Avantages du travail de groupe :
II.4. L’analyse conversationnelle : analyse de la communication et des échanges verbaux:
O historiador Eric Hobsbawm, em seu clássico ―Era dos Extremos‖, argumenta que a grande mudança do século XX, a mudança social mais convulsiva, a maior revolução que aquele século testemunhou foi a morte da classe camponesa (HOBSBAWM, 1995). Como resultado, significou o aumento da urbanização cujos índices revelaram, já na primeira década do século XXI, que a maior parte da população mundial vivia nas cidades.
O processo de globalização ocorre paralelo à urbanização e teve início nos países europeus com a industrialização (e diversos outros fatores) no século XIX. O fenômeno da globalização se revela mais timidamente desde os processos capitalistas do regime de acumulação intensiva (fordismo-keynesiano) e se estende, culminando no atual regime de acumulação flexível, ―também chamado de pós-fordismo, que se acompanha de um receituário neoliberal voltado para a desregulamentação da economia e para a limitação do papel social do Estado‖ (CIDADE et al.,2008, p.25).
Para Knorr (2012), os processos da neoliberalização da economia global causaram grandes mudanças estruturais nos regimes de governança. A reestruturação neoliberal alterou profundamente o contexto geopolítico em que a vida urbana se desdobra pelo desmantelamento da primazia do Estado-nação como a lógica chave estruturadora territorial do espaço global. O Estado-nação já foi o árbitro principal da vida política, econômica e social com escalas de hierarquia claramente definidas na relação do Estado e suas instituições. O neoliberalismo é descrito por Harvey (2005, p.2) como ―uma teoria de práticas político-econômicas propondo que o bem-estar humano pode ser mais avançado liberando liberdades e competências empreendedoras dentro de um quadro institucionalizado caracterizada por fortes direitos de propriedade privada, livre mercado e do livre comércio‖.
De acordo com Brenner (apud KNORR, 2012), o neoliberalismo não é um sistema uniforme, chegando diferentemente em diversos lugares dependendo do contexto no qual é recebido. De Mattos (2010) afirma que, com o avanço da reestruturação econômica e da
informatização, se originou uma ampliação geográfica de um espaço de acumulação como expressão básica da globalização.
1.2.1 Dinâmicas da globalização: impactos na configuração territorial O processo de globalização inclui não somente o campo econômico, mas se mostra como um conjunto de processos que também se estende nos campos político, ambiental, cultural e social, e as atividades que decorrem desses processos são transfronteiriças, interregionais e transcontinentais. Segundo Held e McGrew et al. (1999), a globalização envolve fluxos e redes de atividades, interação e poder. De acordo com os autores, esse fenômeno incorpora uma transformação na organização espacial das relações e transações sociais.
As forças da globalização não impactam as cidades da mesma forma. A globalização implica sociedades integradas em rede na era informacional, diluindo fronteiras territoriais, mas, ao mesmo tempo, denota uma homogeneização da cultura, da economia, não enfatizando a história, a cultura e a formação social dos povos e dos locais por eles habitados. Com isso, há impactos na configuração territorial e de formas diferencidas que se mostram mais evidentes com as transformações tecnológicas: a pouca intervenção do estado, as novas relações entre as ações pública-privadas, e entre os níveis local, regional, nacional e supranacional. Esses impactos podem beneficiar cidades que estão relacionadas a circuitos globais de poder e informação, e, portanto se explicam as extremidades existentes na questão da inclusão/exclusão entre as cidades e nas cidades. A partir do momento que temos cidades que estão interligadas nesse circuito global, há as que estão fora – o caso das diferenças entre os paises do ―norte‖ e os do ―sul‖.
Borja destaca a dialética existente na cidade do século XXI, expressando que entre:
[...] o bem e o mal, a integração e a marginalidade, coesão social e desigualdade crescente, desenvolvimento sustentável e dinâmicas insustentáveis, produtividade competitiva e enclaves excludentes, democratização da gestão urbana e a crise da governabilidade das regiões urbanizadas, globalização e localismo etc., estão em permanente conflito. (BORJA, 2007).
Ainda, Borja enfatiza que os efeitos perversos dessas transformações urbanas, denominadas pelo autor como ―revolução urbana‖, não são uma fatalidade senão o resultado de um conjunto de mecanismos econômicos, de comportamentos sociais e políticas públicas como, por exemplo, o caráter determinante da renda urbana na definição do uso do território, a fragmentação dos territórios urbanos extensos e difusos, a homogeneização das pautas culturais como uma imitação global, convertendo-se em obstáculo à integração local, entre outros.
