O contato dos Jaminawa com o não índio se dará como na maioria dos casos dos povos indígenas na história. Os Jaminawa terão que deixar de ser um povo autóctone, para serem migrantes entre os rios que encontravam e as regiões que melhor ofereciam condições de sobrevivência; depois do contato com os caucheiros peruanos a partir de 1881, terão que trabalhar na exploração de caucho e seringa; do rio Chandless no Peru, migram para o rio Iaco no Acre e lá começam a trabalhar compulsoriamente nos seringais, já no início do século XX.
Durante seus processos migratórios, os Jaminawa buscam novas estratégias de sobrevivência, sejam nas proximidades de novos rios que encontram durante as mudanças que realizam devido a aproximação dos exploradores de caucho na região em que originam-se ou
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em novos seringais após o arregimento por parte dos seringalistas no Acre. Essas estratégias traduziram-se na mudança constante de moradia e fixação em novas regiões, além do trabalho forçado que exerceram para aos “patrões”.
De tal modo, as situações que o povo Jaminawa terão que enfrentar ao longo do contato com o “novo mundo” serão de dificuldades, massacres, perdas significativas por conta de epidemias e buscas por alternativas que os mantenha unidos e preservando sua cultura. Neste sentido, terão uma característica comum à outras situações na história, entrarão em conflito com outros atores sociais, genericamente chamados de “civilizados”. Porém, tenhamos conhecimento que muitos agiam de acordo também com os próprios interesses, articulavam-se com os próprios colonizadores ou investidores21 para sobressaírem-se em determinadas situações, atuando assim como importantes sujeitos na História no Brasil22.
Como principal característica, são diversos os fatores que implicam na perambulação dos Jaminawa de uma aldeia para outra, assim como entre uma cidade e mais tarde um novo espaço. Ainda não há um convergência de termos para caracterizar tal característica, Calavia Sáez (2006) chama de “nomadismo”, Castela (2011) denomina as práticas andarilhas de “seminomadismo” e os próprios Jaminawa chamam de “mudanças constantes”, porém todos partilham da mesma ideia, os Jaminawa estão em constantes variações espaciais.
A concentração populacional indígena e o aspecto urbano que se desenhou em Assis Brasil, na fronteira com o Peru e a Bolívia, passaram a induzir a paralelismos com as regiões de Iñapari (Peru) e Bolpebra (Bolívia) que, assim como Assis Brasil, do lado brasileiro, constituem centros de atração da população indígena das aldeias; estas cidades (Iñapari e Bolpebra) possuem fluxos contínuos de trânsito pessoal e apresentam facilidades econômicas para se comprar aquilo que do lado brasileiro tem preço/valor mais elevado.
Não apenas nesta região acontece isso, é um fenômeno amazônico, ou mesmo indígena na contemporaneidade como afirma Geraldo Andrello (2006) em Iauaretê, no município de São Gabriel da Cachoeira, interior do Estado do Amazonas, os índios dessa comunidade são atraídos a viverem por lá porquê o poder local do município de São Gabriel tem a responsabilidade de investir na localidade, em infra-estrutura, ruas, eletricidade, saúde e educação, o que para os Tariano, Tukano, Desana, Pira-Tapuia, Arapasso, Tuyuka, Wanano, Cubeu Hupda, é bastante conveniente viver nesse espaço mesmo não sendo uma aldeia e que
21 No sentido de invasores.
22 Sobre processos de colonização, migrações e etnicidade, ver a dissertação de mestrado “Migrações Xukuru do
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vem passando por um processo de municipalização em decorrência da “assistência” que a prefeitura de São Gabriel presta (ANDRELLO, 2006, p. 8, 191).
Não é a fronteira ou limites que atraem os indígenas, e sim, os marcos
aproximatórios que são exercidos quando da justaposição de duas ou mais localidades, são as
facilidades econômicas em Iñapari e a ausência de legislação específica quanto o consumo de bebidas alcoólicas do lado peruano que tornam estas práticas mais evidentes dos dois lados; assim como o município de São Gabriel da Cachoeira que exerce a influência social, polícia e econômica sobre Iauaretê.
Após as relações com os não índios, este povo irá criar maneiras de afirmarem-se nas cidades. Alguns relatos demonstram quais são as necessidades destes sujeitos a estarem movimentando-se constantemente entre os espaços da aldeia e da cidade:
Graças a Deus, eu acho que nas terras indígena, nas aldeia indígena dos jaminawa, eu acho é que não é pescaria assim tem muito, porque assim lá mais é cultura, aqui na cidade não é isso, tem a pescaria, tem muitas caças; é que talvez por causa do emprego, porque dentro da política ta, no política branco, tão chamando mais é os indígena dizendo aqui é que vai dar emprego, é negócio da educação, é isso que dando problema, educação e emprego, então isso é que ta tendo dificuldade aqui nos município; mas o negócio do alimentício, do alimento outras coisas ainda isso daí ta na nossa cultura, presente ta no forte isso aí não acabou graças a Deus (Liam Jaminawa, 29 de Novembro de 2012, Assis Brasil-AC).
