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CHAPITRE IV : Résultats et discussion

IV- 5-L’activité spécifiques

Se pudéssemos resumir o que une o pensamento de Soren Kierkegaard e Fiódor Dostoiévski, o caminho mais adequado seria o de dizer que ambos lutaram pelo princípio da liberdade individual, pela sublevação à política da sujeição compulsória; são autores que tentaram, antes de tudo, localizar a relevância do homem diante da própria realidade. É seguro afirmar que para eles, o indivíduo é a mais importante das questões, é construção da subjetividade do indivíduo que lhes chama atenção; o que não significa dizer que a razão não tenha nenhum mérito, a sua necessidade se justifica por ser uma atividade inerente a existência humana, mas o todo dessa existência é muito mais complexo que o racional.

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Há em Dostoiévski uma “[...] condenação categórica do fenômeno [...]” (VOLPI, p.42, 1999). O primeiro a exprimir a problemática do niilismo na Rússia foi o romancista Turguiênev (Pais e Filhos), a quem Dostoiévski escreve com muito entusiasmo: “Dostoiévski leu Pais e Filhos logo que foi publicado na revista [...] e não tardou a comunicar ao autor sua admiração [...]” (FRANK, 2013, p.253). Sabe-se que posteriormente, Dostoiévski rompe com Turguiênev.

88Kierkegaard em O desespero humano, afirma que sem a possibilidade, sem o poder da escolha, o indivíduo perece e sufoca: “[...] Perante um desmaio, grita-se: Água! [...] Mas perante alguém que desespera, grita-se: possível, possível! Só o possível o pode salvar! Uma possibilidade: e o nosso desesperado recomeça a respirar, revive, porque sem possível, por assim dizer não se respira [...] o possível está para o eu assim como para os pulmões o oxigênio [...]” (2010, pp.56-58). A existência é possibilidade, não um movimento necessário e estritamente lógico. É pelo direito à possibilidade que Kierkegaard e Dostoiévski direcionam a sua escrita.

Complexa também é a realidade em que viveram os autores, bem como as influências que receberam. Contra o pensamento abstrato em voga no século XIX, evidenciaram a mais transparente repulsa. O que é pensado é pensado por alguém, que não deve se colocar na posição de depósito de conteúdos exteriores; a verdade deve ser colocada em jogo, pois a construção de sentido vale mais que a erudição com fins cumulativos. O pensamento precisa do contingente, do particular, do não-abstrato; assim: “[...] para que o pensamento [...] adquira sua plenitude e verdade [...] precisa mergulhar na profundidade da vida substancial [...]” (KIERKEGAARD, 2013, p.276). Não negar a vida e nem se em encerrar em aspirações restritamente especulativas.

Podemos observar temas como racionalismo, romantismo e niilismo, como fios que entrelaçam de maneira significativa o pensamento de Kierkegaard e Dostoiévski, cada um, em sua realidade e em seu contexto, buscou sem a ajuda de Ariadne, a saída do labirinto lógico, que aprisionava o indivíduo particular. Mas a experiência do labirinto também lhes foi significativa, foi percorrendo seus corredores, sentindo suas vibrações, tocando em suas querelas e compreendendo a sua arquitetura, que conseguiram se colocar como artesãos do próprio pensamento.

O tempo dos autores se colocava como o tempo da razão, não entendida como a sabedoria dos filósofos antigos, mas como razão que atinge o seu ápice de maneira científica. A discussão filosofia/ciência merece um pouco mais da nossa atenção. Hannah Arendt, em A Condição Humana, indica que a Filosofia Moderna se portou voluntariamente como serva da ciência, acompanhando a sua ama com grande devoção e pouca serventia, buscando agradar- lhe e servi-lhe, ansiando por afeição e confirmação, mesmo que isso signifique a mais pura das opressões. Arendt observa que:

[...] Não foi no pensamento da Idade Média, mas na era moderna, que a filosofia passou a segundo ou mesmo a terceiro plano. Depois que Descartes baseou sua filosofia nas descobertas de Galileu, a filosofia parece condenada a seguir sempre um passo atrás dos cientistas e de suas descobertas [...] Os filósofos tornaram-se epistemólogos, preocupados com uma teoria global da ciência da qual os cientistas não necessitavam, ou tornaram-se aquilo que Hegel queria que fossem: os órgãos do Zeitgeist, os porta-vozes por meio dos quais o estado de espírito geral da época era expresso com clareza conceitual [...] a filosofia sofreu mais com a modernidade que qualquer outro campo do esforço humano [...] (2010, p.367).

