Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nosso caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos. (Fernando Andrade, s/d)
No atual cenário do desenvolvimento tecnológico onde prevalece a cultura do acesso, da conectividade, da ubiquidade e da participação, o imbricamento das pessoas com seus dispositivos contribuiu para a expansão da aquisição e do uso das tecnologias móveis, transformando as relações entre as tecnologias digitais e os modos de ser e conviver em sociedade.
No contexto da cibercultura, permeado pelas tecnologias móveis e pelos ambientes digitais, o cenário contemporâneo vem estabelecendo mudanças nos processos sociais, comunicacionais, educacionais, dentre outros. Com isso, amplia-se os espaços de práticas sociais que privilegiam os diálogos e as trocas no ciberespaço, onde as pessoas podem produzir, colaborar e compartilhar informações, constituindo uma rede móvel de saberes e conhecimentos.
Na educação, as tecnologias móveis já se fazem presentes e propiciam que professores e alunos criem diferentes experiências didáticas, evidenciando novas formas de ensinar e aprender. Com vista a otimizar o processo de ensino-aprendizagem, a integração dos dispositivos digitais nas práticas pedagógicas amplia os espaços de aprendizagens e atende ao atual perfil dos alunos, agora mais digital, conectado e que prioriza a instantaneidade das informações multimidiáticas e a produção de conteúdos digitais.
Nessa perspectiva, a integração das tecnologias móveis na educação impulsiona para uma prática pedagógica mais participativa, dialógica e criativa, permitindo que o processo de aprendizagem ocorra em diferentes espaços, inclusive fora do ambiente escolar. Trata-se de realizar práticas que valorizem a participação, a colaboração e o compartilhamento de informações e conteúdos digitais produzidos entre professores e alunos que, nesse cenário, atuam em parceria nas construções coletivas de conhecimentos.
Para contextualizar o trabalho e auxiliar na compreensão das considerações produzidas, sintetizamos o percurso do estudo e da pesquisa, por meio de um esquema (Figura
96), que contribuiu para as respostas do problema investigado.
Figura 96 - Esquema da tese
Fonte: Elaborado pela autora, 2017
Dessa forma, por meio do referencial teórico estudado e, principalmente, a partir das vivências na pesquisa de campo, onde acompanhamos as práticas desenvolvidas entre os professores e alunos com os tablets, foi possível encontrar respostas para os seguintes questionamentos: De que maneiras os tablets, com sua característica básica de mobilidade, proporcionam a construção de conteúdos digitais que ultrapassem o espaço escolar? Que ações pedagógicas o professor desenvolve para trabalhar na perspectiva da colaboração nas produções dos conteúdos digitais de modo a promover a interação entre os envolvidos no processo? De que maneiras professores e alunos utilizam os tablets para compartilhar informações, inclusive os conteúdos digitais produzidos por eles?
Esses questionamentos auxiliaram na resposta da pergunta de investigação da pesquisa: Em que medidas as atividades de produção de conteúdos digitais, construídos por meio dos tablets por um grupo de professores e alunos, possibilitam inovações nas práticas pedagógicas no contexto da cibercultura?
A análise do projeto pedagógico da Escola Municipal Lagoa do Abaeté e a convivência com os professores e alunos durante a pesquisa de campo revelaram que as tecnologias digitais são muito presentes nas atividades desenvolvidas na unidade escolar. Foi possível constatar que os computadores e os tablets são utilizados constantemente para realização de pesquisas, atividades e entretenimento.
A prática de produzir conteúdos digitais entre professores e alunos encontrava-se em desenvolvimento na unidade escolar. Com a chegada dos tablets, esse tipo de produção ampliou-se e se transformou, já que não era apenas realizada no laboratório de informática. As primeiras produções de conteúdos digitais realizadas com os tablets aconteceram nas dependências internas da unidade escolar.
