Os dados referentes à produção científica no campo do Ensino de Química no Brasil, apresentados a seguir, compõem o mapeamento da produção científica relacionada as teses e dissertações sobre os Estágios Supervisionados desenvolvidos a partir dos cursos de licenciatura em Química. Estes foram sistematizados a partir da Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD) e do Banco de Teses e Dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (CAPES).
O recorte temporal tomou como base os critérios de classificação do qualis ensino estabelecidos pela CAPES, que define ser oportuno considerar a produção dos últimos cinco anos. Em razão deste recorte temporal selecionaram-se as teses e dissertações produzidas entre os anos de 2012 e 2017. Em seguida, utilizou-se os descritores: Licenciatura em Química, Prática de Ensino e Estágio Supervisionado em Química, Estágio Supervisionado nos cursos de licenciatura em Química, Estágio Supervisionado licenciatura em Química, no intuito de encontrar teses e dissertações relacionadas ao objeto de investigação.
Apresenta-se no quadro 1, o quantitativo de tese e dissertações localizadas nas bases BDTD e Banco de Teses e Dissertações da CAPES, identificadas a partir dos descritores estabelecidos para a busca.
Quadro 1 – Quantitativo de Teses e Dissertações identificadas no BDTD
Descritor Quantidade de trabalhos localizados
Licenciatura em Química 222
Prática de Ensino e Estágio Supervisionados em Química 15
Estágio supervisionado licenciatura em Química 18
Estágio Supervisionado nos cursos de Licenciatura em Química 13
Fonte: Elaborada por Sousa (2017)
Quando se buscoulocalizar as teses e dissertações percebeu-se nos bancos de dados BDTD e CAPES um número considerável de pesquisas sobre os Estágios Supervisionados em Química entre os anos de 2003 e 2008. Entende-se a dimensão quantitativa destes trabalhos na medida em que se pode correlacionar a sua expressividade como sendo o reflexo das reformulações curriculares desenvolvidas pelos Cursos de Licenciatura em Química, quanto ao atendimento às Diretrizes Curriculares Nacionais instituídas nos anos 2001 e 2002. O mesmo ocorre quando se analisa as produções do ano 2014 seguindo até a atualidade.
Devido a riqueza dos trabalhos localizados, relativos ao objeto de investigação, no que diz respeito a teses e dissertações, optou-se por agrupar no quadro abaixo, uma síntese dos trabalhos encontrados considerando as proximidades dos objetivos de cada um ao trabalho desta tese. Essa escolha justifica-se em função de existirem outros trabalhos que discutem o assunto, porém, um pouco mais distantes dos objetivos, questões desencadeadoras e problemática da pesquisa.
Para uma melhor visualização dos objetivos destes trabalhos e posterior análise, apresenta-se no Quadro 2, os autores, títulos, ano, modalidade objetivo e questão de cada um.
Quadro 2 - Teses e Dissertações selecionados com seus respectivos autores, títulos, anos, modalidades
Autor Título Ano Modalidade
Fabiula Torres da Costa
Politicas curriculares para formação de professores de Química: a prática como componente curricular
em questão 2012 Dissertação
Camila Greff Passos
O Curso de Licenciatura em Química da UFRGS: conquistas e desafios frente a reformulação
curricular de 2005 2012 Tese
Maria Leda Costa
Silveira Perspectivas de formação no curso de licenciatura em química do IFSC: da tradição técnica ao discurso
emancipatório 2013 Dissertação
Verônica Caldeira Leite Christiano
A formação inicial de professores de química e o exercício da docência na escola: que discursos estão em
jogo? 2013 Dissertação
Assiscleide da Silva Brito
Identidade e formação docente: memórias e narrativas de egressos/as da 1º turma de licenciatura em química
de uma universidade pública do agreste sergipano 2013 Dissertação Luciana Massi Relação aluno-instituição: o caso da licenciatura do instituto de química da UNESP/Araraquara 2013 Tese Sílvio Ivanir de
Castro
Concepções de licenciados do curso de Química da Universidade Federal de Juiz de Fora e professores de
Química da Educação sobre o Estágio Supervisionado 2014 Dissertação Barbara Carine
Pinheiro da Anunciação
A Pedagogia Histórico-Crítica na formação inicial de professores de Química na UFBA: limites e possibilidades no estágio curricular
