No mês de novembro, reta final do projeto, convidamos a confeiteira Laura, mãe de um de nossos alunos, para nos acompanhar no dia da cozinha.
Pretendíamos preparar alimentos de origem indígena, preferencialmente à base de mandioca.41
O momento inicial desta atividade aconteceu no dia anterior quando os alunos trouxeram por escrito algumas receitas que pesquisaram com seus familiares e amigos na internet, jornais, revistas ou mesmo no livro didático escolar. Reunimos as opções e realizamos uma votação a fim de escolher dois pratos, os eleitos foram: pão de mandioca e tapioca recheada.
No dia seguinte, primeiramente repassamos as receitas no quadro negro para sabermos exatamente quais ingredientes utilizar, em qual quantidade e o modo de preparo. O fator surpresa surgiu quando convidamos a outra turma de primeiro ano, do período da tarde, para participar conosco da atividade. Isso significava que a quantidade de ingredientes antes calculada para servir 30 crianças, agora teria que sofrer alterações de modo a servir 60 alunos. Problema esse que teve de ser resolvido pelos alunos.
Os estudantes das duas turmas receberam materiais para limpeza das mãos e tocas para o cabelo, só depois do processo de higienização foram levados ao refeitório da escola, onde já se encontravam os ingredientes e materiais necessários.
Laura apresentou todos os ingredientes às turmas, contou alguns segredinhos de cozinha, como: “ao fazer pães e bolo o ideal é que a manteiga não esteja gelada ou endurecida”, e iniciou o preparo dos alimentos, sempre solicitando a ajuda dos alunos em relação à quantidade dos ingredientes que devia ser dobrada.
As crianças colocaram a mão na massa para enrolar o pão, e para rechear a tapioca, surgiram pães redondos, quadrados, ovais, trançados, tapiocas de brigadeiro, doce de leite, coco ou mescladas.
Na aula seguinte retomamos tudo o que tinha acontecido no dia da cozinha indígena, e a professora Alice iniciou um diálogo muito importante:42
Professora Alice: Vocês já perceberam que pra gente aprender um pouquinho só da cultura indígena nós temos que utilizar todas as disciplinas da escola?
41 Também recebemos a visita de Eloisa, amiga da professora Alice que se propôs a nos ajudar
nesse dia.
42 Neste diálogo mencionamos alguns dados que não serão discutidos no corpus dessa
Aluno G: É verdade, porque a gente usou a matemática pra fazer as comidas indígenas, e a gente também usou a matemática pra medir o caule daquela vez que a gente plantou a mandioca lá embaixo.
Pesquisadora: Isso mesmo, mas não usamos só a matemática não. O que mais nós usamos?
Aluno L: Acho que foi a história quando vocês duas aí (se referindo a professora e a pesquisadora) contaram de quando acharam o Brasil.
Professora Alice: Também, isso mesmo L, mas também teve outras disciplinas, vocês não lembram?
(Alunos ficaram em silêncio ou balançaram a cabeça em sinal negativo)
Professora Alice: Quando nós pesquisamos sobre o caule da mandioca, quando o professor Tiago disse que ela é uma raiz tuberosa, quando procuramos informações sobre o solo ou sobre a forma de plantar a mandioca, que disciplina nós usamos?
-(após alguns segundos de silêncio)- Aluno M: Eu sei, ciências não foi, Prô?
Pesquisadora: Isso! E quando nós escrevemos nossos relatos ou lemos histórias do Daniel Munduruku e de outros autores que falam de indígenas o que estamos usando?
Aluna I: O português!
Pesquisadora: Sim, e também usamos muito a arte, não foi? Vimos sobre a arte marajoara, usamos carvão vegetal e outros materiais para pintar ou desenhar algo que queríamos dizer.
Professora: Viram só o tanto de matérias que tivemos que usar para aprender coisas do mesmo assunto?
Alunos: Sim.
Pesquisadora: Isso é porque precisamos de todas elas juntas!
Neste momento, nossa intenção era direcionar o olhar das crianças para a interdisciplinaridade que vínhamos traçando em torno de um mesmo assunto, utilizando-nos de várias disciplinas e seus conhecimentos complementares. Sobre isso, Gadotti (2000, pg. 222) aponta que a importância da prática pedagógica prevê a passagem de “uma concepção fragmentária para uma concepção unitária do conhecimento”, na qual se pretende superar a dicotomia
entre ensino e pesquisa, considerando-os parte do conhecimento das diversas ciências.
Em seguida os alunos escreveram relatos sobre o dia da cozinha indígena, vejamos a seguir dois exemplos:
Imagem 29: Relato do dia da cozinha indígena (I)
Eu e a turma do 1º ano D ganhamos uma visita da mãe do Guilherme e a outra que é amiga da prô ela se chama Eloisa, a mãe do Guilherme veio para faser pão de mandiocae o pão é muito gostoso e a eloisa veio para fase tapioca mas a tapioca era de três tipo de coco com doce de leite, tinha a de doce de leite e a de brigadeiro. O pão eu gostei de faser porque agente em rolou e a tapioca agente passo recheio e depois vem a melhor parte comer a tapioca e o pão e tinha um melhor do que outros mas agente não consegoia escolhe entre o pão ou a tapioca os dois mas com sertesa um tem que ser melhor quando ajente foi embora para nossa casa todo mudo falamos para noças mães faser mas o pacote e muito caro e a minha mãe não conseguio entender como fas.
Imagem 30: Relato do dia da cozinha indígena (II)
No dia da culinária minha mãe que estava ensinando a faser o pão de mandioca e a tapioca e a minha mãe ensinou a receita pra todo mundo e cada um inrolou o seu e comeu so que o pão não tava do geito que deveria tar ele tinha que descansar mais meia ora e a tapioca eu não gostei muito tinha que endureser e a minha mãe dice em casa minha mãe dice que a aula foi maravilhosa e também dice que esperava uma aula igual.