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A metodologia designada Abordagem de Mosaico foi implementada por Alison Clark e Peter Moss com o objetivo de escutar crianças pequenas utilizando ferramentas que possibilitassem a descoberta das diferentes visões das crianças (Clark, 2011). Esta abordagem define-se pela forma como dá significado à voz das crianças, considerando-as co-construtoras e especialistas da sua própria vida.

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A criança tem “voz” podendo expressar-se visual ou verbalmente. Os autores supracitados, fundadores desta metodologia, definiram-na como participativa (as crianças são vistas como agentes da sua própria vida), adaptável (oferece a possibilidade de ser adaptada ao grupo de crianças e ao contexto onde estas se inserem), multi-método (combina métodos diferentes que promovem a escuta da criança), reflexiva (os adultos e as crianças colaboram mutuamente para processos de reflexão acerca dos seus significados) e incorporada na prática (é sempre utilizada num clima de escuta que possibilitam à criança e ao adulto vivenciar esta metodologia através de experiências quotidianas) (Clark, 2011).

Esta metodologia, ao constituir um processo que inclui não só a linguagem verbal, mas as ações, brincadeiras e produtos constitui-se um multi-método. Este multi-método pode consistir em fotografias, passeios (tours), conferências, dramatizações, observações e documentações, entrevistas/conversas e num tapete mágico (magic carpet) – local onde se reúnem informações e produtos relevantes para o objetivo traçado e obtido a partir dos métodos mencionados acima (Clark & Moss, 2011).

A Abordagem de Mosaico é desenvolvida com base em três fases: 1) fase de recolha de informação; 2) fase de reflexão e discussão; 3) fase de decisão. A primeira fase é sempre guiada e liderada pelas crianças, pois é nesta altura que se reúnem as perspetivas das crianças. Esta recolha concretiza-se com a ajuda de vários métodos que possibilitam ao adulto uma recolha de informação mais completa e detalhada das perspetivas das crianças. Nesta fase existem procedimentos que se prendem com questões étnicas que deverão ser levadas ao pormenor, ou seja, deverá ser solicitado junto dos pais e da instituição o consentimento para que a criança possa participar. A criança deverá ter conhecimento do estudo em causa e da autorização facultada, quer pela instituição quer pelos seus progenitores (Clark, 2011).

Na segunda fase, designada de reflexão e discussão “juntam-se as peças”, criam- se momentos de diálogo e reflexão percebendo o que é que as fotografias, mapas, filmes e entrevistas revelaram acerca das perspetivas das crianças, ou seja, através do material produzido pelas crianças cria-se uma plataforma de comunicação entre a

65 criança e o adulto. Esta junção de diferentes peças de informação e material originou o nome de abordagem de “mosaico” pois só assim é possível criar uma imagem refletora e reflexiva dos pontos de vista das crianças. Só analisando o tapete mágico é possível partir para a fase seguinte. (Clark, 2011).

A terceira fase é concretizada sobretudo em projetos/pesquisas de cariz transformativo, implicando o envolvimento direto das crianças em processos de decisão. Estas decisões acontecem quando é dada liberdade às crianças para pensarem nas alterações, proporem a organização de espaços diferentes e tomarem decisões que promovam o seu bem-estar no jardim-de-infância (Clark, 2011). Em contextos normais, a Abordagem de Mosaico pode ser colocada em prática em qualquer altura do ano letivo e com a totalidade de crianças que integram o grupo, respeitando sempre as três fases que a constituem.

Ao longo da prática supervisionada foi proposta a implementação desta metodologia visando compreender quais as perspetivas das crianças acerca do JI.

Em contexto de estágio, esta metodologia foi aplicada durante os meses de Maio e Junho (ano de 2014) incidindo, essencialmente sobre duas crianças. Inicialmente pensámos (eu e a minha colega de estágio) na Ana (nome fictício) por ser uma criança bastante comunicadora, extrovertida e sem problemas na exposição das suas ideias e convicções, e no João (nome fictício) por se demonstrar mais retraído e envergonhado quando comunica. Contudo, ao iniciar a aplicação desta metodologia, a Ana faltou bastantes vezes nos dias que se seguiram, atrasando todo o processo. Decidimos, em conjunto com a educadora cooperante, que seria necessário escolher outra criança que substituísse a Ana. A segunda criança escolhida, a Maria (nome fictício) concordou trabalhar connosco. No par definitivo, a Maria e o João, destacamos a segunda criança referida como o maior desafio nesta abordagem pois, ela tem como objetivo dar voz às crianças, principalmente às mais tímidas e retraídas, duas caraterísticas muito visíveis no João.

