A equipe de pesquisa, parte integrante do projeto “Participação e Diálogo”, apresentava uma proposta fundamentada nas idéias de Paulo Freire e promovia, a partir da sua prática, momentos de encontro e de abertura, que permitiam desvelar os anseios e necessidades da equipe de professores.
Desde o início, com o propósito das pesquisadoras de ouvir os relatos sobre o trabalho que vinha sendo desenvolvido pela escola no combate ao analfabetismo dos alunos das quartas séries, criou-se um ambiente acolhedor, um olhar atento e compreensivo que aos poucos foi facilitando a manifestação das dificuldades do grupo, das suas conquistas e dos seus sentimentos. As professoras foram respeitadas e ouvidas nas suas dúvidas, nos seus anseios e certezas, bem como elogiadas, principalmente através do reconhecimento de seus esforços.
Percebeu-se, também por parte da escola, uma postura de abertura para o diálogo8, consultando as professoras, sempre que possível, sobre atitudes que deveriam ser tomadas, como por exemplo, na formação das salas.
A coordenação chegou a procurá-la (Miriam) para ver o que poderiam fazer por estas crianças que não estavam alfabetizadas na quarta série. Pensaram em juntá-las em uma sala, defende que os alfabéticos e os não-alfabéticos devem ficar juntos, que ela prefere trabalhar assim. Optaram por não separar as dificuldades.Disse saber que a proposta da escola é de não separar por dificuldades (pesquisadora).
8 Ver Lomar Teresa (2007) que apresenta em sua pesquisa, o reconhecimento da forma dialógica que se estabelece
Esta postura gerou um espaço de trocas e de conhecimento mútuo, permitindo que se revelassem momentos ricos de aprendizagem, tanto para professoras, como para as pesquisadoras. As duas equipes mostraram-se abertas para receber, desde informações teóricas e técnicas do trabalho pedagógico, até situações reflexivas de percepção do sentido das práticas pedagógicas.
Eu não tenho dúvida que aprendemos muito com vocês. Estamos aqui para uma troca. Cobrem da gente, por favor, tem que fazer essa cobrança (pesquisadora).
Longe de ser uma prática espontaneista, a proposta dialógica ofereceu informações sobre a forma de se relacionar com as famílias; sobre como ver os alunos; sobre como se dá a formação da identidade do sujeito; e, principalmente, sobre a complexidade do ato de educar, que acontece na relação social.
Que a M .(Mara) diz e apareceu muito claramente, é o quanto o aprender é afetivo. Quando você acolheu os alunos, criou uma condição para eles aprenderem. E quando o menino falou: eu tenho o apoio da professora, que vai me defender, ele se responsabilizou pelo aprender dele. Então, aprender é uma coisa social. Não é uma coisa que acontece dentro da cabeça da gente. Ele resolveu aprender por conta do compromisso que você tinha com a escola. E ele se comprometeu com a escola também. Aprender é social. Envolve relações. Relações com a mãe, a relação da professora com a mãe (pesquisadora).
Vivenciando uma das características da ação dialógica, a colaboração, a equipe de pesquisadoras colocou-se ao lado da equipe escolar, oferecendo apoio e presença nas reuniões, sempre a serviço da escola e com a escola.
E eu acho que nós temos de pensar uma forma de unir esforços para trabalhar com esse problema
(pesquisadora).
Atentamente, as pesquisadoras faziam questionamentos e perguntas desencadeadoras sobre pontos importantes revelados nos encontros, como por exemplo: “o que te fez mudar?”. Em outros momentos, nomeavam posturas que emergiam do grupo, sem que se desse a elas a devida importância: “você confiou na coordenadora”.
Era comum nos encontros, serem feitas observações espontâneas sobre reflexões marcantes dos encontros anteriores e que, de alguma forma, provocaram mudanças no modo de agir das professoras.