Incorporando cada vez mais os sentidos da mobilidade dos tablets, professores e alunos passaram a realizar atividades fora dos muros da escola. São ações planejadas para complementar e enriquecer os temas trabalhados em aula e, de acordo com o planejamento, construir algum conteúdo digital.
Sobre a construção dos conteúdos digitais para além do espaço escolar, nas aulas realizadas nos arredores da escola ou em outros espaços de aprendizagens, constatou-se que os tablets eram utilizados, principalmente, como meio para registros fotográficos e de vídeos que seriam utilizados nas produções. É verificável que, mesmo utilizando o dispositivo apenas para registrar dados de determinados assuntos, o envolvimento e interesse dos alunos nessa fase do processo da construção dos conteúdos digitais eram reais, o que favoreceu uma aprendizagem diferenciada e a ampliação de conhecimentos do tema abordado.
Durante a pesquisa de campo, foi possível perceber como a interação dos alunos com os tablets acontecia de maneira intuitiva, integrando-se perfeitamente às práticas pedagógicas desenvolvidas dentro e fora do espaço escolar. Essa intimidade dos alunos com os tablets e a hibridização dos espaços de aprendizagem contribuíram para novas aprendizagens e incentivaram práticas inovadoras, como ocorreu nas produções do álbum digital, do vídeo e do seminário produzido pelos professores e alunos.
Na reflexão acerca das ações pedagógicas que os professores desenvolvem para trabalhar na perspectiva da colaboração nas produções dos conteúdos digitais foi factível identificar que o trabalho colaborativo é uma prática comum na Escola Municipal Lagoa do Abaeté. Na unidade escolar, professores e alunos dedicam tempo e empenham-se em ações que visam ampliar as trocas na produção de novos conhecimentos e conteúdos digitais.
As duplas ou os grupos que se formam para produzir os conteúdos digitais são estimulados pelos professores a desenvolverem habilidades que envolvem diálogo, decisões
conjuntas, responsabilidades compartilhadas e relações horizontais, no intuito de que as produções aconteçam com qualidade e que os alunos construam diferentes competências no processo de aprendizagem. Eles também são estimulados às práticas de trocas de informações e saberes com o objetivo de ampliar o exercício da colaboração e da construção de conhecimento.
Nas vivências em campo, verificamos o compromisso e as trocas dos grupos, principalmente quando se tratava de atividades que tinham como objetivo a produção dos conteúdos digitais. Nesse processo, acompanhamos parcerias sendo formadas e outras parcerias desfeitas, uma vez que a compreensão dos alunos frente à importância da atividade favoreceu as transformações nos comportamentos e nas atividades cotidianas dos grupos de trabalhos.
Outra ação pedagógica que os professores desenvolveram para trabalhar na perspectiva da colaboração foi o estabelecimento de regras/combinados e as definições dos papéis de cada aluno dentro da atividade. Essa ação garantiu a participação de todos, assegurando a motivação na realização da atividade e viabilizando a construção colaborativa dos conteúdos digitais.
Nessa perspectiva, notamos que as ações promovidas pelos professores ampliaram os benefícios da colaboração nos trabalhos em grupo, pois viabilizaram a aprendizagem por meio das trocas, proporcionaram a construção coletiva de conhecimentos e oportunizam a produção colaborativa dos conteúdos digitais.
No que tange às maneiras que professores e alunos utilizam os tablets para compartilhar informações, constatou-se que a prática de difundir informações e conteúdos digitais é desenvolvida na Escola Municipal Lagoa do Abaeté. Como a equipe pedagógica compreende que práticas de compartilhamento valorizam os trabalhos de professores e alunos e reforçam a participação na cultura digital, ela empenha-se em divulgar suas ações para a comunidade escolar e para a comunidade externa, pela internet.
