L’ANNONCE DE LA DÉFAITE
I- 2-1- L’annonce de la défaite ou « le triomphe de l’amour »
Na história da mitologia europeia, os seres mitológicos são concebidos, segundo Campbell (1990), à semelhança do ser humano, porém têm mais poder sobre a natureza. As fadas, por exemplo, são figuras comuns às culturas celtas, germânicas, nórdicas e anglo-saxônicas; elas, supostamente, têm o poder de intervir nos elementos naturais, de gerar luminosidade e transferir energia de um lugar a outro.
Titânia, rainha de duendes e fadas, foi criada por Shakespeare a partir do folclore medieval europeu e seu nome, provavelmente, foi retirado do poema narrativo, Metamorfoses (Metamorphoseon) de Ovídio, de 8 d. C. (Ryan, 2009). A personagem Titânia é uma mulher forte, independente e impositiva, que desafia as normas sociais machistas, contrapondo-se à submissão da personagem de Hipólita. Seu posicionamento insubordinado simboliza o conflito entre gêneros, como pode ser observado em:
TITÂNIA – O quê? Oberon, o ciumento? Fadas, duendes, embora daqui. Desisti de com ele partilhar cama e companhia.
OBERON–Calma, aí, criatura teimosa, volúvel: não sou eu o marido e senhor de tua pessoa?
TITÂNIA – Então devo ser eu a esposa e senhora [...] (SHAKESPEARE. Sonho de uma noite de verão, 2006. Ato II. Cena I. Tradução de Beatriz Viégas-Faria p. 29)76.
76
TITANIA – What, jealous Oberon! – Fairies, skip hence: I have forsworn his bed and company.
[...]
OBERON–Então você pode corrigir isso; só depende de você. Por que Titânia desobedeceria ao seu Oberon? [...] (SHAKESPEARE. Sonho
de uma noite de verão, 2006. Ato II. Cena I. Tradução de Beatriz
Viégas-Faria. p. 31).77
A posse pela criança indiana é o pretexto para o desentendimento entre Oberon e Titânia e o que impulsiona o plano do rei dos duendes, visando punir e humilhar a rainha das fadas e dos elfos por sua autonomia e desobediência. É dessa forma que Titânia acaba enfeitiçada e se envolve com Bottom, depois de transformado em asno. Contudo, mesmo apaixonada por Bottom, sob o efeito da magia, estado em que se esperaria dela um comportamento mais dócil, esta continua sendo dominadora e imperativa, controlando todas as ações do tecelão encantado.
TITÂNIA – Dorme, que te aninho nos meus braços. Fadas, duendes, vão-se embora, e espalhem-se por aí. (SHAKESPEARE. Sonho de
uma noite de verão, 2006. Ato IV. Cena I. Tradução de Beatriz
Viégas-Faria. p. 85).78
Pode-se observar, nesse excerto, que Titânia apresenta uma atitude autoritária também com as fadas de seu reino, personagens criadas por Shakespeare a partir de contos populares da cultura oral europeia, bem como de figuras mitológicas da Grécia Antiga; trata-se de espíritos da natureza,denominados de ninfas. No texto do Bardo, seus nomes fazem referência a elementos naturais: Peas-blossom, na tradução de Barbara Heliodora passou a ser Ervilha de Cheiro; Cobweb foi traduzido como Teia de Aranha; Moth, traduzido como Mariposa; e Mustard-seed foi chamada de Semente de Mostarda. Como em várias cenas da trama, nesse trecho, aparecem também traços de sexualidade: antes de dormir, no final dessa cena, a rainha pede que Bottom se deite em seus braços e ordena que todos saiam do local, assim sugerindo que teriam um contato mais íntimo como casal. Pode-se também citar, como exemplo das conotações de erotismo, as cenas dos quatro jovens atenienses na floresta, que se comportam de maneira totalmente diferente de quando estão na cidade.