É importante ressaltar as formas da condição metropolitana contemporânea que a urbanização gera. Para Ascher, com o advento dos princípios modernistas sobre o espaço urbano, que tinha como elementos estruturantes da urbanização, a especialização, a mobilidade acelerada pelas tecnologias para transporte de mercadorias e pessoas, o automóvel, os bens de consumo e os serviços públicos do Estado Providência, como resultado ocorreram modificações na estrutura urbana. Assim, a configuração urbana na modernidade para Ascher, se caracteriza pelo racionalismo, o monofuncionalismo, o zoneamento e as grandes intervenções no tecido urbano (CIDADE; JATOBÁ, 2012).
Essa mesma questão tecnológica na configuração metropolitana contemporânea permite, por exemplo, a cidade difusa devido à presença de um transporte metropolitano eficiente de massas, fazendo com que distâncias entre a moradia e o trabalho sejam superadas. Segundo Cidade e Jatobá (2012), as cidades e metrópoles contemporâneas caracterizam-se pela coexistência múltipla de atividades e pela verticalização em áreas centrais e pericentrais, somando-se a tendências a uma ampla expansão periférica. Os autores afirmam que características da expansão urbana e metropolitana das últimas décadas são definidas pela formação de subcentros de comércio e serviços, pela fragmentação e a dispersão da área de assentamento.
Moreira (2004) explica a competição entre as cidades, pois essas deixaram de ser a base da produção industrial e que, na contemporaneidade, passam a viver basicamente de comércio, serviços e turismo. Discute-se o alto preço a ser pago pela hiperurbanização em prol da vida urbana. Essa urbanização, que começou no início do século XX, é um processo que envolve ―a instalação de malhas de transporte rápido, a interligação da rede de cidades e velocidade cada vez maior dos deslocamentos, que favorecem a concentração de pessoas em polos de atração‖ (p.51) e dão continuidade às metrópoles regionais e nacionais. Como consequência, atividades que se instalam nas periferias com o esvaziamento dos centros
urbanos levando a uma descentralização ou dispersão da malha urbana – acelerada nas últimas décadas com uma hierarquização urbana e desigualdades sociais.
Uma questão desafiadora das metrópoles é a de se constituir atores coletivos ―capazes de produzir as políticas adequadas para responder, ao mesmo tempo, a esses interesses e desafios e orientar seu futuro‖ (LEFÈVRE, 2009, p.300). Há dificuldade de se tornarem ―verdadeiros territórios políticos‖ (p.300), visto que, apesar de serem espaços pertinentes para tratar das várias dinâmicas econômicas, políticas, sociais e ambientais, são politicamente inexistentes.
A economia globalizada sustenta disputas entre os territórios, seja no nível entre metrópoles ou na competição interna dos municípios que formam a região metropolitana. As cidades tendem a fazer o oposto do que seria necessário, segundo Lefèvre (2009), para fortalecerem a instituição metropolitana, deixando de buscar alianças institucionais entre as coletividades locais a fim de que estratégias comuns de desenvolvimento fossem executadas. Na prática, ocorre uma fragmentação dos poderes locais, citado por Borja (2007) como um dos fatores desafiadores na governabilidade dos territórios.
1.2.2 Fragmentação governamental, das instituições e do tecido urbano Harvey (2009) afirma que a fragmentação urbana é o maior desafio do planejamento nas cidades. O autor explica que, no contexto atual do pós-modernismo, se cultiva um tecido urbano fragmentado, que é comparado a um ―palimpsesto‖ de formas passadas superpostas umas às outras e uma ―colagem‖ de usos correntes, os quais podem ser efêmeros.
Essa imagem do palimpsesto sugere a existência de um texto primitivo, de origem, que teria sido raspado e dado lugar a outro (HARVEY, 2009, p.69). Logo, o próprio autor pergunta como planejar a construção das próximas camadas do palimpsesto urbano de forma a combinar os desejos e necessidades do futuro sem agredir tudo que já passou antes.
O reflexo do que se vê como tecido urbano fragmentado tem suas origens nos campos econômico, ambiental, social e político. No campo econômico, Storper (2013) recorre à geografia econômica para mostrar o desenvolvimento das forças produtivas de uma região, como os diversos setores desenvolvem, como são afetados por custos comerciais e como moldam as economias das cidades e das regiões. O desenvolvimento das forças produtivas de
uma região irá predominantemente determinar o seu mix de competências, mudanças populacionais e nível de renda.
Dessa forma, Storper afirma que as chaves para a compreensão do desenvolvimento das regiões metropolitanas (city-region) estão na geografia econômica, nas instituições, na inovação e na justiça. A justiça diz respeito ao processo econômico, às interações justas e também aos resultados econômicos. A economia está relacionada à eficiência que pode ser conceituada como estática e alocacional (como retirar o máximo dos recursos) ou dinâmica (como fazer a produtividade aumentar assim como gerar crescimento e desenvolvimento).
