O Caranguejo, de tamanho bem maior dos que conhecemos, é uma linda marionete, do acervo Ereoatá, criada por Rubenval e Eliete. Até aquele dia, era desconhecido da maioria das crianças. Quando o viram, correram ao seu encontro e o circundaram com imenso carinho e logo perguntaram seu nome, mas a sua linguagem sapateada por suas várias patas era ininteligível. Prontamente, o Menino-Tradutor, colocando-se bem perto do bicho disse: – “Entendi. O nome dele e João Caranga!” Mais um João aparecia no nosso caminho, como desdobramento do primeiro João da história. João, portanto, era um sinal de pertença à família dos viajantes.
Rubenval movimentava a marionete pelo espaço e as crianças manifestavam o seu afeto, falando todas de uma vez atrás do bicho, até que uma delas disse que o Vento o havia trazido do mar. Eu lhes disse, então, que João Caranga teria de voltar para o mar de onde viera. Ninguém queria que o bicho fosse embora e o Menino-Tradutor ponderou:
– Gente, calma! O Caranguejo deve estar querendo dizer alguma coisa. Eu vou entender. Ele está perguntando quem somos nós. Ele está dizendo que estamos muito perto da Feiticeira e que temos que dormir para descansar [O Caranguejo batuca mais uma vez suas patas]. Ele está dizendo que precisa voltar para a praia [O menino observa o bicho com cumplicidade]. Ele vai se encontrar com a namorada dele. [Todas as crianças sorriem e se divertem].
Ao que Tiago, um dos mais novos meninos, concluiu: – “Eles vão ter filhotes”.
O Menino-Tradutor, como um co-diretor e dramaturgo, indicou a continuidade da cena, como também a continuidade da vida, que foi ressaltada pelo aparte do menino Tiago. A
partir dessa constatação, as crianças deixaram o formoso bicho partir e fomos conversar sobre a nossa manhã de criação.
Repercussão: A Roda de Conversa final foi animada. As crianças queriam estar mais dias juntas, dando continuidade à nossa aventura. Nos sábados e quartas-feiras seguintes, seguimos aprimorando as cenas, do começo até aquele momento – anterior ao encontro com a Feiticeira. Precisávamos de mais tempo de trabalho, somente com os jovens para trabalharmos as personagens do mundo vegetal. Nesses encontros extras isso foi possível: descobrimos a forma musical para os jovens-atores dizerem o texto elaborado pelas crianças, a partir do exercício que fizeram comigo, como a suposta Feiticeira, e uma movimentação com pernas de pau e cordas de sisal os unindo como uma floresta tropical. Esta seria a surpresa que preparávamos para as crianças.
Além dos ensaios, no mês de agosto, estávamos envolvidos com muitas outras dimensões da criação cênica75. E as surpresas não paravam de acontecer: no dia vinte e três,
depois do Encontro de Criação, a mãe de Íris (com suas duas filhas) me esperava na entrada do Ponto de Cultura, com três jabotis em suas mãos e pediu que os levasse para meu quintal “já que eu gostava tanto de bicho”, pois, segundo ela, estava difícil criá-los na laje de sua casa. Eu aceitei a missão, como sinal de extrema confiança. A fêmea, assim que chegou ao meu quintal, botou três ovos e os enterrou com suas patas traseiras; eu tive o privilégio de assistir a mais um ato da criação. Os jabotis passaram a ser assunto das Rodas de Conversa de todos os nossos Encontros; estes misteriosos bichos da mata tonaram-se mais um elo de nossa amizade.
DIA 27 DE AGOSTO:
Tempo que me mediu. Tempo? Se as pessoas esbarrassem para pensar – em uma coisa! –: eu vejo é o puro tempo vindo de baixo, quieto, mole, como a enchente duma água...Tempo é a vida da morte: imperfeição. (ROSA, 2001, p. 603) A dimensão mitopoética de nosso fazer teatral reafirmava-se através da presença dos jabutis de Itinga em meu quintal; nas celebrações de aniversário; nos festejos da Copa do Mundo e do São João; na convivência com as chuvas de inverno que escorriam das lonas do Teatro Ereoatá; nas conversas com os familiares das crianças e com os vizinhos nas calçadas.
75 Refiro-me à produção executiva, à criação e confecção de cenário, figurino, além das demandas burocráticas para o recebimento dos recursos que obtivemos da UFBA, através do Edital PROEXT-Artes que iria viabilizar a vinda das mestras, o que também demandava esforços nossos de produção e logística.
Ou seja, nas ações-imagens reveladoras dos vínculos comunitários mediados pelas crianças. A dimensão afetiva e comunitária do trabalho comportou também a dor da perda, com a morte de Ruth, mãe do menino Álvaro, que se recolheu em luto e foi acolhido na casa de Rubenval e Eliete. Os Encontros de Criação, durante o afastamento do menino, passaram a ser permeados por essa experiência profunda da vida, que não se traduzia em palavras, mas em respeitosa espera pelos gestos das crianças. Desejávamos o breve retorno do menino-guerreiro.
4.11 PASSAGEMFLOR
O que, por começo, corria destino para a gente, ali, era: bondosos dias. (ROSA. 2001, p. 303)
DIA 29 E 30 DE AGOSTO:
Aninha Umburana chegou para ficar dois dias conosco. Meus parceiros Eliete, Rubenval, as crianças e jovens a receberam com muito carinho; já a esperavam como também conheciam algumas de suas cantigas, como a do passarinho que eu havia lhes ensinado:
Sabiá estava sentado Na palhinha do dendê Namorando com a rolinha
A rolinha sem querer Gavião é tolo
Tolo é você
Na Roda de Conversa, as crianças contaram a sua aventura de teatro pela história que inventaram, e todos nós ouvimos as histórias de Aninha sobre a vida com sua família, sobre as atividades que desenvolvia com as crianças de seu município, sobre seu encontro com a Estrela que anunciou nossa amizade e muitas outras cantigas quando, com ela, formamos uma roda.
Aninha estava muito bem inteirada de nosso processo de criação, pois, além de estar hospedada em minha casa, já conversávamos sobre a sua participação no projeto das Primeiras Águas desde as minhas primeiras ideias. Portanto, nesses dois Encontros no Teatro Ereoatá, foi imediata a sua integração. Ao lado do Viajante-Rubenval, participou de todas as cenas criadas, marcando, com a terna e musical presença feminina, as passagens entre as Florestas. A partir da presença de Aninha tudo ficava mais suave, seguindo o ritmo das águas.
DIA 31 DE AGOSTO:
Lembro um menino repetindo as tardes naquele quintal. (MANOEL DE BARROS, 1993, p. 27). Desde a criação da cena pela Floresta da Terra, sentia a necessidade de tingir malhas que comporiam os caminhos subterrâneos definitivos por onde as crianças seguiriam a sua viagem. Estava em busca das cores, nuances e texturas da terra e essa busca correspondia aos meus “devaneios de intimidade material”, intuindo ser “a tintura uma verdade das profundezas”, como compreendi mais adiante com Bachelard (2003, p.26).
A tintura que imaginava era em tons de ocre, marrom, vermelho e com pitadas de preto. Partia das mesmas cores presentes da pedra-coração que emprestei ao menino Gustavo como um sinal da Terra, um amuleto que o menino guardava, em confiança, no bolso de sua bermuda.
Em meio aos desafios do tempo, o aspecto colaborativo de nosso projeto se ampliava e, na manhã desse dia de sol de agosto, em meu quintal, finalmente pude tingir os panos, contando com a ajuda da amiga Alessandra Mariano76, conhecedora de tonalidades, arquitetura e outras artes.