Teve uma fala sua na semana passada que eu estava refletindo... Quando você falou, eu não me lembro direito, você falou: que nada se perde, como se... Não existe essa coisa de que “não vai dar certo”
(Miriam).
Houve um cuidado, por parte das pesquisadoras, em fazer o resgate e elogiar o trabalho significativo e inovador que estava sendo feito naquela escola, quando a coordenação apresentou um momento de desânimo.
As reflexões foram favorecendo a compreensão da importância de se planejarem ações que pudessem facilitar o trabalho das professoras. Uma das ações delineada, a partir dessa reflexão, foi o planejamento de uma reunião de pais mais acolhedora e mais dialógica, promovida pela escola, com o claro objetivo de se aproximar das famílias dos alunos com dificuldades de aprendizagem.
5 - SENTIMENTOS DAS PROFESSORAS
Durante os encontros, favorecidos pela abertura promovida por uma proposta dialógica vieram à tona os sentimentos das professoras nos diversos planos: na sua relação com os alunos, com a escola, com as famílias dos alunos e com os desafios do fazer pedagógico da sala de aula.
Estes sentimentos revelaram a complexidade do ato de educar, que é permeado por situações que envolvem emoções por parte de todos os envolvidos no processo educativo.
Sentimentos como culpa, quando as professoras se sentiam responsabilizadas pelo fracasso escolar:
[Uma das professoras] descreve que acontece bastante de “engessarem” as professoras, sendo que
apesar de falarem que a culpa não é delas, sente que são responsabilizadas por esses alunos
(pesquisadora).
Medo das ameaças feitas por alguns alunos:
[A professora Renata] começou a ser ameaçada também (pesquisadora).
Nossa, quando eu entrei, falei: Senhor! Esse menino vai destruir a sala. Estou perdida (Mara).
Dúvida e insegurança sobre como se relacionar com as famílias e incertezas sobre o fazer pedagógico:
Agora, que uma menina mudou de lugar, ela vira às vezes para conversar, então eu nem chamo a atenção porque eu falei: Meu Deus, se eu chamar a atenção dela, ela quase não fala (Mara).
Acho que fiz a coisa errada (Mara).
Só que ela não fala. Essa é a minha preocupação (Mara).
Eu estava desesperada, achando que não chegava nela, de jeito nenhum (Mara).
Estranheza e determinação, provocados por uma situação nova que vivenciavam numa nova escola com seus desafios; e desânimo, quando não conseguiam realizar o que foi planejado, foram alguns dos sentimentos revelados no decorrer dos encontros.
Bem acolhidos pelas pesquisadoras, esses sentimentos foram reconhecidos na sua legitimidade e um espaço reflexivo favorável a novas elaborações foi sendo criado e se desenvolvendo, ocasionando, muitas vezes, mudanças de posturas das professoras em relação ao fazer pedagógico e à sua visão de família.
Alguns encontros foram mais intensos do que outros, na forma como as professoras manifestaram seus sentimentos, principalmente aqueles em que foram feitos relatos de mudança de postura. Normalmente, eram mudanças que emergiam de reflexões sobre histórias de vida das próprias professoras, ou que remetiam às recordações da infância para justificar a forma de se relacionarem com seus alunos.
Um depoimento significativo foi dado por uma professora, ao revelar que acolhia mal seus alunos, porque não se sentiu bem acolhida na escola. Reconhecendo a escola como um ambiente favorável, pôde transformar a sua classe num ambiente mais acolhedor e positivo. Demonstrou mudança de atitudes que ela mesma considerava rígidas e erradas (gritos e “broncas” exageradas), que inicialmente tinha no trato com os seus alunos.
Quando eu cheguei aqui no começo do ano, sentia o grupo meio perdido, também estava perdida, porque era um lugar novo. E quando chegamos, não sabemos como é, nem em quem você confia. Mas a amizade e a persistência da E (coordenadora), trouxe mais segurança para fazer meu trabalho. Senti-me mais forte porque nela eu confiava. Percebo que esse acolhimento está também na minha sala e as crianças mostram a todo o momento, quando vão ajudar os outros colegas. Os repetentes dos anos anteriores estão super motivados. E tem mais uma coisa e a E. é prova disso, eu não preciso mais falar alto. Eles fazem, eles tentam, eles se ajudam (Mara).
