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Coube ao engenheiro Guilherme Francisco Cruz, que já havia sido vice- presidente da Província e foi o autor do primeiro orçamento do teatro, a fiscalização da fase litigiosa da obra. Em 8 de julho de 1875, o engenheiro fiscal enviou intimação a João Francisco Fernandes, para que começasse, em oito dias, os trabalhos faltantes apontados pela comissão. As obras deveriam durar quatro meses, pois o material necessário teria de ser comprado “fora do Império”. O arrematante prometeu por várias vezes dar início às obras, mas não o fez. Argumentou motivos diversos, reivindicou indenização sobre as obras a serem feitas, pois as reconhecia como obras novas, mas não atendeu as ordens do governo. Em dezembro de 1875, a construção do Teatro da Paz já se tornara objeto de litígio, sob a jurisdição da Primeira Vara. O ano de 1876 correu sem que o teatro fosse entregue definitivamente, e a documentação disponível dá conta de um teatro edificado, porém fechado, tendo em seu entorno batalhas no campo da burocracia e da Justiça. Corrigiam-se documentos, tentava-se esclarecer dúvidas, mas o problema persistia.

Na esfera governamental, em 1877 realizou-se mais uma avaliação a cargo do novo engenheiro fiscal, Martinho Domiense Pinto Braga,53 nomeado pelo presidente João

53 O parecer deste engenheiro está anexo à Falla do presidente João Capistrano Bandeira de Mello Filho à

Capistrano Bandeira de Mello Filho. O engenheiro foi taxativo em reprovar a obra, recomendando a não aceitação tal como se apresentava. Em linhas gerais, seguiu à risca o parecer da comissão de 1875 nos aspectos principais, a solidez e a segurança. Condenou a pouca espessura dada às paredes mestras da edificação, atentando para sua volumetria; viu a necessidade de ser feita uma “amarração” nas paredes que separavam o palco da plateia, na altura do arco do proscênio, para suportarem o peso do arco, o que no Teatro da Paz fora omitido. E, ainda, seguindo as críticas das comissões, reiterou a falta de segurança na estrutura do telhado (as tesouras) e nos assoalhos do palco e da plateia. No caso da estrutura do telhado, Braga não se furtou em apontar o que seriam gambiarras: remendos feitos com pedaços de madeira para disfarçar imperfeições na madeira.

Em peiores condições fui encontrar uma outra importante viga de um dos frechaes da secção da frente: esta viga, estando podre e inutilisada em uma de suas extremidades, foi ali aproveitada, procurando-se occultar esse máo estado com pedaços de taboa fina embutida e pregada com arte, de sorte a só poder ser descoberta por um minucioso exame. (FALLA..., 15 fev. 1877).

Reiterou os defeitos nas obras de cantaria, as obras mais caras: as colunas, em número menor do que pediam as plantas, não estavam de acordo com as dimensões requeridas pelas regras da ordem coríntia; os degraus estavam assentados sobre alvenaria de pouca qualidade; e o calçamento era estreito e suas pedras já estavam partidas. Também apontou o perigo da inclinação dos lances das escadas que levavam às ordens de camarotes, sinal de falta de apoio. Segundo ele, só com a circulação de poucos curiosos que ali foram para ver as obras produziu-se aquele efeito. Para Braga, o resultado da obra não correspondia a nenhum dos planos arquitetônicos avaliados, mesmo os que Chermont havia rubricado.

De tudo concluo que as obras do Theatro de N. S. da Paz, foram guiadas até certo tempo por um plano, o qual passou a ser alterado; fazendo-se depois um desenho das obras assim alteradas, cujo mappa é o que hoje se apresenta, sendo que em ultima analyse este mesmo não pôde ser respeitado. (FALLA..., 15 fev. 1877).

Em 16 de fevereiro de 1877, o procurador de João Francisco Fernandes, o advogado Antônio Francisco Pinheiro, respondeu ao parecer de Braga. Por não conhecer as especificidades da função de engenheiro, como ele mesmo adiantou, Pinheiro amparou- se nos relatórios dos antigos fiscais das obras e em autores já citados, como Cavos, remetendo-se a outros, fazendo uma colagem de informações já conhecidas dos relatórios de Julião Miranda e Chermont. Refutou todas as críticas do engenheiro fiscal, mas suas

explicações acrescentaram pouco ao debate, a não ser algumas curiosidades que a sua percepção de leigo em engenharia proporcionou. Como neste trecho em que tentou explicar por que as paredes mestras não tinham a mesma espessura em toda sua extensão.

