C. DE LA PROCÉDURE À L’ACCOMPAGNEMENT : REPENSER LE PROBLÈME DU
2. L’éducation et l’accompagnement à tous les stades du surendettement
A Constituição Federal de 1988 e as Leis Orgânicas da Saúde trazem em seu texto toda a conceituação de saúde, isto é, os princípios e normas da saúde pública brasileira. Porém, a grande questão a ser resolvida é o modo de fazer isso, ou seja, a maneira de fazer dos agentes integrantes do processo (gestores, trabalhadores de saúde e usuários) para que tenhamos efetivamente assegurado no nosso cotidiano o SUS que está na Lei.
Associado a isso, a alta complexidade da saúde atualmente, quando compreende-se que existem múltiplos aspectos envolvidos, tais como biológicos, psicológicos, sociais e até espirituais, faz necessária uma equipe de saúde composta pelo maior número de profissionais possível para detectar e auxiliar a resolver as necessidades de saúde de cada usuário.
Porém, a formação geral de cada profissional de saúde é ainda fortemente pautada pelo individualismo, sendo muito difícil no dia-a-dia o trabalho em equipe, com a divisão de poder e com as tomadas de decisões em conjunto.
Por isso, faz-se necessário criar condições para que a transdiciplinaridade realmente aconteça nos serviços de saúde através da participação de todos da equipe também na gestão do seu posto de trabalho.
Este trabalho é um processo desencadeado em virtude do primeiro curso de Especialização em Humanização na Atenção e na Gestão do SUS realizado em 2007 pelo Ministério da Saúde, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Universidade Federal Fluminense e Universidade de Ijuí e visa narrar um processo de estímulo à cogestão e gestão participativa ocorrido na Clínica de Fisioterapia da Universidade de Caxias do Sul (CLIFI-UCS) com a criação de um Grupo de Trabalho em Humanização (GTH).
Caracterização do Local de Trabalho: a CLIFI-UCS
A Universidade de Caxias do Sul (UCS) é uma instituição comunitária da região nordeste do estado do Rio Grande do Sul, com caráter público na esfera civil, vinculada a um projeto social de desenvolvimento.
O curso de fisioterapia da UCS teve início em 2000 e prevê no seu projeto pedagógico que o perfil deste novo profissional contemple uma nova tendência de formação, ou seja, um profissional generalista com capacidade de intervir nas diferentes condições de saúde em todo os ciclos vitais, atuar em todos os serviços de saúde e outros cenários no intuito de preservar a funcionalidade do movimento humano propondo meios e recursos para este fim.
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Assim, o curso de fisioterapia da UCS necessita de espaços diferentes para a formação desse novo profissional. Em virtude disso foi criada, em setembro de 2004, a Clínica de Fisioterapia da Universidade de Caxias do Sul (CLIFI-UCS) para propiciar espaços terapêuticos, pedagógicos e de pesquisa, vinculando-os aos objetivos de atendimento para os usuários do Sistema Único de Saúde. Esta clínica tem como missão prestar assistência fisioterapêutica regional aos usuários referenciados em todos os âmbitos de atuação fisioterapêutica (atenuação, compensação, reabilitação, recuperação, prevenção, manutenção e promoção) e servir de campo de estágio para atividades de ensino e para atividades de pesquisa e extensão. Com vistas a trabalhar mediante uma abordagem de atenção integral, houve a contratação de uma equipe multiprofissional. A capacidade instalada e abordagem de saúde integral oportunizou à CLIFI-UCS tornar-se referência de média complexidade para a região serrana do Rio Grande do Sul para serviços de reabilitação.
Em virtude das mudanças ocorridas no serviço realizei, em junho de 2007, um levantamento dos processos de trabalho da CLIFI-UCS no qual foram percebidas algumas dificuldades gerais, tais como: a fragmentação do processo de trabalho e das relações entre os diferentes profissionais, precária interação da equipe e despreparo para lidar com a dimensão subjetiva nas práticas de atenção.
Essas dimensões podem ser entendidas no contexto geral de especialização excessiva dos profissionais de saúde, o que fragmenta o processo, gera dificuldades de relacionamento, competição interna entre profissões de saúde - culminando na impossibilidade do trabalho em equipe multidisciplinar ou transdiciplinar - e na impossibilidade de trabalhar o conceito de cuidado integral ao usuário.
