O recreio é o ambiente que oferece mais oportunidades para as crianças se expressarem de forma autêntica. Brincam sozinhos e com os colegas, criando inúmeras formas de movimento. Nesse ambiente, organizam-se de tal maneira que estão sempre felizes e rindo. Percebeu-se que, quando estão livres para brincar, querem se movimentar e, com isso, entregam-se a tudo o que fazem, ou seja, sentem e percebem o mundo à sua maneira, conforme imagens abaixo (figuras 8 e 9). Desta forma, começam a construir uma possibilidade de autonomia na relação de reciprocidade com mundo. No dizer de Kunz (2004), o movimento humano constitui-se como um diálogo entre homem e mundo, expresso na intencionalidade.
Figura 8 – fotos com imagens do recreio na turma da escola do interior
Figura 9 – fotos com imagnes do recreio na turma da escola da cidade
Fonte: foto do pesquisador
O movimento humano ocorre de maneira intencional e, nesse instante, nosso corpo em movimento assume ativamente o espaço e o tempo, tornando-se condição primeira de toda percepção. No dizer de Pombo (1995, p.43), “fazer a experiência do corpo-próprio é comunicar com o mundo, com o corpo, com os outros [...] O corpo é o sujeito da percepção; é por ele que se enraíza a consciência no mundo”. Todo movimento que se realiza, dialoga com o mundo numa relação de “ser-humano- mundo”. O movimento, neste sentido abre novas possibilidades de criações, que se constroem na relação de intencionalidade entre sujeito-mundo. Nesse diálogo, os sentidos e significados do “se-movimentar” sempre se atualizam de acordo com cada experiência, lembrando que essa experiência está sempre atrelada a uma situação concreta, bem como a um contexto histórico e social (KUNZ, 2000, 2001). Para reforçar esse diálogo significativo e fundamental que o movimento humano possibilita entre o ser humano e o mundo, Trebels (2003, p. 256) comenta que “a capacidade humana de movimentar-se ganha, então, uma dimensão existencial, como forma singular e original de relação com o mundo, que pode ser designada na experiência de cada um”.
Conversando com os alunos na hora do recreio, questionei-os sobre o que eles mais gostam de fazer e eles responderam que gostam de brincar de correr e de lutar. As
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professoras que estavam por perto justificaram a resposta, reforçando que eles ficam muito tempo em sala de aula. Os professores têm o entendimento da importância do movimento para as crianças, mas muitas das decisões do planejamento do ensino e aprendizagem não dependem deles. Nas respostas dos alunos, fica mais evidente ainda a relação entre o brincar e o se-movimentar. Eles estão a todo o momento se movimentando, e este se-movimentar está direcionado ao brincar e, consequentemente, ao mundo.
Os significados deste contato com o mundo não estão no sujeito, nem no mundo, muito menos nas coisas, mas na relação que se dá entre o sujeito e seu meio. Este vínculo inseparável entre homem e mundo supera a dicotomia entre “mundo externo” e “mundo interno”. Conforme Kunz (2001), na compreensão do mundo pela ação e/ou pelo agir dos sujeitos fica a impossibilidade da definição tanto de um quanto do outro, de forma independente. Tamboer apud Kunz (2001) acrescenta que não é possível distinguir uma “atividade corporal” de uma atividade “não corporal” e, portanto, ver não é a mesma coisa que falar, do mesmo modo que pensar não é a mesma coisa que “se- movimentar”, mas, de qualquer forma, o movimentar-se é tão corporal quanto o pensar, como o perceber e o falar, pois todas essas situações se referem a determinadas relações de comunicação do sujeito com o mundo. Sendo assim, não se pode compreender nenhuma dessas ações humanas isoladas do corpo-próprio, todas são corporais e acontecem na experiência da consciência-corpórea. “Dessa maneira, um “se- movimentar” é, junto com o pensar e o falar, entre outras ações, uma das múltiplas formas nas quais a unidade primordial do ser humano com o mundo se manifesta.” (TAMBOER apud TREBELS, 2006, p. 40).
Sobre a motricidade humana, Merleau-Ponty (1999) enfatiza que ela não é serva da consciência, mas se lança para a vivência da expressividade, sensibilidade, percepção e significação. Desta forma, afirma que somos um entrelaçamento de corpo e consciência, ou seja, “corpo-próprio” que está aberto ao mundo para percebê-lo e interpretá-lo infinitamente, realizando-se a cada instante no movimento da existência. Percebeu-se que os alunos desenvolviam infinitas possibilidades de movimento no pequeno espaço de tempo do recreio. Conforme as fotos, pode-se ter uma noção dos movimentos realizados pelos alunos, sejam eles sozinhos e/ou com os outros. Esta riqueza com que as crianças querem vivenciar o mundo mostra a importância do corpo- próprio, que fornece uma abertura ilimitada ao contato sensível com o mundo.
Como os professores ficavam no recreio para cuidar das crianças, os alunos gostavam de mostrar para as professoras suas criações, dizendo: “Professora, olha o que eu sei fazer!”. Dependendo do incentivo da professora, as possibilidades de movimento se multiplicavam. Geralmente, quando o incentivo era em forma de pergunta, como: “O que mais você sabe fazer?”, era melhor ainda. A pergunta favorece a criação e eles gostavam muito. A função principal dos professores no recreio era controlar as crianças para que não se machucassem. O medo dos professores era justificado pela intensidade com que os alunos brincavam e se movimentavam, afinal, a responsabilidade, caso acontecesse algo, era dos professores. Felizmente, prevaleciam as diversas e ricas formas de brincar e de se-movimentar das crianças. Para Merleau-Ponty (1999), o ser se abre com o corpo, o mundo se abre com o espaço e com o tempo, que faz o corpo do mundo. É neste sentido rico que podemos encontrar o conceito de liberdade, que se manifesta através do pôr-se em situação.
