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L’arthrose est une maladie de l’os sous-chondral

1 RECENSION DES ÉCRITS

1.1 L’arthrose est un syndrome multifactoriel complexe de défaillance articulaire

1.1.5 L’arthrose est une maladie de l’os sous-chondral

Uma das formas de minha inserção e aproximação do terreiro e das pessoas foi participando das festas abertas que eram realizadas na casa. Fui a várias festas entre o final de 2012 e início de 201419, tais como: Festa de Erê (13 out. 2012); Festa de Iansã (16 dez. 2012); Festa de Oxum (03 fev. 2013); Saída de Iaô – Oxum e Oxalá (30 mar. 2013); Festa de

Caboclo (07 abr. 2013); Saída de Iaô – Oxossi e Logun (05 maio 2013); Festa de Exu – Gira de Exu (18 maio 2013); Onrunkó – festa do nome (24 ago. 2013); Festa das Iabás (20 out.

2013); Festa de Logun (08 nov. 2013); Saída de Iaô – Oxum (26 jan. 2014); Festa de Oxum (22 fev. 2014); Saída de Iaô (22 jun. 2014).

Estas celebrações públicas são realizadas a partir de um calendário específico de cada casa de candomblé ou quando ocorre iniciação de mais um(a) filho(a)-de-santo. Nelas, o canto, música e dança se conectam aos orixás, que se manifestam por meio do transe em seus adeptos. Além disso, estas “cerimônias de barracão” ou toque, como são mais conhecidas, são precedidas de uma série de rituais que envolvem sacrifícios de animais; preparação das carnes, comidas e bebidas rituais que serão inicialmente oferecidas aos orixás que estão sendo celebrados e posteriormente preparados para o ajeum (banquete); cuidado com os irmãos recolhidos que estiverem cumprindo obrigações iniciáticas; arrumação das roupas e adereços que podem ser costurados, lavados e engomados e passados (ouvi muitas vezes reclamações das mulheres adultas e jovens de que passavam quase um dia todo lavando e passado as roupas de todos(as); preparação dos adereços e decoração do barracão para o momento, entre outras atividades.

Era nas festas que eu conversava com as pessoas e os(as) jovens, observava a disposição espacial do terreiro, bem como as suas mudanças ao longo da pesquisa, conhecia o

culto, as músicas, as danças, os toques dos tambores; entendia como eram feitas as comidas e para que serviam. Conhecia as pessoas e me tornava conhecida, ao frequentá-las.

No terreiro, todos os membros participavam dos preparativos das festas, sendo que desempenhavam tarefas específicas de acordo com a hierarquia. A maioria chegava com dias de antecedência e, geralmente, as mulheres traziam seus filhos, netos e agregados que, de certa forma, ajudavam naquilo que podiam20. Ali dormiam, comiam, banhavam-se e vestiam- se (com aquelas roupas branquíssimas) para o grande momento público.

Relato abaixo trechos do meu diário de campo de uma das festas que participei:

Domingo foi a festa das Iabás (as mulheres orixás, ou melhor, orixás femininos). Já cheguei um pouco atrasada, pois a festa estava marcada para as 16h, mas, na verdade, iniciou somente às 18h. [...] Quanto à festa, como sempre, teve dificuldade de começar na hora por conta da falta de água, segundo o pai-de-santo, que deu as boas vindas a todos e todas.

Tinha um número considerável de convidados, pelos menos uns 5 (cinco) pais e mães-de-santo, com seus respectivos filhos-de-santo. Também foram pesquisadores/ professores da UECE de Filosofia e de Serviço Social, que não sei se vão fazer pesquisa lá no terreiro, mas que fizeram muitas perguntas para o pai-de-santo. No primeiro momento da festa, todo mundo dançou, depois, quando viraram (incorporaram os orixás), foram recolhidos(as) para o quarto (runko) as pessoas que tem orixás femininos para se vestirem com suas roupas de festa e dançarem no segundo momento.

Foi uma festa cansativa, porque começou às 18h e terminou às 22h, mais ou menos. Todo mundo da casa estava exausto, porque eles chegam cedo, alguns no dia anterior para trabalhar até o horário da festa e, durante a mesma, ainda dançam e depois ajudam na limpeza, pelo menos os que ficam no terreiro.

No intervalo, foram servidos salgadinhos e refrigerante. O pai-de-santo me pediu para eu levar ‘refrigereco’, mas também vi Coca-Cola.

No segundo momento da festa, dançaram com suas roupas de gala/festa, primeiramente as Oxuns, depois as Iansãs e depois as Iemanjás. Pelo menos umas quatro a cinco músicas para cada orixá.

Fotografei a casa e seus cômodos e os(as) convidados(as). É interessante que até os(as) convidados(as) me conhecem e perguntam quando eu deixo de ir a uma festa. Não fui à última festa que foi a dos erês (inclusive nesta festa comemoro um ano de visita a esta casa) e uma mulher que vem sempre à casa, mas que é de outro terreiro, me perguntou porque eu não tinha vindo para festa dos erês.

