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Dans le document The DART-Europe E-theses Portal (Page 64-0)

A política é compreendida como cerne das relações sociais que o homem estabelece consigo, com os outros e com a sociedade, perpassando pelas suas ideologias e ações, visando alterar o contexto social no qual está inserido. As políticas públicas, por sua vez, traduzem as ações políticas do Estado que influenciam na vida do homem e na sociedade.

Desse modo, busca-se, por meio desta análise, identificar as mudanças provocadas na vida dos sujeitos historicamente situados, que são alvo dessa política, e desvendar, por meio da sua linguagem, as contribuições para as (re)significações das práticas e das políticas dirigidas à atenção ao tabagista.

8.3.1 O programa de atenção ao tabagista: o entendimento do tabagismo como um comportamento físico, social e psicológico

O uso de tabaco é um hábito social que, ao longo do tempo, vem adquirindo novas características. Na Antiguidade, era utilizado em práticas religiosas, cerimônias de purificação, nas quais associavam o consumo do tabaco a algo sagrado (CARVALHO, 2000). Em décadas posteriores, o consumo foi fomentado pelo aumento de produção de cigarros pelas indústrias fumageiras, pelas intensas propagandas e pelo marketing, que tornou o consumo de tabaco um objeto de inserção e posição social (INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER, 1998).

[...] na década de 80, fumar era numa sala, quando eu fazia engenharia, antes de eu fazer direito, eu fazia engenharia né, na minha sala podia até fumar dentro de sala. Hoje em dia o que acontece, virou tipo, 80% dos meus colegas fumavam, hoje em dia ninguém fuma. Então, virou assim, fora de moda, virou... virou realmente démodé, virou antissocial, né. (JOSÉ).

No discurso de José, nos fragmentos destacados acima, percebe-se que, em décadas anteriores, o comportamento de fumar tornou-se familiar, e o cigarro, objeto de desejo de milhões de pessoas; um comportamento de status social, de beleza e liberdade. Entretanto, nos dias atuais, observa-se que houve uma mudança na representação do hábito de fumar na sociedade, adquirindo um novo significado, o de segregação social, de doença, possuindo até características de estigma social. Desse modo, o uso do tabaco passou, de um comportamento sociamente aceitável e difundido por todos os países, a ser considerado uma doença, resultante da dependência de nicotina, substância encontrada no tabaco e responsável pela tabaco-dependência, em decorrência de seu alto poder de modificar a biologia e a fisiologia do cérebro (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 1993; AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 1995). Essa mudança de postura fez com que a sociedade adquirisse uma nova atitude diante do comportamento de fumar, o de não aceitação, de repúdio e de descontentamento. E o fumante, assim, assumiu um novo papel na sociedade: o de infrator da moral e dos bons costumes.

Sabe-se que, além do fator neurobiológico, o tabagismo envolve a personalidade, as condições sociais do usuário, bem como outros fatores adquiridos e condicionantes ambientais (KIRCHENCHTEJN; CHATKIN, 2004).

[...] todos nós sabemos que faz mal mesmo, é prejudicial, toda saúde, todo corpo humano, toda parte do corpo humano é prejudicial o cigarro. Mas, realmente é questão de costume, questão de hábito[...] (JÚLIO).

Ao relatar que o cigarro prejudica a saúde, o usuário está reconhecendo os efeitos danosos da substância no seu organismo, resultantes do uso de tabaco; porém, mesmo tendo esse entendimento, seu uso é continuado, pois o ato de fumar representa um comportamento social desenvolvido ao longo da vida, adquirindo uma importância psicológica e social na vida do sujeito.

Assim, o cigarro tem um papel diferenciado para o fumante, de um objeto de consumo, torna-se, muitas vezes, um amigo, um companheiro que está com ele em todos os seus momentos, conforme se observa no relato de Gabriela:

[...] eu tinha dois maridos, eu tinha um marido e um amante, mas eu era mais apaixonada pelo meu amante, que meu amante era meu cigarro. Eu ficava sem meu esposo, mas sem meu cigarro eu não ficaria (GABRIELA).

No segmento destacado acima, nota-se a representação social do cigarro no relato de Gabriela, ao mencionar o cigarro como se fosse uma pessoa, com quem estabelece relação, por quem tem sentimento, e a importância na vida do sujeito, até comparado com o esposo. A dependência psicológica faz com que o sujeito sinta uma necessidade crescente de fazer uso do tabaco, utilizando-o com intenção de aliviar tensões ou até mesmo de enfrentar momentos de depressão. O tabaco, assim, é visto como um companheiro em momentos de solidão, que preenche espaços vazios, que está com ele em todos os momentos de sua vida. Para o sujeito, parar de fumar é romper laços de amizade, companheirismo, uma separação de algo que muito tempo vem dando prazer; é uma perda que envolve uma grande tristeza (VIEGAS, 2007). E abandonar esse companheiro com quem convive há muitos anos é um processo difícil, de renúncias, de muita persistência e luta.

[...] Porque todo mundo acha, ah fumar... você fuma porque né... sem

vergonha, né essas coisas assim. Mas, não é, é muito difícil parar, é uma droga, né. [...] (BRUNA).

[...] tem que abrir mão de tudo, tem que passar mesmo por vontade, tem que abrir mão mesmo até da vaidade, pra poder continuar esse processo de uma forma mais incisiva mesmo pra que dê um resultado (GABRIELA).

No relato de Bruna, percebe-se como o fumante visualizava sua imagem na sociedade, como um sujeito fraco, sem caráter, sem força de vontade para mudar um comportamento. Já no discurso de Gabriela, a expressão “ter que abrir mão de tudo” expressa que essa mudança – parar de fumar – não é tão fácil assim; é uma escolha em que vai exigir do sujeito determinação, coragem e atitudes incisivas para mudar a sua vida. Essa decisão é que impulsiona o sujeito a tentar buscar uma nova identidade social; por isso ele procura ajuda, participa de um programa, constrói

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