Voltando às propostas de Lacan em relação aos impasses do fim de análise, temos que ele questiona a saída do sofrimento neurótico pelo “atravessamento” do Édipo, apontada por Freud, e indica como alternativa a modificação do sujeito em sua relação com o inconsciente: a isso chama de destituição subjetiva. Tomando o Pai como sintoma, propõe uma modificação do sujeito com a vida pulsional e com o gozo aí implicado. Para isso, é preciso ir além dos limites impostos pela ordem simbólica. Aqui entra em cena o objeto a, que Lacan passa a privilegiar no seu último ensino, por não estar subordinado aos limites impostos pela linguagem. Para circunscrever os limites deste objeto, que está para além de toda decifração, Lacan lança mão dos três registros – Real, Simbólico e Imaginário – que se articulam através do nó borromeano. A figura do nó borromeano surge no ensino de Lacan com o propósito de demonstrar que os três registros se inter-relacionam de maneira a que um registro não prevaleça sobre o outro.
Durante um jantar com a família Borromeu, Lacan depara-se com um brasão utilizado por esta família que consiste em três elos unidos entre si e articulados de tal forma que, se um deles se desfizer, os outros dois também se soltariam. Esse brasão servia de símbolo para a família, figurando a união necessária entre todos os membros. Se ao menos um se soltasse, todos os demais laços estariam comprometidos. Através dessa figura topológica, Lacan procura demonstrar a sustentação do sujeito apoiada que é nos três registros
psíquicos: Real (R), impossível de ser totalmente recoberto pelos significantes; Simbólico (S), aquele que organiza os significantes; e Imaginário (I), que organiza a realidade, aquilo que se pensa apreender dos objetos do mundo. A partir do entrelaçamento dos três elos, ou registros (RSI), estabelecem-se as interseções, onde localizam-se as modalidades de gozo, bem como o lugar central, relativo ao objeto a, objeto causa do desejo e mais-gozar.
Figura 12. Nó borromeano
Fonte: http://agente.institutopsicanalisebahia.com.br/download/agente008_ seminario001.pdf
Em todas as formas de gozo o objeto a está presente. Lacan postula, contudo, que não existe primazia entre os três registros, mas que eles estão igualmente subordinados ao quarto elo que os une: o sintoma (Σ).
Figura 13. O nó borromeano enodado ao Sinthoma
Fonte: http://clinicalacaniana.blogspot.com/2015/11/a-nomeacao-sobre-o-no- borromeu-ou-por.html
O sintoma é uma criação de cada sujeito, que tem por objetivo responder à falta no Outro, ou, dito de outro modo, é uma resposta ao desejo do Outro: O que queres de mim? O sintoma, desde Freud, estará sempre articulado (no caso da neurose) ao pai, ao significante Nome-do-Pai: significante que aponta para o desejo e, ao mesmo tempo, para a falta da mãe, entendida como o Outro primordial. Quando Lacan define o Pai como sintoma, deve-se ter em mente o Pai enquanto função que impõe limite ao gozo e a amarração dos três registro psíquicos entre si. A diferença é que, em Lacan, a resolução do sintoma, como vimos, não se limita ao impasse em jogo no rochedo da castração nem da inveja do pênis. Indo ao encontro do feminino em jogo nesse infinito que está para além da castração, o objeto a é priorizado em seu lugar de causa do desejo do sujeito, ressituando o posicionamento ético segundo o qual a dimensão objetal do sujeito é posta em primeiro plano. Nisto que consiste a destituição subjetiva.
Para psicanálise, tudo o que limita e funciona como lei é de ordem do Pai. Temos que os modos de gozo são expressões paradigmáticas desse limite, tendo em vista que estão sempre associados a uma perda de gozo ou a algo que o limite. Gerbase (2008) organiza, partindo das modalidades de gozo propostas por Lacan, cinco paradigmas do que é ser pai para o sujeito do inconsciente:
1º. O pai enquanto gozo fálico (JΦ). Pai enquanto função significante Nome-do-Pai (NP) que barra o desejo da mãe (DM), tanto no sentido do filho pela mãe quanto no da mãe pelo filho.
2º O pai enquanto a impossibilidade da escritura do gozo d’Ⱥ Mulher; o gozo do Outro (JȺ). Enquanto o gozo fálico é dado à escritura, contabilidade, o gozo feminino não é dado à escritura nem à contabilidade, o que torna impossível a articulação entre os gozos fálico (JΦ) e o suplementar, ou d’Ⱥ Mulher (JȺ). Daí a assertiva de que a relação sexual, ou a proporção sexual, não existe.
3º O pai enquanto gozo do sentido (JS: Jouissance + sens= jouissens). A linguagem é uma aquisição do ser, que o inclui na ordem simbólica e o institui enquanto sujeito do inconsciente. Mas é próprio da linguagem o mal-entendido, porque o sentido fechado, limitado, é sempre motivo de falta com a verdade. A
compreensão exata daquilo que se intenta comunicar garante o sentido que se pretendeu comunicar, mas ao mesmo tempo trai um outro sentido, que não foi dito, mas que foi pensado em outro lugar, no inconsciente. Esse sentido oferecido na compreensão limita as outras possibilidades de sentido que, não se deixando trair, leva aos atos falhos e chistes de linguagem.
