«O homem, disse-se, é um animal simbólico, e neste sentido não só a linguagem verbal mas toda a cultura, os ritos, as instituições, as relações sociais, o costume, etc., mais não são do que formas simbólicas (Cassirer, 1923; Langer, 1953) nas quais ele encerra a sua experiência para a tornar intermutável: instaura-se a humanidade quando se instaura a sociedade, mas instaura-se a sociedade quando há comércio de signos.»177
Francisca Hernández Hernández concluiu, no final da década de 1990, que o museu é um congregador de meios de comunicação. A instituição museológica é mais uma das consequências de comunicar, dessa importante, porque inata e necessária, faculdade – tão primitiva quanto complexa – do Homem social. El museo como espacio
de comunicación, obra da autoria de Hernández, pretende provar isso mesmo. O museu
é, hoje, aliciado por uma babel de linguagens, que importa não recear, mas antes compreender, interpretar e conjugar de forma intelegível e eficaz.
Hernández começou por retroceder à origem, recuperando e explicando conceitos da teoria da comunicação. Um caminho que se inicia na Teoria Geral da Comunicação, para a qual contribuíram Claude E. Shannon e Warren Weaver, com The
Mathematical Theory of Communication (1949), consagrada ao estudo da comunicação
eléctrica. Resumindo, o bit (número binário) é a unidade de informação que permite a medição da quantidade de informação recebida. A quantidade de bits de informação enviada por segundo (processo que exige canais de comunicação), a medição da capacidade de gerar informação e a codificação de mensagens originárias de fontes são aspectos que John Robinson Pierce, outro dos teóricos fundamentais, não dispensa da
176 Luis Alonso Fernández, Introducción a la nueva museología, «Arte y Música», Madrid, Alianza
Editorial, 2002, p. 32.
92 formulação da teoria da comunicação.178
Outros três conceitos se avizinham: entropia, ruído e redundância. A entropia, «ou consumo da energia de um “gerador de sinais em bits por símbolo ou por segundo”», fornece «o número médio de dígitos binários por símbolo ou por segundo, necessários para codificar as mensagens produzidas por um gerador”».179 Em causa está a escolha de uma determinada quantidade de informação da mensagem, seleccionada por aquele que a emite e que será transmitida ao receptor. No entanto, é necessário ter presente que no processo de comunicação podem ocorrer interferências causadas pelo
ruído ou canal ruidoso. Neste caso, o receptor recebe uma mensagem que pode ter sido
danificada, propiciando uma situação de incerteza. Eliminar o ruído está a cargo da
redundância, «a fim de proporcionar uma transmissão eficiente e livre de erros»180. O trajecto da informação tem como ponto de partida uma fonte que gera informação (mensagem). Depois, o emissor envia-la-á por intermédio de um canal a um receptor que, por sua vez, a entrega a um destinatário. Um mecanismo de transmissão de informação simples, mas conveniente e «eficiente na detecção e resolução dos problemas técnicos da comunicação».181 Para esta corrente de investigação – que
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Francisca Hernández Hernández, El museo como espacio de comunicación, Colecção Biblioteconomía y Administración Cultural, 1.ª ed., Gijón, Ediciones Trea, 1998, p. 15. Um ano antes (1948), Norbert Wiener publicara Cybernetics, que vai além da teoria da comunicação. Àquela acrescenta as seguintes técnicas de informação e de comunicação: «Teoria da rectificação, filtragem, detecção e previsão de sinais na presença de ruídos, a teoria da realimentação negativa e dos servomecanismos, as máquinas automáticas complexas e o projecto e programação de calculadoras». De acordo com a análise de J. R. Pierce é esta a abrangência que Wiener incute ao trabalhar a cibernética. Como resultado, influíram na «criação de novos conteúdos simbólicos» e na «mudança da dinâmica sociocultural que oferece um amplo campo semântico à antropologia e à psicologia». Idem, p. 16.