2014 Tese Camila Lima
Miranda As representações sociais de licenciados em Química sobre ser “professor” 2014 Dissertação Roberta Guimaraes
Correa Formação inicial de professores de química: discursos, saberes e práticas 2015 Tese
Elízio Mário
Ferreira Um olhar sobre as atividades de formação em um curso de licenciatura em Química 2015 Dissertação Francisco Souto de
Sousa Júnior
Química em cena: uma proposta para formação inicial
de professores de Química 2015 Dissertação Valéria Campos dos
Santos
A formação de professores em comunidades de prática: o caso de um grupo de professores de Química em
formação inicial 2015 Dissertação
Leila Inês Follmann freire
Indícios da ação formativa dos formadores de professores de química na prática de ensino de seus
Denise da Silva Análise da prática docente na formação de professores de química 2016 Tese Sara de Almeida A prática como componente curricular nos cursos de formação de professores de química no estado de Goiás 2016 Dissertação
Kenia Cristina Moura de Oliveira
Silva
Estágio supervisionado na formação inicial de professores: o dito e não dito nos PPC de licenciatura em química
2016 Dissertação
Dylan Avila Alves Licenciaturas em Química do IF Goiano: concepções e influências no contexto formativo 2016 Dissertação
Rogerio Daniel Pereira Ramos
A formação de professores no curso de licenciatura em Química da Universidade Estadual de Goiás: a pesquisa-ação colaborativa como eixo orientador das práticas formativas
2016 Tese
Alan Jhones da Silva Santos
A prática como componente curricular e o estágio supervisionado na concepção dos licenciandos: entre o
texto e o contexto 2017 Dissertação
Fonte: Elaborado por Sousa (2017)
Considerando os estudos apresentados no quadro 2, destaca-se o trabalho de Passos realizado em 2012, na UFRGS. A pesquisadora se propõe a realizar um diagnóstico sobre a adequação do curso de licenciatura em Química da UFRGS às Diretrizes Curriculares Nacionais frente à reformulação curricular ocorrida em 2005. A pesquisadora apresenta como questão:
quais as formas de contribuição da atual organização institucional, curricular e metodológica para o desenvolvimento profissional dos futuros professores de Química?
Como resultado da investigação, Passos (2012) encontra que os princípios da reforma curricular orientada pelas DCN foram atendidos em parte. Dentre os pontos atingidos aponta a considerável carga horária direcionada aos distintos componentes curriculares, a inclusão do Trabalho de Conclusão de Curso e a presença das disciplinas articuladoras que relacionam os conhecimentos pedagógicos e os específicos da Química. Entretanto, a pesquisadora observa que na organização curricular analisada, as disciplinas de conhecimento específicos da Química não contemplaram os princípios do desenvolvimento de competências, da simetria invertida e da pesquisa sobre as rotinas docentes em ambiente escolar, como elementos essências na formação dos licenciados (PASSOS, 2012).
Em reação aos trabalhos desenvolvidos em 2013, chama a atenção o trabalho de Christino, realizado em 2013, na Universidade Federal de Pelotas. O estudo analisa alguns discursos sobre o ser professor que circulam em cursos de formação de professores de Química
e no ambiente escolar, buscando identificar qual ou quais enunciados perpassam ambos os discursos, bem como pensar em práticas de acompanhamento aos iniciantes na docência em Química, na escola onde a pesquisadora atua.
Dessa forma, a pesquisadora apresenta como questão, compreender: Como os
estagiários e os professores iniciantes de Química, atravessados pelo discurso da universidade e pelo discurso da escola, lidam com as diferentes inquietações provocadas por ambos os discursos a respeito do ser professor? Que efeitos esses diferentes discursos têm sobre o exercício da docência?
A análise dos dados mostra a recorrência de um enunciado que constou de diferentes discursos, na universidade e na escola, de que ser professor da Educação Básica é algo menor, sendo possível ver, ao longo do estudo, seus efeitos para a constituição da identidade profissional docente. Os resultados apontam,que há um estranhamento da escola pelos sujeitos que iniciam a docência, seja como estagiário, seja como professor ingressante.