A escola possui duas práticas bem comuns de compartilhamento dos conteúdos digitais: uma é socialização das produções com a comunidade escolar e com os moradores das adjacências da escola, uma vez que a equipe acredita na importância de socializar os conhecimentos, independentemente dos espaços e das pessoas envolvidas, para que todos possam ter acesso a novas informações que possam contribuir nas ações realizadas no seu dia a dia. Outra prática de compartilhamento é a publicização das ações pedagógicas na página do Facebook da escola, que tem por objetivo compartilhar todas as atividades realizadas no espaço escolar, desde reuniões de pais e mestres até as atividades de desenvolvimento de
projetos, com vistas a apresentar as ações, além de possibilitar a ampliação de conhecimentos, por meio dos conteúdos digitais publicizados na rede. Com o ideal da visibilidade, o compartilhamento das atividades escolares na internet também serve como um portfólio das produções realizadas por professores e alunos.
Geralmente, os registros das ações realizadas na unidade escolar são feitos com os tablets e no próprio dispositivo é feito o compartilhamento. Com os tablets e os ambientes digitais utilizados pelos professores e alunos, constatou-se que é possível produzir conteúdos digitais em diferentes formatos, publicar informações, curtir e comentar as informações publicadas e compartilhar conhecimentos e aprendizagens.
Apesar das práticas realizadas por professores e alunos na produção de conteúdos digitais serem exitosas, durante a pesquisa de campo identificamos alguns problemas de ordem estrutural que comprometeram, em alguns momentos, o desenvolvimento de certas práticas e limitaram as possibilidades de inovações pedagógicas.
Em algumas atividades, o trabalho foi realizado em dupla ou grupo por quantidade insuficiente de tablets que atendesse a uma turma inteira. Mesmo com a proposta de se trabalhar de forma colaborativa, há momentos em que é importante o manuseio do tablet individualmente. Para agravar a problemática da quantidade insuficiente de dispositivos, em certos momentos não se utilizavam alguns tablets por conta da falta de carregamento da bateria. Esse problema se dava pela inadequação da rede elétrica para fazer o carregamento simultaneamente dos tablets, uma vez que não havia número suficiente de tomadas para fazer o carregamento. Poucas vezes, visando sanar o problema, os tablets foram utilizados com cabeamento para que se fizesse o carregamento.
Outro problema que limitou a realização de práticas pedagógicas diferenciadas foi com relação aos roteadores wi-fi e à internet. A ausência de wi-fi impossibilitou a utilização da internet nos tablets em todo o primeiro semestre da pesquisa de campo. Quando essa questão foi resolvida, a baixa velocidade da internet comprometeu as atividades e ampliou o problema da conectividade na escola. Isso significa que, quando todos os tablets e computadores do laboratório de informática estavam conectados, a velocidade ficava ainda mais lenta, inviabilizando a realização de algumas atividades. Esse tipo de problema, por exemplo, reforça a utilização do tablet na grande maioria das vezes apenas para registros fotográficos e de vídeo. Sem a conexão ou com conexão de baixa qualidade, a tecnologia utilizada continua apenas como meio para transmitir informação. Dessa forma, continuam as velhas e habituais práticas pedagógicas, apenas com um recurso atualizado.
Um outro problema que chamou a atenção foi a pouca utilização dos tablets pelos professores regentes. Apesar dos professores regentes possuírem uma cultura digital, a incorporação das tecnologias nas suas práticas pedagógicas era ínfima. Eles estavam sempre apoiados à professora de tecnologia ou, quando era o caso, utilizavam o tablets para fins de registros de fotos e vídeos.
Para esses problemas, é factível inferir sobre a primordialidade de mudanças no sistema pedagógico, principalmente por parte da Secretaria Municipal de Educação de Salvador. Cabe aos órgãos competentes repensar todo o planejamento logístico para a integração das tecnologias nas escolas. Ver as questões de estrutura, número de dispositivos, acessibilidade à rede e apoio aos professores são questões básicas para garantir o uso das tecnologias e da internet nas unidades escolares. Aos professores cabe repensar sobre a importância da inclusão das tecnologias nas suas práticas pedagógicas, uma vez que na atual dinâmica social as tecnologias fazem parte do cotidiano dos alunos. O professor deve fazer as conexões necessárias das tecnologias com o fazer pedagógico, explorando suas potencialidades de interação, comunicação, colaboração e construção de informações, conteúdos e conhecimentos, características básicas de um fazer pedagógico dinâmico e sedutor.
