Présidence de la République de Madagascar
Section 2 : L’Administration et la bonne gouvernance des dépenses publiques
Perante a perspetiva dos jovens das três equipas, no sentido de se sentirem
de alguma forma ignorados e desvalorizados por parte da Escola, no que diz
respeito à sua não participação/contribuição no Jornal da Escola, surgem
afirmações e provações das suas capacidades em assumir este compromisso. No
entanto, ao refletirem sobre as responsabilidades e as diferentes tarefas
necessárias para a elaboração do Jornal da Escola, os jovens questionam-se
sobre as suas capacidades e vontade para assumir esse compromisso. Ao
mesmo tempo, ponderam se de facto sentem “necessidade” de se envolverem
nessa atividade, ainda que a publicação do jornal seja feita no final de casa
período.
É significativo que as três equipas tenham concordado, após algum debate e
reflexão, sobre dois aspetos: por um lado, não são consultados sobre os
conteúdos que constam no jornal da escola, e nem sequer lhes é permitido dar a
sua opinião sobre o mesmo; por outro, o compromisso de construírem uma edição
do jornal da escola contribuiria largamente para um sentimento de valorização
coletiva, dado saberem que, dessa forma, o jornal já não seria só das “senhoras
da secretaria”.
O sentido subjacente ao seu envolvimento no jornal prendia-se fortemente
com tentarem alcançar o mesmo estatuto e poder que as senhoras da secretaria
detém sobre o jornal.
O sentimento de “desdém” que entendiam existir por parte das “senhoras da
secretaria” para com eles, podemos traduzir como sendo um daqueles momentos
em que os elementos do mundo do aluno são desconsiderados e desvalorizados
pela escola (Postic cit in Nóbrega, 2010). E portanto, esse comportamento das
senhoras da secretaria que suscita nos jovens o (legítimo) desejo de reagir contra
esse poder dos adultos, através da demonstração de algo que são capazes de
fazer.
Porém, podemos ainda apoiar-nos nas ideias de Clavel (2004) quando este
refere que para os alunos que provêm de classes em desvantagem sócio-
económica e cultural, a escola tende a acentuar a sua inferioridade social por via
do reconhecimento de uma incapacidade de utilizar elementos da cultura
74
dominante. Este facto, prende-se em muito com as ideias de Bernstein (1986)
quanto à relação que este estabelece entre os códigos linguísticos e a
escolarização. Ou seja, os jovens que manifestam maior ligação com o código
restrito, no contexto escolar são confrontados com uma cultura dominante
assente largamente num código elaborado. Assim sendo, a linguagem utilizada
por estes jovens não combina com a cultura académica, por essa razão, aquilo
que é transmitido pelo professor ou, neste caso pela comunidade e cultura
Escolar, acaba por se tornar numa linguagem incompreensível. Ao mesmo tempo,
como cultura dominante no contexto escolar, a cultura assente no código
elaborado não valoriza a cultura dos grupos minoritários. É neste enquadramento
que podem entender-se as decisões e/ou opções por parte da Escola e das
senhoras da secretaria,– desvalorizando as opiniões e o seu trabalho dos jovens
tendo em conta que estes são associados maioritariamente, ao estatuto de “mau
aluno” .
Também nesta etapa do projeto, foram abordadas de forma bastante clara
as diferenças que estes jovens entendem existir entre os adultos, enquanto
detentores do poder, e os alunos; e entre os próprios alunos. Tendo em conta as
opiniões dos participantes, é notório que entendem existir dois estatutos de
alunos dentro da Escola; eles, a quem ninguém lhes pede a opinião e a
participação e os “outros alunos”, aqueles “que ficam melhor nas fotografias”.
Ainda que esta última observação feita pelos jovens possa ter um significado mais
direto, nomeadamente, os alunos escolhidos para aparecerem no jornal são os
alunos mais bonitos, mais vistosos, a verdade é que se entendeu que esta
observação tinha um significado muito mais complexo. Esta observação foi feita
assente na perceção que têm de que só aparecem no Jornal da Escola e só é
pedida a opinião aos melhores alunos, aos alunos que aderem à cultura escolar,
os que são bons alunos e têm boas notas.
Estes elementos podem ajudar-nos a compreender porque é que eles se
sentiram desmotivados depois da ideia inicial ter parecido tão boa, uma vez que
estes jovens entendem que não se identificam com os melhores alunos e que,
logo, tudo o que façam em prol da mudança do Jornal da Escola poderá não ser
valorizado da mesma forma caso essa intervenção viesse por parte dos alunos
com as melhores notas e que se identificam com a cultura escolar.
Tendo em conta esta desmotivação mas, também, que nos encontrávamos
no final do ano letivo, atentos à situação, começaram a ser ponderadas e
apresentadas novas ideias, como alternativas à intervenção no jornal, apelando
àquilo que lhes traria mais prazer, satisfação e realização pessoal.
Esta etapa do projeto destacou-se, por um assumir daqueles que eram os
temas de interesse, por as esquipas serem capazes de não se “anularem”,
perante os objetivos a que a investigação se propunha, e de se sentirem
confiantes o suficiente para de alguma forma questionarem o rumo que o projeto
estava a seguir e por uma mudança na minha própria condição de investigadora;
isto porque a investigação deixou de ser sobre eles passando verdadeiramente a
ser com eles.
As equipas assumiram posições, deram a sua opinião quanto a várias
situações existentes na escola e mostraram-se disponíveis para atuarem no
sentido de promoverem a mudança do seu estatuto de jovem sem uma palavra a
dizer e de alunos cujas opiniões não eram importantes.
Dans le document
Mémoire de fin d’études analyse de l’administration et des finances – Projet de fin d'etudes
(Page 55-59)