Um outro sentimento revelado foi o de coragem para enfrentar a questão da alfabetização. As professoras sentiram-se desafiadas e incomodadas por uma fala do diretor, cobrando delas um resultado, e resolveram mostrar o quanto eram capazes.
Percebia-se nas professoras um grande envolvimento com seus alunos e sempre que havia um avanço na aprendizagem, era para elas, um momento de festa e de alegria.
Ah, vamos tentar ler? Quando ela colocou: t i, ti; n h a, nhá, tinha. Mais devagar que isso. Ah, mas eu peguei uma cadeira, peguei essa menina, todo mundo bateu palma. Eu falei: lê de novo, pedi pra E.(coordenadora) subir, mas eu assim... com uma vontade tão grande de chorar, eu tava vendo que a menina... tudo o que eu achei, o que eu achava da menina, não era aquilo (Mara).
Mostraram, durante os encontros, muita vontade de falar e de serem ouvidas, principalmente por equipes de fora da escola, reconhecendo a importância desses momentos de encontro, como propícios ao crescimento de toda a equipe.
Revelaram a compreensão de quanto é também afetivo o ato de educar, uma vez que se reconhecem enquanto seres repletos de afetividade.
Brincar, tocar, sentir a pessoa. O aluno, eu gravo até hoje, talvez pela perda da minha mãe, quando minha professora me colocava no colo. Então: quanto mais eu puder colocar a mão no meu aluno, eu coloco (Mara).
Há inclusive influência da religiosidade vivida fora da escola, quando as professoras estendem valores religiosos como respeito, acolhimento, crença na possibilidade de mudança e no ensinamento com carinho, à sua relação com os alunos. Apresentaram insegurança em atender à proposta das pesquisadoras e coordenadora, para entrevistar as famílias dos alunos com dificuldades de aprendizagem. Demonstraram medo de obter informações sobre os alunos (provavelmente da ordem da violência infantil, do abuso sexual ou do uso de drogas), que demandariam delas alguma providência. Revelaram necessidade de um roteiro para as entrevistas e demonstraram desconhecer o sentido da mesma.
E depois? Faremos as entrevistas e passamos para vocês, e depois? O que é que vai acontecer?
(Miriam).
Todas as professorasse reconheciam amparadas pela postura da coordenadora, que se colocava ao lado delas na caminhada em direção à alfabetização dos alunos. Revelam que, devido a esta postura, de trabalho em equipe e de proximidade, conseguiam transpor para a sala de aula esses mesmos sentimentos.
Esta postura de acolhimento revelou nas professoras um novo ânimo. Manifestavam sonhos para o futuro e sentiam-se seguras para assumir a posição de educadoras de sucesso.
Saímos da posição de coitadinhos e fomos juntos com os alunos (Mara).
Agora, na minha carreira, quando eu for para outra escola eu vou levar isso, vou multiplicar (Renata). Uma demonstração de sucesso pôde ser vivida por uma das professoras, durante a reunião de pais mais acolhedora, na qual afloraram sentimentos de alegria e felicidade ao falar de suas experiências positivas em relação aos alunos. A professora revelou momentos em que quase chorou, por provocar o choro de agradecimento de uma das mães cuja filha tinha conquistado a alfabetização, e apresentou uma reunião permeada de sentimentos, durante a qual palavras como amor e laços de amizade deram o tom do discurso para se referir aos seus alunos.
Eu pedi muitas vezes (na reunião) para não quebrar esse elo de amor, de construção que tínhamos feito ao longo do ano. A S (pesquisadora), ainda foi me elogiar, eu já estava meio tonta com a mãe lá dentro, e eu quase (chorei) (Mara).