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L’application dans les polymères conducteursL’application dans les polymères conducteurs

libération contrôléelibération contrôlée

III. L’application dans les polymères conducteursL’application dans les polymères conducteurs

O lar é a base da sociedade, e a mulher estará sempre integrada ao lar. Mas o lar não se limita ao espaço de quatro paredes. O lar é também a escola, a fábrica, o escritório. O lar é principalmente o parlamento, onde as leis que regulam a família e a sociedade humana são elaboradas.

Bertha Lutz

Se partirmos do pressuposto de que a ficção bebe na fonte que é a vida, fica acertado que as criaturas que circulam pelo cenário portam traços de realidade. Na relação estabelecida entre história e representação, ou melhor, entre pessoas e personagens, vale recorrer às prudentes constatações do sociólogo e crítico literário Antonio Candido:

A personagem é um ser fictício, _ expressão que soa como paradoxo. De fato, como pode uma ficção ser? Como pode existir o que não existe? No entanto, a criação literária repousa sobre este paradoxo, e o problema da verossimilhança no romance depende desta possibilidade de um ser fictício, isto é, algo, sendo uma criação da fantasia, comunica a impressão da mais lídima verdade existencial. Podemos dizer, portanto, que o romance se baseia, antes de mais nada, num certo tipo de relação entre o ser vivo e o ser fictício, manifestada através da personagem, que é a concretização deste (CANDIDO, 2005, p. 55).

Para Candido, a ficção incide sobre a realidade. Nesse sentido, cria a impressão de vida, do real na representação. A personagem, ainda para Candido, parece ser o que há de mais vivo na ficção. Explorando essa vivacidade das ‗criaturas de papel‘ é que relacionamos os vestígios das experiências vividas na sociedade ficcional aos testemunhos da época.

De modo singular, a personagem traz os impasses da época já que revela aspirações de mudanças negando a condição da esposa, porém paradoxalmente, assume uma vida de dona de casa quando se responsabiliza pelo lar de sua família. A ela foi negado o acesso à vida pública permitida pelo trabalho extra doméstico. Para Cecília, uma mulher poderia exercer as atividades no trabalho sem perder a doçura e o acolhimento no lar. Uma revisão da história remete-nos para o pronunciamento da feminista Bertha Lutz, exposto na epígrafe que inicia este texto, quando ela, ao entrar para a Câmara dos Deputados, apela pelos direitos das mulheres.

O discurso de Lutz deixa explícito o empenho da mulher em inserir-se no convívio social. O pronunciamento de Bertha Lutz é o de que, o envolvimento no trabalho, na educação, na composição das leis, não rejeitará o compromisso de esposa e mãe. Mas sim, dará mais condição e conhecimento para a mulher gerir as suas responsabilidades nas tarefas do lar, pois a administração do lar é feita através das decisões tomadas nessas outras instituições. Vale lembrar que Lutz ficou como suplente, nas eleições de 1933 e assumiu o cargo na Câmara Federal em 1936. Isto é, ela já era uma militante feminista e seu discurso se fazia conhecer na ocasião do lançamento do romance de Lúcia Miguel. Essa perspectiva é reiterada nos anos 50, tanto por Lúcia em texto crítico quanto por Simone de Beauvoir:

A família não é uma comunidade fechada em si mesma: para além de sua separação ela estabelece comunicações com outras células sociais; o lar não é apenas ―um interior‖ em que se confina o casal; é também a expressão de seu padrão de vida, de sua fortuna, de seu gosto: deve ser exibido aos olhos de outrem (BEAUVOIR, 1980, p. 95).

Assegura-se então que, aproximando as experiências sociais da cena ficcional, apesar dos propósitos estabelecidos, a criticidade ao papel social ocupado pela mulher tende a imperar sobre a personagem central de Em Surdina. Ao longo do século XX, a integração da família na sociedade esteve intimamente relacionada ao jogo das aparências. De modo diverso à escrita de Lúcia Miguel Pereira, Patrícia Galvão, a Pagu, ou ainda Mara Lobo, publica no mesmo ano de Em Surdina, o livro Parque industrial. Nele, a autora registra as dificuldades enfrentadas pelas mulheres para serem reconhecidas no mercado de trabalho. Baixos salários, assédios sexuais, maus tratos, longas jornadas, enfim a situação de intensa humilhação passada em busca da independência através do trabalho. Margareth Rago explica que ―as operárias foram, na grande maioria das vezes, descritas como ‗mocinhas infelizes e frágeis‘. Apareciam desprotegidas e emocionalmente vulneráveis aos olhos da sociedade, e por isso podiam ser presas da ambição masculina‖ (RAGO, 1997, p. 578). É bem verdade que as mulheres protagonistas de Lúcia não compactuam com essa realidade das operárias, exceto Maria Aparecida, as outras eram burguesas. Para estas, a negação do trabalho se dá dentro do núcleo familiar. Certamente, se ingressasse no mercado de trabalho, a realidade de Cecília não seria a mesma das personagens de Pagu. Sabe-se que há uma diferença significativa na forma como as mulheres de classe média e as operárias eram tratadas no ambiente de trabalho. Para as primeiras, o assédio, quando havia, era velado. Contudo, em linhas gerais, de um e de outro lado, ou seja, no casamento ou no trabalho, na burguesia ou no proletariado, a mulher era interpretada como frágil e passiva de dominação.