A utilização dos tablets, em quase todas as atividades, apenas para práticas de registros de fotos e vídeos, também limita o potencial do dispositivo. Utilizar o tablet com internet possibilita uma variedade de práticas inovadoras, principalmente no sentido de participar, produzir, colaborar e compartilhar em rede, além de integrar as pessoas que, quando conectadas, podem realizar infinitas trocas e ações. A máquina fotográfica presente no tablet é mais um recurso do dispositivo e as ações pedagógicas não devem se restringir apenas a essa prática.
Por fim, os resultados obtidos permitem concluir que as atividades de produção de conteúdos digitais construídos por meio dos tablets possibilitam inovações nas práticas pedagógicas. Compreender as vantagens e potencialidades das tecnologias móveis é um meio de favorecer a realização de atividades que ultrapassam o espaço escolar, além de abrir espaço para aprendizagens nos ambientes digitais.
A realização de atividades de produção de conteúdos digitais, no que tange às inovações nas práticas pedagógicas em planejar ações nas quais era importante a utilização dos tablets, dos ambientes digitais e das aulas fora do ambiente escolar, trouxe os seguintes benefícios:
1 – Incentivo à participação dos alunos, que agora se fazem mais presentes e protagonistas.
2 – Valorização das práticas de colaboração, estimulando os alunos a criarem estratégias de trabalhar em grupo, seja por meio de combinados ou definições de papéis, o que lhes possibilitou a criação de novas habilidades.
3 – Motivação frente às práticas de compartilhamento das produções e conhecimentos, com as apresentações dos trabalhos dos alunos para a comunidade escolar e em rede, por meio do Facebook, com a publicização dos conteúdos digitais produzidos por professores e alunos.
As experiências vivenciadas por professores e alunos de produzir e compartilhar conteúdos digitais em diferentes espaços de aprendizagens marcam as inovações nas práticas pedagógicas e indicam as possibilidades de ampliação dos processos formativos do nosso tempo, nos quais se valorizam as pedagogias das conexões e se estimula a criação de uma rede móvel de produções.
Por meio das produções dos conteúdos digitais, as práticas pedagógicas na Escola Municipal Lagoa do Abaeté começaram a se ressignificar, inovando e transformando o processo de ensino-aprendizagem. Transformam-se os professores, que deixam de ser os únicos autores das produções e oferecem-se possibilidades de intervenções no processo; transformam-se os alunos, que, agora, mais participativos, produzem, tornando-se protagonistas nas produções; transformam-se as aulas, que, agora, acontecem dentro e fora do espaço escolar e nos ambientes digitais; transformam-se os conteúdos, tornando-se mais diretos, emergentes, digitais e publicizados; e transformam-se os meios e suportes que viabilizam todo esse processo de colaboração e compartilhamento, tornando-se mais ágeis, modernos e virtuais.
Esta tese não se esgota aqui. O trabalho abre-se a pesquisas relacionadas às tecnologias móveis na educação. Um dos assuntos a serem pesquisados, por exemplo, poderia tratar da análise das narrativas digitais produzidas pelos professores e alunos ou das autorias de professores e alunos nas práticas pedagógicas. Acreditamos que pesquisar essa temática é um processo inesgotável. Há um constante processo de transformação, e sua utilização na educação é irreversível. Consequentemente, discutir, estudar e pesquisar as tecnologias móveis no âmbito da educação são iniciativas imprescindíveis à sua inserção, e, assim, o processo de ensino-aprendizagem pode ocorrer com maior qualidade.
REDES MÓVEIS DE PRODUÇÕES:
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