Quando os orixás estavam dançando com suas roupas de festa, a Iansã do

Babakekerê serviu para todos(as) os(as) convidados(as), antes das Iabás começarem

a dançar, um bolinho de feijão, como acarajé, que é a comida de seu orixá. Somente depois é que as orixás iniciaram sua dança. O bolinho não tinha gosto, nem sal ou açúcar.

Quando acabou a festa, que sempre se encerra com uma dança/música/toque para Oxalá, o pai-de-santo agradeceu, chorou, falando que esta era a última festa naquele barracão daquele formato, porque até fevereiro seria construído outro barracão. A casa está crescendo e por isso o salão não comporta mais o número de pessoas, inclusive porque, nas festas, os(as) convidados(as) também participam da roda e fica quase insuportável se mexer e dançar.

Após a festa, tivemos o banquete, que tinha arroz, uma espécie de estrogonofe de frango e outro de carne, muita salada e também estava sendo servido acarajé. Para o acarajé tinha uma fila grande.

20 Só quem era da religião podia desempenhar tarefas próprias, aqueles(as) que não eram iniciados(as) faziam outras atividades para ajudar na preparação da festa.

Todo mundo se fartou e eu dei carona para a Regina e suas filhas, que vieram comigo, a Ana, que tinha me ligado pedindo a carona. A Iaô de Iemanjá e o de

Oxaguiã, A loira e o Ogum recém-iniciado, genro da Zuleide. O carro tava cheio e

rimos bastante com as conversas da loira e o aperto do carro. (Diário de campo da pesquisadora – Festa das Iabás – 20 out. 2013).

Esse relato mostra mais ou menos um roteiro das festas que participei. Geralmente, as festas iniciavam no final da tarde ou noite. Antes do toque, os Ogãs (pessoas encarregadas para tocar) preparavam os instrumentos musicais que eram os atabaques, e o agogô21. Estes primeiros eram reverenciados por todos, pois são eles, com a intensidade das suas batidas, que chamam os orixás. Estes tem um lugar reservado dentro do barracão e estão dispostos do maior para o menor. Não se começa uma festa sem o cumprimento aos tambores. O toque era iniciado com o chamamento de Exu e finalizava com cânticos para

Oxalá. Entre o primeiro e o último tocavam aproximadamente três músicas para cada orixá na

língua iorubá. Cada orixá tem seu ritmo, suas músicas e seus próprios passos de dança.

Os cânticos, segundo Gomes (2003, p. 165), “[...] não são apenas cantados, são também dançados, pois constituem a evocação de certos episódios da história dos deuses, são fragmentos dos mitos e o mito deve ser representado ao mesmo tempo em que falado para adquirir poderes evocados”.

Quanto às danças, estas iniciavam com todos(as) dispostos(as) de forma circular em sentido anti-horário. Quando o(a) iniciado(a) entrava em transe, geralmente as ekedis e

ebomis ficavam responsáveis para levantar a calça dos homens, a cobertura da cabeça das

mulheres e o calçado de cada um.

Após o transe e a vinda dos orixás, estes eram levados ao runko e preparados para o segundo momento da festa, onde iriam dançar com suas roupas de gala22. No intervalo, entre o primeiro e o segundo momento, eram servidos salgadinhos e bebidas, como água e refrigerante.

Finalmente, após a despedida dos orixás a cerimônia terminava com um banquete, que, geralmente, eram comidas dedicadas aos orixás, pratos cheirosos, gostosos e saborosos aos olhos. Comia-se com os olhos, e eu sempre repetia o prato.

Para Gomes (2003, p. 168), o banquete é um momento de grande alegria e de confraternização entre as pessoas, pois, através do alimento todos(as) são convidados(as) a

21 Os atabaques são chamados do maior para o menos de rum, rumpi e lê. E o agogô é um instrumento metálico em forma de pequeno sino que é tocado com uma vareta.

22 Dependendo da festa, todos(as) se vestiam ou, se era especial, em homenagem a algum orixá, somente aqueles determinados trajavam as roupas de gala.

participar do que é mais importante na religião: “[...] a comunhão entre as partes [orixás, filhos(as)-de-santo e convidados(as)] que constitui magnificamente tudo”.

Durante minhas visitas, percebi que, além das festas para os orixás e as saídas de

Iaôs23, existia também festas que não eram da nação keto, mas que reunia outros elementos como caboclos e exus femininos e masculinos, os quais observei em festas da Umbanda.

Sábado, dia 18 de maio de 2013, fui para a festa de Exu, Gira de Exu como chamam no terreiro. Esta festa era para homenagear a Maria Padilha da casa (que incorporava no Babalorixá) e outros Exus. Cheguei por volta das 18h e o sacrifício (matança, como eles dizem) dos bichos já havia acabado, mas, ao ir a cozinha as cabras e bodes ainda estavam sendo tratados.

