Adoecer é um fenômeno humano, biológico e social, vivenciado pelas pessoas em diferentes etapas da vida. Traz repercussões em todas as dimensões da vida, tanto na esfera psicológica, social e familiar, como na financeira. O trabalho, como um dos determinantes do processo saúde-doença, também sofre o impacto do adoecimento de seus colaboradores, que afeta a complexa cadeia organizacional. Deparar-se com uma enfermidade faz com que o indivíduo perceba e encare o mundo de um outro ângulo. Essas transformações não se restringem a individualidade, mas têm reflexos diretos na família e no círculo social.
O universo simbólico do adoecer por câncer é permeado de crenças e saberes de senso comum construídos a partir de experiências pessoais e de histórias de vidas compartilhadas nas interações entre os membros do grupo de pertença. A maneira com que o indivíduo percebe e encara a doença é influenciada pelo seu contexto cultural e as interpretações socialmente elaboradas.
E, nesse sentido, compreender como trabalhadores pensam e elaboram seus pensamentos sobre o câncer e a possibilidade de sua gênese ser ocupacional, gera elementos essenciais para que atores sociais, que tenham como foco prover educação em saúde que atenda plenamente demandas e anseios de trabalhadores, possam desenhar estratégias e agir no sentido de aproximar o cidadão de ações de saúde verdadeiramente protetivas e preventivas.
Um dos principais aspectos que emerge do câncer enquanto doença versa sobre a sua incurabilidade. Está corroborado no senso comum dos participantes da pesquisa a ideia simbólica do câncer como doença incurável, como sinônimo de morte. Apesar de muitos tipos de câncer terem grande possibilidade de cura, principalmente se diagnosticado precocemente, há desconhecimento quanto a este fato. Nos fragmentos de entrevistas abaixo podemos apreciar esses pensamentos:
[...] é uma doença que... ela vai comendo a pessoa um pouco, né? Vai tirando a vida. Eu acho que uma pessoa quando chega a saber que tá com uma doença dessa ela fica mais doente ainda, porque já mexe com muita coisa, né? Mexe com o emocional da pessoa, ela fica pensando como vai ser a vida dela, quanto tempo vai viver, como é que esse câncer tá? Eu acho que é uma doença que é só Deus pra fazer um milagre mesmo, porque os médico e a medicina pelo jeito até hoje eles ainda não encontraram uma cura. Eu não sei... eu sou só lavador, eu não entendo, mas eu acho que eles não encontraram cura, porque se tivessem encontrado ou se tem as pessoas não tavam morrendo aí de montão. (E1)
[...] e câncer mata mais do que a aids, entendeu? É uma doença que, realmente, por mais que os médicos tão tentando não tem cura. O prazo de vida da pessoa, não tem prazo, não tem nada, a pessoa vai embora mesmo, entendeu? (E16)
Ah, eu penso assim, se eu adoecer, e só Deus sabe se a gente vai adoecer ou não... se eu adoecer, eu espero a morte. Infelizmente, não tem jeito. Porque o câncer hoje não tem cura, nunca teve, a única cura que pode vim é da força divina de Deus. É só Ele que pode curar. E se acontecer isso comigo, é simplesmente conviver com a doença e até o fim da minha vida. Até onde Deus permiti e falar “agora chegou a sua hora”. (E34)
Ah, eu não sei te explicar não. Acho que seria o fim do mundo para mim! É uma doença que apesar que eu sei que eu não ter na minha família, eu sei que é uma doença que não tem cura. Embora, assim, tenha cirurgia que você faz, tira de um lado e tem um tempo aí. E, depois de um tempo, aparece no outro lugar, aquela coisa toda assim. Aí, eu acho que assim, o impacto muito grande se parecesse pra mim, na minha família. (E40)
Ah, ia ser muito grande o impacto na minha vida, porque assim, não tem provavelmente, ao meu ver, a cura pro câncer. Tem assim, tem métodos que pode... mas a cura, assim, não tem. (E45)
Eu gostaria de dizer assim, de tudo que foi falado dessa doença, eu já tive conhecidos, colegas meus que já teve isso, mas o mais bonito em tudo isso aqui é a fé que cada um tem. Porque Deus colocou na terra os médico pra fazer a obra dele, mas também a fé remove montanha, muitos têm aqui como testemunho que ela deu da vó dela, aqui, pela fé, Deus curou. (G3)
Algumas falas apontam que há uma forte relação dos participantes com sua fé e espiritualidade. Como a cura por meio dos saberes científicos da medicina não é possível, a crença em um Deus com poder suficiente para restabelecer o equilíbrio do corpo nutre a possibilidade do milagre, caso a doença torne-se uma certeza.