A autora conclui que, a Filosofia, anestesiada pelos progressos da ciência, abre as portas do seu espaço intelectual, não para um diálogo- o que poderia ter sido mais proveitoso-, mas para legitimar definitivamente a superioridade científica.

Essa efervescência e admiração pelos prenúncios da ciência, não lesou apenas a Filosofia, a comoção foi geral. Na Dinamarca de Kierkegaard, por exemplo, os teólogos vestiram o manto da ciência, postura denunciada pelo autor como uma grande ignomínia: “[...] a importância da ciência faz os pastores de bobos, transformando-os em uma espécie de sacristãos de professores que também servem à ciência [...]” (KIERKEGAARD, 2010, p.18). E na Rússia de Dostoiévski, a ciência passara a se infiltrar na produção literária. Diane Thompson nos relata que: “Até a metade do século XIX, a ciência havia causado pouco abalo na Literatura Russa [...] Mas, a partir da segunda metade do século XIX [...] ideias científicas [...] começaram a se arrastar pela Rússia [...]” (2002, pp.192-193, tradução nossa), causando assim, impacto em todas as áreas, na Literatura e, também no campo religioso- como nos explica Thompson. Dostoiévski afirma seu repúdio contra essa postura reducionista, e com o paradoxalista, brada que a vida não pode ser plenamente explicada pelo ideal científico.

Hegel, certamente tentou recuperar a posição da Filosofia, colocando a atividade científica como sua co-pertencente, mas ao afirmar uma Filosofia Científica, o pensador acabou revelando a necessidade e a dependência da Filosofia Moderna em relação à Ciência. Hegel lança mão da lógica com o intuito de tudo explicar- nesse ponto a natureza já havia sido desencantada-, por que não desencantar o próprio homem? Mostrando-lhe que ele apenas está em função do Todo? Mesmo quando desempenha os maiores feitos, ainda assim, nada mais é que um momento. É precisamente isso o que Kierkegaard nos evidencia, quando diz que: “[...] individualidades histórico-universais são grandes justamente porque a vida inteira delas não lhes pertence, e elas [...] nada retêm para si mesmas [...]” (2013, p.238). Por isso ele escolhe a “pequenez” de ser apenas um homem dotado de história pessoal.

Como já debatemos aqui, a crítica à Hegel não se dá em um nível de oposição absoluta89. Kierkegaard admite o válido esforço de Hegel em pensar a história90, problematizando-a; ele admira o empenho de Hegel, levando em consideração que: “[...] Hegel [...] não recusa o passado, mas sim o compreende; não despreza outros pontos de vista [...] mas o ultrapassa [...]” (2013, p.281). Postura muito mais cônscia e deliberada que a dos

89É válido ressaltar que com Kant, o autor também rivaliza. Ele nos explica a experiência do eu no criticismo kantiano, da seguinte forma: “[...] Quanto mais, no criticismo, o eu mergulhava na contemplação do eu, tanto mais magro ficava este eu, até que acabou tornando-se um fantasma [...] Aconteceu com o eu o mesmo que com o corvo, que, encantando com os elogios da raposa sobre sua pessoa, deixou cair o queijo. Enquanto a reflexão refletia constantemente sobre a reflexão, o pensamento se desencaminhou, e cada passo que ele dava adiante o afastava naturalmente mais e mais de todo conteúdo [...] Aconteceu com a filosofia o mesmo que com um homem que está de óculos e apesar disto procura por eles, procura diante do nariz o que está em seu nariz, e por isso nunca o encontra [...]” (KIERKEGAARD, 2013, p.274; grifo do autor).

90“[...] Ele reconhece que Hegel é o maior de todos os filósofos, que o seu „sistema‟ é mais compreensível e mais sistemático do que os grandes sistemas, digamos, de Aristóteles, Aquino, Spinoza, ou Kant. [...]” (WESTPHAL, 1998, p.102, tradução nossa).

jovens românticos que buscavam apenas no presente o prazer do todo. Assim como Hegel, Kierkegaard se volta contra a postura romântica, por considerá-la irrefletida e temerosa, mas é válido ressaltar que, como nos diz Westphal: “[...] Ter um inimigo em comum, não remove as diferenças entre duas pessoas [...]” (1998, p.104, tradução nossa).

Qual o motivo da inimizade de Kierkegaard com os românticos em geral? Bem, se para Dostoiévski a raiz do niilismo era o caráter ateu do pensamento racional, que elevado a sua enésima potência acreditava tudo gerir e controlar; para Kierkegaard- como nos explica Guiomar De Grammont-, é a falta de compromisso diante das escolhas que caracteriza o niilismo; ao não efetivar uma escolha, a própria possibilidade aniquila o indivíduo. E esta é a postura de parte dos românticos, ou melhor, é uma forma de impostura, que produz resultados: “[...] A conseqüência dessa experiência no plano do possível é um niilismo que conduz, cada vez mais, à inércia [...]” (2003, p.77).

