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3. L ES C HARISMATA ET LA REDÉFINITION DE SOI

3.4 L’amour

Na consulta de número 7, o paciente está há dois meses da perda da noiva quando aprofunda o contato com as contradições impostas pelo luto e revela outros sinais de desconstrução que elabora na fé, referindo-se a Deus como antes conhecido:

Ainda não estou muito tranquilo em relação a Ele, mas tenho pensado Nele e voltado a pensar em conversar com Ele, é só que é muito difícil entender esse mundo que Ele criou. Começo a pensar que Clara está sim num mundo espiritual melhor do que aqui, mas era aqui que a gente vivia juntos, e era bom, estava tudo bem, sabe? De repente você se vê tendo que entender tamanha mudança, também é um imenso grau de exigência, não é? Se deparar com tudo isso... e ainda dizer: tá eu entendo, e continuar acreditando e tudo bem, não dá! Não é que me sinta especial ou diferente, sei que existem muitas pessoas que sofrem, mas não penso só em mim, nem só em Clara, penso nas crianças que morrem, outros jovens, no quão incerta é essa nossa vida. Sei que é a humanidade que faz o mundo girar, que Deus não deseja o mal de ninguém, mas não era Ele todo-poderoso, onisciente, onipotente, etc.? Às vezes eu penso Nele e digo: pega leve comigo tá, porque não tá fácil entender tudo isso, me dá um desconto. Acho que minha visão de Deus mudou muito, às vezes nem sei onde colocar Ele, nem o que fazer com Ele.

Nesse relato, apesar do quão difícil lhe é, Bruno tem se esforçado para manter contato com Deus. A dor e o amor por Clara parecem unir-se no paciente a partir de uma ideia de comunhão, ou seja, de que a amada está com Deus e isso, de algum modo, gera sua busca de proximidade com o que pensa ser divino.

No entanto, paralelamente, suas palavras indicam uma premência por compreender a injustiça que vive, sintoma natural no enlutamento, e que, agora, na fragmentaridade de uma concepção anterior de mundo, é olhar que se abre a outros.

Associado a isso, a imagem de Deus todo poderoso, onisciente e onipotente, tal como descreve, parece carregar uma revolta que desde já sinaliza mudanças.

Nesse período, Bruno sente-se confuso, não sabe mais quem é Deus exatamente, onde colocá-lo e para que Ele existe.

Moltmann alega que o homem desenvolve a sua humanidade na relação da divindade de seu Deus. Pondera que é assim que o ser humano experimenta sua existência na relação com aquele que o ilumina como ser supremo, aspecto ao qual a antropologia e a Teologia convergem em um relacionamento recíproco:

Ele orienta a sua vida no valor máximo. Suas decisões fundamentais são feitas de acordo com aquilo que incondicionalmente diz respeito a Ele. Assim sendo, o divino é a situação na qual o homem experimenta, se desenvolve e se molda. 179

A partir disso, se pode pensar o quanto a confusão e as mudanças experimentadas pelo paciente se estendem a essa referência divina que, ao que parece, vem sendo perdida conjuntamente na elaboração e assimilação da despedida de Clara.

Se Teologia e Antropologia, mais especificamente aqui a Psicologia do enlutamento, teriam que, como aponta Moltmann sobre a definição de Deus, encontrar caminhos recíprocos e integrados a subsidiar a reconstrução para a vida humana, que imagem de Deus poderia tornar-se referência para Bruno nesse contexto?

Nesta temática, Moltmann considera a antiga adoção de um conceito filosófico de Deus, aquele tido como incapaz de sofrer, da Igreja primitiva. Um conceito que para o autor gerou dificuldades na Cristologia, as quais só a Teologia mais recente procurou combater. E lembra que antes de um Deus que sofre se tornar tema da Teologia cristã no presente, a Teologia judaica já estava discutindo esse assunto. Considera que a Teologia cristã nada pode fazer além de aprender com essa nova exegese judaica da história de Deus no Antigo Testamento e no sofrimento presente do povo judeu.180

Assim, é provável que Bruno esteja revendo sua concepção de Deus para encontrar sentido e aproximação à sua experiência, ao mesmo tempo que, talvez, tente entender o contexto espiritual do qual Clara faz parte agora.

179

 MOLTMANN, J. O Deus crucificado: a Cruz de Cristo como base e crítica da Teologia cristã, p. 338‐339.  180 Ibidem, p. 339. 

Como mobilização interna que abraça tanto o antropológico quanto o teológico, Bruno parece estar tentando encontrar um lugar para o amor, para Clara, no mundo de Deus, para si no mundo que vive, mas, acima de tudo, para Deus. Porém, para que a busca se efetive de modo funcional, é inegável que os endereços precisam convergir.

Portanto, é também provável que exista um Deus do qual Bruno se despede, a cada dia vivido, na saudade de Clara.

Essa é também a temática de Moltmann sobre pathos e apatheia em Deus. A cada dia no enlutamento, a partir de Deus e no exercício de despedir-se de Clara, buscando preservar seu amor por ela, Bruno, o novo mundo e o verdadeiro Deus parecem emergir em novo e preservado lugar, endereço de comunhão. Esse processo pode ser acompanhado em seus detalhes ao longo de todo ANEXO B.

A atualização sobre quem Deus é e quem ele não é, o quanto sofre, ou não sofre, é aspecto fundamental nas obras de Moltmann. O autor explora o legado de uma imagem filosófica de Deus, como visto também sobre Filosofia nesta pesquisa.

Imagem idealizada que construiu no passado a ideia moral do homem sábio,181 como aquele que deveria tornar-se semelhante à divindade, cuja participação na esfera divina implicaria, necessariamente, a superação de suas necessidades e de seus desejos, levando uma vida livre de problemas, medo ou revolta, vida em apatheia que encontraria descanso no pensar de Deus e na presença eterna em sua vontade:

Como ser perfeito, ele não possui emoções. Raiva, ódio e inveja são estranhos para ele. Igualmente estranhos são amor e compaixão e a misericórdia. “O ser bendito e incorruptível não passa por tribulação, nem a coloca como fardo sobre os outros. Portanto, não conhece nem a ira, nem o favor. Esse tipo de coisa só se encontra em um ser fraco.” Deus pensa em si mesmo eternamente e, nisso, ele é o pensamento do pensamento. Deus é eternamente disposto. Portanto, o desejo e o pensamento são partes do seu apático. [...] Seu conhecimento não é perturbado por nenhuma emoção da alma ou por qualquer interesse do corpo. Ele vive na alta esfera do Logos. Ele nem sente aquilo que o outro considera como bom ou mau. Ele usa todas as coisas como se tivessem valor, embora não atribua nenhum valor a elas. A não perturbação, a não paixão, a mansidão, seguem [...] céticas como uma sombra.182

181

 MOLTMANN, J. O Deus crucificado: a Cruz de Cristo como base e crítica da Teologia cristã, p. 341.  182 Idem. 

Diante disso e como visto anteriormente, é válido considerar que, a seu modo, Bruno vê-se às voltas com um conceito e uma imagem de Deus conflitantes fator que não favorece sua recuperação.

No entanto, lhe é impossível negar a revolta, a dor e, essencialmente, o amor que emergem no enlutamento por Clara. Parece estar exatamente no fato de que Bruno não pode negar seu amor por Clara que é levado a redefinir suas noções sobre Deus.

4.3.3 Análises do conteúdo teológico do Caso B – terceiro recorte contido na