Considerando que o estresse é uma experiência individual, os autores (Codo, Soratto & Vasques-Menezes, 2004; Couto, 1980; Guimarães & Freire, 2004; Tamayo et al., 2004) fazem menção a inúmeros fatores que podem ser considerados como seus determinantes. Nos últimos anos, as pesquisas realizadas sobre a importância dos fatores psicossociais no trabalho, bem como de outras variáveis que ajudam a humanizá-lo e a transformá-lo numa atividade que atenda às inevitáveis aspirações do profissional à felicidade, têm proporcionado o acúmulo de forma progressiva a lista de estressores. Além disso, é muito provável que as transformações recentes ocorridas no ambiente do trabalho, tais como a ênfase nas competências e habilidades, a precariedade do trabalho e as privatizações, sejam fontes de estresse para muitos profissionais, como discutidos anteriormente nesse estudo.
Identificar as fontes de estresse no trabalho é uma tarefa bastante complexa. Muitas vezes, porque, em última análise, o que decide se um fator laboral é um estressor depende da interpretação que o profissional lhe dá, ou atribui da sua própria vulnerabilidade e das estratégias de enfrentamento disponíveis no seu repertório vivencial, o que leva, mesmo assim, a identificação de vários conjuntos de estressores.
Os estressores têm sido agrupados em três grandes categorias, que assim se apresentam: fatores específicos ao trabalho, fatores organizacionais e fatores individuais. Entretanto, vale ressaltar que vários autores desconsideram a última categoria e enfatizam os determinantes laborais e organizacionais. Cooper e Cartwright
(1997) consideram a interface trabalho-família enquanto Beehr e Newman (1978) insistem em fontes extra-organizacionais. Estes autores apresentam quatro categorias de estressores:
1- Exigências e expectativas do papel (ambiguidade, conflito, sobrecarga);
2- Exigências do trabalho e características das tarefas (responsabilidade, concentração, viagens);
3- Fatores organizacionais (clima, liderança gerencial, estrutura, sistema de comunicação);
4- Fatores extra-organizacionais (condições de deslocamento para o trabalho, exigências do consumidor, desenvolvimento tecnológico e científico).
De acordo com Kahn e Byosiere (1992) os antecedentes do estresse podem ser elencados como:
1. Organizacionais (tamanho da organização, características do papel e da tarefa, bem como o próprio deslocamento cotidiano da residência até a organização); 2. Estressores na vida organizacional, isto é, estímulos gerados na vida
organizacional, que provocam consequências negativas nas pessoas e expostas, de natureza física (barulho, iluminação), ou psicossocial (ambiguidade do papel, conflito entre papéis, conflito interpessoal no trabalho, sobrecarga de trabalho e clima organizacional);
3. Características pessoais como mediadores do estresse.
O modelo integrador de Kahn e Byosiere (1992), o qual concebe ações recíprocas entre percepção, antecedentes organizacionais, estressores da vida organizacional, respostas e consequências do estresse, características do indivíduo e propriedade da situação, considera o estresse ocupacional como um processo decorrente de eventos organizacionais ou do trabalho. Para Paschoal (2004), o estresse ocupacional
é definido como um processo em que o indivíduo percebe demandas do trabalho como estressores, os quais ao exceder sua habilidade de enfrentamento, provocam no sujeito reações negativas. Portanto, a concepção aceita sobre o estresse ocupacional é que ele é um fenômeno que ocorre mediante um conjunto de variáveis pessoais e organizacionais, mas que, fundamentalmente passa pela avaliação e pela percepção do indivíduo.
Pesquisas realizadas com modelos causais e utilizando equação estrutural como aponta Tamayo et al. (2004) têm mostrado que a maior parte dos determinantes propostos nas diversas classificações, relacionados com as exigências do trabalho e com a vida organizacional, são de fato, fontes de estresse, sendo que os fatores específicos do trabalho e os fatores organizacionais são os determinantes mais importantes do estresse no trabalho.
De acordo com o foco da frequência e da intensidade, os fatores estressores podem ser classificados em agudos ou crônicos. Os agudos são de curta duração, ocorrem com pouca frequência e apresentam alta intensidade. Dick (2000) ao realizar estudos relativos a natureza dos estressores agudos, encontrou três tipos de ocorrências nas quais se apresentam efetivamente nos casos de violência, quando ocorrem mudança de papel ou de trabalho, e diante dos conflitos com colaboradores e superiores.
Os estressores crônicos são de natureza diferente. Eles têm duração relativamente longa, podendo sua intensidade ser alta ou baixa. Um exemplo pode ser o clima organizacional, cujas características são relativamente duradouras.