A espiritualidade traz benefícios relacionados com a capacidade de enfrentamento dos obstáculos e sofrimentos impostos pelas doenças, melhora o estado emocional e amplia a habilidade de adaptação diante da situação de ameaça à vida (277). Apesar dos aspectos positivos que a espiritualidade proporciona para o indivíduo quando diante de uma enfermidade como o câncer, esta pode retardar a tomada de atitudes e mudanças de comportamentos que tenham como cerne a prevenção e o diagnóstico precoce. E, aliada a crença da certeza da morte, bloqueia a percepção que há possibilidade de tratamento e causa prejuízos nos mecanismos mentais e imunológicos de defesa (278).
E, nessa perspectiva, é preciso que o profissional de saúde reconheça a espiritualidade como uma dimensão fundamental para agir com o outro, para que possa planejar e promover uma assistência que atenda, holisticamente, as demandas dos indivíduos.
Ainda sobre a influência da religiosidade na interpretação da relação do câncer com o trabalho, alguns participantes afirmam que não irão desenvolver a doença mesmo reconhecendo alguns riscos no ambiente de trabalho, pois associam a proteção aos aspectos religiosos.
Não tenho risco pra câncer no trabalho. Eu tenho proteção de Deus! (E17)
Mas eu falo em Deus mesmo, vou continuar falando em Deus, porque graças a Deus, se eu tenho minha saúde... porque eu sou evangélico, eu peço muito a Deus pra mim não ter câncer. Não peço só pra mim não! Peço a Deus pro meus colegas, pra minha família, certo? Inclusive pro mundo inteiro. Então, eu peço muito a Deus pra essa doença sair do mundo, pra ELE tirar do mundo... se ela existe, que Ele tem o poder dele de tirar (E5).
Essa percepção compromete o reconhecimento de situações concretas de riscos no trabalho para o câncer. É, nesse momento, que se torna significativa a atuação ativa e permanente de uma equipe interdisciplinar em saúde para trabalhar questões presentes no saber de senso comum, que podem comprometer o bem- estar e a qualidade de vida no trabalho. Nas ações educativas, é essencial que os membros da equipe tenham formação e qualificação específicas do contexto no qual estão inseridos, para fornecer ao trabalhador conhecimento que os permitam contrapô-los a sua realidade social e laboral e, assim, possam tomar consciência da inter-relação entre seu eu e seu universo laborativo (279).
Os trabalhadores elaboram suas representações sobre o câncer como uma doença que traz a certeza da morte, do sofrimento e dor, não só para quem o vivencia, como também para sua família. Mesmo com a evolução no campo da diagnose e da terapêutica, o câncer tem sua representação cristalizada no evento morte. Esse fato pode ser mobilizador para encontrar estratégias de enfrentamento, mas também pode influenciar negativamente nessa busca ou escolha. Nas falas a seguir, fica evidente o medo e os estigmas da doença, que simbolizam a deterioração do corpo e a causalidade de invalidez.
Seria é... não ia ser muito bom, né? Porque pelo que eu já ouvi falar, eu ouço aí é uma doença que... ela machuca bem a pessoa, né? Deixa a pessoa bastante desabilitada. Eu acho uma doença, ela é uma doença que... vamos dizer assim, uma doença que não tem misericórdia do ser humano, ela chega vai comendo devagazinho e quando vê a pessoa já (pausa) fica naquela fase terminal... causa muito sofrimento. Eu não gosto de falar a palavra câncer porque eu, assim, eu acho que eu prefiro nem saber. Mas, ao mesmo tempo a gente tem que saber que ela existe, tá entendendo? Aí, eu fico naquele entre dois mundo, né? Eu quando eu vou citar o nome dela digo aquela enfermidade que come a pessoa. Eu sei o que que é, mas eu não gosto de... (E1)
Ah, porque é uma doença muito dolorosa, né? Machuca muito os outros. Assim você vê aí, a pessoa fica, luta, luta, eee... vai embora, desgasta a pessoa demais, né? É bem difícil, bem sofrido. (E12)
Ah, isso aí é uma dureza. Já passei por isso já uma vez, o negócio do meu pai. Acho que é uma doença muito terrível, né? Nem gosto muito de falar nesse negócio não. (E13)
Nossa sinhora! Seria um choque, né? Um choque, uma tristeza, entendeu? Fora de sério. Isso aí que... nossa senhora, Deus dá o livramento a mim e a minha família como dar a todos, né? Todos nós, né? Deus dá o livramento porque esta doença é uma doença muito triste (E16).
