• Aucun résultat trouvé

L’approche de conception centrée utilisateur

Dans le document The DART-Europe E-theses Portal (Page 32-35)

I .'2 - Arquivos do DOPS. Dossiê 50-Z-2-928.

I”' - Curioso nesses 64 inquéritos foi o caso do lituano, morador da Mooca, Leonardo Sasnaukas que, segundo o DOPS. era ligado ao PCB. Leonardo foi indiciado pelas depredações no dia Io de agosto, mas só foipreso no dia 2,

para a tradicional averiguação... Por falta de provas, o processo foi arquivado em Io de julho de 1948. Arquivos do

DOPS. prontuário 85.193. Esse percurso parece ter sido comum a todos os comunistas ligados ao quebra-quebra. Para a liNia do> indiciados ver anexo III.

134 - Arquivos do DOPS, prontuário 57.725. A sede da ATTUSP ficava na Rua Bresser, 750. Esse fato, aparentemente corriqueiro, nos leva a pensar com muito cuidado a sugestão contida na idéia do “autoritarismo socialmente implantado" de que as classes populares só apareceriam na esfera pública mediadas pelos setores dominantes, pelos arranjos populistas ou pelos partidos de classe média. A relação entre a emergência pública das classes populares e seus nexos com essas vertentes é muito mais variada, complexa e difusa do que normalmente se supõe. 0'Donnel, Guilhermo. “E eu com isso? Notas sobre sociabilidade e política na Argentina e no Brasil”. In: Contrapontos:

autoritarismo e democratização. São Paulo. Vértice, 1986. p. 142.

135 - “[...] no aniversário das arruaças de Io de agosto, preparam-se, nesta capital, novos atentados à propriedade

pública e particular, como incêndios a bancos e repartições públicas e depredações de veículos da CMTC”.Arquivos do DOPS. Dossiê 50-Z-2-373. Por quase uma década esse tipo de relatório se repetiu.

Mas o agosto de 1947 não foi um evento isolado, foi parte integrante de um movimento amplo que se espalhou pelo Brasil.136 Suas implicações deixaram as elites de sobreaviso e assustadas com o verdadeiro estado de calamidade pública enfrentado pelas classes populares. Principalmente porque, de forma organizada ou não, essas mesmas classes populares agiam, às vezes de forma violenta. Contudo, o quebra-quebra não foi suficiente para pôr em cheque o “autoritarismo socialmente implantado” nas relações sociais e políticas no Brasil. Elas continuaram tão hierarquizadas quanto sempre' foram. De modo que, as referências à cidadania continuaram umbilicalmente conectadas às práticas de exclusão social. Os membros das classes populares continuaram a não ser reconhecidos como cidadãos.

É dessa vinculação aparentemente indissolúvel entre cidadania e exclusão e do conseqüente estreitamento da esfera pública e dos entraves à representação política popular autônoma, que se produziu uma arquitetura social clientelista, na qual as classes populares aparecessem no mundo público sempre referidas à lógica do favor. Isso talvez esclareça o modo como se relacionaram com o jogo político no cenário do após-guerra. Mais do que ausência de canais de representação, o que houve foi uma acirrada disputa pelos canais que as próprias classes populares criaram.

70

136 - Diversos motins urbanos se espalharam pelo Brasil. Depois de São Paulo, veio Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, Natal, Uberlândia e outras cidades: “(...) o povo, acossado pela fome, revolta-se e vem para as ruas. E o govemo na mesma tranqüilidade, na mesma inconsciência!”Duarte, Paulo. “Aos currais de Augias". Revista Anhembi, n° 22, vol. VIII, setembro de 1952.

“...as ruas eram todas de terra. Não havia calçamento (...) as ruas eram cheias de enormes buracos. Nem cavalo andava. Adiante as margens da estrada do oratório eram formadas por chácaras de caquis. De um dos lados havia enormes barrocas cheias de matos por todos os lados. Escuridão completa (...) Esta avenida [Paes de Barros] não existia como avenida nem como rua, aqui nesta parte. Era um caminho de terra, com matos e barrocas aos lados, numa extensão de vale a se perder de vista, até o bairro do Ipiranga. O caminho que levava até a Vila Prudente à noite ninguém andava ali.”1

O lugar, os pedaços e os recortes.