179 Idem, pp.15-16. 180 Idem, p.16.
181 António Fidalgo e Anabela Gradim, Manual de Semiótica, Covilhã, Universidade da Beira Interior,
2004/2005, p. 17. (BOCC – Biblioteca On-line de Ciências da Comunicação, http://www.bocc.ubi.pt/pag/fidalgo-antonio-manual-semiotica-2005.pdf) António Fidalgo, professor catedrático de Ciências da Comunicação, é doutorado em Filosofia pela Universidade de Wuerzburg e pela Universidade Católica Portuguesa. Anabela Gradim é, actualmente, professora auxiliar de Ciências da Comunicação. É na Universidade da Beira Interior que ambos desempenham cargos de docência e de investigação nas áreas da Semiótica e da Comunicação. Umberto Eco contextualiza o surgimento deste modelo de criação e de transmissão de informação dizendo que «este esquema reproduz de um modo simplificado o que os engenheiros dos telefones elaboraram quando tiveram de estabelecer as condições
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identifica a escola processual da comunicação –, «a comunicação é uma transmissão de mensagens», é um «fluxo de informação» que não actua no plano da criação de significados e da formação das mensagens (que posteriormente serão transmitidas), mas sim no plano da mecânica (ou instrumental) da comunicação, sem preocupações relativamente a variações interpretativas da informação.182 A conotação, neste caso, será ruído. Já a intencionalidade da escola semiótica (a segunda corrente de investigação) recai sobre a «“produção e troca de sentido”».183
Charles Sanders Peirce e Charles Morris184 contribuíram para a definição científica de Semiótica, mas já a Antiga Grécia (Aristóteles, por exemplo), bem como os medievalistas Santo Agostinho (em De Magistro e De Doctrina Christiana), Roger Bacon, Pedro Hispano, Pedro da Fonseca e João de S. Tomás se tinham aventurado no debate de alguns conceitos. John Locke (Ensaio acerca do Entendimento Humano, de 1690), Étienne de Condillac, Johann Heinrich Lambert, Immanuel Kant e Wilhelm von Humboldt foram os modernos que se acercaram do tema. Já os mais recentes estudos de Roland Barthes e Ferdinand de Saussure vêm confrontá-la com a Semiologia. E outros contributos se registaram com Charles Sanders Peirce, Louis Hjelmslev e Noam Chomsky, entre outros. A jovialidade da Semiótica, enquanto ciência, é fruto de uma longa História empenhada em meditar sobre o signo e a significação, tal como aconteceu com o pensamento filosófico.185 Comunicar é possível porque existe a capacidade de produzir mensagens sustentadas em signos que produzem reacções nos seus receptores «temporários». António Fidalgo e Anabela Gradim concluem que «o modelo semiótico de comunicação é aquele em que a ênfase é colocada na criação dos significados e na formação das mensagens a transmitir»186.
A intimidade entre mensagem/informação e significado, neste modelo, extrapola a organização correcta dos elementos da mensagem. A atenção recai, também, sobre o óptimas de transmissão de informações. De qualquer modo aplica-se a todos os processos comunicativos». Umberto Eco, op. Cit., p. 21.
182 António Fidalgo e Anabela Gradim, op. Cit., pp. 16-19.
183 Esta distinção tem por base o pensamento de John Fiske, plasmado em Introdução ao Estudo da
Comunicação. António Fidalgo e Anabela Gradim, Manual de Semiótica, p. 16.
184 O semiótico estado-unidense foi o obreiro da divisão da ciência dos signos (Semiótica) nas sub-
disciplinas da Sintaxe, Semântica e Pragmática. Cf. Idem, p. 61 e p. 175.