Leia-se no excerto a seguir:
TITANIA – Then I must be thy lady […] (SHAKESPEARE. A Midsummer night’s dream. 1994. Act II. Scene I. p. 283).
77
OBERON – Do you amend it, then; it lies in you:
Why should Titania cross her Oberon? […] (SHAKESPEARE. A Midsummer night’s dream. 1994. Act II. Scene I. p. 284).
78
TITANIA – Sleep thou, and I will wind thee in my arms – Fairies, be gone, and be all ways away. (SHAKESPEARE. A Midsummer night’s dream. 1994. Act IV. Scene I. p. 294).
TITÂNIA – Vamos lá, sirvam o cavalheiro. Levem-no até o meu caramanchão. A lua, parece-me, exibe um olhar lacrimejante e, quando ela chora, choram todas as florezinhas, lamentando-se por alguma castidade violentada. Amarrem a língua do meu amor, tragam- no em silêncio. (SHAKESPEARE. Sonho de uma noite de verão, 2006. Ato III. Cena I. Tradução de Beatriz Viégas-Faria. p. 57).79
Observa-se, ainda, a presença da sexualidade nas cenas em que são comentadas algumas das ações da personagem Oberon, rei dos seres mágicos. Contudo, nesse caso, há a denotação de machismo e promiscuidade; evidenciando-se, então, aspectos da personagem, que aparece como prepotente, machista e ciumenta. Por conta dessas características, Oberon exerce um papel importante dentro da trama, pois é devido ao seu ciúme e a sua prepotência, que ele arquiteta um plano de vingança. A partir dele, serão geradas mais complicações e situações cômicas.
Puck ou Robin Goodfellow é o súdito de Oberon e efetivo autor de brincadeiras embaraçosas, como a de transformar, parcialmente, o tecelão em asno. Também é responsável por enganos e confusões, como a paixão inesperada de Demétrio e Lisandro por Helena. Segundo Ryan (2009), a personagem Puck foi criada por Shakespeare, tendo como referência a figura folclórica europeia homônima, considerada malévola.
O pernicioso e debochado Puck shakespeariano é a personagem mais burlesca da trama, pois se diverte ao realizar, assistir e depois relatar as brincadeiras que ele arquitetou. No texto, mais especificamente, na primeira cena do segundo ato, há uma longa descrição dessa figura dramática, apontando pontos positivos e negativos de seu caráter escarnecedor, festivo e festeiro.
O dramaturgo, novamente, cruza ficção e realidade, mas, dessa vez, alinhando o enredo à presença do leitor/espectador. Na cena final, a personagem Puck, que cria e soluciona diversos conflitos na trama, também arremata a peça, falando ao público que, caso alguém tenha se ofendido com o que assistiu, que apenas imagine que tudo não passou de um sonho. Além disso, o elfo se compromete a reestruturar o espetáculo, o que pode ser interpretado como um modo de falar ao espectador sobre o caráter de incompletude da obra de arte. Lê-se:
79
TITANIA – Come, wait upon him; lead him to my bower. The moon methinks looks with a watery eye;
Lamenting some enforced chastity.
Tie up my love‟s tongue, bring him silently. (SHAKESPEARE. A Midsummer night’s dream. 1994. Act IV. Scene I. p. 289).
BUTE80 - [...] Perdoai-nos, e haverá emenda. No caso de sorte imerecida,
Escapando nós de vaias viperinas, Como sou um Bute honesto, Das retificações eu me encarrego. Não sou Bute mentiroso
E dou boa-noite a todos. Palmas, se quiserdes bater!
Em troca, vou a peça refazer (SHAKESPEARE. Sonho de uma noite
de verão, 2006. Ato V. Cena I. Tradução de Beatriz Viégas-Faria. p.
120)81.
5.2 AS PERSONAGENS MÍTICAS: AS RELAÇÕES ENTRE AS MITOLOGIAS