Localizado na zona leste da capital, o bairro da Mooca, em 1945, apresentava um adensamento peculiar: o imbricamento entre trabalho e moradia. Embora localizado relativamente próximo ao centro, a Mooca não esteve livre dos mesmos problemas urbanos que afligiam os bairros periféricos mais distantes. Na década de 1940, a Mooca era o bairro mais populoso da cidade, com aproximadamente 93.733 habitantes - seguido do Brás com 80.257, do Belenzinho com 61.393, da Lapa com 60.531 e do Ipiranga com e 60.129, e apenas em meados da década de 60 ela perdeu sua condição de bairro mais populoso do município.2 Dividia-se em

Mooca de Baixo - que se estendia do rio Tamanduateí até, aproximadamente, o número mil da

rua da Mooca, no sentido leste e até à caixa d’água, na avenida Paes de Barros, na direção sudeste. E Alto da Mooca - que se espraiava do número mil da rua da Mooca fazendo divisa com o Belenzinho, Tatuapé, Vila Formosa e Vila Prudente. Até hoje, a percepção dos moradores sobre estes limites é muito fluida e tema de constantes debates. A Mooca de Baixo tem uma ocupação mais antiga, dividida entre napolitanos, esp anhóis e portugueses; o Alto da Mooca, por sua vez, também contava com essas colônias, mas era marcadamente “hungarês”.3

Entre abril e junho de 1947, foi realizada sob a orientação do Reverendo Lebet, professor da Escola de Sociologia e Política, e com os auspícios do SESI, uma pesquisa sobre as condições de habitação da população urbana de São Paulo. A cidade foi dividida em três: zona central, residencial e arrabalde. O estudo discriminava sete categorias para as moradias: 1) habitação

miserável, insatisfatória sob todos os aspectos. 2) casebre, habitação miserável que pode ter

1 - Dias, Eduardo. Um Imigrante e a Revolução: memórias de um militante operário 1934/1951. São Paulo. Brasiliense, 1983. p. 47.

2 - Boletim eleitoral, n° 103, ano VI, março de 1953.

3 - “Napolitanos são todos aqueles que se originam da Campãnia, região da Itália meridional cuja cidade mais importante é Nápoles”. Carta, Mino. Histórias da Mooca: com a benção de San Gennaro. Rio de Janeiro, Berlendis & Vertecchia Editores Ltda. 1982. p. 35. Isso talvez distinga a Mooca tanto do Bexiga, predominantemente calabrês, quanto do Brás, marcadamente barese. ‘Hungarese’, ou ‘hungarês’, é um termo genérico, comumente usado no bairro, para designar as pessoas de pele clara e cabelos loiros, geralmente oriundos da Europa centro-oriental: russos, lituanos, húngaros, poloneses, iugoslavos, alemães etc. Em certas circunstâncias pode ter uma conotação pejorativa, como “bichos d’água” porque depois de algumas doses de bebida alcoólica eles ficavam com a pele muito avermelhada.

alguns elementos satisfatórios. 3) semi-casebre, habitação insatisfatória que não pode ser melhorada. 4) habitação insatisfatória, mas passível de melhoria. 5) habitação satisfatória. 6)

habitação confortável. 7) habitação luxuosa, ou muito confortável.

A Mooca de baixo foi classificada na zona central - cuja característica era ser eminentemente administrativa, industrial e comercial, composta principalmente de operários fabris e funcionários diversos. O Alto da Mooca foi classificado como zona residencial. Na Mooca de baixo, 60% das moradias foram classificadas no item habitação insatisfatória; 25% foram consideradas casebres; 10% habitação confortável; 5% habitação luxuosa ou muito confortável. O Alto da Mooca apresentou características um pouco diferentes: 8% das moradias foram classificados como habitação miserável; 47% foram classificadas como insatisfatórias; 12% como casebre; 15% como habitação satisfatória; 15% como habitação confortável; 3% como habitação luxuosa ou muito confortável.4

Em primeiro lugar, essa classificação nos sugere que a área de ocupação mais antiga, a Mooca dc baixo, era também mais homogeneamente pobre. Ali estava também a maior parte dos espanhóis, italianos e portugueses que chegaram no bairro nos 50 anos anteriores, havendo, portanto, uma ocupação mais estabilizada. Nessa região se concentravam também a maior parte dos cortiços do bairro. Talvez por isso, 85% das suas moradias fossem habitações ruins, porém, ressaltava a pesquisa, passíveis de melhoria. O Alto da Mooca, por outro lado, apresentava uma ocupação mais recente - iniciada com um loteamento em 1925 - e também mais diversificada; embora italianos, espanhóis e portugueses tivessem ali uma presença significativa, lá se concentraram os hungareses, e também aqueles que, com o passar dos anos, conseguiam economizar o suficiente para adquirir um terreno e construir uma casa própria, já que, por ser mais distante, os loteamentos eram mais baratos e disponíveis em maior quantidade. Havia menos fábricas nas suas ruas se comparadas à Mooca de baixo e, embora a grande maioria dos moradores também fosse composta de operários, diversas outras categorias de trabalhadores não- iabris se encontravam ali. Isso talvez explique o fato de “apenas” 59% das suas moradias serem classificadas como ruins, mas passíveis de melhoria.