Escolhidas as crianças com que trabalharíamos de forma mais pormenorizada e individualizada, iniciámos a primeira fase da metodologia, transmitindo à educadora

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cooperante o que iria ser desenvolvido nas semanas seguintes. Depois de explorados e explicados todos os detalhes, informámos as crianças da sala. Esta informação foi transmitida com o objetivo de perceber quem queria participar no nosso trabalho. No mesmo dia, enviámos aos EE, das crianças que queriam trabalhar connosco, um pedido de autorização que continha uma breve explicação da metodologia e os respetivos campos de preenchimento que reforçavam a ideia de que apenas participariam no estudo, as crianças que assim o desejassem.

Finalizadas estas tarefas, iniciámos, com as crianças escolhidas um passeio pela instituição, onde as mesmas puderam fotografar e conversar sobre aquilo que mais ou menos as atraía no jardim-de-infância. No dia seguinte e em contexto de sala de atividades, conversámos informalmente com a Maria e com o João com o objetivo de recordar o passeio realizado e recolher alguma informação sobre os espaços escolhidos. Para que este momento e as frases das duas crianças ficassem registados, gravamos em formato de áudio essa mesma conversa, para evitar eventuais perdas de informação.

Dias depois, já com as fotografias impressas pedimos à Maria e ao João que realizassem connosco os mapas, isto é, o produto resultante do seu passeio pela instituição. Estes mapas foram construídos pelas crianças, com a nossa ajuda. Posteriormente foram afixados no placar de cortiça, presente à entrada da sala, marcando assim o início da construção do tapete mágico. Este elemento foi finalizado com mais algumas fotografias tiradas pelas crianças, bem como frases que considerámos serem essenciais para a compreensão e consecução do objetivo do estudo desenvolvido.

Depois do tapete mágico construído, organizámos uma reunião/conferência, de forma a mostrar às crianças o que se tinha feito e quais os resultados obtidos. Com este método aproveitámos para ir questionando as crianças, em forma de conversa, com o objetivo de percebermos se alguns dos resultados obtidos coincidiam ou não, com as restantes opiniões das crianças do grupo.

67 De forma a finalizar todo este processo, em conjunto com a minha colega entrevistámos a equipa educativa da sala dos 5 anos (educadora cooperante e duas assistentes operacionais), o avô da Maria e a mãe do João, as crianças escolhidas para participarem no estudo de forma mais direta. A escolha destes dois EE justifica- se com o facto de serem as pessoas que mostravam mais ligação às duas crianças envolvidas. Estas entrevistas, tal como as conversas com as crianças foram gravadas em formato de áudio, para prevenir possíveis perdas de informação.

Embora tenha sido realizado um tratamento de dados com as crianças, através do tapete mágico, foi necessário proceder a uma análise posterior dos mesmos, que incluiu a transcrição de informação gravada em áudio, a realização da categorização (para construção das tabelas) e a triangulação de dados.

Assim, as fotografias e os desenhos foram realizados apenas com a Maria e com o João, as reuniões desenvolvidas com o grupo da sala dos 5 anos e as conversas/entrevistas realizadas inicialmente com as duas crianças escolhidas, depois com as assistentes operacionais e com a educadora cooperante e, mais tarde, com o avô da Maria e com a mãe do João. Os dados obtidos, com as entrevistas aos adultos envolvidos serviram, na sua maioria, para concretizar a triangulação de dados.

Caso este estudo tivesse sido concluído com a fase da decisão, esta abordagem serviria para averiguar, dando voz às crianças, se algum espaço, atitude ou prática educativa necessitaria de ser alterado para melhorar as experiências e vivências das crianças no JI em causa. No entanto, a mesma teve como objetivo final ser abordada no Relatório Final de cada aluno/a estagiário/a, fazendo assim com que essas alterações não se tivessem realizado.

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