A partir de uma análise das três publicações descritas acima, procedeu-se a um novo recorte no material que compõe o corpus deste trabalho, com a seleção de textos que tratassem do aparecimento e da consolidação da televisão no Brasil. Este recorte foi realizado com base na noção de trajeto temático, proposta por Maldidier e Guilhaumou (1997). De acordo com esses autores (1997, p. 165), o trajeto temático é depreendido a partir da “distinção entre ‘o horizonte de expectativas’ – o conjunto de possibilidades atestadas em uma situação histórica dada – e o acontecimento discursivo que realiza uma dessas possibilidades”.
Ao tratar da televisão e da sua inauguração em São Paulo, esta pesquisa não pressupõe a existência de um referencial fixo como objeto das matérias jornalísticas selecionadas, mas de um acontecimento discursivo produzido em um determinado momento histórico. De acordo com Maldidier e Guilhaumou (1997), o acontecimento discursivo “é apresentado na consistência de enunciados que se entrecruzam em um momento dado”, na tematização. A partir dessa concepção, o trajeto temático do aparecimento da TV no Brasil foi identificado no material de análise, tendo em vista a sua formulação discursiva.
Para realizar este recorte no material de análise, com base no trajeto temático do aparecimento da televisão na imprensa, adotou-se como ponto de partida para observação do material o acontecimento histórico de inauguração da televisão Tupi no Brasil, em setembro de 1950. A partir da divulgação nos impressos deste acontecimento histórico do início das transmissões televisivas no país, foram observados os periódicos mencionados nos anos anteriores, em busca da primeira ocorrência da televisão como acontecimento jornalístico – o que resultou na pesquisa a partir do ano de 1945.
Da mesma forma, foram pesquisados nos impressos publicações dos anos posteriores que tratassem da TV, de modo a identificar em que momento a televisão deixa de ser tratada como um acontecimento jornalístico esporádico e passa a ocupar um espaço fixo nos jornais e nas revistas em questão – o que acontece em 1952/1953, embora haja variações de período entre as publicações. Os recortes realizados no corpus contemplam, assim, a aparição da TV como objeto de publicações presentes na imprensa brasileira, entre os anos de 1945 e 1953. Anteriormente a 1950, a televisão é objeto de publicações apenas na revista O Cruzeiro. Por ser a principal publicação do grupo Diários e Emissoras Associados, a revista concentra o noticiário sobre a televisão e a sua inauguração no Brasil22.
A partir de 1950, a televisão passa a ser objeto de matérias jornalísticas publicadas também no jornal O Estado de S. Paulo. Em 1952, a revista Manchete, recém- inaugurada, também passa a mencionar a televisão em suas páginas e, posteriormente, começa a trazer matérias jornalísticas e publicidades que tratam especificamente da televisão e da inauguração de uma nova emissora, a televisão Record.
A aparição irregular da televisão nos impressos analisados fez com que o corpus deste trabalho estabelecesse uma espécie de “ancoragem” na revista O Cruzeiro, aqui considerada a primeira publicação de referência a tratar a televisão como um tema
22
Como afirma Silva (2002), em sua tese, ao tratar do processo de institucionalização da televisão no Brasil, a TV torna-se uma instituição nacional por meio dos grandes conglomerados de empresas de comunicação. É por meio da ação de grandes empresas de comunicação que a televisão chega ao país em 1950, após alguns anos de especulações e comentários sobre a sua vinda. A TV ganha espaço, desta forma, nas publicações dos Diários e Emissoras Associados, como forma de participar do dia-a-dia, das notícias sobre o país. A revista O
Cruzeiro, como a principal publicação do grupo, traz o maior número de informações sobre a TV,
pertinente, como um assunto recorrente, sobre o qual é necessário falar. Nas demais publicações que compõem o corpus, o dizer sobre a televisão assumido pelos Diários e Emissoras Associados ressoa em momentos diferenciados. Desta forma, o corpus é constituído pelos recortes realizados a partir do momento em que o trajeto temático em questão encontra lugar nas publicações observadas como material empírico.
