A pesquisa em campo foi extenuante, por efeito, principalmente, da elevada temperatura e a sensação térmica de extremo calor na região “que vivenciava a maior crise hídrica dos últimos cinquenta anos” (CORREIA, 2018). Mas, foi marcante para todos os entrevistadores em campo, os quais puderam vivenciar a realidade social e econômica da população seridoense que tanto sofre com a seca.
A experiência em campo permitiu-me adentrar nas vidas dos entrevistados como também emocionar-me. A hospitalidade como fui recebida em alguns domicílios, especialmente, nos mais humildes, nos quais era perceptível o nível de vulnerabilidade social e econômica; deixou-me sensibilizada. Apesar da pesquisa ter sido realizada em área urbana, muitas residências estavam localizadas em setores censitários periféricos.
São pessoas simples, cheias de amor, que sobrevivem com o pouco que tem e que talvez nunca terão a mesma oportunidade dos entrevistadores. Contudo, sonham com uma vida melhor. Mas o que seria uma vida melhor para algumas dessas pessoas? É ter um cantinho para plantar? Água para cuidar dos próprios animais? Ter por perto quem ama? Um emprego no local de nascimento?
Um casal que estava há 50 anos casado se lamentava por não poder voltar ao “sítio” onde viveram e criaram os filhos, por não poder plantar e nem criar animais, além de não ter os filhos por perto, já que haviam migrado em busca de melhor qualidade de vida e/ou oportunidade de trabalho. Ainda recordo que esse casal de idosos criava um neto que tinha paralisia infantil, mas que apesar da deficiência estava estudando no IFRN (Instituto Federal do Rio Grande do Norte), localizado na cidade de Currais Novos, o que remete à importância da inclusão e interiorização da educação.
Outra cena marcante foi a entrevista em um domicílio no município de Parelhas, onde morava uma mulher e dois filhos pequenos. Um deles, no momento da entrevista, chorava por estar com fome. Naquele domicílio, a mãe recebia R$ 220,00 do PBF e fazia pequenos bicos para complementar a renda. Aquela cena deixou-me profundamente sensibilizada, em ver a criança pedindo comida. Posteriormente, me fez pensar no quanto os programas de transferência de renda assumem importância em famílias mais pobres, naquelas em que a mulher assume o papel de provedora do lar.
Outra triste realidade é a falta de água constante nos domicílios sobrecarregava as mulheres, sendo mais penoso às mulheres que trabalhavam dentro e fora do lar. O trabalho doméstico era multiplicado pelo acúmulo de atividades dependentes de água, como a tarefa de lavar roupa. No município de Currais Novos, água era um privilégio. A cada quinze dias, a água era liberada nas torneiras, momento em que todos aproveitavam para lavar roupa e encher os tanques, baldes e bacias.
Além disso, as entrevistadoras Clícia e Priscila observaram que, nos domicílios mais pobres, a compra da água ocorria com mais frequência. No município de Acari, em determinados momentos da entrevista, as pessoas paravam de responder o questionário, quando viam o carro pipa, e imediatamente pegavam baldes para comprar água. Geralmente, a frequência com que o carro pipa passava em determinados bairros era de duas a três vezes por dia. Porém, essas famílias compravam pequenas quantidades de água, que variavam de acordo com a dinheiro disponível e com a capacidade de armazenamento das famílias. Havia muitas reclamações por parte das famílias para com a prefeitura; pois, de acordo com as falas, não era feito o abastecimento suficiente, na caixa d’água da cidade, capaz de suprir as necessidades diárias da população. Como também, reclamavam do valor cobrado na compra da água, considerando que grande parte dessas famílias recebem ajuda do PBF ou tinham uma renda muito baixa advinda do trabalho. Muitas pessoas relataram que, durante os períodos em que a água chegava pela rede geral de abastecimento, na
madrugada até o período da tarde, eles ficavam atentas para abastecer o máximo de recipientes.
Nos domicílios que apresentavam melhores condições econômicas, as famílias tinham maiores condições financeiras de manter suas caixas d’água abastecidas por meio da compra de água via caminhão pipa, e, muitas vezes, nem percebiam quando a água retornava pela rede geral. Eles tinham condições de comprar e armazenar água em grande volume e com menos frequência, quando comparado com os domicílios de menor condição financeira.
FIGURA 2 – População abastecendo água através da caixa d’água fornecida pela prefeitura de Acari/RN, Seridó Potiguar, 2017
Fonte: Clícia Clementino
Outra observação feita foi sobre a falta de oportunidade que as mulheres têm para ingressar no mercado de trabalho, por serem, na maioria das vezes, pouco capacitadas. Elas também assumem ocupações relacionadas a “tipos de atividade doméstica”, como a costura. Porém, eu e meus colegas de campo ouvimos relatos de que várias fábricas de costura haviam sido fechadas, porque não tinham condições de se manter naquela região. Percebe-se, dessa maneira, que o Seridó Potiguar, sofre pela falta de investimentos, como também pela falta de infraestrutura logística e distribuição da água, impossibilitando a instalação de novas fábrica e a manutenção das mesmas.
FIGURA 3 – Casa situada na zona urbana de Parelhas/RN, Seridó Potiguar, 2017
Fonte: Kaline Stephania
No decorrer da pesquisa, observei também a maneira como os seridoenses são apegados “à terra”. Mesmo diante do enfrentamento climático, existe um orgulho intrínseco em pertencer a região. Isso pode estar relacionado à fé de que a estiagem não vai demorar e, logo, os açudes estarão cheios novamente e terão água. Apesar da pesquisa ter sido realizada em área urbana, muitos entrevistados residiam em bairros bastantes vulneráveis pela dificuldade em conseguir água, como também pela falta de oportunidades no mercado de trabalho.
Entrar nos domicílios das famílias que vivenciam diariamente a seca e entrevistá-los por meio de um questionário que abarca questões sociais, ambientais, sobre migração, mercado de trabalho e programas de transferência de renda, permitiu-me identificar que as mulheres apresentam participação importante na composição da renda familiar, mesmo quando estão empregadas em trabalhos precários.
FIGURA 4 – Gado no campo em área urbana, Parelhas/ RN, Seridó Potiguar, 2017
Fonte: Kaline Stephania
Os programas de transferência de renda do governo Federal, a exemplo do Programa Bolsa Família, representam significativa participação na renda das famílias. Por parte de alguns entrevistados, havia resistência em informar o valor da transferência e se recebiam algum tipo de benefício; se sentiam inseguros em declarar. Perguntas do tipo, “vocês são do governo?”, eram frequentes. Somente após esclarecer que a pesquisa não tinha nenhuma relação com a concessão dos benefícios, os entrevistados se sentiam mais seguros em responder.