3. État de l'art 19
3.3. Localisation de sources sonores
3.3.4. L'apprentissage neuronal
Em Totem e Tabu, Freud procura explicar questões inerentes à psicologia social, relacionando o totemismo com os vestígios da infância. Compreender a alte- ração do clã totémico para a família, assim como os processos ligados a esta passagem, constituem os objetivos expressos para esta obra. Elege os povos primitivos aborígenes da Austrália para concretização da sua comparação entre a psicologia dos povos primitivos, tal como é apresentada pela antropo- logia social, e a psicologia dos neuróticos, no modo como a entende a psica- nálise.
Freud apresenta-nos as tribos australianas como povos rudimentares, sub- divididas em clãs, sem instituições sociais e religiosas, regidas pelo totemismo, tendo a exogamia (proibição de relações sexuais entre pessoas do mesmo clã) como uma característica comum, resultante da proibição do incesto. Esta proi- bição está diretamente ligada quer à necessidade de proteção, que resulta do facto destas tribos serem mais sensíveis ao desejo de praticá-lo, quer ao objetivo de preservar a própria comunidade.
Aliado a estas questões, Freud focaliza-se, ainda, na questão do tabu e da ambivalência emocional. Diferencia as restrições de tabu2
das proibições religiosas, em que as primeiras impõem-se por sua própria conta e as segun- das por ordem divina. O autor defende que o tabu é mais antigo que os deuses e anterior a qualquer religião.
Partindo dos atos dos neuróticos obsessivos, Freud estabelece uma ana- logia com o tabu, explicando a conformidade entre ambos. Destaca, essen- cialmente, a proibição do tocar, as restrições sujeitas ao deslocamento (subs- titutos) e transferência (qualquer um que viola o tabu torna-se ele próprio tabu - risco de infeção), a criação de atos cerimoniais e a existência da ambi- valência. Por um lado, há o desejo de violá-lo (desejo inconsciente dos mem- bros do totem), por outro, o medo está presente e é mais forte do que o desejo. Apesar da comparação do tabu com a neurose, Freud frisa uma dife- rença entre ambas. No seu entender, o tabu é uma instituição social (cultu- ral), ao passo que as neuroses assumem uma estrutura associal (as pulsões sexuais predominam sobre as sociais).
Em todos os tabus está presente a ambivalência emocional, que, por sua vez, origina as proibições; estejam estes tabus ligados ao inimigo (orientações sobre o assassino, punição, atos de purificação e cerimónias), aos governantes (isolamento dos chefes e sacerdotes do resto da comunidade e a proteção destes contra a comunidade) ou ainda aos mortos (restrições para todos quanto esti- veram em contacto com os mortos, necessidade do seu tratamento e a neces- sidade de proteção através da existência de cerimoniais). A violação do tabu resultaria no que Freud designa de senso de culpa.
Para Freud, os tabus reúnem três características: o animismo, a magia e a omnipotência de pensamentos. O animismo é interpretado pelo autor como uma das representações do universo, sendo as restantes a religiosa e a cientí- fica. Como sistema de pensamento, o animismo prende-se com ideia de que os objetos inanimados são animados por espíritos e demónios. O animismo não sendo, segundo Freud, uma religião, contém os fundamentos constituin- tes da religião posterior. A magia, segunda característica e ramo mais primi- tivo e importante da técnica animista, onde está presente a omnipotência de pensamento, visa sobretudo submeter os fenómenos naturais à vontade do
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Freud salienta os dois significados contrários de tabu: o de “sagrado”, “consagrado”, por um lado, e o de “misterioso”, “perigoso”, “proibido”, “impuro”, por outro. Os tabus são assim entendidos pelo autor como proibições de antiguidade primeva, externa- mente impostas, e de forma violenta, a uma geração de homens primitivos, pela gera- ção anterior.
homem, exercer proteção face aos inimigos – dando ao homem poderes para tal – e outros perigos, controlar o mundo e estabelecer uma conexão ideal por um real (elaboração de uma efígie do inimigo, por exemplo). A terceira caracte- rística diz respeito à omnipotência de pensamento. Freud identifica nas neu- roses, sobretudo nos atos da neurose obsessiva, um carácter mágico: omni- potência dos pensamentos, superstição e supervalorização dos processos mentais. Esta forma de agir e pensar está, segundo Freud, ligada ao narcisismo, estabelecendo uma comparação entre as fases de desenvolvimento da visão humana do universo com as fases do desenvolvimento libidinal do indivíduo. Assim, a fase animista corresponderia à narcisista, a fase religiosa à escolha de objeto e a fase científica com a maturidade, com a respetiva renúncia ao prin- cípio de prazer, ajustamento à realidade e orientação para o mundo externo.