\a sua composição social a Mooca apresentava um quadro relativamente homogêneo, com uma população total de 93.733 moradores, dos quais 30.434 eram eleitores, sendo o segundo maior colégio eleitoral da cidade no após-guerra. Do total de eleitores, mais da metade era composta dc operários fabris e outro número significativo de trabalhadores não-fabris. Há que se

ressaltar, também, a existência de uma não desprezível classe média alcançando 1/3 do total de eleitores.

Eleitores discriminados pela profissão5.

Bairro

Profissão Mooca Belenzinho Ipiranga Brás

Advogado 10 11 11 29 Agricultor 69 58 93 70 Bancário 250 201 2.400 326 Comerciante 535 551 443 1.065 Comerciário 3.219 3.307 2.743 4.447 Dentista 82 71 68 95 Enfermeira/massagista 32 37 37 46 Engenheiro 14 14 10 18 Farmacêutico 49 51 27 67 Ferroviário 364 234 230 704 Industrial 361 201 180 675 Industriário 11.036 11.017 7.430 9.108 Jornalista 4 5 7 11 Marítimo 1 4 3 - Médico 1 48 31 65 Militar 108 144 322 84 Operário 4.033 3.636 5.252 2.340 Parteiro 7 5 2 12 Prendas domésticas 4.090 3.636 4.235 4.102 Professor 216 416 272 342 Religioso 25 21 46 13 Servidor público 164 1.269 1.003 1.173 Transportes (exceto ferroviário) 643 540 523 607

Profissões (diversos empregados) 74 595 666 163 Profissões (diversos empregados) 4.104 764 1.198 4.664

No bairro da Mooca, os anos do após-guerra foram particularmente agitados. No segundo semestre de 1945, ocorriam, semanalmente, comícios-relâmpago preparatórios para o grande comício pró-constituinte marcado para o dia 27 de outubro, no estádio do Pacaembu. Em seu livro de memórias, o tecelão espanhol, Eduardo Dias, contou que:

“As lutas populares reivindicatórias movimentavam a Mooca por muito tempo, chegando a ficar este bairro conhecido como um dos maiores centros comunistas de então. Chegamos até, por volta de 1945/1946 a ter a nossa ‘praça vermelha’ na confluência das ruas Oratório, rua da Mooca e avenida Paes de Barros. Os comícios aqui eram coisa de impressionar. O povo comparecia em massa. A politização por esta época era impressionante”?

Segundo os freqüentes relatórios dos agentes do DOPS, a afluência média de público nesses comícios girava entorno de 1.000 pessoas. Esse número de participantes talvez não fosse exagerado, levando-se em conta que os comitês democráticos tiveram uma presença marcante no bairro. Em três meses, a Mooca organizou quatro comitês: o comitê da Mooca de baixo, na rua da

5 - Boletim Eleitoral, n°. 42, ano II, 1948. Para uma abordagem sugestiva dessa difícil categoria chamada “classe média” ver: Chauí, Marilena “Um retrato sem retoques da classe média brasileira”. São Paulo. Pau Brasil. N° 9, ano II, novembro-dezembro 1985.

Mooca, 1733; o comitê do Alto da Mooca, na rua Oratório, 1414; o comitê do Lanifício Brasília, na rua Siqueira Bueno, 924; o comitê da Água Rasa, na rua da Mooca, 5.090; e o comitê Cidade Mãe do Céu na divisa entre a Mooca e o Belenzinho.

Em 3 de agosto de 1945, ocorreu o que foi, possivelmente, a primeira manifestação pública dos CDPs da Mooca, o evento foi na rua do Oratório, 1414. O policial do DOPS encarregado de acompanhar o encontro não informou o número de presentes, mas relatou que a reunião durou 3:30 horas, e ficou decido que as próximas manifestações, nos dias 30 de agosto e 2 de setembro, seriam feitas em espaço aberto, nas principais ruas do bairro. A esses dois comícios, segundo os agentes do DOPS, compareceram, em média, cem pessoas e os temas enfocados foram a assembléia constituinte e os “problemas do bairro”. Em 20 de setembro, ocorreu o terceiro comício, com a “presença de 600 pessoas, mais ou menos”.7 A afluência de público crescia rapidamente.