No campo político internacional, Dahl (2013) afirma haver uma fragmentação demonstrada no atual sistema de nações soberanas, cada uma defendendo seus interesses nos fóruns internacionais, em vez de trabalhar para o bem comum de todas as nações. Transpondo essa mesma barreira para as instituições de governança e atividades econômicas, Dahl descreve a maioria delas com ―objetivos estreitos e pouca ou quase nenhuma responsabilidade para o meio ambiente ou a sociedade‖. O autor propõe uma governança internacional efetiva e o fortalecimento de governos nacionais, com o intuito de frear as atividades humanas que destroem o meio ambiente, podendo ser chamadas de economia ilegal ou criminal, em que a riqueza é produzida sem escrúpulo moral. O autor se refere à extração ilegal de madeira, à pesca indiscriminada, à extração mineradora indiscriminada , ao tráfico da fauna e de seres humanos, ao tráfico de drogas etc.
De acordo com Carlos (apud PIRES 2008), no processo de metropolização, a globalização e a fragmentação ocorrem tanto no plano do indivíduo como no do espaço. A globalização, ao mesmo tempo em que massifica, rompe limites, quebra identidade, traz como consequência reativa a fragmentação, tendo como exemplo espacial os condominios fechados. Já no indivíduo, a fragmentação se mostra pela diluição dos laços de família, pela ruptura dos vínculos de trabalho, de lazer e do conjunto de referências idenditárias. Prévot-Schapira (apud PIRES, 2008) identifica a fragmentação no espaço como a diluição das ligações orgânicas entre os pedaços da cidade e da repetição das desigualdades em diferentes escalas intraurbanas.
Para Milašinović (2005), a fragmentação é um termo usado para descrever o processo oposto à globalização e se refere às pressões opostas à globalização, esforços para manter uma tradicional independência dos estados e grupos sociais na resolução de alguns pontos-chave independentemente de entidades e atuando além das fronteiras nacionais.
No contexto brasileiro, Pires (2008) afirma que as metrópoles nacionais retratam um modelo de base policêntrica e concentração populacional, bem como atividades econômicas em escala muito superior a outras metrópoles mundiais. Há uma ―perversa competição por investimentos entre as cidades, descompromissada com a sustentabilidade‖ (p.7), tendendo a intensificar a própria fragmentação e a produção insustentável das cidades. Com os desafios das lógicas de apropriação dos espaços, dos recursos naturais e dos benefícios da urbanização, ocorrem impactos sobre a configuração territorial, formando um modelo que ―potencializa a tensão entre a autonomia municipal e o interesse metropolitano, entre poderes locais e estaduais, de forma muito mais grave do que em outros países‖ (PIRES, 2008, p.7).
Essa fragmentação e insustentabilidade geram, no caso brasileiro, apropriação de áreas ambientalmente frágeis e sensíveis para assentamentos humanos, onde os habitantes vivem em condições extremamente precárias e sem acesso à infraestrutura urbana, podendo estar no coração da metrópole, como o caso de muitas favelas no Rio de Janeiro e mesmo na periferia dessa metrópole. Quando não há um processo integrado de planejamento, gestão e políticas públicas, ocorre, por exemplo, o fenômeno das cidades-dormitório, territórios situados em municípios periféricos à cidade-núcleo da região metropolitana, o que, em geral, denota uma baixa renda desses municípios (em relação à metrópole núcleo da região) e pouco dinamismo econômico, comercial e financeiro.
São casos que refletem, segundo Fernandes (2004, p.70), ―uma distribuição desigual e injusta da urbanização entre os municípios envolvidos no processo e suas comunidades, de tal forma que alguns funcionam como cidades-dormitórios para que outros sejam centros industriais avançados‖.
No contexto dos países da Europa ocidental, no Canadá e, visivelmente, nos Estados Unidos, ocorre o fenômeno de novas configurações do subúrbio, as ―edge cities‖. Fiedler e Addie (2008) identificam essa nova forma suburbana, também chamada de ―technoburbs‖, que são zonas suburbanas de uso misto espraiadas na periferia urbana, dependentes do automóvel, com autoestradas, providas de redes de informação e relativamente independentes dos antigos centros das cidades. Não são os subúrbios tradicionais que emergiram no mundo anglo no fim do século XIX, segundo Fishman, mas uma cidade nova (apud FIEDLER; ADDIE, 2008). São novas centralidades que sugiram, tendo o automóvel como um agente principal, concentrando nessas áreas alta renda e dinâmica econômica fora do núcleo central da cidade.
Diante da amplitude e da gravidade dos processos envolvidos na dinâmica da urbanização e do crescimento das metrópoles e, ainda, nas tendências a uma fragmentação, a ação do estado torna-se cada vez mais essencial. Uma das formas de orientar a atuação governamental é o planejamento.