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L’éviction du juge, innovation majeure de la réduction du prix

traduzimos a Torah como um livro único”, diz Rosenzweig acerca do que

denomina a “unidade da Bíblia”,

[p]ara nós ela é o produto de uma mente única. Não sabemos a quem pertenceu

essa mente; não podemos crer que tenha sido Moisés. Designamos essa mente entre nós [Rosenzweig e Buber], pela [mesma] abreviatura com que a Alta Crítica da Bíblia indica o presumido redator final do texto: R. Para nós entretanto ela não se refere a redator, mas a rabenu [nosso mestre]. Por que ele, quem quer que tenha sido, e seja qual for o texto que tinha à sua frente, ele é o nosso mestre, e sua teologia é o nosso ensinamento. (Rosenzweig, 1927, in Buber e Rosenzweig, 1994. pp.22-23, grifos meus, vide também Cap. 2, sec 7, pp. 54-55).

de Meschonnic é, definitivamente, a tradução dialógica de uma intensividade a la Rosenzweig, que não teme o estranhamento: a cada ideograma corresponde uma única palavra em francês, compondo assim uma quadra com versos de cinco palavras, versos esses que não formam frases coordenadas, no máximo sugerem soluções de coordenação que o leitor mais vivencia do que busca estabilizar como uma sentença com um sentido.

À luz da discussão no início da presente seção, fica claro que Rosenzweig, teologia à parte, está aqui reconhecendo—ou reconhecendo a necessidade de—um autor único e sua poética, de forma a que o todo da Bíblia hebraica constitua-se aos olhos de Buber-Rosenzweig num texto único e uno, com uma poética que lhe dá essa unidade. Assim, todo o esforço de tradução de Buber-Rosenzweig e as técnicas tradutórias que aplicam, pode ser entendido como o esforço de tradução de uma poética.

Essas técnicas tradutórias podem, conseqüentemente, ser entendidas como os

building-blocks de uma (re-)construção da poética no texto traduzido. A colometria, na medida em que, como já vimos, reconstrói na língua de chegada a oralidade de um texto escrito, reconstrói de fato uma poética. Não é portanto mera coincidência o fato de que tanto Buber-Rosenzweig quanto Meschonnic empregam a técnica da colometria. Mas há também, como vimos, a segunda técnica que Buber e Rosenzweig introduzem, a técnica das Leitwörter.

Lawrence Rosenwald, um dos editores da tradução para o inglês dos escritos de Buber e Rosenzweig sobre tradução da Bíblia, nos esclarece que

uma Leitwort é para um texto o que um Leitmotif é para uma ópera de Wagner: uma palavra temática ou complexo de palavras. [...] [E no que concerne o trabalho de] tradução, uma Leitwort é simplesmente uma palavra ou complexo de palavras que se deve traduzir consistentemente em todas as suas ocorrências, i. e., deve-se traduzir de tal maneira que onde uma Leitwort recorre no original, seu equivalente recorre na tradução. [ Rosenwald, 1994, p. xxxix].

Fazer isso não é tão simples quanto a formulação de Rosenwald (seu, “simplesmente” acima) pode fazer parecer à primeira vista8. Quando mais não seja,

há que reconhecer se um termo é ou não uma Leitwort, e isso ao longo de todo o texto da Bíblia, não apenas para um dado trecho ou só para um dado livro da Bíblia. E há que, dada a polissemia dos termos e a pluralidade dos contextos, decidir qual “equivalente” único adotar.

8 Cabe que fiquem aqui registrados dois exemplos dentre as Leitwörter que Buber e Rosenzweig

registram: as ocorrências do verbo “ver” nas narrativas de Abraão, que segundo Buber visam estabelecer a condição de “visionário” de Abraão. Essas ocorrências são numerosas ao longo dos caps. 12, 13, 16 e 17 do Gênesis, atingem um clímax no “teste de Abraão” no cap. 22, e chegam até ao livro de Samuel em Sam 9, 9 [Buber, apud Fox, 1997, pp. xv-xvi]. Outro exemplo é a consistência na tradução de reiqam por “de mãos vazias” [empyt-handed], que Rosenzweig advoga para as ocorrências em Gen 32, 24; Ex 3, 21 e Dt 15, 13. “Só assim [com essa consistência na tradução] a notória passagem do Ex pode ser corretamente entendida”, diz Rosenzweig [Rosenzweig, 1927, in Buber e Rosenzweig, 1994, pp. 24-25]. Note-se a inversão que se dá neste segundo exemplo com relação à visão tradicional: a tradução (a rigor a técnica de tradução) propicia a hermenêutica (vide Cap. 2, sec. 8, n. 10, p. 56). E por falar em hermenêutica e avant la lettre, pode-se reconhecer na postura que Rosenzweig adota no trecho citado pouco acima (no início desta sub-seção 6.1) de encarar a Bíblia como um texto unitário, a mesma postura da celebrada “hermenêutica canônica” de Brevard Childs (p. ex. em Childs, 2001, pp. 18, 21, 59), mais de cinqüenta anos avant la lettre.

