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3.2 Knowledge Management
Os serões ou soirées109 eram reuniões periódicas, normalmente semanais, em casa de pessoas ilustres. Era a ocasião de travar conhecimentos pretendidos, de exibir dotes musicais ou literários. Não os podemos considerar como uma novidade introduzida no último quartel do século XIX, mas tão-somente que assumiram neste período uma importância considerável como podemos ver:
107 A descrição do passeio de Luísa, D. Felicidade e Basílio surge entre as pp. 93 -101 e de Luísa e do
Conselheiro Acácio pp. 225-231, na edição usada ao longo deste trabalho.
108
Eça de Queirós, O Primo Basílio, p.94.
73 […] deram no sábado último os Exmos. Viscondes de Faria, nos seus belos aposentos da avenida dos «Champ Élysées» uma agradável soirée a que assistiu a maior parte da colónia portuguesa aqui residente.
Tivemos o prazer de assistir a esta festa quase de família, em que mais uma vez demonstraram a sua muita afabilidade, os ilustres donos da casa e suas encantadoras e simpáticas filhas e filho.
Desejaríamos descrever minuciosamente os nomes e as toilettes de todas as senhoras que assistiam a esta soirée, mas a isso não só o limitado espaço de que dispomos, mas também o receio de olvidarmos alguma das que compunham tão simpático bouquet, em que se distinguiam pelas suas graciosas maneiras, afabilidade e elegância as gentis filhas dos Viscondes de Faria.110
Uma outra soirée memorável foi aquela organizada por Madame Thonnelier de Fontanes merecendo ser noticiada em O Mundo Elegante111.
Podemos considerar os serões quase como um ritual quotidiano, e como tal não foram olvidados por Eça, que instalará inúmeras vezes as personagens neste cenário:
Carlos contou a soirée. Havia dez pessoas, espalhadas pelas duas salas, num zunzum dormente, à meia-luz dos candeeiros. O conde maçara-o indiscretamente com a política, administração idiotas por um grande orador, um deputado de Mesão Frio, e explicações sem fim sobre a reforma da instrução. A condessa, que estava muito constipada, horrorizou-o, dando sobre a Inglaterra, apesar de inglesa, as opiniões da Rua de Cedofeita.112
São diversas as referências a este género de reuniões em Os Maias, em O Primo Basílio e em A Cidade e as Serras. Os serões podiam ser passados à volta de um piano, onde o tocador exibia o seu talento, como acontece em O Primo Basílio onde descobrimos muitas vezes Luísa como protagonista. Em Os Maias, se Steinbroken assume cantar, e Gruge toca piano. A falta de elementos femininos no Ramalhete fez com que fossem homens a assumir este papel principal:
De rapazes, aparecia Taveira, sempre muito correcto, empregado agora no Tribunal de Contas; um Cruges, que o Ega não conhecia, um diabo adoidado, maestro, pianista, com uma pontinha de génio; o marquês de Souselas…
- Não há mulheres?
- Não há quem as receba. É um covil de solteirões. A viscondessa, coitada…113
No entanto, na época de Maria Monforte tudo era diferente na casa de Arroios:
110 O Mundo Elegante, nº 15, 9 de Abril, 1887.
111 O Mundo Elegante, nº 19 de 7 de Maio de 1887 faz eco desta soirée memorável: «Assistimos, no
sábado último a esta simpática reunião, oferecida em honra dos Exmos. Viscondes de Faria e seus filhos, por Madame Thonnelier de Fontanes. As salas achavam-se vistosamente adornadas, sobressaindo brilhantemente os rostos femininos das senhoras que as guarneciam, ostentando linhas e riquíssimas toilettes, entre as quais não podemos deixar de mencionar as seguintes: Madame Thonnelier de Fontanes, seda a falhe às riscas; e riquíssimo colar de ametista. Viscondessa de Faria, vestido de veludo bleu foncé guarnecido por um lindíssimo avental, em seda bleu ciel clair com ramos adamascado em cetim. […] Dançou-se animadamente, terminando esta encantadora soirée por um cotillon dirigido graciosamente pela Exmª Sr.ª D. Helena de Faria.»
112
Eça de Queirós, Os Maias, pp. 149-150.
Eram realmente as soirés mais alegres de Lisboa: ceava-se à uma hora com champanhe; talhava-se até tarde um monte forte; inventavam-se quadros vivos, em que Maria se mostrava soberanamente bela sob as roupagens clássicas de Helena ou o luxo sombrio do luto oriental de Judite. Nas noites mais íntimas, ela costumava vir fumar com os homens uma cigarrilha perfumada. Muitas vezes, na sala de bilhar, as palmas estalaram, vendo-a bater à carambola francesa D. João da Cunha, o grande taco da época.114
O jogo, também era uma actividade presente nos serões, jogava-se o whist ou dominós no Ramalhete.