Existia no bairro um enorme anseio de participar da vida política da cidade. A vitória sobre o nazi-fascismo, a volta dos pracinhas da FEB - a Mooca enviara 24 expedicionários, dos quais retomaram 23 - a queda do Estado Novo e as notícias do fim da guerra criaram por toda a cidade um clima de festa, um difuso sentido de esperança, um desejo de mudança, uma expectativa renovada na solução para os diversos problemas cotidianos. A experiência da guerra, como uma condição limite, produziu nos homens e mulheres um sentido moral de justiça e um sentimento de solidariedade que impulsionaram as organizações políticas e sociais naqueles meses. Esse difuso senso moral de justiça se expressou no entusiasmo e na emocionada esperança com que os contemporâneos se referem àquele momento. Segundo Eduardo Dias:

“O povo enchia os pulmões. Respirávamos felicidade. Falava-se com as criaturas sem medo. Transmitia-se idéias. Recebia-se idéias. Discutia-se, formava-se opinião (...) Debatera-se [o homem] por longos anos na escuridão deste novo estado de coisas. Saíra, a final, para a luz. Explodia de alegria, deslumbramento ante tanta beleza. As criaturas sorriam. A liberdade tão sonhada, tantas vezes perdida, estava ali presente, maravilhosamente bela; dentro de nós, no sorriso, no falar, nos gestos, no andar. O sonho se tomara realidade...’18

O clima de euforia e esperança com o final da guerra também foi expresso pelo então tecelão João Louzada:

“Foi uma coisa linda a chegada da força expedicionária, né! E só se discutia política, política, política. Aí veio a anistia, o próprio empregador - não sei se com medo, né! - tinha uma tendência democrática, ele emprestou os caminhões para gente levar as pessoas para o Pacaembu, quando o Prestes veio aqui. Era aquelas caravanas que vinham dos bairros tudo, né! Depois veio a força expedicionária... Mas que festa linda... Na av. São João era gente por todo lado. Depois veio a Constituinte. Os partidos foram liberados... Ai veio a Constituição... Aí nós começamos a abrir sede por todo lado, eu trabalhava nessa fábiia no Belém.

6 - Dias, Eduardo, op. cit. p. 35. Na confluência das ruas Paes de Barros, Oratório e Mooca, já não existe mais uma praça, mas até hoje o lugar é mencionado pelos antigos moradores como a “praça vermelha”.

7 - Arquivos do DOPS, prontuário n° 59.486. 8 - Dias, Eduardo, op. cit. p. 37.

Nós abrimos uma sede na rua Belém, e eu era secretário de agitação. Então comecei a dar assistência a todas as fábricas dessa região. Formávamos comissões dentro das fábricas, isso era por todo lado, e ligávamos com o partido e os sindicatos, era uma luta tremenda, né? (...) Então a gente dentro do sindicato tinha liberdade de discutir os problemas, criar comissões, tudo. Aí vieram as eleições...”9

Esse sentido moral de justiça criou o clima para uma enxurrada de reivindicações e produziu uma espera nervosa para a solução dos problemas há tanto tempo adiados. Na Vila Cidade Mãe do Céu, um memorial com 407 assinaturas foi encaminhado à prefeitura, a reclamação básica era contra o péssimo estado de conservação de várias ruas do local: na rua São Bernardo, por exemplo, os barrancos haviam ocasionado a morte de uma pessoa e o tombamento de um carro de leite; além disso, não havia também limpeza pública, coleta de lixo, iluminação, entre outros serviços básicos. Nas ruas e nas fábricas do bairro o clima era o mesmo. Um operário tecelão, morador da vila, escreveu ao Hoje, “em nome de 150 colegas de trabalho de uma tecelagem da Mooca”, reclamando das péssimas condições de higiene na fábrica onde trabalhavam: havia uma única privada para homens e mulheres e ainda estava entupida e constantemente suja. Acrescentava ainda que o patrão não se interessava em melhorar as condições da privada como uma estratégia para economizar tempo. “Era um lugar tão ruim que ninguém ficava lá mais que o necessário”.10 A reclamação não era exagerada. Os banheiros possuíam um significado muito especial na economia política das fábricas do bairro, como revelou D. Eunice Longo, operária da tecelagem Jafet, na década de 40:

“Ah! Pra ir ao banheiro tinha uma chapinha (...) ficava assim, na banca do mestre (...) na nossa seção tinha 200 mulheres, e acho que seis ou oito chapinhas (...) então você chegava a ficar lá seis horas sem poder ir ao banheiro, porque não chegava, calhava de chegar lá e não tinha chapinha”.11