185 Idem, p. 25. 186 Idem, p. 19.
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plano de conciliação com o seu significado e sobre o seu prestimoso valor. O cerne da comunicação deixou de ser o «fluxo», para dar lugar ao «sistema estruturado de signos e códigos».187 O mecanismo de comunicação tem como seu par o conteúdo e influenciam- se mutuamente. Este é o modelo semiótico. Fidalgo e Gradim asseveram que o «estudo da comunicação passa pelo estudo das relações sígnicas, dos signos utilizados, dos códigos em vigor, das culturas em que os signos se criam, vivem e actuam». O significado da mensagem não está embutido nela à margem de qualquer condicionante. Esta parceria implica inteiramente uma «relação estrutural entre o produtor, a mensagem, o referente, o interlocutor e o contexto». Como bem lembra Hernández, a Semiótica não é estranha a campos científicos como a Sociologia, a Linguagem, a Cultura, a Estética e a Comunicação, quando os vectores são precisamente a comunicação e a significação.188
A correcta compreensão e utilização da linguagem e, consequentemente, a comunicação eficaz em qualquer comunidade, acerca de qualquer temática (da literatura à arte, da religião à moral, da história à arqueologia, da ciência à técnica, etc.), dependem de três conjuntos de regras que devem ser respeitados: as sintácticas, as semânticas e as pragmáticas. Têm diferentes coordenadas, mas são complementares. A cada uma destas dimensões estão associadas determinadas acções e relações. Quer isto dizer que a Sintaxe «“implica”», e compreende o relacionamento de signos entre si, detém-se no encadeamento lógico entre os vários elementos da linguagem e diz respeito às regras gramaticais. A Semântica «“designa” e “denota”», e é concretizada nas relações dos signos com os objectos a que se referem, isto é, debruça-se sobre o
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John Fiske explica aquela permissa em Introdução ao Estudo da Comunicação. Ver António Fidalgo e Anabela Gradim, Manual de Semiótica, p. 19.
188 Francisca Hernández Hernández, op. Cit., p. 19. O processo semiótico, sob o ponto de vista de Charles
Morris, prevê três elementos essenciais: o veículo sígnico, o designatum e o interpretante. A estes junta- se, mais tarde, um quarto: o intérprete. Dada a cientificidade desta matéria, Francisca Hernández Hernández e a dupla António Fidalgo e Anabela Gradim recorrem à mesma fonte (Charles Morris), daí a terminologia coincidente. E para mais bem se compreender estes conceitos, são as palavras de Morris aquelas que definem os elementos enumerados seguidamente. Veículo sígnico explica-se por «aquilo que actua como um signo», designatum é «aquilo a que o signo se refere»; e interpretante é «o efeito sobre alguém em virtude do qual a coisa em questão é um signo para esse alguém». Quando alguém toma consciência («dar-se-conta-de», utilizando a expressão de Fidalgo e Gradim para descrever o acto de clarividência) de uma coisa por intermédio de uma terceira acontece a semiose e há algo que «funciona como um signo». Idem, p. 19; e António Fidalgo e Anabela Gradim, op. Cit, p. 61.
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conteúdo, a relação entre os signos e o significado que assumem. Por fim, a Pragmática «“expressa”», sendo que, neste plano, os signos interagem com os seus intérpretes, preocupando-se com o efeito dos signos neles.189
Em De Doctrina Christiana, Santo Agostinho elaborou uma das definições de
signo mais antigas, e ao mesmo tempo mais actual: «“id quod (...) aliquid aliud ex se jacit in cogitationem venire”», isto é, «aquilo que a partir de si faz vir uma outra coisa
diferente de si ao pensamento». Para sinal, a sobejamente conhecida expressão «aliquid
stat pro aliquo», traduzindo, «algo está por algo». Sinal é uma marca que se destaca e
identifica algo. É algo que está em vez de outra coisa, representando-a. A sua natureza é «ser sempre sinal de alguma coisa»190. Existem várias definições de signo da mesma forma que tudo pode ser signo (sinais, sintomas, ícones, índices, símbolos, nomes), embora a mais recorrente, mas também a mais geral, seja a de «algo que está por algo para alguém».191 Por essa razão, e como se pôde verificar pela tipologia variada, Fidalgo e Gradim adiantam que essa definição exige o especificar dessa «relação de “estar por para”».192
2.1.2. Comunicar além do verbo: as novas interpretações das relações