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3.1. La coopération internationale

3.1.5. L’aide humanitaire

Atualmente, os cultos realizados na igreja da aldeia são presididos pelo próprio Mário Jacinto, que é o “cooperador” responsável pela Igreja lá existente. São três cultos semanais, além de eventuais visitas a outras “irmandades” para assistir a cultos, batismos ou reuniões. Os cultos duram aproximadamente duas horas e, ainda que sejam “espontâneos, segundo a vontade de Deus”, desenrolam-se de acordo com o seguinte esquema: hinos, preces, testemunhos, pregação do cooperador e encerramento.

No início dos cultos, o cooperador pede sempre que dois ou três cantos do hinário sejam escolhidos pelas pessoas presentes. Mas só aqueles que têm uma boa conduta dentro do grupo e seguem as normas da Congregação podem fazer isso.

Após terem sido entoados os hinos, todos se ajoelham para as preces, que podem ser feitas por todos espontaneamente e em voz alta. Depois de um tempo onde as vozes se confundem, a oração de um dos fiéis se destaca. Essa pessoa permanece em oração durante o tempo que desejar, e sua oração passa a ser endossada pelos outros participantes. Mais de uma pessoa pode proferir orações e preces durante esse momento do culto, que é encerrado pelo cooperador com uma pequena fala e abre espaço para aqueles que querem dar “testemunho” de alguma graça ou bem concedido por Deus. Da mesma forma como foi mencionado anteriormente com relação aos hinos, somente podem se levantar para testemunhar aqueles que vivem dentro da conduta e da moral pregada pela Congregação. E nos testemunhos, pode- se perceber que as “graças” concedidas por Deus estão sempre relacionadas a necessidades materiais, doenças, problemas domésticos e coisas do cotidiano. Num dos testemunhos, por exemplo, uma mulher contava que estava com muitas dívidas e dificuldades financeiras e que teria pedido a Deus que a ajudasse. Disse que parou de procurar emprego porque se Deus

fosse ajudá-la mesmo, ela tinha que ter fé e esperar. Então alguém teria ido até a casa dela e oferecido um trabalho (cuidar de uma senhora que estava doente e morava em Santa Amélia). Apesar disso, continua ela, o salário era muito baixo e não ajudava muito. Então ela teria pedido a Deus novamente e, depois de alguns dias, o filho da senhora em questão teria dobrado seu salário.

Um outro testemunho, feito por Dênis, um índio Kaingang, relata a recusa de sua irmã em freqüentar os cultos e reuniões da Congregação. Dênis, cansado de insistir, teria pedido a Deus que o ajudasse e, de repente, ela teria começado a participar. Nessa mesma ocasião, Dênis agradecia também o fato de ter ganhado um terno de uma senhora de Santa Amélia, pois sendo músico, o sonho dele sempre foi poder participar dos cultos trajando um terno.

Após os testemunhos, o cooperador procura sintetizar o que foi dito com um pequeno discurso que, invariavelmente, fala sobre a bondade de Deus e do fato de que ele sempre recompensa e atende aqueles que vivem de acordo com seus ensinamentos. Em seguida um trecho da bíblia é escolhido aleatoriamente, lido e comentado pelo cooperador, que sempre começa sua pregação tentando tornar mais inteligível e o mais próximo possível da realidade do grupo o trecho lido. E isso sempre a partir de suas próprias vivências e experiências.

Os testemunhos dos fiéis e a pregação são as manifestações discursivas mais importantes do culto da CCB, pois são nesses momentos que transparece mais claramente um aspecto acima comentado: a “iluminação” que os fiéis recebem de Deus ou do Espírito Santo, que inspira seus fiéis durante as preces e pregações, realiza curas, revela acontecimentos futuros (profecias) e manifesta-se no “dom de línguas”.

E é preciso apontar também para o fato de que, muitas vezes, os trechos da bíblia lidos durante os cultos são colocados em relação a fatos concretos vivenciados pelos participantes, adquirindo uma espécie de valor “oracular” que, a meu ver, é um ponto importante para se entender a intensa participação do grupo junto à CCB, pois reforça entre eles a idéia de uma intimidade com Deus, a idéia de que ele está presente entre seus fiéis, “fala” com eles, age em suas vidas e concede-lhes graças (muitas vezes palpáveis). Assim, durante os cultos os fiéis participam ativamente, atuando como uma espécie de coro que responde ou acrescenta coisas às exortações do cooperador.

Ainda com relação à pregação, é preciso destacar alguns pontos que permeiam a fala dos anciãos ou cooperadores: a crença na presença e no poder de Deus, capaz de intervir diretamente na vida de seus fiéis; as recompensas que os “justos” receberão após a morte; e a crença no milênio, que acena para uma segunda vinda de Jesus à terra para criar um novo

mundo, sem males e injustiças. Segundo Rolim12, esta crença no “milênio” alimentada pela CCB e outras igrejas pentecostais, encobre algo que é almejado pela grande maioria dos fiéis: o desejo de viver num mundo diferente do qual se vive, um mundo melhor que não será construído pelos homens, mas pelo próprio Cristo. Estes pontos, tais como os que foram colocados nos parágrafos anteriores, indicam possíveis pontos de “ressonância” ou proximidade com os rituais da casa de rezas, que tentarão ser explicitados/aprofundados nas considerações finais deste trabalho.

Observando os cultos realizados em Santa Amélia e nas cidades vizinhas, pode-se notar que o discurso dos cooperadores é de certa forma impessoal e generalizado, referindo-se sempre a fatos e exemplos fictícios. Já nos cultos celebrados na aldeia, Mário procura sempre relacionar o que diz na pregação com situações vividas pelo grupo, procurando solucionar problemas e impasses, esclarecer determinadas situações, etc. Como já foi dito acima, muitas vezes os trechos da bíblia ou mesmo os testemunhos são colocados em relação a fatos que possivelmente foram vivenciados por um ou mais fiéis. Entretanto, na fala de Mário temos a relação explícita a situações do quotidiano da aldeia. Fala essa que torna-se mais genérica e impessoal quando Mário é convidado a pregar durante um culto fora da aldeia.Mas há que se notar que as intervenções dele nunca são vistas como relativas à esfera política, mas como imparciais e neutras, já que, segundo se diz entre eles “é sempre Deus quem fala através do cooperador”. Entretanto, é Mário quem forma opinião no interior do grupo, resolve disputas e apresenta soluções para diversos problemas. De certa forma, ele tem mais influência e autoridade que o cacique, uma figura muito mais ligada às esferas externas, políticas e burocráticas.

No final do culto os homens beijam os homens e as mulheres também o fazem entre si, trocando o que chamam de “ósculo santo”. Homens e mulheres só se cumprimentam através de apertos de mãos.

Após o culto, as pessoas permanecem durante algum tempo no pátio da igreja, conversando entre si, comentando fatos e notícias cotidianas. No caso dos cultos assistidos em outras cidades, ou durante a realização de um batismo, esse é um momento esperado, pois pessoas de diferentes lugares têm a oportunidade de se encontrarem.

Na aldeia, igualmente, esse é um momento importante, onde as pessoas se encontram (algumas casas são mais distantes do “centro” da aldeia), conversam, combinam coisas,

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telefonam e recebem ligações (o único telefone existente na aldeia fica dentro do pátio da igreja, fato que, inclusive, desperta o descontentamento dos não-crentes).

Uma última diferença a ser ressaltada é que, nos cultos celebrados fora da aldeia, a participação masculina é muito mais intensa e marcada que a feminina, fato que não se observa em Laranjinha, onde as mulheres participam ativamente através de suas orações e testemunhos.