Oh, câncer! Vou até te falar que a minha mãe nem fala câncer, porque ela morre de medo. O pessoal antigo fala aquela doença. Então, o câncer para mim é uma coisa assim, violenta. É igual eu te falei, tem câncer agressivo, tem câncer que é... vem bem devagar. (E30)
Não é bão não, isso não é bom não! Não gosto nem de pensar nisso, cruz credo! O negócio é devastador! É pior de que qualquer outra doença. Que algumas ainda sobrevivi mais, mas essa leva. O impacto dela é a maior, é profundo e acaba com a pessoa, né? Eu acho que só da pessoa na hora que ela já fica sabendo que ela tá com a doença, acho que aí que ela vai embora mais rápido mesmo, né? Eu já reparei isso. Mas isso não é bom não. (E41)
O câncer é uma doença repleta de estigmas sendo o medo, principalmente da morte, o sentimento que gera maior impacto na esfera psíquica e emocional. O rótulo de doença amaldiçoada diretamente relacionada à terminalidade da vida está fortemente enraizada no universo mítico da sociedade. Estes pensamentos e crenças podem desencadear uma série de desordens psíquicas, como ansiedade e depressão, quando diante de um diagnóstico pessoal ou familiar (280). Apesar da evolução no campo do diagnóstico, da farmacologia e tratamento clínico e cirúrgico, o estigma do câncer cristaliza sua marca na cultura e, ainda hoje, perpetua representações negativas, como identificado nos relatos desse estudo.
O sofrimento, a dor, as alterações na aparência física e as limitações funcionais também surgem como representações associadas ao câncer, com repercussões negativas para o indivíduo e toda a família, como evidenciado nas falas a seguir:
Porque pelo que eu já ouvi falar, eu ouço aí é uma doença que... ela machuca bem a pessoa, né? Deixa a pessoa bastante desabilitada. Eu acho uma doença, ela é uma doença que... vamos dizer assim, uma doença que não tem misericórdia do ser humano, ela chega vai comendo devagazinho e quando vê a pessoa já (pausa) fica naquela fase terminal... causa muito sofrimento. (E1)
Ah, porque é uma doença (câncer) muito dolorosa, né? Machuca muito os outros. Assim você vê aí, a pessoa fica, luta, luta, eee... vai embora, desgasta a pessoa demais, né? É bem difícil, bem sofrido. (E12)
Eu perdi a minha mãe vai fazer 6 anos e ela foi vítima disso aí, de câncer no esôfago. Então, a doença quando ela é descoberta, ela pra a família no geral, é um impacto muito grande, emocionalmente. É desgastante aquela luta para poder buscar recurso e tudo. É muito desgastante, e fora o sofrimento, né? Aquela esperança que você tem de, da melhora, né? Que, às vezes, muitas os casos devido ao atraso do diagnóstico... é igual a minha mãe que teve diagnóstico tardio. Quando descobriu a evolução já estava alta, porque não teve aquele diagnóstico preciso quando ela começou a relatar problemas dificuldade para engolir, aí os médicos pediram exames que não diagnosticada por completo. Então, a chance dela que era de 99%, foi é 10%, bem dizer assim, após cirurgia. Então, você tem aquela esperança. Então, é muito desgastante e é bastante desgastante pra família entendeu? A abrangência do sofrimento é muito grande. A gente fala isso por experiência própria, que vivi isso na pele. É que vive, né? Vivi isso na pele, é experiência única, né? (E22)
Não é bão não, isso não é bom não! Não gosto nem de pensar nisso, cruz credo! O negócio é devastador! É pior de que qualquer outra doença. Que algumas ainda sobrevivi mais, mas essa leva. O impacto dela é a maior, é profundo e acaba com a pessoa, né? Eu acho que só da pessoa na hora que ela já fica sabendo que ela tá com a doença, acho que aí que ela vai embora mais rápido mesmo, né? Eu já reparei isso. Mas isso não é bom não.(E41)
Ah cara, eu já passei por isso na minha família. É muito, assim, é muito ruim, uma doença muito... que eu acho a pessoa descobrir, a pessoa acaba, não pode pensar, né? Eu sei que a medicina tá evoluído. Aí, quando a pessoa descobre, a pessoa se deixa levar por ela. Muita gente, tem exceções, mas muita gente se abate, fica pra baixo, entendeu? Aí acaba que a doença vai, aumenta, porque a pessoa não luta contra ela.(E44)
Então, é uma coisa, uma doença que ela vêm, ela não só acaba comigo, mas acaba com a família inteira. Porque ela vêm, o tratamento, começa a cair os cabelos, começa a definhar. E, com isso, a esposa começa também a ficar... não se preocupar com ela mais, porque a família inteira vai viver em função minha. (E45)
Conhecer essas representações sociais sobre o câncer, que atravessam constantemente o sujeito, significa abordar aspectos complexos que podem interferir, de modo direto ou indireto, no cuidado que ele estabelece no seu dia-a-dia para evitar e prevenir a doença no contexto do trabalho. A representação social da doença configura-se por sentidos subjetivos e práticas simbólicas que fazem parte da rotina das pessoas.
Os discursos sugerem que o câncer tem uma identidade poderosa, que é predominantemente afetiva no conteúdo. É entendido como uma entidade única, um fenômeno emocional multifacetado com a ideia de ameaça à vida fortemente enraizada. Compreender como o câncer é objetivado no grupo, permite uma visão de como os aspectos culturais das representações sociais estão sendo consolidados
na linguagem e, assim, elucida como se organiza e estabelece o modo de vida frente aos aspectos relacionados à saúde e a doença.