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Chapitre 2. Multiplex microhaplotypage par clivage d’une chimère ARN/ADN simple-

2. Matériels et Méthodes

4.3. L‘analyse des microhaplotypes

Quando se migra para outro país o imigrante é confrontado com novas perspectivas. Em outro contexto, o imigrante coloca à prova o que alguns chamam de “cultura pré- migratória” frente à “sociedade receptora”, quase sempre ocasionando em inúmeros “choques culturais”. Um deles é sobre o próprio nome e sobrenome.

Quase que invariavelmente todos os brasileiros que partem rumo ao Japão são em um momento ou outro confrontados com o próprio nome. Para além de uma questão identitária, política ou mesmo quando apreendem (ou são apreendidos) por diferentes japonesidades, os nikkeis ainda precisam enfrentar questões legais referentes aos próprios nomes de modo muito particular.

Para abrir uma conta em banco, registrar um novo endereço nos correios, adquirir um inkan, comprar um celular ou mesmo fazer uma simples carteirinha de sócio de uma vídeolocadora, a lógica “brasileira” dos nomes é colocada frente a frente com a lógica

japonesa, esta atravessada em maior ou menor grau pela própria idéia de família e modelo do ie.

A própria lógica urbanística e o sistema de identificação das residências respeitam os nomes das famílias. Uma cidade japonesa tem vários distritos, divididos ainda em sub- distritos, blocos menores e quarteirões, cujas residências em seu interior são identificadas pelos nomes das famílias dos moradores em oposição à numeração das casas como manda a proposição européia.

Percebemos aqui que o nome adquire uma dimensão importante da própria vivência de um brasileiro no Japão, onde as orientações e dinâmicas quanto ao próprio uso dos nomes é diferente. Vejamos o meu caso, o de um não-descendente de japoneses que precisa ser reconhecido burocraticamente como estrangeiro no Japão.

Assim que cheguei ao Japão me solicitaram que, para além do Registro de Estrangeiro, abrisse uma conta em um banco japonês e registrasse meu novo endereço numa agência de correios. Como decidi alugar um apartamento no Japão não relacionado com qualquer tipo de alojamento na universidade, é evidente que precisaria recorrer a vários outros tipos de serviços que dependiam desse reconhecimento legal de “estrangeiro” vivendo no Japão.

O Registro de Estrangeiro – ou Gaikokujin Tōroku – é de responsabilidade do

Ministério da Justiça do Japão e é um procedimento que deve ser realizado por todos os estrangeiros que acabaram de chegar ao país, dirigindo-se imediatamente para a Prefeitura Municipal de sua cidade munido do passaporte.

Depois de preenchido um formulário com os dados do passaporte, o estrangeiro recebe um protocolo que atua como documento provisório durante duas semanas, sendo recomendável sair de casa sempre munido do passaporte durante esse período.

Com o Gaikokujin Tōroku em mãos já é possível sair de casa sem o Passaporte,

constando o nome, o número do registro, número do Passaporte, a nacionalidade, foto e o tempo permitido de visto. Com ele se abre o leque de possibilidades quanto à solicitação de

vários serviços56 no Japão que implicam em contratos mensais, semestrais, anuais, contas em

56 Como percebe Sasaki (2009), a questão também resvala no Registro de Residência japonês, outro requisito

fundamental para a solicitação de serviços a qual não fui confrontado por conta da minha presença enquanto pesquisador do governo japonês e não residente.

banco, etc. Como expresso no meu passaporte, meu Gaikokujin Tōroku reproduzia: “Nome: Victor Hugo; Sobrenome: MartinsKebbedaSilva”.

Munido da minha identidade reconhecida pelo governo japonês, o próximo passo era adquirir um inkan ou hanko, um carimbo pessoal que registra o sobrenome do indivíduo e tem o mesmo valor de uma assinatura pessoal no Ocidente, constituído geralmente de 1, 2 ou 3 ideogramas em uma área relativamente pequena.

O inkan é requisito para assinar os contratos da locação do apartamento, abrir conta em banco, solicitar serviços de telefone, água, luz e gás, etc. e pode ser adquirido em lojas especializadas que geralmente mantém um grande estoque de carimbos com os nomes japoneses mais comuns. Contudo, eis o primeiro impasse: como conseguir um inkan japonês que constasse “MartinsKebbedaSilva”?

Como diz Sasaki (2009), esse tipo de impasse no sistema legal é motivo de vários problemas e irritações entre os estrangeiros que acabam de chegar ao Japão, pois enquanto o nó não é desenrolado, é bastante difícil finalizar qualquer tipo de acordo ou contrato de serviços. Para o inkan, um carimbo cuja área de impressão não cabe mais do que 1 ou 2cm de diâmetro, tive que fazer a minha primeira opção ou recorte dentro do meu estoque de nomes, adotando o DaSilva ou DaShiruba (ダシルバ) como assinatura oficial no Japão.