Rarissimas vezes, ou nunca se reproduz na natureza um phenomeno phisico em condicções rigorozas de igualdade, como tambem difficil sendo impossivel é fazer-se reaparecer todas as circunstancias ou condicções que acompanharam ou concorreram para esse phenomeno. Por semelhante razão não se poderá nunca assignar com rigor mathematico a solidez que deve ter uma parede com tal ou qual espessura: os factos tão somente os factos devem guiar o engenheiro em questões semelhantes.

Entre tanto seis longos annos tem decorrido depois da cobertura do Theatro da Paz; seis grandes e intensivos invernadas tem passado sobre elle, e a despeito das grandes e demoradas escavações feitas em seos alicerces, [...] até hoje o mais leve signal se não manifestou em parte alguma de suas obras, que revelle essa pouca segurança a que allude o illustre engenheiro! (RELATÓRIO..., 16 fev. 1877).

O documento é farto em ironias, mas por ele se tem as notícias mais atualizadas da questão. Sabe-se, por exemplo, que o teatro está “sugeito a critica de todos, função seguramente mais facil do que a concepção dos seos planos e orçamentos com a sua elevação ou construcção”. Que o teatro está sem conservação há quatro anos, sujeito às ações do tempo e das chuvas, prejudicando os estuques artísticos das galerias e pórticos. E que as infiltrações pelas águas das chuvas se deviam ao motivo singular de serem os canos entupidos por pedras jogadas para dentro do teatro por transeuntes. Ao que ele perguntou: “Mas que responsabilidade poderá desse facto vir sobre mim?”

Em 18 de agosto de 1877, um acordo foi estabelecido entre o governo e o arrematante para que as obras fossem concluídas e entregues definitivamente. Enquanto isso, o presidente tomou algumas providências, como a contratação, em outubro, do empresário Vicente Pontes de Oliveira, o mesmo arrendatário do Teatro Providência e antigo dono do Teatro Chalet. A Empreza Vicente estaria encarregada, durante cinco anos, das temporadas artísticas no Teatro da Paz e, ainda, pelo fornecimento de iluminação, decoração, cenografia e acessórios de cena.

As atividades administrativas seriam conduzidas pelo Conservatório Dramático Paraense, criado em 7 de setembro de 1873, com o objetivo geral de “restaurar, conservar e aperfeiçoar a literatura dramática, a música, a pintura e a declamação e artes mímicas”. Entre suas atribuições estava a elaboração do regulamento do novo teatro. A partir de 1882, passaria a existir a figura do administrador, em substituição aos membros do conservatório, que se revezavam, mês a mês, na tarefa.

O teatro custou aos cofres públicos 765:251$281, perto de 800 contos de réis, quase o dobro de seu primeiro orçamento, ou algo em torno de 230 mil dólares, considerando-se o valor do conto no início da década de 1880, estimado em 300 dólares. Uma conversão automática

aos valores de hoje seria totalmente arbitrária, em função das inúmeras flutuações do câmbio naquela década e nas posteriores, assim como as inúmeras mudanças de padrão monetário no Brasil. Para se chegar a um cálculo, seria necessário criar instrumentos de avaliação das curvas de preços, sem perder de vista a análise das complexidades da vida material,54 o que seria

uma outra árdua tarefa.

O recebimento definitivo

er. Na noite de 15 de fevereiro de 1878, Bandeira de

do edifício se deu apenas dois dias antes de sua abertura oficial. João Capistrano Bandeira de Mello Filho conseguiu desembaraçar a questão 22 dias antes de passar o cargo ao próximo presidente, José da Gama Malch

Mello estaria à frente dos festejos da inauguração, sendo recebido por bandas de música e girândolas de foguetes.

Imagem 9: A fachada do Teatro da Paz em 1898. Fototip. Stab. Armanino (Gênova). Fonte: Album Descrittivo do Pará, 1898.

Imagem 10. Vista do Teatro da Paz a partir da Praça da República arborizada, 1898. Fonte: Álbum do Pará em 1899. Reprodução: Paula Sampaio.

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