Segundo o entrevistado, não tem sido a ausência de comida que tem levado à busca de empregos na cidade, não há carência de animais para caça e muito menos na atividade da pesca, os costumes e modos de alimentação ainda são algo que os Jaminawa gostam de valorizar e exibir. Na fala acima se pode extrair que fome na aldeia não têm passado, mas a
atração pelo dinheiro através das promessas políticas em épocas de eleição, promessas de
cargos em repartições públicas no município, tem sido um dos motivos da migração Jaminawa para a cidade, aumentando a população indígena em Assis Brasil; está claro que índios têm sido inibidos a virem à cidade para votar e serem beneficiados por isso, através das promessas políticas de favorecimento.
O povo Jaminawa não possui nenhuma terra indígena, as terras na qual podem ser encontrados vivendo em aldeia, são terras que foram demarcadas para outros povos, como é o exemplo da TI Mamoadate para os Manchineri; pelas constantes migrações que os Jaminawa fazem, e por uma concepção, de que, o problema dos indígenas é um problema de gestão, ou
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seja, terras há, mas os indígenas não estão “usufruindo”, então não é preciso mais demarcar terra para os índios, pensa assim o Poder Público.
No Estado do Acre, desde o ano 2000, não há nenhum processo de demarcação de terra, apenas as terras dos Apolima-Arara correm em processo avançado; a face mais cruel dessa triste realidade de indígenas sem-terra em plena Amazônia, é manifestada no total abandono do povo Jaminawa que, sem ter terra e nem para onde ir, fica em grande número vagando pelas ruas das cidades.
O antropólogo Jorge Bruno Sales Souza (1999) apresenta seus resultados antropológicos acerca dos Jaminawa durante a realização de um laudo técnico para o Ministério Público Federal no Acre23; Sales Souza expõe questões bastante próprias aos Jaminawa, como a fascínio por produtos industrializados, como utensílios de cozinha, roupas, calçados, comida e dinheiro, além do deslumbre que exercem sobre o espaço urbano e seu “aspecto” colossal da sociedade de mercado.
Sales Souza assim como Calavia Sáez apresenta os Jaminawa como um povo ausente de cultura própria e vivendo em alteridade com face à cultura dita “ocidental” bem como a tomada de bens culturais alheios para poderem ter uma referência e expressarem-se em quanto um grupo pulverizado pelos contatos com a “sociedade de consumo”. O caso dos Jaminawa traduz-se na ressignificação a partir do próprio valor cultural do dominador:
Olha, como eu falei antes, por motivo, por qual motivos da gente vir até à cidade, por qual razão a gente vem até à cidade; os governante, os atores que estão ali na frente não olha pra gente, que nós somos os verdadeiros guardiões daqui né, e assim nós fomos expulsos, nós fomos tomado as nossas terra, pelos fazendeiros, pelos colonheiros, entende, e assim, nós viemos pra cidade porque não temo aonde ficar, nossas terras não são demarcadas, por esse motivo a gente vem pra cidade, e a gente aprende as coisas do homem branco que não é da gente; porque se nós tivesse as nossas terras demarcadas, as nossas coisas da aldeia né, seria muito melhor pra nós, caso que a nossa aldeia, nossa terra entendeu, dançar mari, dançar essas coisas mais (Laércio Jaminawa, 23 de Abril de 2012, Assis Brasil-AC).
O deslocamento entre as cidades e as aldeias são uma característica cultural adquirida durante os processos de pós-contato. Suas andanças e rápidas adaptações a novos lugares, originam-se nas mudanças entre o vale do Acre e do Purus. As informações de Sales Souza apresentam uma direção ao que seria essa incessante pretensão de habitar na cidade, como está dito em matéria veiculada pelo Jornal Página 20:
34 Alguns deles, os mais idosos, têm até aposentadoria e mesmo após receber o dinheiro permanecem nas ruas pedindo roupas, objetos e qualquer tipo de produto industrializado. O fascínio pelos matérias produzidos pelo homem parecem exercer sobre eles um desejo pulsante de obter aqueles produtos, parece que criaram uma nova necessidade (PÁGINA 20, 2002).
A grande capacidade adaptativa que dispõem os Jaminawa a novos ambientes, funciona como trunfo nos momentos difíceis, é em decorrência da densa relação que possuem com a morte que não se preocupam em construir grandes moradias. Em fala para o relatório de Sales Souza (1999), Lauro Jaminawa diz que: “sempre que morre algum parente o grupo sai em busca de outros lugares”. Consideram que permanecer no lugar de falecimento de um ente querido é muito triste.
Portanto, a movimentação espacial dos Jaminawa caracterizada como “nomadismo” ou “seminomadismo” como expressam Castela e Calavia Sáez, origina-se nas trocas que os grupos formadores exerciam entre si antes dos contatos, essas relações sofreram abalos durante os assomos para o trabalho forçado com os caucheiros e seringalistas; mais tarde durantes as fugas que exerciam para fugir das dominações que sofriam, qualquer lugar lhes serão bem aceitos desde que não tenham que trabalhar compulsoriamente. Tudo isso somado mais as repulsões que possuem à morte lhes dispõem como um povo andante.
Se, se for possível descrever um “cenário social” que dê condições para a observação do modo de vida deste povo, seria justamente os grupos de famílias espalhados por diversas localidades. Como Calavia Sáez dispõe: “[...] a própria interação entre os Yaminawa é rala e difícil de observar no dia a dia, fora de um círculo familiar muito estreito” (CALAVIA SÁEZ, 2006, p. 18). Imaginados sempre como índios do “centro24” da selva, são também com constância, índios das margens da cidade25.