O estágio curricular que tem sido descrito no presente relatório representa o culminar de mais uma etapa do nosso percurso académico na área da educação. Enquanto oportunidade de implementar práticas imbrincadas em teorias, este estágio representou, em ultima instância, um desafio de autonomia pessoal e profissional. Dada a natureza prática do Mestrado em Educação, na área de EAIC, esta autonomia significa que cedo nos é dada a oportunidade de contactarmos diretamente com os meios sociais mais diversos, em contextos normalmente ávidos pela intervenção de um técnico especializado. Mas significa também um acréscimo de responsabilidade perante as problemáticas encontradas, na reflexão sobre possíveis abordagens no sentido de as minimizar.
A autonomia para gerir projetos confere liberdade para o fazermos de acordo com o nosso entendimento, mas desse pressuposto nasce a responsabilidade para fazermos as escolhas mais acertadas, e as mais consentâneas com os pressupostos paradigmáticos e metodológicos que nos guiam. Nesse sentido, a autonomia académica e científica pode ser intimidante, se nos deixarmos assombrar pela complexidade da tarefa, pela intensidade do compromisso, e pela responsabilização perante os resultados.
Como qualquer etapa de crescimento, este estágio proporcionou momentos de satisfação e de realização pessoal, tendo sido também responsável por dúvidas, receios e inquietações várias. No entanto, chegar ao final com a sensação do dever cumprido é gratificante, pelo empenho e dedicação com que encaramos este projeto, pelo esforço despendido na sua concretização, e pela constatação de que os agentes envolvidos fizeram uma avaliação positiva da sua participação no mesmo.
A convivência de vários meses com o nosso público-alvo fomentou a criação de laços de amizade. Nunca esqueceremos a alegria com que teimavam em comparecer às nossas sessões (atividades), mesmo nos dias mais chuvosos, ou a preocupação que demostravam quando procuravam avisar da impossibilidade dessa mesma comparência. O facto de se tratar de um grupo relativamente reduzido, cujos elementos não se relacionavam de outra forma para além do tempo despendido na participação neste projeto, implicou um cuidado redobrado para com as suas necessidades, dificuldades e anseios. Outra das consequências de trabalharmos com um grupo pequeno é uma inevitável, e por vezes desconfortável, maior aproximação e envolvimento com as histórias de vida envolvidas. Embora este projeto tenha um cariz académico e científico, acabamos por descobrir, inevitavelmente, que a área da EAIC se joga também no campo das afetividades e das emoções, com todas as implicações que daí advêm.
Para a instituição que nos recebeu, este estágio serviu para divulgar e dinamizar a sua biblioteca, confirmando que existem outras vias para aproximar as pessoas dos livros. A existência de uma biblioteca numa junta de freguesia é, por si só, algo pouco usual. Contudo, quando vemos, na figura dos seus responsáveis, preocupações para que este seja um espaço frequentado pelos cidadãos, percebemos que esta instituição se procura demarcar das demais, não apenas pelas realizações de maior pendor político, mas sobretudo por via da dinamização cultural e educativa. Este estágio foi ainda equacionado, pela JFSV, como fazendo parte de uma estratégia mais alargada, uma que acabará por lhe permitir encetar um projeto ainda na “gaveta”, uma universidade sénior.
O final do projeto “Leituras e Leitores” poderia ter reconduzido a biblioteca da JFSV ao seu estado inicial, ou seja, ao de um espaço pouco frequentado. Contudo, a entrevista realizada ao nosso acompanhante, no âmbito da avaliação final deste estágio (Anexo X), e alguns meses após o término das atividades desenvolvidas nesta instituição, permite concluir que terá sido lançada uma semente que, acreditamos nós, manterá vivas algumas dinâmicas desta natureza, em moldes idênticos ou apenas nele inspirados, ou ainda para algo completamente novo.
Termos estado envolvidos num projeto desta natureza significou muito em termos pessoais. Desde logo, reforçando as nossas competências de organização de trabalho e gestão de tempo. O
trabalho de intervenção exige ponderação e planeamento, problematização e procura de soluções, e tudo isto feito de acordo com uma determinada calendarização, cumprindo os prazos do projeto e respeitando os tempos da instituição. Este projeto contribuiu também para potenciar a nossa criatividade, desenvolvendo atividades a partir de ideias vagas, com imaginação, e a capacidade de tomar iniciativas, correr riscos, improvisar. Um dos desafios que nos propusemos consistiu em procurar relacionar as atividades que desenvolvíamos, sempre que possível, com a atualidade social do país e do mundo, e também com a agenda cultural da JFSV. Isto exigia conhecer, estar informado, perspetivar, decidir, preparar, esforço que resultou em diversas atividades (Syrisa/Charlie Hebdo, Holocausto Nazi, Tenório, Pachancho, etc.). A nossa capacidade para lidar com dificuldades, e a resiliência necessária para contrariar os imprevistos foram também colocadas à prova quando, por exemplo, vimos o nosso público-alvo ser consideravelmente reduzido. Para vencer esta contrariedade foi também muito importante o papel do nosso acompanhante, que sempre nos encorajou a prosseguir e a nunca desanimar.