Dentre os trabalhos desenvolvidos em 2014, evidencia-se o trabalho de Castro realizado em 2014, na Universidade Federal de Juiz de Fora. Considerando os avanços e exigências da legislação e a consequente adequação dos cursos de formação inicial de professores para educação básica, Castro (2014) teve como objetivo conhecer as concepções de professores de Química da Educação Básica e licenciados do curso de química da UFJF a respeito da estrutura e desenvolvimento do estágio, visado compreender como o envolvimento de professores formados e em formação oriundos dos cursos de licenciatura de diferentes modelos impacta na sua formação.
O pesquisador questionou: qual a importância do estágio na formação inicial
dos licenciados e na formação continuada dos professores da educação básica? Como o estágio pode ser estruturado de forma a aprimorar a formação inicial e continuada dos professores da educação básica?
Frente às questões levantadas, concluiu-se que os licenciados consideram o estágio um importante componente curricular e reconhecem a importância da experiência dos professores, independentemente do tipo de instituição em que realizam o Estágio. Porém, afirmam dificuldades relacionadas com a estrutura das instituições (como a conciliação entre o horário de aula das escolas e da universidade e a falta de laboratórios). Os professores da educação básica reconhecem a contribuição, como o compartilhamento de informações com os licenciados, embora não participem do planejamento escolar. A falta de um planejamento
conjunto, ocasionada pela inexistência de parceria colaborativa limita a atuação dos professores e as possibilidades formativas dos licenciados.
Em relação aos trabalhos desenvolvidos em 2015, está o de Freire realizado em 2015, na Universidade de São Paulo. Ao delinear sua pesquisa, Freire (2015) define como objetivo apontar as relações entre a ação formativa dos formadores de professores e os conhecimentos mobilizados na prática de ensino por licenciandos em Química. Diante deste desafio, questionou: qual a formação dos docentes do ensino superior? Todo profissional,
para desenvolver o seu trabalho, passa por um processo de formação, seja ele empírico ou acadêmico, como é esse processo para os formadores de professores? Que orientações conceituais embasam suas práticas de formação? Quem é responsável pela formação dos formadores? Como a ação formativa dos formadores de professores num curso de Licenciatura em Química influencia a prática de ensino dos licenciandos?
A partir dos achados da pesquisa, Freire (2015) concluiu que a maioria dos formadores tem consciência do impacto do seu trabalho, dizem assumir essa responsabilidade, mas entendem de maneiras diferentes o seu fazer pedagógico, a relação com os conteúdos e com os licenciandos. Isso aponta a necessidade de mais discussões coletivas no grupo de formadores desse curso de Licenciatura em Química, como modo de concentrar seus esforços para a boa formação dos futuros professores. A respeito da sua própria formação os formadores admitem ser importante haver uma formação especifica para a docência universitária, mas dividem opiniões quanto ao melhor momento para que aconteça (FREIRE, 2015).
Em relação aos trabalhos desenvolvidos em 2016, destaca-se o trabalho de Almeida realizado em 2016, na Universidade Federal de Goiás. Ao considerar o cenário nacional das Políticas educacionais e, especificamente, a determinação legal da inserção da Prática como Componente Curricular, Almeida (2016), delineia como objetivo de sua pesquisa buscar compreender de que maneira as Instituições de Ensino Superior (IES) inserem as 400 horas que devem ser destinadas a esse componente curricular nos cursos de formação de professores de Química do estado de Goiás, tendo como foco principal os Projetos Pedagógicos de Curso (PPC).
A partir deste desafio, a pesquisadora buscou responder à questão: qual é o modo
de inserção e a compreensão de Prática como Componente Curricular das IES do estado de Goiás que ofertam cursos de formação de professores de Química?
Diante desta problemática, Almeida (2016) conclui que o movimento de análise dos PPC permitiu inferir que as 400 horas de PCC não são organizadas da mesma maneira pelos diferentes cursos. Tal aspecto pode estar relacionado à própria legislação, que não estabelece os caminhos de inserção das práticas na estruturação dos cursos. Argumenta que não deve haver uniformização, mas que é necessário definir, em cada projeto pedagógico, de forma explícita, como deve ocorrer a integralização da PCC (ALMEIDA, 2016).