Por diversas vezes, os serões eram aproveitados para a conversa pura e simples, “pôr os assuntos em dia”, podendo ser acompanhada de um chá, café ou de uma outra bebida, como podemos ver em casa de Luísa:
Aos domingos à noite havia em casa do Jorge uma pequena reunião, uma «cavaqueira», na sala, em redor do velho candeeiro de porcelana cor-de-rosa. Vinham apenas os íntimos. «O Engenheiro», como se dizia na rua, vivia muito ao seu canto, sem visitas. Tomava-se chá, palrava-se. Era um pouco «à estudante». Luísa fazia crochet, Jorge cachimbava.115
Outras vezes os serões davam lugar a jantares sumptuosos como o do grão-duque Casimiro ou o deslumbrante jantar cor-de-rosa, da iniciativa de Jacinto:
O 202, nesse Inverno, refulgiu de magnificência. Foi então que ele iniciou em Paris, repetindo Heliogábalo, os Festins de Cor contados na «História Augusta»; e ofereceu às suas amigas esse sublime jantar cor-de-rosa, em que tudo era róseo, as paredes, os móveis, as luzes, as louças, os cristais, os gelados, os champanhes, e até (por uma invenção da Alta Cozinha) os peixes, e as carnes, e os legumes, que os escudeiros serviam, empoados de pó rosado, com librés da cor da rosa, enquanto do tecto, de um velário de seda rosada, caíam pétalas frescas de rosas…[…]116
O aparecimento dos clubes e dos grémios foi um fenómeno igualmente característico do século XIX. Nestes locais começavam a reunir-se as elites comerciais, financeiras ou académicas, que aí encontravam o local próprio, o “seu” espaço que os distinguia dos demais grupos. Eram locais cuja frequência será tomada como sinal de prestígio social, mas fechados ao universo feminino. Eça colocará por diversas vezes as suas personagens masculinas como Carlos da Maia, Ega ou Basílio, no Grémio da capital:
Basílio então desceu os vidros, e respirou com satisfação. Acendeu outro charuto, estendeu as pernas, gritou:
- Ao Grémio, ó Pintéus!
Na sala de leitura, o seu amigo o visconde Reinaldo, que havia vivia em Londres, e muito em Paris também, lia o «Times» languidamente, enterrado numa poltrona.117
114 Eça de Queirós, Os Maias, pp. 35-36. 115 Eça de Queirós, O Primo Basílio, p. 41. 116
Eça de Queirós, A Cidade e as Serras, p. 91.
75 O Grémio lisboeta era também o lugar ideal para se saber dos últimos mexericos, «Em Lisboa entre o Grémio e a Casa Havanesa, já se começava a falar do «arranjinho do Ega».»118; além de ser o espaço preferencial para encontrar os amigos «No Grémio, depois de redigirem o bilhete ao Gruges, vieram esperar por ele na sala das «ilustrações».119
Em oposição aos clubes e aos grémios, espaços puramente masculinos, as “Elegantes Senhoras” ou as mais afortunadas encontravam-se nos salões particulares. Neste espaço privado, as mais ilustres da sociedade abriam a porta de suas casas, para receberem as amigas ou algum cavalheiro mais íntimo da família. Nos salões, espaço de convívio e de fraternização, as mulheres desenvolviam diversas actividades, algumas de carácter meramente lúdico, outras mais literárias ou somente o simples convívio. Será neste espaço privado que as mulheres, longe dos olhares masculinos mas perto dos ouvidos da criadagem, partilhavam experiências de vida, aliviavam mágoas, discutiam política, escreviam poesias, promoviam casamentos ou falavam apenas das últimas intrigas ou da moda. Em Os Maias, eram famosas as terças-feiras da condessa de Gouvarinho:
- Nós recebemos às terças-feiras – disse a condessa a Carlos.120
Pelos olhos de Carlos ficamos a saber da organização espacial do local onde a condessa de Gouvarinho recebia:
Quando entrou na sala, um escudeiro acabava de servir o chá. A sala, forrada de um papel severo, verde e oiro, com retratos de família em caixilhos pesados, abria por duas varandas sobre a folhagem do jardim. Em cima das mesas havia um cesto de flores. No sofá, duas senhoras de chapéus, ambas de preto, conversavam, com a chávena na mão. A condessa, ao estender os dedos a Carlos, ficara tão cor-de-rosa – como a seda acolchoada da cadeira em que estava recostada, ao pé de um velador de pau-santo.121