A classificação dos estressores organizacionais é de importância secundária do ponto de vista prático. O que interessa é poder estruturar as organizações sobre dois eixos fundamentais, a produção e o bem-estar do trabalhador. O desafio para gestores e líderes organizacionais vinculados a área de saúde é proporcionar ambientes de trabalho, climas e culturas organizacionais nos quais os trabalhadores possam produzir
ser valorizados e felizes (Quick et al., 1997). Identificar fatores psicossociais no trabalho auxilia no desempenho das atividades, minimizando desgaste e retrabalho.
Há consenso entre alguns autores (El-Batawi, 1988; Fernandes, 2008; Kalimo, 1998; Levi, 1988; Villalobos, 2004) quanto à concepção de fatores psicossociais no trabalho, compreendendo-os como elementos do ambiente organizacional, que, ao serem vivenciados pelos trabalhadores, sofrem influências de variáveis de caráter individual. Ainda que haja concordância, ao abordá-los, tratam diferentemente de tais fatores, por vezes situando-os dentro de um macrocontexto histórico e social, ou enfatizando suas origens e efeitos.
Ao estudar a relação entre estresse e trabalho, Villalobos (2004) considera que os fatores psicossociais do trabalho representam um conjunto de percepções e experiências do trabalho, ou seja, consistem em interações entre o trabalho, o ambiente laboral, as condições da organização e as características pessoais do trabalhador, suas necessidades, culturas, experiências, estilo de vida e sua percepção de mundo. Inclui, entre os principais fatores psicossociais do trabalho geradores de estresse, aspectos da organização, gestão e processo de trabalho, assim como as relações humanas. Situa a organização em um contexto histórico, com o seu conjunto de problemas demográficos, econômicos e sociais, no qual interage.
Contempla, portanto, as variáveis do macrocontexto, sua interação com os elementos do ambiente organizacional e o indivíduo com sua multideterminação. Fernandes (2008), ao avaliar os fatores psicossociais do trabalho e sua relação com a saúde psíquica, evidencia também a influência de aspectos intrínsecos ao individuo na produção do estresse, considerando que, nesta relação, intervêm as atitudes, o estilo de vida, estratégias de cooping e apoio social, assim como a vulnerabilidade e a resistência ao estresse. Embora não desconsidere os fatores externos à organização, enfatiza
mediadores da situação ou do indivíduo que podem fortalecer ou debilitar a influência de fatores do ambiente de trabalho.
Sobre os fatores psicossociais e suas implicações na saúde do trabalhador Kalimo (1988), como Fernandes (2008), enfatizam a interação de aspectos do ambiente de trabalho e variáveis de caráter individual e subjetivo, como as experiências passadas, os fatores genéticos e condições de vida que vão influenciar o modo como os indivíduos experimentam e interpretam suas vivências. Embora também considerem as diferenças individuais como fatores que intervêm na relação trabalho-saúde, ressaltam a importância de avaliar tais aspectos com enfoque no grupo, quando consideram julgam que a influência de um fator psicossocial é intensa, na medida em que seja menor a importância da vulnerabilidade individual.
Levi (2005) identifica a origem dos estímulos psicossociais em processos sociais que se situam em uma estrutura social e afetam o organismo por meio da sua percepção e experiência. Considera, em seu modelo teórico, no que se refere aos aspectos psicossociais, a influência de variáveis interatuantes extrínsecas e intrínsecas, sociais, mentais ou físicas que tem como função modificar a ação dos fatores causais na fase do mecanismo, do precursor ou da enfermidade, promovendo ou evitando o processo que culmina na doença. Este autor amplia as concepções anteriores na medida em que situam os fatores psicossociais num enfoque sistêmico, portanto com retroalimentação contínua.
Embora o destaque na abordagem dos fatores psicossociais no trabalho tenha sido o seu estudo como precipitador do estresse, El-Batawi (1988) classifica estes fatores em duas categorias os que têm efeitos negativos à saúde e os que podem contribuir positivamente para o bem-estar dos trabalhadores. Ele enfatiza o trabalho
como fator de fomento à saúde, não devendo, portanto, subestimar os seus aspectos positivos e efeitos estruturadores.
Ainda que não façam referência direta a fatores psicossociais, outros autores, ao abordarem os impactos dos elementos do ambiente organizacional na saúde mental do trabalhador (Codo, Soratto & Vasques-Menezes 2004; Filgueiras & Hippert, 2002; Jacques, 2002; Lima, 2007; Monteiro & Gomes, 1998; Seligman-Silva, 1997), discutem a sua interação com variáveis individuais, conquanto os estudos desenvolvidos utilizem abordagens diferenciadas que variam entre a quantitativa, a qualitativa e a mista.