Com o Gaikokujin Tōroku e inkan pude selar o contrato de locação do apartamento e

solicitar os demais serviços, mas sempre sendo confrontado ou obrigado a selecionar ou abrir mão de um ou outro nome. Para o banco era impossível abrir uma conta como “Victor Hugo da Silva”, “Victor Hugo Kebbe”, “Victor Hugo M.K. Silva” ou mesmo “Victor H.M.K. Silva”,

pois o dado deveria ser exatamente igual ao informado no Gaikokujin Tōroku.

Tendo em mente que os nomes e sobrenomes japoneses são compactos e escritos em kanji e/ou com o uso dos silabários japoneses, tampouco espaço havia para a impressão do meu nome completo nos documentos bancários. Constava no meu cartão de crédito japonês “VICTOR HUGO MARTINSKE”, ocorrência que se repetiu de modo similar ao solicitar os serviços de água, gás, telefonia, etc.

Já nos documentos da Universidade de Shizuoka ou da Universidade Nanzan de Nagoya, fiquei com Victor Hugo da Silva. Fácil, compacto e “diferente” o suficiente no Japão para que me reconhecessem rapidamente. “Ah, o pesquisador do Brasil.” De certa forma, por

não ser descendente e por não estar vinculado ao Koseki, nestes momentos é como se eu pudesse escolher, alternar ou combinar meus nomes conforme a necessidade.

Dado o sistema legal japonês de Registro Civil, os nomes japoneses são sempre precedidos do nome da família e depois do primeiro nome, sendo raros os casos de indivíduos com 3 nomes (Sobrenome, Primeiro Nome e Nome do Meio). Temos então WATANABE Yoshios, MAKOTO Mayas, OKABE Shigerus, etc, mas não MARTINSKEBBEDASILVA, Victor Hugos ou tantos outros nomes longos que seguem a lógica de nomeação praticada no Brasil. Os nomes longos acabavam denotando não apenas o estranhamento por parte dos japoneses, como uma série de questões e curiosidades acerca das minhas origens.

Certa vez fui convidado por um amigo brasileiro a comparecer em um churrasco de japoneses na região de Inasa, todos eles engajados em atividades teatrais. Para além das discussões corriqueiras inerentes ao próprio evento, me chamou a atenção quando fui rodeado por eles e passei a ser questionado justamente sobre o meu nome, gerando acalorada discussão.

Como no Japão ainda estão presentes alguns ecos de uma ideologia hegemônica de homogeneidade racial, cultural, etc. (SASAKI, 2009), percebi que era bastante interessante para estes japoneses no churrasco sobre como era possível alguém ser descendente de italianos, árabes e portugueses... ao mesmo tempo.

Essa mistura estava para eles marcada pela própria variedade – e tamanho – dos meus nomes, até que repetiam algumas vezes cada nome em separado, associando a tal ou tal origem, situação que acontecia eventualmente em encontros, eventos e demais confraternizações.

Não vinculado ao Koseki, meu nome aponta uma lógica diferente da japonesa do ie e que para alguns japoneses com quem conversava se transformava em uma narrativa que precisava ser vinculada à família: “esse nome veio daqui, esse dali e aquele outro dali”. A (minha) família adquire assim o papel ou a função de operador lógico dentro dessa narrativa, capaz de explicar a minha própria existência, o que eu estava fazendo no Japão, em Shizuoka, em Hamamatsu ou naquele churrasco naquele dia em Inasa. Eventualmente esse tipo de conversa terminava com risos mesclados com espanto por parte dos japoneses: “ah, realmente, esse é o Brasil”.

Apesar de ter ciência da minha condição particular no Japão (de não-descendente, por estar no Japão e por justamente não ser vinculado ao Koseki), logo desde o começo da minha

estadia e da minha pesquisa fui confrontado justamente com os problemas dos brasileiros vivendo no Japão dentro dessas diferentes lógicas de nomeação. Os nikkeis gozam, ao contrário de mim, da entrada e reconhecimento no Koseki, porém levantando outros problemas de ordens muito distintas.

Se eu podia – ou às vezes era obrigado – escolher um ou outro dos meus nomes para identificação, os decasséguis devem se prender ao Koseki se quiserem permanecer no Japão e ter assim uma série de direitos. Contudo, alguns escapam do Koseki, muitas vezes inventando outras escolhas.