De modo sutil, Lúcia Miguel Pereira não arrisca permitir que suas criaturas se aventurem nas relações de trabalho, certamente, a fim de criticar a sua condição e a suposta trajetória feminina ao casamento. Se Cecília, num primeiro momento, foge do casamento como meio de vida, no curso da narrativa admite que é preciso se submeter e, por isso, resolve se casar com Paulo. Contudo, com o casamento deste com outra desiste desse objetivo e resolve viver a vida solteirona. Para a irmã Heloísa, o casamento, mesmo sob traições e mentiras, constituía o viver pleno feminino. Nada incomum para uma integrante da família, muito severa e regrada, cuja avó ressaltava sempre o horrível acontecido com Tia Sinhazinha: a separação. É o próprio narrador quem abre um parêntese para realçar a importância do fato, ―(na família isso era tido como um segredo vergonhoso e inviolável)‖ (PEREIRA, 1933, p. 34).

Sob essa educação, Heloísa cria ser o casamento a forma de realização da mulher, aspecto que possibilitava a sua liberdade. Era uma mulher bela, pois se arrumava para sair, participava de festas em grupos de casados, fumava imitando as estrangeiras. No entanto, tornavam-se comuns brigas entre ela e o marido. Ambos mantinham amantes, porém o pai consegue dissuadi-la do pedido do divórcio. Segundo o narrador, Heloísa vivia quase alheia ao marido Décio, o aspecto que a ligava a ele era apenas financeiro. E Cecília encontrava nisso uma falta de pudor, quase imoral. Diante da sugestão da separação por Cecília, adverte o irmão Antônio: ―_ Você está maluca? Deus me livre de ver Heloísa divorciada. Aliás, creio que estamos livres desse susto, porque ela também não pensa nisso. O melhor, ainda é que as coisas fiquem como estão‖ (PEREIRA, 1933, p. 311). O trecho deixa entrevista a negação da liberdade de escolha feminina que, diante do casamento, precisa optar pela não realização pessoal em favor da família, do coletivo. Vê-se o receio de uma família tradicional em ter em casa um membro divorciado. Tal fato constituía em descrédito de todo um grupo familiar. O próprio irmão assegura que a situação aparente em que vive o casal é melhor que a dissolução do casamento.e

O inconformismo da protagonista é seguido da explicação do irmão de que se não se desquita é porque não lhe convém. Nesse ponto, o casamento é visto como um negócio que deve ser mantido enquanto houver interesse entre as partes. Já Cecília inspirada pelo sentimento materno acrescenta, ―_ só vejo uma razão para impedir o divórcio: os filhos. Mas, mesmo para esses, não sei se será preferível ficarem só com a mãe a assistirem as divergências dos pais‖ (PEREIRA, 1933, p. 312). Nas primeiras décadas do século XX, a bandeira anarquista levantou questões em relação a essa sujeição feminina. Segundo Margareth Rago, diante do pensamento do movimento ―somente é válida uma união conjugal que se estabelece livremente, independente dos interesses econômicos ou das obrigações sociais‖ (RAGO, 1985, p. 104). No cenário ficcional, o impedimento do divórcio se dá devido à dependência econômica de Heloísa em relação a Décio. Ocorre ainda que, em virtude da posição social do pai e da família, o casamento deve ser mantido, transformando a mulher em escrava dessa relação falida. Nesse sentido, o casamento é representado como uma máscara social. No trânsito da história, é nítido que Lúcia Miguel Pereira escreve ambas as posições ideológicas vigentes na época nessa narrativa. Cecília posiciona-se contrária ao casamento nos moldes burgueses, enquanto Heloísa, mesmo transgredindo as normas de conduta

impostas à mulher ao concretizar o adultério, destaca se beneficiar dessa ‗representação‘ que é o seu casamento.