A irresponsabilidade se dá por o indivíduo se furtar a escolher e lidar com o que foi escolhido. Para Kierkegaard, o Indivíduo autêntico é aquele que tem a percepção que: “[...] ele tem de se sentir integrado em um contexto maior, tem de sentir a seriedade da responsabilidade, tem de sentir e respeitar todas as conseqüências racionais [...]” (KIERKEGAARD, 2013, p.282). Ele pode se proclamar livre, resistir em uma postura irascível diante da realidade, mas assim, ele será livre de tudo que a compõe, ele será igualmente “[...] livre de suas alegrias, livre de suas bênçãos [...]” (KIERKEGAARD, 2013, p.283). O “viver poeticamente” defendido pelos românticos, significa para autor, viver de modo insípido.

Kierkegaard caracteriza o romântico a partir do esteta, que perde as rédeas da sua vida, no exato momento em que tenta agarrá-las, pois anula a sua capacidade de escolher, permitindo “[...] o destino e o acaso decidirem [...]” (KIERKEGAARD, 2013, p.286). O romântico se torna um espectador91 da própria vida e sua palavra “[...] se torna uma palavra sem sentido, arrancada de sua conexão [...]” (KIERKEGAARD, 2013, p.286). Viver sem efetivar escolhas, é perder-se, não mais podendo acessar a liberdade em toda a sua potencialidade. De certa maneira, essa premissa resume o que pensa Kierkegaard da luta sem regras erigida pelos românticos.

O movimento romântico, amplamente divulgado em solo russo, teve um grande alcance e influência. Entre os eslováfilos, a sua presença foi incontestável, mas suas ideias

91“[...] ele vive de uma maneira demasiado abstrata, demasiado metafísica e estética [...] Para ele, a vida é um drama, e o que o ocupa é o enredo engenhoso do drama. E ele mesmo é espectador, ainda quando ele próprio é o ator [...]” (KIERKEGAARD, 2013, p.287).

também repercutiram entre os ocidentalistas. Joseph Frank esclarece que: “[...] todos eles passaram por uma evolução mais ou menos similar. Começaram com alguma forma de romantismo social ou filosófico [...]” (1992, p.70). Dostoiévski estabeleceu assim, um vasto contanto com os princípios românticos; após o período siberiano se inclina de forma cada vez mais intensa ao realismo, mas muitas das ideias defendidas continuam com teor romântico. Sua aproximação com os eslováfilos, por exemplo, é completamente permeada por uma exaltação à pátria, à sua nacionalidade, nos moldes românticos. Entretanto, a sua também forte ligação com a noção de responsabilidade, de uma ação guiada de modo refletido, acaba por diferenciar o escopo do seu pensamento. Dostoiévski, imbuído de senso de responsabilidade, clama antes por uma liberdade pautada na presença ativa do indivíduo.

Temos em Kierkegaard e Dostoiévski, dois autores fecundos, com uma ampla e significativa produção intelectual, produção que em muito se assemelha- o que não significa dizer que se equipara-, ao abordar o homem e seu processo de tornar-se. Ambos se preocuparam com a redução do indivíduo à lógica, à ciência e à especulação, em suma, ao pensamento abstrato que suprime o particular; ambos anteviram o caráter nocivo da ciência positiva desencontrada do existente substancial. O racional que penetra a existência, precisa entender que como a vida, a verdade não é apenas um resultado lógico.

Kierkegaard nos alerta que o homem “[...] empolgado pelo resultado, esqueceu-se que um resultado não tem nenhum valor quando não é conquistado [...]” (2013, p.333). Dostoiévski concordaria com Kierkegaard, pois para ele:

[...] A inteligência existe precisamente para alcançar aquilo que se quer [...] se você quer a todo custo alcançar o objetivo com um só passo, isto, a meu ver, não é de modo algum inteligência. Isto até se chama desamor ao trabalho. Não gostamos do esforço, não estamos acostumados a avançar passo a passo, queremos voar até o objetivo [...] (DOSTOIÉVSKI, 2000, pp.100-101).

É no esforço do vir a ser que a existência se efetiva, na tarefa de colocar-se diante da própria existência de forma concreta. É nesse sentido que os autores dialogam, eles procuraram enfatizar de forma autêntica a necessidade de o indivíduo compreender a relação entre verdade e liberdade.

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