Embora este trabalho tenha como foco a compreensão do funcionamento do discurso da imprensa sobre a televisão, durante o início de suas transmissões no Brasil, o corpus não é constituído apenas por textos considerados jornalísticos, mas por textos diversos, publicados na imprensa durante o período considerado. Além de materiais jornalísticos, como as reportagens e as notícias, e as notas e os comentários23 presentes em colunas publicadas pelos três impressos, são consideradas as crônicas escritas por convidados ou colaboradores, os textos publicitários encontrados no mesmo período, bem como as tirinhas e fotografias.
A composição por textos diversos é importante para a compreensão dos sentidos que são produzidos para a televisão nas publicações aqui consideradas. Isto porque a produção de sentidos para a TV na imprensa, durante as décadas de 1940 e 1950, dá-se não apenas com base no dizer considerado jornalístico, mas no conjunto de textos publicados pela imprensa. Os sentidos são produzidos pelo todo das publicações, pelo ressoar de sentidos em textos jornalísticos e publicitários; é a somatória de textos
23
Nos estudos jornalísticos, notícia e reportagem caracterizam-se por ser textos jornalísticos de caráter informativo, enquanto as notas e comentários integram-se aos textos de caráter opinativo. A separação entre textos informativos e opinativos é uma forma de assegurar ao jornalismo a possibilidade de separar textos que se caracterizam por trazer de forma explícita a opinião de um articulista ou grupo, daqueles que são produzidos pela redação de forma a narrar os acontecimentos jornalísticos, sem trazer explicitamente marcas de opinião.
Esta proposta de classificação tem como base as discussões sobre os gêneros jornalísticos. Embora não haja um consenso nessas discussões, a maior parte dos estudos desenvolvidos apontam a existência de três gêneros: opinativo, informativo e interpretativo (Cf.: ERBOLATO, 1991). Com isso promove-se a aparente separação entre opinião, interpretação e o relato “puro” dos fatos, supostamente realizado pelas notícias e reportagens, produzidas a partir de um dizer sem sujeito explícito, sem marcas de primeira pessoa ou adjetivações que emitam parecer sobre o fato relatado. Esta divisão entre gêneros textuais, embora seja interessante para a definição de normas de produção do texto jornalístico, não se coloca discursivamente, uma vez que mesmo sem marcas explícitas, o texto jornalístico da notícia permanece opinativo, como mostram estudos realizados por Mariani (1993; 1998), dentre outros. Sobre a distinção entre jornalismo informativo e opinativo, ver Marques de Melo (2003), que também apresenta os principais formatos de textos opinativos. Para a distinção entre reportagem e notícia, ver Lage (1999; 2001) e Medina (1980). Uma abordagem discursiva da produção de sentidos na imprensa é desenvolvida por Mariani (1998), com o estudo dos sentidos para os comunistas, produzido na imprensa, de 1922 a 1989.
publicados que produz sentidos e não só o que é assumido como um dizer da publicação jornalística.
Prioritariamente, a análise realizada a partir do corpus apresentado ocupa-se da linguagem verbal, embora o não-verbal também tenha a sua importância e seja considerado quando se faz presente, tanto nos textos jornalísticos como nos publicitários.
Como afirmado anteriormente, na apresentação das publicações O Cruzeiro,
Manchete e O Estado de S. Paulo, os recortes de textos para análise foram realizados com a
observação dos períodos anteriores e posteriores ao acontecimento histórico do início das transmissões de televisão em São Paulo, em setembro de 1950, com a inauguração da TV Tupi. A observação do período anterior a 1950 direcionou o início da composição do corpus a 1945, época em que a revista O Cruzeiro já tratava do assunto TV em suas colunas, ainda que o restante da imprensa brasileira somente viesse a falar sobre a televisão em 1950.
As primeiras menções feitas pela revista O Cruzeiro consideram a televisão uma mídia do futuro, ainda que já estivesse em funcionamento em alguns países europeus e nos Estados Unidos. O dizer sobre a televisão neste período é esporádico e feito com um distanciamento em relação aos acontecimentos jornalísticos do dia-a-dia brasileiro. Uma ruptura em relação a esse dizer acontece a partir de 1948, quando a publicação inicia um trabalho permanente de produção de notícias sobre a televisão, por meio da produção de reportagens e da inserção do assunto em suas colunas especializadas em rádio, cinema e teatro.