A inserção das Práticas como Componentes Curriculares na formação de professores mostra-se como um ganho para as licenciaturas, pois amplia as possibilidades formativas relacionadas ao desenvolvimento de atividades pedagógicas. No entanto, é preciso refletir sobre as reais efetivações dessas cargas horárias nos currículos para que esse ganho não seja perdido em termos de aproveitamento, tendo em vista que a PCC, compõe, em horas, uma parte importante da carga horária total dos cursos de formação de professores, não sendo possível admitir que não sejam aproveitadas de forma significativa, a fim de propiciar uma formação docente efetiva e consistente.
Ainda em relação ao ano de 2016, apresenta-se como referência a pesquisa desenvolvida por Silva (2016), na Universidade Federal de Goiás. Silva (2016) investiga nos PPC de licenciaturas em Química do estado de Goiás as concepções e a estruturação do Estágio Supervisionado, considerando três aspectos, a concepção de estágio, a teoria e prática e a formação da identidade docente. A pesquisadora lança o desafio ao buscar compreender a seguinte questão: qual a concepção de estágio supervisionado encontrada nos PPC? Qual a relação estabelecida entre teoria e prática pelos PPC? e Como a formação da identidade docente pode ser desenvolvida a partir desses projetos pedagógicos?
A partir dos dados analisados, Silva (2016) aponta que, nos PPC em geral, o estágio é concebido como o espaço propício para a união entre a teoria e a prática, entretanto, o simples fato de se trabalhar teoria e prática em uma mesma disciplina não significa a união das duas, muito menos a superação dicotômica existente entre elas. Referente à identidade docente, verificou que os PPC se dividiam em três grupos, a saber: os bacharelescos, os mistos e os específicos para a docência, entendendo que os primeiros não apresentam em seus textos características relacionadas à estruturação de uma identidade docente, os mistos mesclam algumas dessas características enquanto os específicos evidenciaram características concernentes à estruturação de uma identidade docente e à preparação para a práxis. Notou, também, poucas propostas que podem levar, de fato, o estagiário à práxis, que pode ser realizada a partir da educação pela pesquisa.
Recentemente, Santos (2017), na Universidade Federal de Goiás, considerando que a prática no processo de formação de professores tem sofrido a influência de diversos contextos, moldados historicamente, sistematiza sua pesquisa, definindo como objetivo, investigar como estão sistematizadas a PCC e o ES, tendo como pano de fundo a concepção dos licenciandos dos cursos de Química de algumas instituições de ensino superior (IES) do estado de Goiás.
Em seus achados, Santos (2017) conclui que, em virtude dos aspectos analisados, há falta de compreensão e, até certo ponto, de distinção da prática atribuída à PCC e da prática desenvolvida no ES. Não que sejam práticas distintas, mas que diferem em seus modos de sistematização, que são especificados, inclusive, pelos pareceres, resoluções e diretrizes. Essa falta de entendimento tem levado os licenciandos a uma concepção superficial e, em alguns casos, equivocada de que a PCC e o ES são elementos formativos similares e/ou simultâneos. Sendo assim, a investigação pretendeu, juntamente, com outras pesquisas, balizar as atividades destinadas a PCC, diferindo-as do ES e, dessa forma, contribuir para uma melhor sistematização dentro dos cursos de formação de professores de química do estado de Goiás.
Os trabalhos analisados apresentam elementos significativos para a discussão do objeto de pesquisa desta tese, na medida em que problematizam os Estágios Supervisionados, sua relação com a Prática e Ensino, o lugar da escola e da universidade no âmbito da formação docente. Neste sentido, encontra-se um aporte teórico significativo, desde que se busca compreender como o Estágio Supervisionado do curso de licenciatura em Química da FECLESC/UECE se efetiva na prática e como este contribui para a formação de professores.
2.1.2 Anais de Eventos Nacionais sobre o Estágio Curricular Supervisionado no curso de