Essa compartimentalização das profissões de saúde gera dificuldade de comunicação entre a equipe. Como a equipe não se comunica, não consegue articular ações conjuntas e efetivas para avaliar e resolver as necessidades de saúde dos usuários. Em síntese, não conseguimos ainda, realmente, propiciar saúde aos usuários, pois o nosso processo de trabalho não contempla um olhar do todo do usuário, mas sim olhares fragmentados e técnicos provenientes de cada profissional de saúde.
A criação do GTH da CLIFI-UCS
Diante de todas dificuldades encontradas na CLIFI-UCS, começei a pesquisar soluções para esses desafios. Foi então que me deparei com a Política Nacional de Humanização (PNH).
Para o Ministério da Saúde (BRASIL, 2004b), o HumanizaSUS é a aposta para enfrentar o desafio de tomar os princípios do SUS no que eles impõem de mudança dos modelos de atenção e de gestão das práticas de saúde. Por humanização entende-se a valorização dos diferentes sujeitos implicados no processo de produção de saúde. Os valores que norteiam esta política são a autonomia e a protagonismo dos sujeitos, a corresponsabilidade entre eles, o estabelecimento de vínculos solidários, a participação coletiva no processo de gestão e a indissociabilidade entre atenção e gestão.
A Humanização é uma mudança das estruturas, da forma de trabalhar e também das pessoas. A humanização da clínica e da saúde pública depende de uma reforma da tradição médica e epidemiológica. Uma reforma que consiga combinar a objetivação científica do processo saúde/doença/intervenção com novos modos de operar, decorrentes da incorporação do sujeito e de sua história desde o momento do diagnóstico até o da intervenção. O trabalho em saúde se humaniza quando busca combinar a defesa de uma vida mais longa com a construção de novos padrões de qualidade da vida para sujeitos concretos (CAMPOS, 2005).
Nas cartilhas HumanizaSUS de 2004 e 2006 encontramos a divisão metodológica da PNH em: princípios, métodos, diretrizes e dispositivos. Os princípios são baseados nos princípios do SUS e são a transversalidade e a indissociabilidade entre a atenção e gestão. O método da PNH, por sua vez, é o modo de fazer e tem um sentido de inclusão. Para Barros e Passos (2005b), as diretrizes da PNH são as orientações gerais da política que expressam o método de inclusão no sentido da clínica ampliada, cogestão, acolhimento, trabalho e trabalhador de saúde, direitos dos usuários, ativação das redes sociais e educação permanente. Já os dispositivos são os modos concretos de operar ou agenciamentos coletivos concretos para a realização das diretrizes da PNH, sendo que todo dispositivo tem uma função de referência, isto é, põe a funcionar determinado processo, aciona um movimento de mudança das práticas de saúde e serve como guia .
Com todo esse conhecimento teórico, decidi realizar um processo de intervenção na CLIFI- UCS. Entende-se por intervenção o conceito que Paulon (2007) nos apresenta de Ardoíno (1987) onde, intervir (do latim interventio) é vir entre, interpor-se. Por esta razão, na linguagem corrente, esta palavra é sinônimo de mediação, de intersecção, de bons ofícios, de ajuda, de apoio e de cooperação.
Assim, decidi utilizar como dispositivo de intervenção a construção de um Grupo de Trabalho de Humanização (GTH) devido ao poder que esse dispositivo apresenta de disparar e difundir os princípios da PNH, pesquisar e levantar os pontos críticos do funcionamento do serviço, promover a integração e o trabalho em equipe e proporcionar um momento para discussão dos processos de trabalho e outros dispositivos da PNH. Além
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disso, o GTH apresenta-se como um dispositivo democrático e produtor de mudança, de comportamento, sem confrontar, sem ensinar ou trazer pronta a melhor maneira de realizar o trabalho, mas sim “jogando na roda” e pensando no coletivo a melhor maneira de realizar os processos de trabalho.