Todos(as) se preparavam para a festa. Os Iaôs recém-iniciados não puderam participar desta festa, de acordo com o Pai Junior, eles ainda estavam de preceito. Então, ora ficavam na cozinha atrás do barracão, ora na cozinha à frente do mesmo. Uma coisa me intrigou, porque o Iaô de Oxaguiã não participou da festa, apesar de ele e os iaôs mais novos (recém-iniciados) estarem tratando dos bichos quando eu cheguei?

Participaram desta festa pessoas que são de outros candomblés e umbandistas também, porém nenhum era jovem. Também estavam jovens ogans que tentavam tocar e cantar músicas que irritaram alguns Exus que se manifestaram dizendo: Esses ogans não deixam os Exus passarem! (Diário de campo da pesquisadora – 18 maio 2013).

Dentro das festas, observei os conflitos entre os(as) jovens e outros(as) adeptos(as, e entre os(as) próprios(as) jovens. Escutei muito ejó (fofoca) e vi alguns(mas) candomblecistas se afastando e outras entrando no terreiro.

De acordo com Braga (1988, p. 24-25):

O ejó, fuxico feito, possibilita a circulação de informações até mesmo das circunstâncias do sagrado, pela via não oficial através da revelação de boca em boca, do que está acontecendo de novidade em determinado terreiro de candomblé. Pelo

ejó se chega às tramas mais complexas do mundo religioso alcançando, pelo

detalhamento da ocorrência, aspectos preciosos que nenhuma competente etnografia seria capaz de captar. [...] Ele atualiza um conhecimento mais amplo que atinge as relações inter-grupais contidas na totalidade do universo religioso afro-brasileiro. [...] O ejó termina sendo, de alguma forma, a crônica da novidade no espaço comunidade-terreiro, a própria etnografia da dinâmica que assinala as ocorrências que se afastam da tradição “fossilizada”, do que estava cristalizado como herança religiosa imutável e, assim, visualizado como indicador preciso da nova ordem que se estabelece ou que está em via de se estabelecer.

Posso dar vários exemplos de ejó que escutei durante as festas ou no trajeto de volta para casa, ao dar caronas para os(as) adeptos do terreiro. Para este texto, destaco três em especial.

23 Ressalto que as estruturas das festas de saída de iaô são diferentes das festas de orixás que compõem o calendário litúrgico candomblecista.

Durante muito tempo, ouvi das ekedis, mulheres que seguiram iniciadas nesta função e tinham mais de 30 anos, reclamarem da primeira a ter esse cargo na casa e que era a mais jovem delas. Esta, por sua vez, por mais que realizasse as funções designadas para ela, não era valorizada nem reconhecida como a mais velha entre as ekedis. Porém, os outros membros do terreiro e o babalorixá a legitimavam como tal. A idade, nesse caso, não a impedia de ser uma mais velha, contudo, gerava conflito com as outras que ocupavam a mesma função. Este fuxico levantava a questão da relação entre a tradição e a sociedade em que vivemos, do conflito geracional.

Existiram também os ejós cotidianos, que são aquelas reclamações de que fulano se escorava e não fazia nada quando tinha função na casa ou que comia tudo e não dividia com os(as) irmãos(ãs) ou até quem tinha ficado com quem. Esta última teve como consequência o afastamento de alguns filhos-de-santo, pois o acontecido estava relacionado a interdições religiosas que foram transgredidas.

Um último exemplo de fofoca se refere à máxima “saber é poder”. Presenciei algumas vezes certas autoridades (Ekedis) fofocando sobre um iaô que morava no terreiro. Falavam que ele exercia várias funções as ekedi e ogans, como por exemplo, matar os bichos, cuidar de recém-iniciados (ou estar no espaço onde esses eram preparados), preparar determinadas comidas, entre outras. Um dia, em uma festa, o próprio foi confundido com um

ebomi. Conversando com o babakekere24 da casa, ele revela que, em alguns momentos, na ausência das pessoas responsáveis, o iaô ajuda em algumas atividades. Todavia, como esse jovem vive no terreiro, ele acaba realizando todo tipo de função, bem como sua vivência religiosa é intensificada.

Acerca desse último exemplo, concordo com Braga (1988, p. 28), ao afirmar que o ejó é também um código de ética que se coloca como “[...] um discurso crítico e reprovador daquilo que se afasta da tradição”, estabelecendo certa censura.

Quanto ao portador do ejó (fofoqueiro, baba ejó, língua de afôfô – o que fala demais, indaka kalunga kufurungoma – aquele que tem a língua tão grande que pode furar qualquer atabaque), esse é uma figura muitas vezes criticada e rechaçada no meio religioso. Contudo, ele é uma figura interessante para se contatar e conversar tendo, é claro, que utilizar devidamente os filtros para cada fala.

Portanto, faço minhas as palavras de Braga (1988), ao dizer que o etnólogo que tem a tarefa de anotar, relatar e interpretar o fato religioso é também de certa forma um baba

ejó.