Neste período, tem início o investimento da empresa Diários e Emissoras Associados para a inauguração de uma primeira transmissora de televisão no Brasil, o que se manifesta na revista O Cruzeiro como uma ruptura no dizer sobre a televisão, que neste trabalho é compreendido como o acontecimento discursivo da televisão no Brasil. A partir deste acontecimento discursivo, que se marca pelo emprego da expressão “televisão no Brasil”, é preciso explicar significados, produzir sentidos para a televisão que promovam o seu vínculo com o país, uma vez que as transmissões, anunciadas como uma conquista da cadeia Diários e Emissoras Associados, aproximavam-se.
A revista O Cruzeiro traz o que primeiro se fala sobre a televisão no Brasil e insiste na tematização da TV, constituindo-se como um espaço privilegiado para o dizer sobre a televisão antes, durante e mesmo depois de sua inauguração no país. Este processo de dizer sobre a televisão na revista O Cruzeiro permanece até meados de 1952, quando há uma nova mudança significativa na produção de sentidos para a TV brasileira. A ruptura em relação à TV não se dá repentinamente, mas aos poucos, com o deslocamento do foco na TV no Brasil para o foco em o que a televisão exibe, em sua programação.
Gradativamente, a televisão deixa de significar como um invento no Brasil, uma novidade e um acontecimento jornalístico, para tornar-se um lugar, um espaço de acontecimentos, estes sim interessantes para a produção de notícias. As notícias relacionadas à televisão não significam mais em razão da novidade que é a própria TV, mas em função do que a televisão pode proporcionar. É assim que se tornam notícias as adaptações literárias apresentadas na televisão, os atores e atrizes que mais aparecem na tela, e as principais atrações, como shows humorísticos.
Para além das publicações de propriedade dos Diários e Emissoras Associados, o discurso sobre a televisão se constitui de forma semelhante, embora o dizer sobre a TV tenha início mais tardiamente nas demais publicações, uma conseqüência de suas condições de produção discursivas. Na revista Manchete, desde o início de 1952, com a sua entrada no mercado brasileiro de revistas, a televisão é mencionada como parte do dia-a-dia brasileiro, inicialmente destacando-se enquanto um acontecimento jornalístico e, posteriormente, como um lugar de acontecimentos.
No jornal O Estado de S. Paulo, mantém-se um certo silêncio quanto ao início das transmissões televisivas no plano jornalístico, possivelmente em conseqüência do lugar de dizer da publicação: concorrente empresarial do grupo Associados. Este silêncio inicial, determinado politicamente, é rompido nos espaços publicitários e nas tirinhas publicadas em espaços de entretenimento do jornal. A partir de 1952, entretanto, o dizer sobre a televisão encontra novos espaços e passa a constituir-se de forma diferenciada, não centrado na TV, mas em sua programação.
Os recortes realizados inicialmente para a constituição do corpus deste trabalho apontam para sua a divisão em três períodos, que especificam o trajeto temático da televisão nos impressos considerados, conforme descritos abaixo:
1. de 1945 a 1947 – não há a perspectiva de se instalar a televisão no Brasil e por isso tudo o que é dito sobre a TV remete a um futuro desconhecido;
2. de 1948 a 1952 – inaugurado pelo acontecimento discursivo da “televisão no Brasil”, este período marca-se pela relação entre passado, presente e futuro, apresentando a televisão como presente no Brasil. A televisão é caracterizada como responsável por fazer do Brasil um país moderno e desenvolvido, a exemplo dos EUA;
3. a partir de 1952/1953 – a televisão não é mais o assunto, mas um lugar de acontecimentos, onde novidades acontecem. O foco deixa de ser a televisão por si mesma e desloca-se para a sua programação.
O segundo período, inaugurado pelo dizer sobre o início das transmissões de TV no país e marcado pela expressão “televisão no Brasil”, marca o acontecimento discursivo da televisão, pois é nele que se constituem os sentidos para a TV. O terceiro período caracteriza-se por um início de dizer da televisão, com destaque para as suas atrações e programação. A compreensão do trajeto temático da televisão no Brasil, desta forma, centra-se na análise do segundo período do corpus descrito acima, período em que o dizer sobre a televisão faz-se presente nas três publicações reunidas como material de análise deste trabalho.