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Diga, você me conhece eu já fui boiadeiro, conheço essas trilhas, quilômetros, milhas que vem e que vão pelo alto sertão, que agora se chama não mais de sertão, mas de terra vendida, civilização.

(PEÃO – ALMIR SATER)

É necessário perceber as metamorfoses espaciais que cumulativamente são impressas no território, ainda que diversas delas não sejam sequer percebidas pelos homens. A dinâmica e as diferentes formas de vida, tanto no campo como na cidade, possibilitam variadas visões sobre processos assemelhados. Nesse sentido, pensar o sertão implica compreendê-lo enquanto forma de vida, no caso específico, a partir da vivência e da experiência dos camponeses e dos trabalhadores da terra.

Chaveiro (2001) destaca a sociedade sertaneja, compreendendo Goiás, enquanto um estatuto colonial brasileiro no sertão, uma sociedade retraída sem a consciência de nação. O modo de vida sertanejo é regido pelo poder cartorial-patrimonial, vinculado a terra, e a violência e as manifestações sócio-culturais expressam a especificidade da forma de ser sertanejo. O século XX, despertado pelo apito da Maria Fumaça no Sudeste Goiano, invoca a necessidade de “integrar” o sertão aos interesses do mercado, transformando as cidades “bocas do sertão” em “cidades pontas de trilhos”, promovendo novas arrumações espaciais. Ao se referir às mudanças da vida no campo, mediante a intensa urbanização e industrialização na Inglaterra, Williams (1989), salienta que “[...] essa vida campestre tinha

seus significados, mas eles mudavam, tanto em si próprios quanto em relação a outros”. (1989, p.15).

Goiânia, que se transformou numa cidade rural metropolizada – metrópole em travessia45 – passou por intensa urbanização com todas as características de qualquer grande centro urbano, mas não eliminou a raiz cultural sertaneja expressa nas múltiplas manifestações sócio-culturais como procissões, festas do Divino, batismo na fogueira e levantamento de mastros, folia de Reis, rodas de violeiros e dança da catira etc, expressando a construção de novas ruralidades no espaço metropolizado. Em Goiás somos roceiros e não caipiras como em São Paulo, pois mesmo após a desterritorialização e a reterritorialização nas áreas urbanas o legado cultural sobrevive. A imagética da terra permanece para aqueles que viveram e experienciaram vidas inteiras no campo. Existe algo de diferente, muito forte e emocionante que é percebido/sentido nas lágrimas, no olhar distante, no suspiro profundo de algo perdido, mas que continua fazendo parte da vida, sem a qual, a vida seria ainda pior. O sonho do retorno a terra é profundamente real e faz parte da vida de significativa parcela dessas pessoas.

A idealização do campo (perspectiva liberal e condescendente) em contraposição à cidade, visa uma desmemorialização dos movimentos de contestação/resistência dos trabalhadores da terra e possui objetivos políticos definidos, sendo um deles, negar o passado de luta desses sujeitos sociais e, assim, impedir a reforma agrária. “Com freqüência afirma-se que, com o processo de industrialização e urbanização, todas as pessoas capazes foram para as fábricas e para as cidades, ou resolveram emigrar, restando apenas os lerdos, os incapazes e os ignorantes.” Williams (1989, p. 252).

Nas entrevistas com os antigos moradores das áreas rurais do Sudeste Goiano é perceptível a influência cultural, principalmente na música, que expressa o modo de vida “perdido com o progresso”. A música sertaneja é claramente um produto elaborado pela indústria e com um caráter eminentemente coisificado, porém, a música caipira – música raiz – ainda se coloca como revestida de uma ordem natural, de uma certa espontaneidade da vida no campo. Todavia, essa ordem natural é cada vez mais restrita aos recônditos mais distantes e/ou associada às áreas de descanso e lazer, em contraposição à vida agitada e confusa dos centros urbanos cosmopolitas. A música sertaneja implica na correlação da canção com o aparato técnico-científico, expressando também, a introdução da racionalidade técnica no modo de vida rural.

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CHAVEIRO, E. F. Goiânia, uma metrópole em travessia. Tese (Doutorado). Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, Departamento de Geografia, Universidade de São Paulo, 2001.

Honório Filho (1992) destaca que de certa forma a música sertaneja lembra o sertão, ainda que seja produzida pelo aparato-técnico e na cidade ela expressa diversas representações sociais, precisamente aquelas presentes no imaginário popular. O termo sertanejo sobrevive carregado de uma imagem rural. A noção de sertanejo, como a desnaturização do caipira e a indicação da industrialização do som, pouco influi sobre o sentido que o termo apresenta no mercado, ou seja, sertanejo ainda lembra o sertão.

A construção imagética do camponês e do trabalhador da terra, inclusive no cinema, tais como as figuras do Jeca Tatu e Mazzaropi, baseado no livro Jecatatuzinho de Monteiro Lobato, ainda se processa como algo exótico e diferente, mas estereotipado. Evidentemente, no conteúdo dessas imagens persiste a idéia, ainda generalizada de que os trabalhadores da terra, camponeses e proprietários rurais pouco tecnificados, não lidam adequadamente com a higiene corporal, estão arraigados à tradição e às crenças sem relevância nas áreas urbanas, além de serem avessos ao progresso técnico como reprodução da ideologia do atraso.

Quando se trata do movimento social, a situação é piorada, pois a carga ideológica obriga as ações daqueles que não concebem a luta pela terra e pela reforma agrária como uma necessidade histórica, passam a qualificar os trabalhadores desterritorializados como um “bando de maltrapilhos”, que sequer conhecem as formas de cultivo modernas e, por isso, não podem ter acesso a terra. Acerca das representações sobre o sertão é possível observar a relação do trabalhador com a ociosidade e o atraso político, econômico e cultural das “massas camponesas”.

O caipira, enquanto representação do trabalhador rural, foi fortemente associado a homem preguiçoso, vadio, beberrão e idiota. A imagem de Jeca, apesar da tentativa sanitarista de Lobato, colou muito mais facilmente à figura do preguiçoso do que à do trabalhador virtuoso. Isto, de uma forma ou de outra, marcou presença no interior da música rural. Porém, mais do que isto, criou maneiras de ver o sertão, com altos poderes de convencimento. (HONÓRIO FILHO, 1992, p.57)

Na verdade, objetivava-se expulsar de seus territórios os camponeses e trabalhadores da terra, sem causar constrangimentos e/ou resistências mais fortes por parte da sociedade civil organizada. Estava claro que não era possível “tornar o sertão civilizado” com esses sujeitos sociais. Era preciso transformá-los, substituí-los e moldá-los às necessidades do capital, da modernidade. Como “ocupar” o sertão e torná-lo produtivo, fazendo uso das técnicas modernas? Era preciso civilizar o sertão, torná-lo prenhe de objetos

técnicos e essa tarefa cabia aos sulistas, os portadores do progresso. Essa era uma justificativa para não discutir o conteúdo político e a relevância social da reforma agrária. Ao desqualificar o homem do sertão – camponeses e trabalhadores da terra – desqualificava-se a sua luta, a sua história, as suas necessidades, a sua ação política que priorizava a vida na terra.

A construção imagética do sertanejo como atrasado e antagônico à cidade é reforçada pela literatura, pela música sertaneja, dentre outros, que ao mesmo tempo universaliza as suas condições de vida e de trabalho, mas, o nega enquanto sujeito de sua própria história, capaz de promover mudanças e assim construir o desenvolvimento econômico e social do país.

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