Um estágio profissional é sempre um momento em que somos postos à prova, mas configura também uma oportunidade para nos superarmos, para desbravarmos caminhos que nos eram desconhecidos. Sentimo-nos agora mais confiantes no papel de técnico superior de educação, e melhor preparados para enfrentar os desafios que se colocam à sociedade, aqueles em que a intervenção de cariz educativo pode ser determinante. Depois de termos passado pela experiência de conduzir, na íntegra, um projeto de investigação/intervenção, identificamos ainda competências que desenvolvemos ou melhoramos, nomeadamente no campo relacional e pedagógico. Nesta área muito específica da educação, percebemos que devemos adotar sempre a postura franca e despretensiosa de um entre iguais, e compreender que a receção da nossa mensagem depende, em larga medida, da qualidade do canal que criarmos. Compreendemos ainda que um técnico de educação deve ser capaz de pensar em termos pedagógicos, mas agir sem que a pedagogia se faça sentir, ideia próxima da de Pennac (1993), quando afirma: “Que espantosos pedagogos nós éramos, quando não nos preocupávamos com a pedagogia!” (p. 19).
Esta forma de estar e de atuar faz-se também na senda de um perfil de profissional reflexivo, aquele que vê na reflexão sobre as suas práticas um motor de desenvolvimento profissional. A reflexividade é um processo imbrincado na reflexão escrita, tornando consciente o inconsciente e favorecendo a autorregulação das aprendizagens. Quando descrevemos e interpretados acontecimentos e fenómenos, através da reflexão escrita, somos levados a revisitar esses momentos e a perceber o nosso posicionamento perante os mesmos. E quando confrontamos esses momentos e,
posteriormente, os reconstruímos, estamos a fazer uma leitura das razões que nos guiaram e a perspetivar novas formas de atuação.
A nossa reflexão escrita foi fundamental em todas as fases deste projeto, nas notas de campo e relatórios mensais, na escrita do presente relatório de estágio, etc. Este é, aliás, um dos momentos que mais apreciamos, por ser calmo, introspetivo, de balanço, sendo também um motivo de constante preocupação, pela objetividade, clareza de ideias, simplicidade e criatividade. Daqui resulta um esforço constante para sermos concisos, para evitarmos redundâncias, para cumprirmos os limites (de páginas!), etc. O papel do profissional reflexivo, perfil que gostaríamos que fosse cada vez mais coincidente com o nosso, afigura-se, afinal, como um caminho de aprendizagem permanentemente inacabado.
Enquanto subsistema da educação, a educação de adultos é um vasto e rico território que importa conhecer bem para nele melhor intervir. Trata-se de um campo e de uma problemática (Canário, 1999) com características próprias, e com peculiaridades que o distinguem do restante campo da educação. E aqui entra a intervenção comunitária, como forma de aceder a esse universo, de conhecer os contornos das suas problemáticas, de promover a aproximação aos seus agentes, e de interferir nos rumos das suas práticas. Assim, enquadrado neste universo, o projeto “Leituras e Leitores” procurou um posicionamento e uma dinâmica integrada no âmbito da EAIC, mas que o fizesse ao mesmo tempo que procurasse expandir os limites de atuação conhecidos para essa área.
O fio condutor deste projeto intersectou a problemática das literacias, na constante necessidade de ajustar o seu significado à evolução dos tempos, da valorização cultural, na narrativa pessoal que resulta do esforça de cidadania, e no entendimento das possibilidades e limites para o papel das bibliotecas. Assim, e através de uma intervenção desenhada para surtir determinado efeito, este projeto, mais do que apontar caminhos, confirmou alguns dos mais importantes pressupostos que definem a educação de adultos: tratar-se de um processo contextualizado; que a experiência e as histórias de vida devem ser convocadas; que as relações pessoais potenciam as aprendizagens; e que a interação grupal é uma técnica fundamental. Este último, principalmente, resume o principal contributo que este projeto aporta para a área da EAIC, na medida em que enaltece o papel e a versatilidade desta técnica, confirmando o seu enorme, e porventura ainda subaproveitado, potencial.
Terminamos este relatório com os mesmos pensamentos com que o iniciamos: a dinamização de uma biblioteca pressupõe, essencialmente, uma atuação ao nível dos hábitos de leitura. Mas esta problemática há já muito tempo que se transfigurou numa característica endógena da população portuguesa, e infelizmente pelo lado negativo, ou seja, pela ausência destes mesmos hábitos. Se
algum mérito este projeto pode reclamar, é o de ter arriscado soluções alternativas na intervenção sobre esta problemática, o que lhe poderá conferir um certo carácter de experimentalismo. No fundo, o que este documento relata, para além da visão que construímos sobre esta problemática, é a preocupação em descobrir uma forma diferenciada de agir, caminho que, pensamos nós, só um técnico superior de educação saberá propor.