O processo inicial do meu projeto de intervenção foi realizado nos meses de agosto e setembro de 2007 e tratava-se da sensibilização da minha equipe de trabalho para a PNH. Neste momento inicial, o objetivo era despertar e mobilizar a equipe para a situação atual do SUS e, principalmente, para a Política Nacional de Humanização (PNH). Este momento é considerado por mim como um dos momentos mais delicados do processo de intervenção. Primeiro pela própria característica da intervenção utilizada: a de vir entre, mediar, cooperar. Era importante esclarecer à equipe que eu não estava impondo algo ou que era o dono do saber absoluto. O resultado da sensibilização foi extremamente positivo, com o disparo para as questões e discussões dos assuntos gerais da PNH e apoio de toda a equipe.
Conseguimos formar um Grupo de Trabalho de Humanização na CLIFI-UCS e instituir uma “parada” e um “movimento” no cotidiano do trabalho para a realização de um processo de reflexão coletiva sobre o próprio trabalho, dentro de um espaço onde todos tenham o mesmo direito de dizer o que pensam, de criticar, de sugerir e propor mudanças no funcionamento dos serviços, na atenção aos usuários e nos modos de gestão. Aprendemos, enquanto equipe, a ouvir e dialogar com o outro, respeitando-o em sua individualidade, e a construir o processo de trabalho em equipe. Conseguimos um dos objetivos do GTH já que, para o Ministério da Saúde (BRASIL, 2006a), a construção de um grupo de trabalho aproxima as pessoas, possibilita a transformação dos vínculos já instituídos, além de estabelecer um ambiente favorável para compartilhar as tensões do cotidiano, as dificuldades do trabalho, acolher e debater as divergências, os sonhos de mudança e buscar, por meio da análise e da negociação, potencializar propostas inovadoras.
Com o início do período de férias, tivemos dificuldades em continuar com a agenda do GTH. Optamos, na última reunião em dezembro de 2007, por reiniciar nossos encontros em março de 2008, período em que toda a equipe já estaria novamente reunida. Os encontros foram marcados para uma vez por semana com todos os profissionais que, voluntariamente, optarem por participar. Atualmente, o GTH abarca todos os profissionais.
Muitas mudanças ocorreram no processo de trabalho. A primeira refere-se à implantação do acolhimento. Conseguimos reorganizar nosso processo de trabalho de modo que, no primeiro horário de cada turno, os profissionais estejam livres para realizar o acolhimento. É importante ressaltar que todos os profissionais da equipe realizam o acolhimento dos novos
usuários de forma aleatória, o que oferece olhares e escutas diferentes e complementares às necessidades de saúde do usuário. Além disso, essa escuta qualificada serve de suporte para o estabelecimento do programa de tratamento àquele usuário. Discutir o que cada que cada profissional entende por acolhimento, definir formas de realizá-lo e repensá-lo constantemente, só foram possíveis com o espaço democrático de conversa e discussão criado pelo GTH.
Outra mudança adotada pela equipe foi o Projeto Terapêutico Singular (PTS) do usuário – que, segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2006a), são projetos voltados para o sujeito, individualmente, contemplando ações de diferentes eixos, levando em conta as necessidades/demandas de saúde. Comportam planos de ação assentados na avaliação das condições biopsicossociais dos usuários. A sua construção deve incluir a corresponsabilidade de usuário, gestor e trabalhador/equipes de saúde, e devem ser considerados: a perspectiva de ações intersetoriais, a rede social de que o usuário faz parte, o vínculo usuário-equipe de saúde e a avaliação de risco/vulnerabilidade.
O PTS representa uma mudança importante no serviço, pois trata-se de individualizar o usuário, expor os seus problemas para que toda equipe, junto com o próprio usuário, ajude a encontrar soluções para as suas necessidades de saúde.
Outra mudança do processo de trabalho proporcionada pelo GTH são as reuniões de equipe semanais, onde ocorre troca de informações, os casos são discutidos, reavaliados e as decisões consensuais são tomadas, inclusive com readequação do PTS.
Ao reavaliar a trajetória do GTH em meu local de trabalho, acredito que a maior virtude do mesmo seja a possibilidade de pensarmos a gestão e atenção de nosso serviço. Constituindo-se espaço de troca democrático e no formato de roda, o GTH propicia um encontro dos participantes e um fazer e refazer constantes.
Assim, a PNH mostrou que possui dispositivos importantes, de fácil aplicação e com ótimos resultados para os serviços de saúde. Cabe ao GTH o monitoramento constante dos resultados do processo de trabalho e nas novas adequações sempre necessárias para uma melhoria constante do nosso serviço.