Percebeu-se que os pais dos alunos também têm influência sobre o brincar e o se-movimentar na escola. Conforme os professores, para eles o brincar e, consequentemente, o se-movimentar não são importantes para o aprendizado dos seus filhos. Muitos dos pais entendem como aprendizado apenas o aspecto intelectualizado que acontece geralmente na sala de aula, através do ensino da escrita, leitura e da matemática. Desta forma, eles não gostam quando seus filhos chegam à casa sujos, falando que brincaram bastante. Para os pais, o tempo dedicado ao “brincar” poderia ser utilizado naquelas matérias que serão mais úteis para o futuro do seu filho. Conforme já comentamos, a excessiva preocupação com os conhecimentos úteis gera uma cobrança em relação aos resultados de tudo o que fazemos. Neste caso, o ser humano é um meio para se chegar a um fim pré-estabelecido, geralmente ditado pelo professor, sendo esse o método de ensino valorizado pelos pais. Sabemos da importância desse conhecimento, mas existe outro, que entende o sujeito como um fim em si mesmo. Possibilita dar significado ao seu fazer pela forma única com que dialoga com o mundo. Esse dialogar se manifesta na criação, no diferente, e acontece no presente. Desta forma, a dimensão artística se realiza.
No recreio, o brincar e o se-movimentar das crianças eram verdadeiras obras de arte. Conforme Bosi (2009), a arte tem a possibilidade de mostrar o mundo, como
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também a essência da realidade. O mundo se mostra pelo sentimento, emoção, interioridade, imaginação, intuição. A essência da realidade se realiza pela intencionalidade, por meio da experiência, alegoria e do símbolo. Desta forma, surge a capacidade de acontecimento do novo original. As crianças, naquele momento, por meio do brincar e do se-movimentar, possibilitavam que o novo acontecesse. Os corpos se tornaram uma fonte ilimitada de expressão. A fruição dos movimentos provocava um êxtase contagioso, fazendo com que as crianças não conseguissem parar de se- movimentar quando o recreio chegava ao fim. Gomes da Silva (2012, p. 142) comenta que:
O movimento é o acontecimento que possibilita ao homem ser. É o ponto de união entre o ser que se mostra e o homem que, caracterizando-se por seu comportamento de abertura, o capta. Sendo assim, o movimento não é um instrumento à disposição do homem, mas o acontecimento que lhe possibilita ser homem. Nesse sentido, o homem não possui o movimento, mas o movimento o possui.
A importância do movimento se intensifica na criança pequena. A todo o momento está se movimentando. Com base no autor, ela é movimento, o movimento a possui. A criança, através do movimento, descobre-se e descobre o mundo, e assim, gradativamente, vai se tornando um ser. O movimento humano pertence ao modo de ser do homem, como uma possibilidade de abertura para o mundo. “No movimento é possível descobrir a natureza do fenômeno da comunicação corporal, a verdade do ser que este pronuncia” (GOMES DA SILVA, 2012, p. 143)
O recreio era de aproximadamente 30 minutos, e esse tempo devia ser suficiente para o lanche e para brincar. Percebeu-se que esse tempo era insuficiente e, ao seu final, havia sempre um problema. Os alunos queriam continuar brincando e se movimentando. Com e término do recreio, os alunos tinham que ficar em filas para entrar nas salas ou ir a outro local da escola (figura 10). As dificuldades eram enormes. As crianças não conseguiam controlar o movimento que as possuiu, muito menos os professores. Uma estratégia adotada ‒ e já comentada ‒ para auxiliar na organização era a música. Os professores começavam a cantar, bater palmas e gesticular, e os alunos começavam a ouvir e se acalmar. Cantavam e dançavam (se-movimentavam) ao som da música, que ia contagiando a todos e, vagarosamente, começavam a se deslocar.
Figura 10 - foto dos alunos nas filas após o recreio
Fonte: foto do pesquisador
No recreio, tanto na escola do interior quanto na da cidade, ficou bastante claro que as categorias facilitadoras da educação da sensibilidade foram mais observadas. Predominou a liberdade, alegria, o prazer e a criatividade. As crianças brincavam e se movimentavam à sua maneira. Criavam sozinhos ‒ e com os colegas ‒ inúmeras formas de movimento, o que possibilitava a busca pelo sentido na relação com o mundo, e não apenas as explicações causais. Para encerrar este tópico, Gomes da Silva (2012, p 165- 166) salienta a importância do movimento no processo educacional:
[...] movimento é remissivo ao ser do homem, por isso mesmo, ao mover-se no mundo, o homem se constitui e reconstitui-se historicamente em sua vivência cotidiana. Assim, não podemos pensar numa educação em que não haja movimento, comunicação corporal de pre-senças na aprendizagem cotidiana, concretude física, energética, psíquica, histórica e circunstancial dos seres humanos. Aprendemos corporalmente na circunstância vivida.
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