4º O pai enquanto objeto a, gozo outro ou mais-gozar. Concebido como função paterna, o objeto a aponta para a falta estrutural, a causa do desejar. O objeto a enquanto mais-gozar é o furo que instiga o desejo.
5º O pai enquanto sintoma. O sintoma enquanto nó borromeano que ata os três registros – Real, Simbólico e Imaginário. O sintoma entra como um quarto elo que ata os outros três, relativos ao RSI. Pode-se denominá-lo também de Complexo de Édipo ou realidade psíquica.
Através do nó borromeano, o objeto a é circunscrito, podendo ser visto como ocupando um lugar central na articulação entre os três registros. Nas interseções do nó são representados os modos de gozo:
• Gozo fálico (JΦ) – interseção entre o Real (o Pai Primordial enquanto exceção) e o Simbólico (o Pai morto); fora do Imaginário. Encontra-se aqui a metáfora paterna, onde pressupõe-se que o Nome-do-Pai funcione. É o protótipo da castração ideal. O gozo fálico é o gozo do Um (um do órgão fálico ou um do poder) organizado pelo significante.
• Gozo do Outro (JȺ) – interseção entre o Real (gozo ilimitado) e o Imaginário (corpo); fora do simbólico (impossível de dizer); por isso o gozo do Outro está situado no corpo, fora do significante; o Outro
pensado como corpo; o Outro é o corpo. Assim se funda o paradigma da impossibilidade da relação sexual, já que é impossível escrever este gozo. Não havendo relação biunívoca entre o significante do gozo fálico e o significante do gozo suplementar (do Outro), o enunciado “não existe relação sexual” pode ser descrito segundo a fórmula: JΦ // JȺ
• Gozo do sentido (sens, JS) – interseção entre o Simbólico e o Imaginário; o real está fora. Não há equívoco nem mal-entendido. É a busca da compreensão através da completude na língua.
O gozo a mais, do objeto a enquanto mais-gozar, pela lógica do nó borromeano, é estabelecido como um gozo irredutível que escapa a todo dito. Por esse motivo o objeto a é o que melhor representa o gozo do Outro (JȺ), no que ele tem de Real e impossível de dizer. É um objeto inatingível que revela a impotência de ser dito pelo significante e a impossibilidade constitucional em deixar-se dizer.
Colette Soler, a propósito da destituição subjetiva, tece considerações acerca dos três modos de gozo: o do sentido, o fálico e o do Outro. Estabelece que todos os gozos estão submetidos ao objeto a e a ele implicados. Como demonstrado por Lacan no Seminário sobre a Angústia (Seminário X), este afeto é o sinal máximo do sujeito (do inconsciente). A presença do objeto primordial evoca a angústia porque situa o sujeito em sua condição objetal. “[E]la [a angústia] é o sentimento de uma redução iminente ao objeto” (SOLER, 2002).
Sendo assim, na destituição subjetiva está implicado um modo de gozo específico: o gozo do Outro. Nem o gozo do sentido nem o gozo fálico promovem a destituição subjetiva. O gozo fálico institui o eu (je), e de certa forma Soler aproxima o gozo fálico da possibilidade de vivência da angústia fálica, ligada ao sucesso ou ao fracasso (impotência) na relação com o poder. Mas é a destituição do poder que está em jogo, não a destituição subjetiva. “O verdadeiro gozo angustiante e destituinte é o gozo que Lacan descreve como gozo do Outro, isto é, um gozo que é fora do simbólico, um gozo que é sem representação e que surge eventualmente no corpo” (Ibidem).
Então, o gozo do Outro inclui todas as formas de gozo do vivente fora da representação, fora do simbólico. Isso é angustiante, isso é o real, não são só as catástrofes. É um gozo fundamentalmente destituinte, que reduz o sujeito não somente a um objeto parcial, pois o objeto parcial pode articular- se na linguagem, mas que reduz o sujeito a um corpo vivo, um corpo que goza, sem localização de gozo. [...] O que há
também no gozo Outro, enquanto ele entra em jogo na vida sexual, como se diz, é alguma coisa de profundamente destituinte. [...] Essa destituição pelo gozo dá razão ao que Lacan diz em seu Seminário
Mais, ainda, a saber, que as mulheres têm mais relação com o Outro
que os homens. O que não quer dizer apenas que elas sejam Outro, mas, porque elas são Outro, quando elas são Outro, elas fazem apelo ao Outro. Esse Outro, quer seja o homem ou Deus, há nele um eixo, elas fazem apelo a ele justamente porque somente o Outro pode salvar da destituição (SOLER, 2002, p. 32-33).
Ao contornar a problemática do falocentrismo, implicada no fim de análise freudiano, Lacan dá lugar ao campo do feminino e, apoiado no conceito de objeto a, recoloca a problemática ética sob a égide do gozo. Ao mesmo tempo, abre campo para se pensar o gozo místico, tomado como uma faceta do gozo do Outro, ou d’Ⱥ Mulher.