa tradição da mulher como arrimo da família.204
Pastore nos faz lembrar Sérgio Buarque de Holanda ao representar visualmente tais experiências, descortinando as camadas de historicidade intrínsecas ao fotográfico. Na descrição de Holanda sobre os hábitos oitocentistas da gente de São Paulo, lá estavam elas, as “pretas de quitanda” no centro da cidade, vendendo comidas tradicionais: “biscoitos de polvilho, pés-de-moleque, furundum de cidra, cuscuz de bagre ou camarão, pinhão quente, batata assada ao forno, cará cozido...”205 O doce de laranja, as tachadas de goiabada que
cozinhava muito bem eram todos vendidos em caixinhas pelas ruas da cidade (Bosi, 1994). Mulheres que já nas décadas finais do século XIX, solicitavam à Câmara Municipal o direito de deixar o Largo do Carmo para o Pátio do Colégio, para venderem mais facilmente suas
204 Encontramos vestígios da trajetória de vida de dona Risoleta no estudo de Ecléa Bosi (1994), que promove a
chance de uma maior inferência sobre as subjetividades de pessoas que cresceram na São Paulo de início de século XX, tratando-se de um estudo voltado para relatos, testemunhos e rememoração de experiências vividas na capital paulista. Sobre a tradição da mulher como arrimo da família ver Dias (1995).
205 Sérgio Buarque de Holanda descreveu hábitos urbanizados oriundos de heranças mais antigas, como o gosto
por formigas aladas, conhecidas como iças, assadas e vendidas ao lado dos doces oferecidos pelas negras quitandeiras que muito surpreendia aos forasteiros. Cf. HOLANDA. Caminhos e Fronteiras. 1994, p. 55-59.
195
mercadorias. A recusa dada em resposta vinha acompanhada de uma justificativa: a presença das vendeiras atrapalharia o trânsito (Bruno, 1954).
Começamos a descortinar um fotógrafo que rastreou ações e incursões de muitas mulheres frente às contingências de sobrevivência, nuançando um contexto antigo de incerteza e preconceitos pontuados no estudo de Lorena F. S.Telles:
No contexto de industrialização incipiente que auferia poucas oportunidades econômicas às mulheres, escravas, libertas, livres pobres e imigrantes disputaram a sobrevivência do trabalho desqualificado e mal pago, que compreendia as atividades de subsistência desvalorizadas na economia de exportação que produzia para o lucro. (Telles. 2013, p. 47).
Apesar das quitandas terem sido afastadas do centro nos anos finais dos oitocentos, Pastore registrou a presença de vendeiras em cenas que apenas lentamente iriam se diluir no novo século. Se nos arredores do Teatro São José, a fileira de tabuleiros, repleta de frigideiras, panelas e caldeirões, foi-se apagando do cenário citadino, como documentou Bruno (1954). Pastore se deparou com as práticas das caminhantes, resistentes em manterem seu antigo modo de sobrevivência.
O fotógrafo retratava aquilo que a Belle Époque recusava porque era avessa às cenas típicas. Era de seu feitio incorrer no erro das generalizações. Mas Pastore insistiu em mostrar como nos primeiros anos do século XX, muitos homens e mulheres venciam, dia após dia, as limitações de uma economia baseada na mobilidade e na informalidade, se recusando em ver tais experiências citadinas de modo generalizante. Documentou uma economia de abastecimento interpelada como expressão máxima da cidade, como expressão de uma modernização peculiar de São Paulo, destacada em primeiro plano.
3.4 Entre panos, quinquilharias e muitas vassouras: Brechas de resistências na São