Controlava-se não apenas as idas ao banheiro, como também o tempo de permanência neles, exatamente porque desempenhavam uma função de socialização e de circulação de informações e, muitas vezes, de tomada de decisões. Como explicou o operário têxtil Antônio Fracasse:

“Na Votorantin [em Sorocaba], eu trabalhava num setor de preparação para tecelagem, chamava-se ‘sala de pano’, onde media o tecido que o tecelão fabricava e lá, como tinha mais de 3.000 teares, o banheiro era muito grande, e a gente quando precisava satisfazer a necessidade ia lá, e lá a gente batia papo, trocava papo... Diversas ações, da diminuição do ritmo de trabalho às greves, foram decididas no banheiro”.12

9 - Entrevista com João Louzada, concedida ao autor em 6 de novembro de 1998. 10 - Hoje, respectivamente 28/08/46, 21/08/46, pp. 4 e 6.

11 - As estratégias podiam variar, das chapinhas ao cartão de ponto, batido na entrada e na saída do banheiro, como acontecia na tecelagem Beirute, no Tatuapé: “Aí puseram chave no banheiro e cartão. Tinha que marcar o cartão para ir ao banheiro. Aí é que virou escravidão”. Entrevista com Eunice Longo e Luísa Castelani. Realizadas em 1989 pela equipe de memória e história oral - DIM/DPH, prefeitura do Município de São Paulo.

Em relação ao conjunto das carências, a Mooca não diferia de qualquer outro bairro periférico da cidade, a novidade estava na mais estreita conexão entre as condições de trabalho nas fábricas e as questões do dia-a-dia do bairro. Isso fica claro quando, em novembro de 1945, um primeiro Comando do Hoje esteve no bairro e, dentre outros lugares, visitou o cortiço da rua Carneiro Leão, ocupado principalmente por espanhóis. Pagava-se de aluguel, em média, por cada cômodo, Cr$ 120,00 mensais. Constituído de uma série de pequenos agrupamentos de quartos alinhados ao longo de um grande corredor, onde o sol só batia em metade do ano, eram mais de vinte e cinco pequenos nichos, enfileirados próximos um do outro. Na parte superior, havia uma passarela unindo as duas metades em que se dividia o cortiço, por isso, ele também era conhecido como ponte de Waterloo, ou como castelo do Pacaembu, ou, ainda, como a vila do

macarroneiro, porque o antigo proprietário era um italiano que ganhava a vida fazendo e

vendendo macarrão. No pátio central do cortiço, o repórter reuniu dez moradoras e propôs uma conversa sobre “as urgências que interessam às mães de família de todo este imenso Brasil, problemas que interessam às donas Marias das cidades grandes”. A primeira a falar foi Carmem Delgado: “- Há cerca de um ano esta vila foi vendida a uma compainha que quer transformá-la em garagem. Quando isso aconteceu o dono mandou dizer que devíamos mudar, mas a gente foi

procurar nosso direito e verificou que eles não podiam pôr para fora. Fomos ficando. Fomos

ficando”.13

Talvez o mais sério problema da Mooca fosse a questão da moradia, de um lado, com os altos preços dos aluguéis e a escassez de casas; de outro, as precárias condições dos cômodos disponíveis. Estas precárias condições, aliadas a um momento de euforia política e esperança cívica, despertaram um sentimento geral de que alguns direitos mínimos deviam ser respeitados: “nós pagamos Cr$ 120,00 por um quarto dividido em duas partes. Num deles estão os móveis, onde a gente come. No outro, as camas. Em casa somos dez pessoas - eu, meu marido e oito filhos, e dormimos todos no mesmo quarto”, contou Ana Chincea. “Isso acontece com as dezenove famílias dessa vila”, informou Maria Capei. As cozinhas, coletivas, ficavam do lado oposto aos quartos, para alcançá-las era preciso atravessar uma área descoberta, e nem todos os quartos do cortiço tinham água encanada o que limitava o trabalho das lavadeiras. Além do problema da moradia, as mulheres reclamaram muito da alta no custo de vida e da falta de escolas; cada família tinha em média sete filhos, num total de mais de 135 crianças, quase todas fora da escola.

A Mooca tinha vários cortiços como este, o da rua Coronel Cintra era conhecido como

navio negreiro; mais adiante, na mesma rua, havia o penitenciária, ainda na rua Carneiro Leão, o

Dans le document The DART-Europe E-theses Portal (Page 32-35)