Seja como for, está aí sem dúvida o reconhecimento prático, substanciado pela adoção de uma técnica tradutória, de que existem uma “coerência e sistematicidade

interna que fazem com que a unidade poética do texto seja, ela tão somente, o

próprio texto” [Meschonnic, 1999, p. 178, grifos meus. Vide p. 172 acima.].

Fox, na Introdução de sua tradução—rosenzweigueana—do Pentatêuco, avança um pouco mais que Rosenwald na direção da constatação de uma poética da Bíblia:

[à parte transmitirem um significado] as Leitwörter podem estar desempenhando um papel estrutural. [...] Os antigos redatores da Bíblia aparentemente moldaram [crafted] o material que receberam num todo orgânico. Usando meios tais como as palavras-líderes eles, com efeito, criaram uma nova literatura na qual profundas relações existem entre as partes e o todo. [Fox, 1997, p. xvii].

Mas é Buber quem, muito antes de Rosenwald ou Fox, coloca a questão em termos bem mais próximos a uma poética do texto bíblico, similares aos de Meschonnic:

Seqüências de sons, de palavras, de grupos de palavras recorrem [reaparecem] em específica relação com as diversas partes de uma passagem, com várias passagens, com vários livros; reaparecem de forma a constituir uma unidade discernível, [...]. O ensinamento bíblico menos apresenta suas maiores verdades do que deixa que elas se revelem [lets them be opened up] por esses arcos de

repetição significante, ligando passagem a passagem de forma perceptível a todo leitor atento e de mente aberta.” (Buber, 1926a in Buber e Rosenzweig,

1994, p. 14, negritos meus, itálicos de Buber, vide Cap. 2, sec. 7, p. 54).

Mais uma vez, o difícil aqui é saber-se o quão atento deve estar “todo leitor [/tradutor] atento” para que venha a discernir tais “arcos de repetição”. Mas o ponto principal a ressaltar são justamente “esses arcos de repetição significante” em si, enquanto entidade textual que Buber constata. Eis aí, sem dúvida, uma poética definição de “poética” e de “ritmo”, que Meschonnic com certeza aprovaria.

Num outro trecho, Buber é ainda mais explícito quanto a poética e ritmo. Um trecho que traz o bônus adicional de alertar contra a ilusão da dicotomia forma / conteúdo:

Não existe um “conteúdo” a ser extraído a partir do minério bíblico [to be smelted

from the biblic ore]; cada conteúdo bíblico existe em seu unitário e indissolúvel Gestalt, um Gestalt tão indissolúvel quanto o de um bom poema [...]. tudo

na Escritura é fala genuína [genuine spokenness], em comparação com a qual conteúdo e forma aparecem como o resultado de uma falsa análise.[...] A

Mensagem [...] entra na forma, ajuda a determinar a forma, transforma-a, e se transforma por [for] ela—mas sem com isso afetar-nos, nem um mínimo que seja, como algo que possa vir-nos distorcido, confundido, didatizado. [...].

o princípio através do qual isso é alcançado deve ser, justamente, um princípio formal. Esse princípio formal é o ritmo—mas ritmo tanto num sentido amplo,

quanto num bastante específico.” (Buber, 1926b in Buber e Rosenzweig, 1994. pp.28, grifos meus, vide Cap. 2, seção 7, pp. 54-55).

O primeiro parágrafo de Buber acima, descreve, poderíamos dizer, uma poética. O segundo faz do ritmo o princípio dessa poética. Um ritmo que “num sentido amplo” se desdobra com a sistematicidade dos “arcos de repetição significante” das

Leitwörter9.

Eis aí, portanto, na prática, na técnica tradutória das Leitwörter de Buber- Rosenzweig, a poética de um texto, num ritmo que é a sistematicidade do discurso desse texto. E tudo com vistas a preservar a “fala genuína”, ou seja, a oralidade do texto.

Quomodo erat demonstrandum, diria Meschonnic.

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