A questão da religião surge especialmente focalizada por Freud a partir do quarto capítulo deste seu trabalho. Freud opta por desenvolver a sua pers- petiva sob dois temas pilares: o do sacrifício totémico e o da relação de filho para pai.
Dando de novo enfoque ao totemismo, o autor afirma que este ocupa o lugar da religião entre alguns dos povos primitivos da Austrália, América e África, servindo de base à organização social destes povos, uma vez que exigia relações de respeito, proteção, com claras normas de costume praticadas entre os elementos do clã totémico. Para além disso, o totemismo integra dois tabus (de níveis diferentes): proteger o animal totémico e a proibição do incesto.
Quanto ao primeiro tabu, Freud deixa-nos claro que o animal totémico é o substituto do pai e, segundo o mito da horda primeva, os filhos expulsos mata- riam e devorariam o pai tirânico, exterminando, assim, a horda patriarcal. Devo- rando o pai, os filhos identificavam-se com ele adquirindo, desta forma, parte de sua força. Ressalta, aqui, a existência de sentimentos ambivalentes por parte dos irmãos em relação ao pai: um sentimento de ódio, uma vez que ele representa um obstáculo aos seus desejos sexuais e, acompanhando-o, o sentimento de admira- ção e de amor por este pai. Esta ambivalência originaria um sentimento de culpa em que o pai morto tornava-se agora mais forte. Neste sentido, o tabu tem o seu fundamento em motivos emocionais, uma vez que o pai foi eliminado, não sendo portanto possível, em qualquer sentido real, satisfazer o ato.
Quanto ao segundo tabu, a proibição do incesto, Freud resume o seu fun- damento prático no facto de os irmãos renunciarem às mulheres que desejavam, e que tinha sido a razão da morte do pai.
Para Freud, parece não restarem dúvidas de que o totemismo é a pri- meira tentativa de religião, tendo sobretudo por base o tabu da proteção do
animal totémico. O autor afirma que o totemismo foi um pacto com o pai; de um lado o totemismo assumia toda a proteção, cuidado e indulgência, pró- prias de um pai e, por outro lado, os membros do clã assumiam o compro- misso de respeitar-lhe a vida. No entanto, o totemismo encerrava uma tenta- tiva de autojustificação, expressa na ideia de que não teria existido a tentação de matar o pai real se este tivesse tratado os filhos como o totem os trata.
O totemismo fornece, assim, duas possibilidades: a de mitigação da situação e a possibilidade de esquecimento do facto que a originou.
Desta realidade resultam, para Freud, as características da religião: a religião totémica nasceu deste sentimento filial de culpa. Todas as religiões posteriores, mesmo atendendo às suas variações consoante o estádio de civilização e indepen- dentemente dos seus métodos, visam solucionar o mesmo problema. A par desta realidade, a ambivalência implícita no complexo-pai, existente quer no tote- mismo quer nas religiões, mantém-se inalterada, no entender de Freud. Para o autor, tanto as expressões de remorso, como as tentativas de expiação e de recor- dação do triunfo do pai – na realização do festival memorial da refeição totémica – estão bem patentes no totemismo e na religião. É na antiga refeição totémica, sempre repetida como sacrifício, que toda a comunidade comunga de uma solida- riedade comum, permitindo a santificação e a mitigação do sentimento de culpa.
A evolução dos acontecimentos resultantes do complexo-pai ditará a proibição do incesto – como via de preservar a vida em grupo, tanto mais que teriam sido os desejos sexuais que originaram a divisão entre os homens – e a proibição, baseada na religião, do fratricídio que culminou com o “não mata- rás”, reunindo e envolvendo a sociedade neste crime comum. Freud conclui, então, que a religião assenta neste sentimento de culpa e consequente remorso.
Continuando a desenvolver a perspetiva da psicanálise sobre a religião, Freud afirma que Deus é um pai glorificado. O deus de cada um destes indi- víduos é um deus formado à semelhança do pai humano, assim como a rela- ção pessoal com deus está diretamente ligada à tipologia de relação com este pai humano. Deste modo, a saudade do pai constitui, por si mesmo, a raiz de toda a forma de religião. Deus surge, agora, como a vingança retomada do pai, exercendo o seu poder e autoridade, posicionando-se acima da humanidade, numa submissão completa dos filhos que apenas têm acesso a ele pelos sacer- dotes. O efeito do crime contra o pai está bem patente, segundo Freud, na refeição totémica com sacrifício animal, com sacrifício humano teantrópico e na eucaristia cristã.
Freud coloca, assim, o Complexo de Édipo como ponto fulcral onde têm início a religião, a moral a sociedade e a arte.