A expressão de Heloísa sobre o divórcio reflete o temor que este exprimia diante da sociedade. ―Divorciar? Que idéia... E sua posição social? E os filhos? Não, não podia revoltar-se abertamente contra a sociedade... isso seria uma loucura‖ (PEREIRA, 1933, p. 346). Vê-se a preocupação com o jogo social, a hipocrisia em que a sociedade estava assentada. Com base nos testemunhos históricos, o temor ao divórcio não era infundado. Como salienta Mary del Priore, ―nas primeiras décadas do século XX, toda a ameaça ao casamento era alvo de críticas. O tema do divórcio, por exemplo, era considerado ‗imoral‘, ‗a pior chaga da sociedade‘; ‗só em casos excepcionais e depois de rigorosíssimo processo‘‖ (PRIORE, 2005, p. 246). As palavras da historiadora vão ratificar os princípios adotados e criticados na trama narrativa. Evitava-se, a todo custo, o divórcio, uma forma de desestruturar o núcleo familiar. Em contrapartida, buscava-se manter a amizade, não o amor entre o casal.

Para isso era preciso manter-se bela, saudável e praticar a arte de agradar, de encantar, mantendo-se sempre próximas ao ideal de amizade amorosa. O importante era fortalecer as relações, afastando o risco do temido e vergonhoso divórcio. Na busca da ‗união para a vida toda‘, o casamento encontra sua razão de ser na ‗mútua estima e amizade dos esposos‘ (PRIORE, 2005, p. 254).

O comentário supracitado nos põe diante de um quadro outrora pintado pela ficção. Heloísa se empenhava no cuidado com a beleza a fim de manter uma relação de interesses com o marido Décio evitando-se assim o tão temido divórcio. A estratégia da mulher é aqui também uma forma de conquista de outros homens já que tanto ela quanto Décio mantinham relações externas ao casamento. Na explicação de Heloísa, a conservação do casamento se dá devido à amizade mantida entre os dois. Contudo, é questionável a natureza dessa amizade sugerida pelo marido já que, no final do romance, Heloísa confidencia a Cecília seu desapontamento, seu sofrimento, e resguarda a unidade familiar sendo discreta em seus adultérios por interesses próprios. Já Cecília, ciente de que esta era uma vida desonesta, não concretiza o casamento, mas tem para si mesma o cuidado com a aparência física. Para ela, é a verdadeira libertação, não precisa do outro para estar plena e feliz. Segundo Luís Bueno, ―num universo em

que o sentido da vida da mulher se dá pela relação com os homens, Cecília só poderia estar bonita se houvesse alguma influência feminina em curso‖ (BUENO, 2006, p. 324). No entendimento de Cecília, o casamento visto, primeiramente, pelos olhos românticos, configurava-se numa forma de realização pessoal. A partir das pressões recebidas em família para aceitar qualquer pretendente e as impressões trazidas pelo exemplo do casamento da irmã, essa prática passa a ser vista como uma renúncia aos sonhos. E ela conclui que a felicidade está em si mesma. Como percebe Luís Bueno ―a felicidade que ela poderá alcançar virá mais dela mesma do que de um marido ou coisa que o valha. Portanto, é possível que aconteça com ela essa coisa imprevista que é sentir-se feliz mesmo estando solteira‖ (BUENO, 2006, p. 324).

Portadora de um discurso paradoxal, Heloísa, que se aventura em relações extraconjugais, mantém o casamento por acreditar que, através dele, alcançará algumas liberdades das quais estão podadas as mulheres solteiras. E confessa à irmã sobre o amante, ―eu gosto do Pedro... e tenho o direito de fazê-lo‖ (PEREIRA, 1933, p. 345). Veja que aqui é a atitude infiel do marido que dá o direito da traição. Assim, continua a discussão: ―_Você não pode compreender, Cecília, porque nunca viveu integralmente. Mas eu não sou assim. Eu já vivi... e não posso me resignar a uma meia existência. Quero tudo... ou nada‖ (PEREIRA, 1933, p. 346). Pela expressão de Heloísa, o distanciamento entre as duas irmãs se dá porque ela já viveu as experiências do casamento. Segundo ela, é essa vivência que traz a plenitude da vida feminina.

Nisso, Cecília acredita que a irmã mantém ‗desprezo pela mulher isolada e cultiva alguma satisfação pelas exigências de um senhor‘. Nesse sentido, sua conduta integra as regras da tradição. A respeito dessa condição de aceitação da mulher, explica Mary del Priore: ―era indisfarçável o conformismo da maioria das mulheres diante da condição de sujeição imposta pela lei e pelos costumes: serva do marido e dos filhos, sua única realização aceitável acontecia no lar‖ (PRIORE, 2005, p. 248).

Portanto, na base das contradições por que passa o momento de transição contemporâneo da composição de Em Surdina, o casamento, o divórcio, o trabalho são entendidos como mecanismos utilizados por algumas mulheres para a sua libertação. Criticamente, do ponto de visto masculino, essas mesmas ações são interpretadas como veículos de controle e exploração das mulheres. Logo, se assumirmos a premissa do

fazer histórico da diversidade de vozes e tendências ideológicas que normatizam os movimentos daquele tempo, encontramos delas, pequenos ‗arranhões‘ que vão configurar as pressões e as impressões nas personagens da obra em exame.

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